Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Biotecnologias

O cristão Francis Collins deixa direção do genoma

O cristão Francis Collins deixa direção do genoma


Collins em sua Honda Nighthawk 750 cc


Depois de 15 anos à frente do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI, dos EUA), Francis S. Collins deixa o posto no próximo dia 1º de agosto. Foi o que anunciou em mensagem de correio eletrônico enviado para amigos e colegas. Collins estava ao lado de Bill Clinton e de Craig Venter em 26 de junho de 2000, quando a Casa Branca anunciou - com Tony Blair no link de satélite - a conclusão do seqüenciamento (soletração) do genoma humano (na verdade ele só seria finalizado em 2003).

Collins diz no e-mail que quer se dedicar mais a refletir, escrever e explorar novas oportunidades profissionais etc. etc. E avalia assim últimos 15 anos, seus e da genômica:


Olhando para trás, fico tremendamente orgulhoso por nossa obra coletiva de levar o Projeto Genoma Humano (PGH) à sua conclusão bem-sucedida em 2003 e pela nossa ampla gama de projetos de grande escala construídos sobre a fundação assentada pelo PGH. Cioletivamente, esses projetos e os dados inestimáveis que geraram têm transformado a pesquisa biomédica e capacitado pesquisadores no mundo inteiro. Estou orgulhoso também pelos compromissos desses projetos com a proteção da privacidade da informação genética e por considerarem as implicações éticas, legais e sociais da pesquisa genômica.


Em outras palavras, Collins tem orgulho de ter colaborado para tornar a genômica hegemônica na pesquisa biológica. Note que ele não deu uma palavra sobre a manutenção dos dados do genoma em domínio público, supostamente a sua grande batalha - ao lado do chefão britânico do PGH, John Sulston (que já abiscoitou o Nobel...) - contra o "mercenário" Venter.

De todo modo, um grande feito para um cientista adepto do motociclismo nas horas vagas e cristão fervoroso, autor do livro A linguagem de Deus - Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (Editora Gente, 2007).

Por falar em genômica, a Nature de hoje traz reportagem de Helen Pearson sobre genômica pessoal, tema abordado aqui no último domingo.

Escrito por Marcelo Leite às 08h21

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Genômica pessoal chega antes da hora

Genômica pessoal chega antes da hora

A Folha de hoje traz uma reportagem minha que começa assim:

Genômica pessoal, ou medicina personalizada, é o assunto do momento em biotecnologia. Há um ano, não passava de promessa. Agora se tornou objeto de consumo, mas há quem avise que tem gente comprando gato por lebre.

Só existem dois tipos de produto na praça, com uma gama de preço e qualidade similar à que separa uma bicicleta de uma BMW. No primeiro caso, o consumidor pode escolher entre três fornecedores de testes para verificar se tem risco aumentado para no máximo umas 30 "condições" (nem todas são doenças).

A opção mais barata sai na faixa de R$ 1.700 (US$ 1.000). São empresas de comércio eletrônico, como 23andMe, deCODEme e Navigenics. Paga-se com cartão de crédito. O kit para cuspir dentro vem e volta pelo correio.

Todas se limitam a fazer análise de SNPs. É a sigla em inglês de "polimorfismos de nucleotídeo único", um tipo de erro de digitação durante o processo de cópia do DNA durante a evolução das espécies. O genoma de uma pessoa pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes do de outra. Cada uma dessas trocas de letras pode ou não estar associada com um risco maior de doença ou... "abobrinhas".

A expressão é de Sergio Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais e dono do laboratório GENE. Ele encomendou uma análise dos próprios SNPs à deCODEme.

"Dos SNPs que eles reportam, alguns são "abobrinhas': calvície, intolerância à lactose, identificação de compostos amargos", critica. "Dos SNPs associados com doenças, em apenas dois casos há riscos relativos altos: trombose venosa e doença de Alzheimer. Estes já são conhecidos há anos e já são oferecidos por muitos laboratórios, inclusive o GENE", alerta Pena. Para ele, é "questionável" se o risco para Alzheimer deveria ser comunicado a consumidores sem intermediação médica.

"O impacto de cada variante genética usada nesses testes é muito pequeno", ressalta Marcelo Nóbrega, geneticista da Universidade de Chicago. Ele cita o caso do diabetes, que tem prevalência de 5% na população: "Um aumento de 20% significaria que o risco passa a 6%. Quem vai mudar drasticamente seu estilo de vida porque tem 6% em lugar de 5% de chance de desenvolver diabetes?"

Leia mais na Folha (só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 17h07

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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