Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Biotecnologias

Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão

 
 

Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão

Filhotes de sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus)

geneticamente modificado também nasceram com o gene para brilhar


O periódico científico Nature traz em sua edição de amanhã uma notícia perturbadora, ao menos para alguns leitores deste blog: pesquisadores do Japão liderados por Erika Sasaki (que desconfio ser brasileira, uma fisioterapeuta formada na PUC-PR em 1999, mas ainda não consegui confirmar a informação) conseguiram criar um sagui transgênico capaz de transmitir o gene extra - no caso, para produzir uma proteína fluorescente verde (GFP) - à sua prole.

Adendo às 21h30 de 27/5: Não encontrei nenhuma indicação firme de que Erika Sasaki seja brasileira. Creio que me precipitei. Uma pesquisa mais atenta no Google Scholar revela que a ES desse artigo na Nature atua no Japão pelo menos desde 1994.

Não são os primeiros macacos geneticamente modificados, mas sim os primeiros que tiveram o transgene incorporado à sua linhagem germinativa de células. No caso, uma macho cujos espermatozóides carregam o trecho de DNA introduzido para o bicho adquirir um brilho verde sob luz ultravioleta (o gene GFP é em geral usado como marcador, pois sua incorporação pelo organismo modificado pode ser facilmente constatada). Os dois macaquinhos da foto são filhotes dele.

O estudo está sendo saudado como uma façanha e ocupa a capa da Nature de amanhã. Ele abre espaço para prosseguir com parentes mais próximos do homem na avenida aberta para a pesquisa biomédica com camundongos transgênicos, cuja modificação genética permitiu criar roedores-modelo de doenças humanas para estudo mais detalhado e testes de novos remédios.

Seres humanos e roedores partilham ancestrais comuns que viveram há uns 75 milhões de anos. Já macacos do Novo Mundo como o sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus), nativo do Nordeste brasileiro, chegam muito mais perto de nós, pois nos separamos deles há uns 40 milhões de anos. Isso faz com que nossos corpos e os deles sejam muito mais semelhantes, o que facilita a compreensão da fisiologia de muitas doenças, em comparação com os camundongos.

Ser mais parecido quer dizer também mais próximo em outro sentido: para muita gente, inclusive alguns especialistas em bioética, macacos são seres mais "humanos", em certo sentido, com faculdades cognitivas e sensíveis mais parecidas com as nossas. Eles teriam algo mais parecido com consciência, talvez. Há quem considere que isso desautoriza coisas como a modificação genética, ou até mesmo o uso como animais de pesquisa biomédica, em que muitas vezes o experimento exige o sacrifício dos animais.

Escrito por Marcelo Leite às 16h13

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Células-tronco dão na vista

 
 

Células-tronco dão na vista

Recebi do leitor Tarciso Schirmbeck os comentários abaixo, acerca da coluna "Células-tronco à vista". Reproduzo-os com autorização do autor, pois creio que reforçam e ampliam a preocupação implícita na coluna:


Gostaria de parabenizá-lo pelo artigo deste domingo (24-05-09) no caderno Mais da Folha de S.Paulo. Esse artigo bastante me interessa por diversos aspectos: minha mãe (além de outros sete membros da família) tem retinose pigmentar; sou oftalmologista (naturalmente que motivos conscientes e inconscientes influenciaram minha escolha); fiz minha especialização no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (daí o fato de conhecer bem os pesquisadores mencionados – Rodrigo Jorge, André Messias, Rubens Camargo e Júlio Voltarelli).

Como todos os médicos tenho esperança que muitas (e não todas) doenças possam ter um melhor prognóstico, e até mesmo a cura, obtidos por meio do desenvolvimento de terapias com células-tronco. Nada seria mais indescritível do que observar uma melhora, mesmo pequena para os nossos desejos, da visão de minha mãe.

Devo, também, reforçar que confio na seriedade dos pesquisadores envolvidos (pelo menos se estes mantiveram os princípios da época em que os conheci). Todavia, conhecendo toda a complexidade das DEZ camadas da retina, da interação entre elas e, consequentemente, destas com as ouras partes das vias neurais visuais (corpo geniculado lateral, radiações ópticas, córtex occiptal etc.), torna-se difícil acreditar que algumas células-tronco indiferenciadas, simplesmente “jogadas” dentro do corpo vítreo, vão “promover uma recuperação da visão”.

Acredito ser esta etapa apenas um passo inicial desse processo, que teria como resultado somente avaliar a tolerância dos meios ópticos a esse tipo de célula, nada mais. Qualquer benefício ou estímulo não poderia ser creditado às células-tronco em si, mas à inflamação causada pelo procedimento e, naturalmente, ao efeito placebo envolvido em todo o contexto.

Não venho questionar a iniciativa, mas tão-somente a simplicidade do experimento perante a enorme esperança a ele creditado. Devemos acompanhar melhor a evolução desses trabalhos antes de qualquer comemoração precipitada.

Escrito por Marcelo Leite às 10h40

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Células-tronco à vista

 
 

Células-tronco à vista

Fazia algum tempo que as células-tronco não frequentavam o noticiário. Na semana que passou, essas células-curinga voltaram à cena por obra de um grupo do Hemocentro de Ribeirão Preto e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de lá. A ideia, desta vez, é fazer cegos voltarem a ver...

O grupo injetou esse coquetel de células, há poucos dias, nos olhos de três portadores de retinose pigmentar, doença de origem hereditária que leva à cegueira. Elas foram obtidas dos próprios pacientes, para não haver rejeição. A injeção foi no vítreo, o recheio do globo ocular. O plano é que as células-curinga se instalem na retina, a tela no fundo do olho onde se formam as imagens, e ajudem a recuperar vasos sanguíneos e outras estruturas.

A esperança, menos que uma hipótese, é que isso reverta parte da degeneração que resulta em cegueira. (...)

Os resultados obtidos com animais são "contundentes", segundo o oftalmologista Rodrigo Jorge, integrante do grupo. Esses estudos, em geral com camundongos, foram feitos fora do Brasil. O laboratório mais destacado é o de Atsushi Otani, do Instituto Scripps, da Califórnia (EUA).

Para o leigo, o mesmo adjetivo talvez não ocorra depois de ler os efeitos obtidos com os roedores. Empregam-se camundongos programados para desenvolver a degeneração da retina, que de fato chega a ser interrompida. Mas só se as injeções ocorrerem até o 16º dia de vida (30 bastam, no laboratório, para a cegueira terminar de se instalar no bicho).

A melhora pode ser medida por meio de eletrorretinografia, um teste que registra a atividade elétrica das células da retina sensíveis à luz. Funciona. Mas os autores do estudo alertam que o padrão de atividade é inteiramente anormal. O exame das retinas, depois de sacrificados os animais, também mostra anormalidades na proporção entre suas células sensíveis (bastonetes e cones). (...)

Jorge diz que o grupo só fez o anúncio porque um dos pacientes começou a falar do tratamento em sua cidade, Birigui, o que gerou "especulações". Foi a sua maneira de prevenir a proliferação de boatos e meias verdades, afirma o pesquisador.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h27

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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