Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

A grande esperança de cadeirantes vitimados por traumas da medula espinhal pode estar subindo no telhado. Ou, pelo menos, adiada. É só o que se sabe por ora da suspensão do teste clínico de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs), nos EUA, para tentar reverter o dano a nervos motores afetados por acidentes de carro e tiros, por exemplo.

A perspectiva de algum tratamento e cura, como a obtida em animais (roedores), foi recebida com fanfarra em janeiro, quando a FDA (agência federal de fármacos e alimentos dos EUA) deu autorização para a empresa Geron testar a terapia experimental em seres humanos.

A empresa conseguiu diferenciar (transformar) as polivalentes CTEHs em um tipo de célula nervosa chamada de oligodendrócito, que pode funcionar como uma espécie de zeladora de neurônios. Oligodendrócitos podem, por exemplo, ajudar a recompor a bainha de mielina das fibras que formam os nervos, sem a qual a ordem motora expedida pelo cérebro não se transmite até os músculos. A idéia é que, se essa terapia celular for aplicada em pessoas que sofreram traumas há menos de 15 dias, os nervos danificados ainda poderiam ser regenerados, antes que se forme tecido cicatrizante e a interrupção se torne definitiva.

Agora veio a água fria sobre a fervura, mas não está claro ainda se foi um copo ou um balde dela. A FDA sustou a realização do teste clínico em seres humanos, conforme anunciou - aparentemente num furo - o jornal californiano Silicon Valley Mercury News, em reportagem de Steve Johnson. Este blog tomou conhecimento da notícia pela newsletter da revista The Scientist. Saíram notas também no blog The Niche, da revista Nature, e no jornal The New York Times.

O adiamento do teste ocorreu depois de a Geron apresentar novos dados à FDA, colhidos em experimentos com animais para verificar o efeito de dosagens maiores do preparado de células. Como nem a Geron nem a FDA deram informações sobre o caso, mantido em sigilo pelo alto valor comercial da terapia se ela se revelar bem sucedida, as razões da suspensão ainda são um mistério.

Na versão mais benigna, trata-se só de um prazo imprescindível para os analistas da FDA processarem os novos dados (que devem ser volumosos, se seguirem o padrão da primeira documentação submetida pela Geron - 21 mil páginas). Na perspectiva mais pessimista, os novos documentos submetidos indicariam problemas de segurança no procedimento de injeção das células.

CTEHs, das quais se derivam os oligodendrócitos da Geron, são notórios por sua capacidade de multiplicar-se. Se começarem a fazê-lo de forma descontrolada no local de tratamento, o espaço apertado da medula espinhal, podem terminar causando mais dano do que benefício aos pacientes.

Tomara que não seja o segundo caso. Cadeirantes estiveram na linha de frente de muitas batalhas pela autorização da pesquisa com CTEHs, como aqui no Brasil, e seria péssimo constatar que todo aquele oba-oba pode não ter sido mais que uma maneira de lhes infundir falsas esperanças. De todo modo, leio na imprensa americana, eles estão furiosos com a FDA, pois defendem que eles mesmos devem ponderar os eventuais riscos envolvidos na terapia experimental e decidir se se submetem a ela ou não.

O que você acha - agências como a FDA devem reter esse poder discricionário sobre a doença alheia ou ceder à pressão de pacientes e familiares pelo direito de se agarrar a qualquer esperança, sem medir com o mesmo critério científico eventuais riscos envolvidos?