Genômica pessoal 2 - Entrevista com George Church
Leia abaixo a segunda parte da entrevista realizada em 29 de maio com George Church, da Universidade Harvard e do MIT, mencionada na reportagem da Folha de domingo sobre genômica pessoal:
CIÊNCIA EM DIA - Qual seria a utilidade de uma seqüência do próprio genoma para uma pessoa? Que medidas a pessoa poderia tomar a partir dela, em termos de conduta para a saúde?
CHURCH - A genômica pessoal tem pelo menos três aspectos associados.
Um é a ancestralidade, uma das coisas em que os consumidores estão mais interessados, e fica cada vez melhor quanto mais DNA você tem [para analisar]. Há muitas maneiras de fazer isso, começando com um pedaço de papel [árvore genealógica], depois o cromossomo Y, o próximo nível, e pode fazer com todo o seu DNA, o que é muito mais interessante. Não só vai dizer o quanto você é relacionado com aquela sua tia, mas que traços vocês têm em comum, cor dos olhos, cor dos cabelos, doenças.
A segunda coisa são características médicas. E eu acho que a coisa mais importante é educação: se você for um adepto precoce da nova tecnologia, você terá uma janela privilegiada para vislumbrar aonde essa tecnologia pode chegar. Pode ser que ela não chegue a lugar nenhum, mas pode ser que você consiga uma vantagem para extrair algo dessa tecnologia e começar seu próprio negócio.
Se você é um investidor, alguém que está comprando as opções mais caras, com todo um tipo de software para ajudar, sua própria seqüência pode ajudá-lo a entender melhor onde a coisa vai chegar, melhor do que se fosse a seqüência de uma outra pessoa, como Jim Watson, ou algo assim. Hoje você pode baixar uma seqüência da internet, mas acho que você entenderia melhor a sua e ficaria mais motivado. Faz sentido? Será que eu acho que tenho mesmo colesterol alto, baseado no meu DNA? Tenho mesmo cabelo loiro? Você pode fazer um teste de realidade mais facilmente. É um investimento caro, mas não tão caro quanto parece.
CIÊNCIA EM DIA - Mas e a parte médica?
CHURCH - Também é educacional. Você pode fazer com que [a informação] o ajude a tomar decisões boas, que deveria tomar de qualquer jeito, por exemplo fazer exercício, coisa que você não conseguia fazer sem ela. As pessoas acreditam mais se virem isso como algo especial, só para elas. Outras coisas estão estabelecidas há muito tempo. Há uma longa lista, talvez uns mil genes, que não são nada ambíguos: se você tiver um alelo [variante] grave desse gene, você sabe que tem um problema médico potencial, seja você ou em seus filhos. Coisas como a doença de Tay-Sachs, hemocromatose, distrofia, anemia falciforme, e assim por diante. Cada teste desses custa um monte de dinheiro para fazer individualmente, mas, se você conseguir colapsar tudo isso em um único teste e ele custar menos do que cada teste individualmente, então isso é benéfico.
CIÊNCIA EM DIA - Mas este não é o caso ainda, certo?
CHURCH - Knome pode fazer isso, porque faz o seqüenciamento de todo o genoma.
CIÊNCIA EM DIA - Mas custa 350 mil dólares... (risos).
CHURCH - O que estou dizendo é... Sim. Todas essas companhias usando chips de SNP, que interessantemente não funcionam para fibrose cística ou câncer de mama (genes BRCA1 e BRCA2), muitas coisas naquela lista requerem seqüenciamento... Isso de certo modo ilustra o ponto em que nos encontramos.
CIÊNCIA EM DIA - Os chips não são muito úteis, mas o que é útil custa muito, muito caro.
CHURCH - Exatamente. Mas tudo isso está mudando muito rapidamente. As companhias estão usando os chips para adquirir um monte de experiência com um monte de clientes, e a Knome está usando a experiência com seqüenciamento, mas com um pequeno número de clientes. Ninguém sabe qual é o melhor modelo de negócio para chegar ao meio do caminho, onde os preços vão cair.
CIÊNCIA EM DIA - Toda semana há dúzias de artigos publicados sobre correlações entre genes ou seqüências de DNA e SNPs e doenças. Se eu seqüenciar meu genoma hoje, como vou poder acompanhar tudo que está acontecendo na ciência que pode ser relevante?
CHURCH - É muito interessante. Um dos problemas de ler jornal – e jornais são uma coisa maravilhosa, obviamente – é que a ênfase das notícias recai sobre aquilo que entusiasma as pessoas, não necessariamente na qualidade da pesquisa. Há estudos que são feitos com número muito pequeno de pacientes, digamos 20 pessoas. Outro tem 20 mil pessoas. O segundo é muito mais aceito [pelos cientistas], tem muito mais probabilidade de ser verdadeiro. Se você faz algo sobre comportamento ou inteligência, isso vai direto para a primeira página. Mas se você faz outro com 20 mil pessoas, muito cuidadoso, mas é sobre algo como “osteogenesis imperfecta” ou algum outro nome complicado, você vai parar lá no fundo da página de ciência – se tiver sorte.
Uma das coisas legais da página da 23andMe é que eles na realidade classificam todos os testes por qualidade, que você pode consultar mesmo sem ter assinado o serviço. Eles têm tudo que aparece nas notícias, algumas coisas recém-publicadas na literatura científica, e cada uma recebe de uma a quatro estrelas. Uma estrela quer dizer que era publicável, mas não tão bom assim. E quatro estrelas quer dizer que é o melhor que você pode conseguir.
Eu pessoalmente preferiria que tivessem cinco estrelas, que fosse também altamente preditivo, além de tão bom quanto dá para ser. O teste para fibrose cística, atualmente, é bastante preditivo, assim como pesquisa de qualidade. Anemia falciforme é muito bom e preditivo. E deveria haver um outro conjunto de estrelas para aquilo que se pudesse fazer algo a respeito, porque há pesquisa muito boa que não lhe permite fazer nada a respeito. Mas eles estão no caminho certo, resumindo para as pessoas a qualidade dos testes. E eles dão todos os resultados do teste; cabe à pessoa imaginar o que fazer com os de baixa qualidade.
CIÊNCIA EM DIA - Não seria o caso de prover também aconselhamento? As pessoas não vão entender os detalhes técnicos.
CHURCH - Sim... Eu acho que... [pausa] O aconselhamento não têm muito relevo nas novas empresas que estão fazendo levantamentos genômicos completos, mas com certeza é oferecido por companhias mais antigas, como DNA Direct. Creio que a idéia das novas companhias é que, se você precisa de aconselhamento, você deve procurar o seu médico.
CIÊNCIA EM DIA - No Brasil, um médico provavelmente não será capaz de manejar essa informação.
CHURCH - Nem nos Estados Unidos. Só temos cerca de cem médicos com treinamento para lidar com genética de adultos. Só cem, para o país inteiro. Há muitos mais que trabalham com genética pediátrica. É um problema no mundo inteiro. Logo os médicos vão perceber claramente que eles precisam aprender mais genética, porque é uma revolução.
CIÊNCIA EM DIA – [No Brasil] as pessoas tendem a ver as relações entre genes e doenças de uma maneira muito determinista...
R - ... o mesmo que nos Estados Unidos. Um determinismo nada realista. Creio que a maioria dos profissionais de saúde e dos pesquisadores tenta reduzir essas expectativas, esse nível de otimismo e de determinismo, mas é muito difícil convencer as pessoas. Espero que você, como um jornalista responsável, consiga isso. E certamente pode me citar para dizer que precisamos de menos ênfase no determinismo. Mas também há condições que são inteiramente determinadas.
CIÊNCIA EM DIA - Mas são muito raras.
CHURCH - Sim, individualmente raras, mas coletivamente são muito comuns. Você não pode ignorá-las.
CIÊNCIA EM DIA - Mas os pesquisadores da área estão cumprindo bem a tarefa de conter esse entusiasmo?
CHURCH - Acho que eles estão fazendo um esforço, mas isso não quer dizer que estejam indo bem.
CIÊNCIA EM DIA - Porque eles não faziam isso 15 ou 20 anos atrás. Havia muito exagero da parte dos biólogos moleculares sobre o potencial médico da genômica.
CHURCH - Acho que há menos exagero hoje. Mas o problema é o que sobrou nas pessoas. Sempre há aquele atraso de cinco anos entre mudar a maneira de apresentar uma mensagem e esta mensagem alcançar as pessoas. Creio que a maioria de nós mudou a maneira de apresentar a mensagem, mas vai demorar um pouco para as pessoas entenderem. As pessoas precisam de experiência direta. Até agora não importava muito, de certa maneira, porque não tiveram a chance de lidar com isso.
É como no início dos anos 1970: não importava se as pessoas tinham todas aquelas concepções [despropositadas] sobre computadores, porque ninguém usava computadores – mas isso mudou. Tivemos de adquirir percepções mais acuradas sobre o que os computadores podem fazer. Algumas pessoas achavam que computadores eram robôs, artificialmente inteligentes. Agora, não mais, [sabemos que] eles só realizam tarefas.
CIÊNCIA EM DIA - Agora todo mundo sabe que eles são bem estúpidos.
CHURCH - Mas eles estão cada vez mais espertos [risos].
CIÊNCIA EM DIA - Alguns colegas seus criticaram o marketing da genômica personalizada, como algo prematuro. David Altshuler, do MIT, deu declarações bem fortes para uma reportagem no diário “Boston Globe”. Como o sr. vê essas críticas?
CHURCH - É importante ter esse tipo de crítica. Em primeiro lugar isso faz com que as pessoas fiquem atraídas pelo tema. Um pouco de controvérsia faz as pessoas se interessarem.
Também precisamos policiar isso. O que poderá se tornar desafiador é manter essas críticas. No momento temos o nível correto, mas as pessoas ficarão entediadas com elas, e aí sim vamos ter problemas. Não podemos deixar que essas empresas se sintam como se ninguém estivesse vigiando, porque elas começarão a ficar negligentes e preguiçosas. Precisamos manter o diálogo crítico em andamento.
Acho que aquele artigo estava um pouco fora do contexto. David [Altshuler] estava focalizando seus comentários em doenças comuns e nos resultados mais recentes. Ele não teve tempo, numa citação curta, para abordar as muitas doenças que são individualmente raras, mas para as quais temos testes muito bons. Dá para pensar na genética (e eu sei que aquele artigo não ia nessa direção) como um seguro. Você faz seguro e espera nunca ter de usar. Ninguém quer que sua casa pegue fogo, nem um acidente de carro. Se você adquire informação genômica pessoal, a esperança é que diga que nada há de errado com você, que você pode continuar comendo alimentos gordurosos. [risos]
CIÊNCIA EM DIA - O sr. já seqüenciou seu próprio genoma, ou tem planos de fazê-lo?
CHURCH - No Projeto Genoma Pessoal estamos seqüenciando um monte de gente e, por exigência do IRB, fui requisitado a fazer essa experiência precoce, de modo que, se houvesse algo errado, eu veria. Creio que tem sido valioso para me ajudar a entender algumas das questões que vão além da tecnologia. Não estou obcecado com meu genoma, sou apenas parte da equipe.
CIÊNCIA EM DIA - O sr. topou com alguma informação muito entusiasmante, ou que preferiria não conhecer?
CHURCH - A maioria das coisas que eu gostaria de não conhecer eu já sabia antes de olhar o meu genoma. Eu gostaria de não saber que eu posso ter doença cardíaca, câncer de pele (por causa da minha pele clara), que tenho narcolepsia e posso cair no sono quando estou conversando com as pessoas – felizmente isso não aconteceu durante a nossa conversa.
CIÊNCIA EM DIA - Já estou chegando ao fim [risos].
CHURCH - Eu já sabia disso tudo. Mas algumas coisas são surpresas. Eu não deveria ser capaz de sentir o gosto amargo, mas consigo. Preciso descobrir o que querem dizer com isso. Mas não há quase nada que eu não gostaria de saber. Esse é o meu tipo de pessoa, mas há outros que prefeririam não saber. Mesmo quando não há tratamento, você pode querer agir em benefício de sua família, ou de outras pessoas no mundo que tenham a mesma doença intratável – levantar fundos, conscientizar, fazer pesquisa...
CIÊNCIA EM DIA - Coisas como Huntington...
CHURCH - Huntington, Parkinson, diabetes... Todas essas coisas que contam com organizações de militantes, como a de Nancy Drexler. Há uma oportunidade para se tornar um ativista de saúde pública, ou ativista de genômica pessoal. É nisso que estou interessado.