Sonhos de Natal na revista Piauí

Esforço de reportagem no Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN-ELS)

(Foto: André Pantoja)

Saiu reportagem minha na revista Piauí, "Sonhos de Natal", sobre pesquisas chefiadas por Sidarta Ribeiro - um neurocientista fã de Freud, veja só - no Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Infelizmente, não está disponível na internet, nem para assinantes. Só para aguçar sua curiosidade e fazê-lo(a) sair correndo à banca para comprar seu exemplar, reproduzo os parágrafos iniciais:


Minha tática de jogador estreante é pegar tudo que há de munição e bônus pelos corredores da fortaleza, sem saber ao certo para que servirão. Só não dá para correr, pressionando o botão azul da esquerda no joystick, embora tenha sido instruído sobre o recurso, nem para decifrar as informações numéricas na base da tela do computador. Falta coordenação. Sigo em frente, incapaz de definir o que causa mais incômodo e tédio – se a ignorância das regras opacas do jogo, a repetição interminável dos passos iniciais no labirinto de portas, pátios, escadas e rampas ou os 29 fios brancos que partem dos eletrodos espalhados pelo couro cabeludo, rosto e peito. Sentada à esquerda, a estagiária Luciana Rocha não dá descanso. A cada morte no jogo, sua mão delicada e ligeiramente fria, que ainda há pouco pincelava cola sobre os contatos fixados com esparadrapo na cabeça, pressiona a tecla que reinicia Perdição (Doom) pela enésima vez.

 

            Os muros em volta são de pedra escura. No centro, um patíbulo. À esquerda encontra-se a Coisa, de costas. Das articulações projetam-se cones pontiagudos. A luta começa com o impulso da manopla para a frente e um toque quase automático sobre o botão azul à direita, reservado para a troca de armas. Após quase uma hora de tentativas, está claro que o revólver na mão direita é inútil contra a couraça e que A Coisa vai virar e esquivar-se pela direita.

 

            Toda a esperança de sobrevida reside num ataque frontal. Em outras raras investidas a Coisa termina derrotada. É hora de caminhar para a porta secreta de pedra cinza. Novo toque sobre o botão azul providencia outra troca de arma, pois a experiência mostrou que o novo adversário, um guarda munido de fuzil, sucumbe apenas a tiros de escopeta. Apertando o botão vermelho arredondado, à esquerda, ergue-se a porta de pedra: lá está ele, pronto para iniciar o tiroteio. Caso consiga alvejá-lo, haverá outro, e mais outro, e clones de Coisas com suas bolas de fogo, mais portas de aço e portas de pedra, piscinas azuis e piscinas amarelas, munições e cargas de força a serem recolhidas...

 

            O feixe de fios puxados para trás, como num rabo-de-cavalo, parece ser a origem da dor de cabeça que começa a se impor. São quase onze e meia da noite de uma segunda-feira de maio, e não vejo a hora de despregar a mão suada do joystick e sair do quarto-laboratório improvisado no primeiro andar do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) no bairro da Candelária, em Natal (RN), no qual entrei às oito e meia e onde já havia dormido conectado no dia anterior. Mais de uma hora havia sido gasta no preenchimento de questionários sobre hábitos de sono e atividades do dia. Mas ainda estava por vir o pior da experiência como cobaia voluntária, a 22ª deste experimento projetado por André Pantoja, fisioterapeuta por formação que deixou o Rio de Janeiro para arriscar-se num mestrado no mais novo centro de neurociência do Brasil.