Polpa dentária vira espermatozóide humano em testículo de camundongo
Dois cientistas russos - Irina e Alexandre Kerkis - "importados" por Darcy Ribeiro para Campos de Goytacazes, que depois foram para a USp e terminaram na Clínica Abdelmassih em São Paulo (Irina também é do Instituto Butantan de SP), conseguiram uma proeza: identificar células-tronco na polpa de dente de leite de um doador macho humano, isolá-las, injetá-las no testículo de um camundongo e depois extrair dele espermatozóides humanos produzidos pelo animal.
Esquisito, porém esperto. Dois anos atrás a dupla já havia causado espanto ao conseguir produzir tanto óvulos quanto espermatozóides maduros in vitro (fora do corpo) a partir de células-tronco embrionárias (CTEs) de camundongo. O estudo abria a possibilidade inquietante de produzir óvulos (gametas por definição femininos) a partir de células masculinas. Comentei o assunto na época em uma coluna (que você pode ler aqui).
Soube da nova proeza com os dentes de leite e os roedores por meio de um press release (comunicado para jornalistas), que alerta tratar-se de pesquisa básica, ainda distante de aplicação clínica, mas que não deixa de falar em "esperança para homens inférteis". É o tipo da mensagem dupla que costuma acompanhar a promoção de certos estudos biotecnológicos.
Ora, em primeiro lugar dentes de leite só existem em meninos, não em homens adultos. Talvez se encontrem células-tronco com esse potencial nos dentes ou noutro tecido de um adulto infértil, mas não há garantia disso. A esperança é para lá de longínqua.
Depois, quem gostaria de engravidar com espermatozóides produzidos num roedor? Além da aversão simbólica, há questões de biossegurança, como a possibilidade de esse material ser infectado por vírus endógenos do animal.
O comunicado tem outros problemas, como chamar o Sunday Times de revista (é um jornal, que publicou reportagem sobre a pesquisa) e camundongo de rato (são espécies e gêneros diferentes, Mus musculus e Rattus norvegicus). Mas tem o mérito de reproduzir o abstract (resumo em inglês) do trabalho apresentado pelos Kerkis no Congresso Europeu de Reprodução Humana em Barcelona:
Human sperm cells yielded by adult stem cells transplantation into mouse testis
Stem Cell Laboratory, Roger Abdelmassih Human Reproduction Clinic and Research Center; Laboratory of Genetics, Butantan Institute, Sao Paulo, SP, Brazil.
Introduction: Two cellular lineages, the germline and the soma, are involved in the process of spermatogenesis. Diploid cells, which are committed to originating germ cells (GC), proliferate and differentiate, undergo meiosis and further maturate as sperm. This multi-step process is frequently prone to errors, which leads to defective sperm formation and as a result to male infertility. Different therapeutic approaches are being developed using animal models for male infertility treatment, such as the transplantation of spermatogonial stem cells (SSC) from fertile donors to the testis of infertile ones to obtain donor-derived spermatogenesis. Another approach involves the in vitro derivation of GC from adult stem cells (ASC). Here we extend both of these techniques aiming at the obtainment of patient-matched sperm cells from human adult stem cells using mouse testis as a conditioning environment. Material and Methods: Multipotent human immature dental pulp stem cells (hIDPSC) were isolated and reviously characterized by our group. At the present study female and male hIDPSC were used. RT-PCR analysis was performed in undifferentiated hIDPSC for Oct4, Nanog, keratin (CK18), vimentin, integrin subunit b1 and deleted in azoospermia (Daz cluster gene). The cell suspension (105 cells) was stained with Vybrant CM-DiI and injected into the testis of fertile mice. Control mice were injected with physiologic solution. The mice were killed 3, 5 and 9 days after hIDPSC injection. Thin whole-testis frozen sections (5µm) were prepared. Presence of hIDPSC in mouse testis as detected by Vybrant CM-DiI and by Fluorescent in situ hybridization (FISH) for human sex chromosomes. The homing of hIDPSC, within mouse testis, was analyzed by confocal microscopy.
Results: Our data demonstrated that undifferentiated hIDPSC express Oct-4 and Nanog (markers of primordial GC), as well as markers detected in germinal epithelium (Vimentin, CK18 and integrin subunit b1) and DAZ, gene expressed in GC. After hIDPSC transplantation into mouse testis fluorescent signals were observed within transversal sections of seminiferous tubules (ST). At day 3 after transplantation, hIDPSC were detected mainly in cell compartment, where Leyding and Sertoli cells were located. At days 5 and 9, these cells formed fluorescently labelled clusters similar to defined GC associations within mouse ST, which contain the cells morphologically similar to spermatogonia and to human sperm, observed in central part of the lumen. In all experiments these fluorescent cells have been seen only in a few ST. Control mouse ST (without hIDPSC) did not show any fluorescence. FISH analysis for human sex chromosomes confirmed our findings of hIDPSC haploidization, during the process of GC differentiation.
Conclusions: We showed that undifferentiated hIDPSC already express several genes involved in GC development and differentiation, which suggest their GC commitment. When transplanted in mouse testis, hIDPSC underwent differentiation following sequential order of mouse seminiferous epithelium. Our data indicate that the mouse ST environment influences the process of hIDPSC differentiation, yielding human sperm cells, although at a low efficiency. In this manner, the use of an animal ST environment would be a tool for human ASC differentiation in order to achieve human donor-derived spermatogenesis.
The present work was supported by the Roger Abdelmassih Human Reproduction Clinic and Research Center
Não é de hoje que se conhecem os efeitos benéficos da restrição calórica _basicamente, comer pouco_ sobre a saúde e a longevidade. O problema é que as pessoas querem comer mais, e não menos. Para cinco pesquisadoras da USP, a saída talvez seja enfraquecer as pilhas do organismo para fazê-las trabalhar melhor.
Parece paradoxal, e é. A médica Alicia Kowaltowski e suas colegas do Instituto de Química centraram fogo nas mitocôndrias, organelas que fornecem energia para as células. Encontraram um modo de diminuir sua eficiência, em camundongos, o que prolongou as vidas dos roedores em cerca de 7%. De quebra, baixou seus níveis de glicose, triglicérides e insulina. (...)
O quinteto de cientistas decidiu mimetizar a restrição calórica com a ajuda do 2,4-dinitrofenol (DNP, para simplificar), um “desacoplador” de mitocôndrias. Ele promove uma diminuição na diferença de carga, transportando prótons (que têm carga positiva, ao contrário do elétron) para dentro da mitocôndria. É como se fosse um “curto-circuito” na bateria intracelular, resume Kowaltowski. (...)
“O que nossos estudos indicam é uma nova estratégia para controlar envelhecimento e doenças associadas: o desacoplamento mitocondrial”, conclui Kowaltowski. Seu plano é desenvolver e testar novos desacopladores, modificando o dinitrofenol para criar drogas eficazes em doses não-tóxicas.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Depois de 15 anos à frente do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI, dos EUA), Francis S. Collins deixa o posto no próximo dia 1º de agosto. Foi o que anunciou em mensagem de correio eletrônico enviado para amigos e colegas. Collins estava ao lado de Bill Clinton e de Craig Venter em 26 de junho de 2000, quando a Casa Branca anunciou - com Tony Blair no link de satélite - a conclusão do seqüenciamento (soletração) do genoma humano (na verdade ele só seria finalizado em 2003).
Collins diz no e-mail que quer se dedicar mais a refletir, escrever e explorar novas oportunidades profissionais etc. etc. E avalia assim últimos 15 anos, seus e da genômica:
Olhando para trás, fico tremendamente orgulhoso por nossa obra coletiva de levar o Projeto Genoma Humano (PGH) à sua conclusão bem-sucedida em 2003 e pela nossa ampla gama de projetos de grande escala construídos sobre a fundação assentada pelo PGH. Cioletivamente, esses projetos e os dados inestimáveis que geraram têm transformado a pesquisa biomédica e capacitado pesquisadores no mundo inteiro. Estou orgulhoso também pelos compromissos desses projetos com a proteção da privacidade da informação genética e por considerarem as implicações éticas, legais e sociais da pesquisa genômica.
Em outras palavras, Collins tem orgulho de ter colaborado para tornar a genômica hegemônica na pesquisa biológica. Note que ele não deu uma palavra sobre a manutenção dos dados do genoma em domínio público, supostamente a sua grande batalha - ao lado do chefão britânico do PGH, John Sulston (que já abiscoitou o Nobel...) - contra o "mercenário" Venter.
De todo modo, um grande feito para um cientista adepto do motociclismo nas horas vagas e cristão fervoroso, autor do livro A linguagem de Deus - Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (Editora Gente, 2007).
Por falar em genômica, a Nature de hoje traz reportagem de Helen Pearson sobre genômica pessoal, tema abordado aqui no último domingo.
A Folha de hoje traz uma reportagem minha que começa assim:
Genômica pessoal, ou medicina personalizada, é o assunto do momento em biotecnologia. Há um ano, não passava de promessa. Agora se tornou objeto de consumo, mas há quem avise que tem gente comprando gato por lebre.
Só existem dois tipos de produto na praça, com uma gama de preço e qualidade similar à que separa uma bicicleta de uma BMW. No primeiro caso, o consumidor pode escolher entre três fornecedores de testes para verificar se tem risco aumentado para no máximo umas 30 "condições" (nem todas são doenças).
A opção mais barata sai na faixa de R$ 1.700 (US$ 1.000). São empresas de comércio eletrônico, como 23andMe, deCODEme e Navigenics. Paga-se com cartão de crédito. O kit para cuspir dentro vem e volta pelo correio.
Todas se limitam a fazer análise de SNPs. É a sigla em inglês de "polimorfismos de nucleotídeo único", um tipo de erro de digitação durante o processo de cópia do DNA durante a evolução das espécies. O genoma de uma pessoa pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes do de outra. Cada uma dessas trocas de letras pode ou não estar associada com um risco maior de doença ou... "abobrinhas".
A expressão é de Sergio Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais e dono do laboratório GENE. Ele encomendou uma análise dos próprios SNPs à deCODEme.
"Dos SNPs que eles reportam, alguns são "abobrinhas': calvície, intolerância à lactose, identificação de compostos amargos", critica. "Dos SNPs associados com doenças, em apenas dois casos há riscos relativos altos: trombose venosa e doença de Alzheimer. Estes já são conhecidos há anos e já são oferecidos por muitos laboratórios, inclusive o GENE", alerta Pena. Para ele, é "questionável" se o risco para Alzheimer deveria ser comunicado a consumidores sem intermediação médica.
"O impacto de cada variante genética usada nesses testes é muito pequeno", ressalta Marcelo Nóbrega, geneticista da Universidade de Chicago. Ele cita o caso do diabetes, que tem prevalência de 5% na população: "Um aumento de 20% significaria que o risco passa a 6%. Quem vai mudar drasticamente seu estilo de vida porque tem 6% em lugar de 5% de chance de desenvolver diabetes?"
A Fundação Prêmio X ficou famosa por causa do Prêmio X Ansari, que em 2004 rendeu US$ 10 milhões à empresa Mojave Aerospace Ventures por três vôos do avião-foguete SpaceShipOne até 100 km de altitude no prazo de duas semanas. Agora, ela ataca na seara da genômica individual, com o Prêmio X Archon: de novo, US$ 10 milhões para quem conseguir seqüenciar (soletrar) 100 genomas humanos no prazo de 10 dias.
Saiba mais sobre o desafio no vídeo de oito minutos (em inglês):
George Church, da Universidade Harvard e do MIT, é um dos luminares em duas áreas de ponta da biotecnologia: biologia sintética (criação de organismos com genoma escolhido a dedo) e genômica pessoal (uso de informação do genoma para cuidados médicos personalizados). Inventar métodos é com ele - esteve por exemplo na equipe que criou a primeira técnica para seqüenciar (soletrar) um genoma, feito que valeu a Walter Gilbert o Prêmio Nobel de Química de 1980. Church, porém, está de olho no Prêmio X Archon (leia no post mais abaixo).
Leia abaixo a primeira parte da entrevista realizada em 29 de maio com Church, mencionada na reportagem da Folha de domingo sobre genômica pessoal:
CIÊNCIA EM DIA - Genômica pessoal e biologia sintética – qual é mais importante? GEORGE CHURCH - (Risos) Acho que elas estão integradas. Usamos nossa capacidade sintética no seqüenciamento, sintetizando centenas de milhares de sondas que nos permitem capturar seqüências que são importantes. Também usamos seqüenciamento na biologia sintética para ter certeza de que, quando construímos alguma coisa, o fazemos com precisão. Em sentido global, uma das maiores recompensas em biologia sintética, ao menos para mim, está nos biocombustíveis. Certamente precisamos conter nosso consumo de energia, em particular a queima de hidrocarbonetos – tem de ser um jogo de soma zero. Temos de seqüestrar o dióxido de carbono da atmosfera, e a biologia sintética é uma das melhores maneiras que temos de fazer isso.
CIÊNCIA EM DIA - Isso toma muito de seu tempo e de sua concentração? CHURCH - Sim. É uma grande parcela do que eu faço. Tenho um financiamento do Departamento de Energia [dos EUA], desde 1987. Há algumas recompensas de curto prazo na biologia sintética, como fazer medicamentos e biocombustíveis de modo mais barato e seguro.
CIÊNCIA EM DIA - Biologia sintética normalmente é mais associada com essas aplicações industriais e ambientais. Que papel poderia ter, mais exatamente, na biomedicina? CHURCH - Certamente permitirá fazer versões menos caras de medicamentos. Outra possibilidade é que, à medida que nos aproximamos mais e mais de terapias com células-tronco, nós poderemos torná-las mais espertas por meio da biologia sintética. No momento, a maior parte das células-tronco autólogas, quer dizer, aquelas que vêm de você mesmo, em geral da medula óssea ou da pele, creio que vamos ver mais no futuro.
CIÊNCIA EM DIA - Como as células-tronco induzidas por Rudolph Jaenisch? CHURCH - Sim, células pluripotentes, é uma avenida que estamos percorrendo no Programa Genoma Pessoal assim como meios de introduzir a biologia sintética em medicina. O Projeto Genoma Pessoal está usando [células pluripotentes] para diagnóstico, mas a biologia sintética poderá talvez ser capaz de usá-las em terapias.
CIÊNCIA EM DIA - O que é exatamente o Projeto Genoma Pessoal? CHURCH - É um projeto para tentar conectar genes, ambiente e algumas características numa grande coorte de indivíduos, com ajuda da rápida diminuição dos custos de seqüenciamento. É parte dos esforços em genômica personalizada, que, assim como as associações na escala do genoma [genome-wide associations] e SNP-chips [chips para análise de polimorfismos de nucleotídeo único], estão baseados em seqüenciamento.
CIÊNCIA EM DIA - O Programa Genoma Pessoal está institucionalizado ou é apenas uma linha de pesquisa? CHURCH - É um programa institucionalizado. Temos financiamento privado, temos licença do IRB [“institutional review board”, como é chamado nos EUA um comitê de ética em pesquisa de uma instituição], para três anos de estudos, e temos grupos espalhados pelo mundo com os quais colaboramos que estão usando abordagens e mecanismos de consentimento similares.
CIÊNCIA EM DIA - E isso será feito com um conjunto definido de pessoas? CHURCH - Cem mil. Temos licença para fazer com cem mil. A idéia é que seja um grupo diverso de pessoas, de todas as partes do mundo, que se apresentem como voluntários para ajudar a fazer essa conexão entre genes, ambientes e características.
CIÊNCIA EM DIA - Existe um debate hoje no Brasil sobre medicina personalizada, mas ele tende a se concentrar em torno das células-tronco e questões éticas associadas, não tanto com a genômica. Parece que as expectativas do público migraram da genômica para a pesquisa com células-tronco, como algo que pode dar resultados mais rápido. O sr. acha que é essa a expectativa aqui nos EUA, também? CHURCH - Não, acho que nos EUA há certamente mais entusiasmo com genômica do que com células-tronco. Não é bem uma questão de ser esta ou aquela. A genômica tende a ser mais diagnóstica, e as células-tronco, mais terapêuticas. A razão para o entusiasmo com o diagnóstico em genômica é que acontecerá mais rápido, já temos companhias na área de genômica personalizada, e ainda vai demorar muito para que tenhamos companhias oferecendo [terapias com] células-tronco, que possam ir além do uso já comprovado em transplantes de medula óssea. À parte isso, células-tronco são em grande medida ainda um problema de pesquisa, enquanto a genômica já faz uma transição para o plano do consumidor.
CIÊNCIA EM DIA - Mas a genômica é mais limitada, no sentido de que só se aplica a diagnóstico. CHURCH - Quando penso em limitação, penso na quantidade de pessoas cujas vidas podem ser afetadas. Diagnósticos afetam a vida da maioria das pessoas. Tratamentos são um pouco mais estreitos – no caso de um remédio contra o câncer, você não tomará contato com ele a não ser que tenha câncer. Se for ao hospital, porém, há uma boa chance de que peçam um exame diagnóstico – não necessariamente uma diagnóstico genético, mas isso está mudando.
CIÊNCIA EM DIA - Num artigo para Edge.org, o sr. traçou um limite para a genômica acessível em 10 mil a 20 mil dólares, mas é mais comum ouvir falar em mil dólares. Por outro lado, a empresa Knome está cobrando US$ 350 mil para os primeiros clientes. Quanto falta para chegar lá? CHURCH - Quando falei num limite de 10 mil dólares, eu pensei literalmente em limiar – você não conseguiria grande quantidade de clientes com ele. Mas acontece que um bom número de pessoas está se interessando até mesmo por US$ 350 mil, portanto não há um limiar tão definido assim, há um gradiente. Mesmo mil dólares também seria caro para algumas pessoas. Mas não é um investimento tão alto, as pessoas compram laptops por esse valor, compram carros por muito mais que isso. Compram boa quantidade de refeições em bons restaurantes, o que eventualmente chega a mil dólares. Acho que, em certo sentido, já temos uma genoma por mil dólares.
CIÊNCIA EM DIA - Em que sentido? CHURCH - Coisas como 23andMe, uma companhia na Califórnia que por mil dólares oferece análise de SNPs [pronuncia-se ‘snips”] para todo o genoma, com chips de SNP. Eles tentam deixar claras as limitações desse tipo de estudo, não é a mesma coisa que fazer o seqüenciamento completo do genoma. Existe um gradiente do que se pode obter e um gradiente do que as pessoas estão dispostas a pagar, dos mil dólares da 23andMe e dos 350 mil da Knome. O que eu gostaria de ver é o preço baixar ainda mais, chegar a menos de 500 dólares, dependendo das condições e do país.
CIÊNCIA EM DIA - Em que horizonte de tempo? CHURCH - Como eu disse, já temos o genoma de mil dólares. Só que, a cada ano, vai aumentar aquilo que se pode obter com mil dólares. É a mesma coisa que seu computador. Ele não baixa de preço, mas o que você obtém com esse preço é cada vez melhor. Acho que isso vai acontecer com o genoma, e a velocidade com que você consegue mais valor por dólar está aumentando mais rápido que na indústria de computadores. Nesta, a cada 18 meses você consegue dobrar a potência pelo mesmo custo; em genética, eu diria que isso ocorre a cada seis meses.
CIÊNCIA EM DIA - Tão rápido assim? É uma nova Lei de Moore... O sr. a chamaria de Lei de Church? CHURCH - Não (risos)... Vamos chamar de retornos crescentes em seqüenciamento. É muito bom. E tem gente que não quer esperar, que diz: “Por que esperar? Vamos fazer já”.
CIÊNCIA EM DIA - Quantas pessoas já se inscreveram para o projeto da Knome? CHURCH - Não sei o número exato do momento, mas certamente é maior que dois, e acho que há razão para acreditar que serão mais pessoas do que originalmente pensado. Eles se prepararam para 20 no primeiro ano, mas acho que vão dar um jeito de fazer mais que isso.
Leia abaixo a segunda parte da entrevista realizada em 29 de maio com George Church, da Universidade Harvard e do MIT, mencionada na reportagem da Folha de domingo sobre genômica pessoal:
CIÊNCIA EM DIA - Qual seria a utilidade de uma seqüência do próprio genoma para uma pessoa? Que medidas a pessoa poderia tomar a partir dela, em termos de conduta para a saúde? CHURCH - A genômica pessoal tem pelo menos três aspectos associados. Um é a ancestralidade, uma das coisas em que os consumidores estão mais interessados, e fica cada vez melhor quanto mais DNA você tem [para analisar]. Há muitas maneiras de fazer isso, começando com um pedaço de papel [árvore genealógica], depois o cromossomo Y, o próximo nível, e pode fazer com todo o seu DNA, o que é muito mais interessante. Não só vai dizer o quanto você é relacionado com aquela sua tia, mas que traços vocês têm em comum, cor dos olhos, cor dos cabelos, doenças. A segunda coisa são características médicas. E eu acho que a coisa mais importante é educação: se você for um adepto precoce da nova tecnologia, você terá uma janela privilegiada para vislumbrar aonde essa tecnologia pode chegar. Pode ser que ela não chegue a lugar nenhum, mas pode ser que você consiga uma vantagem para extrair algo dessa tecnologia e começar seu próprio negócio. Se você é um investidor, alguém que está comprando as opções mais caras, com todo um tipo de software para ajudar, sua própria seqüência pode ajudá-lo a entender melhor onde a coisa vai chegar, melhor do que se fosse a seqüência de uma outra pessoa, como Jim Watson, ou algo assim. Hoje você pode baixar uma seqüência da internet, mas acho que você entenderia melhor a sua e ficaria mais motivado. Faz sentido? Será que eu acho que tenho mesmo colesterol alto, baseado no meu DNA? Tenho mesmo cabelo loiro? Você pode fazer um teste de realidade mais facilmente. É um investimento caro, mas não tão caro quanto parece.
CIÊNCIA EM DIA - Mas e a parte médica? CHURCH - Também é educacional. Você pode fazer com que [a informação] o ajude a tomar decisões boas, que deveria tomar de qualquer jeito, por exemplo fazer exercício, coisa que você não conseguia fazer sem ela. As pessoas acreditam mais se virem isso como algo especial, só para elas. Outras coisas estão estabelecidas há muito tempo. Há uma longa lista, talvez uns mil genes, que não são nada ambíguos: se você tiver um alelo [variante] grave desse gene, você sabe que tem um problema médico potencial, seja você ou em seus filhos. Coisas como a doença de Tay-Sachs, hemocromatose, distrofia, anemia falciforme, e assim por diante. Cada teste desses custa um monte de dinheiro para fazer individualmente, mas, se você conseguir colapsar tudo isso em um único teste e ele custar menos do que cada teste individualmente, então isso é benéfico.
CIÊNCIA EM DIA - Mas este não é o caso ainda, certo? CHURCH - Knome pode fazer isso, porque faz o seqüenciamento de todo o genoma.
CIÊNCIA EM DIA - Mas custa 350 mil dólares... (risos). CHURCH - O que estou dizendo é... Sim. Todas essas companhias usando chips de SNP, que interessantemente não funcionam para fibrose cística ou câncer de mama (genes BRCA1 e BRCA2), muitas coisas naquela lista requerem seqüenciamento... Isso de certo modo ilustra o ponto em que nos encontramos.
CIÊNCIA EM DIA - Os chips não são muito úteis, mas o que é útil custa muito, muito caro. CHURCH - Exatamente. Mas tudo isso está mudando muito rapidamente. As companhias estão usando os chips para adquirir um monte de experiência com um monte de clientes, e a Knome está usando a experiência com seqüenciamento, mas com um pequeno número de clientes. Ninguém sabe qual é o melhor modelo de negócio para chegar ao meio do caminho, onde os preços vão cair.
CIÊNCIA EM DIA - Toda semana há dúzias de artigos publicados sobre correlações entre genes ou seqüências de DNA e SNPs e doenças. Se eu seqüenciar meu genoma hoje, como vou poder acompanhar tudo que está acontecendo na ciência que pode ser relevante? CHURCH - É muito interessante. Um dos problemas de ler jornal – e jornais são uma coisa maravilhosa, obviamente – é que a ênfase das notícias recai sobre aquilo que entusiasma as pessoas, não necessariamente na qualidade da pesquisa. Há estudos que são feitos com número muito pequeno de pacientes, digamos 20 pessoas. Outro tem 20 mil pessoas. O segundo é muito mais aceito [pelos cientistas], tem muito mais probabilidade de ser verdadeiro. Se você faz algo sobre comportamento ou inteligência, isso vai direto para a primeira página. Mas se você faz outro com 20 mil pessoas, muito cuidadoso, mas é sobre algo como “osteogenesis imperfecta” ou algum outro nome complicado, você vai parar lá no fundo da página de ciência – se tiver sorte. Uma das coisas legais da página da 23andMe é que eles na realidade classificam todos os testes por qualidade, que você pode consultar mesmo sem ter assinado o serviço. Eles têm tudo que aparece nas notícias, algumas coisas recém-publicadas na literatura científica, e cada uma recebe de uma a quatro estrelas. Uma estrela quer dizer que era publicável, mas não tão bom assim. E quatro estrelas quer dizer que é o melhor que você pode conseguir. Eu pessoalmente preferiria que tivessem cinco estrelas, que fosse também altamente preditivo, além de tão bom quanto dá para ser. O teste para fibrose cística, atualmente, é bastante preditivo, assim como pesquisa de qualidade. Anemia falciforme é muito bom e preditivo. E deveria haver um outro conjunto de estrelas para aquilo que se pudesse fazer algo a respeito, porque há pesquisa muito boa que não lhe permite fazer nada a respeito. Mas eles estão no caminho certo, resumindo para as pessoas a qualidade dos testes. E eles dão todos os resultados do teste; cabe à pessoa imaginar o que fazer com os de baixa qualidade.
CIÊNCIA EM DIA - Não seria o caso de prover também aconselhamento? As pessoas não vão entender os detalhes técnicos. CHURCH - Sim... Eu acho que... [pausa] O aconselhamento não têm muito relevo nas novas empresas que estão fazendo levantamentos genômicos completos, mas com certeza é oferecido por companhias mais antigas, como DNA Direct. Creio que a idéia das novas companhias é que, se você precisa de aconselhamento, você deve procurar o seu médico.
CIÊNCIA EM DIA - No Brasil, um médico provavelmente não será capaz de manejar essa informação. CHURCH - Nem nos Estados Unidos. Só temos cerca de cem médicos com treinamento para lidar com genética de adultos. Só cem, para o país inteiro. Há muitos mais que trabalham com genética pediátrica. É um problema no mundo inteiro. Logo os médicos vão perceber claramente que eles precisam aprender mais genética, porque é uma revolução.
CIÊNCIA EM DIA – [No Brasil] as pessoas tendem a ver as relações entre genes e doenças de uma maneira muito determinista... R - ... o mesmo que nos Estados Unidos. Um determinismo nada realista. Creio que a maioria dos profissionais de saúde e dos pesquisadores tenta reduzir essas expectativas, esse nível de otimismo e de determinismo, mas é muito difícil convencer as pessoas. Espero que você, como um jornalista responsável, consiga isso. E certamente pode me citar para dizer que precisamos de menos ênfase no determinismo. Mas também há condições que são inteiramente determinadas.
CIÊNCIA EM DIA - Mas são muito raras. CHURCH - Sim, individualmente raras, mas coletivamente são muito comuns. Você não pode ignorá-las.
CIÊNCIA EM DIA - Mas os pesquisadores da área estão cumprindo bem a tarefa de conter esse entusiasmo? CHURCH - Acho que eles estão fazendo um esforço, mas isso não quer dizer que estejam indo bem.
CIÊNCIA EM DIA - Porque eles não faziam isso 15 ou 20 anos atrás. Havia muito exagero da parte dos biólogos moleculares sobre o potencial médico da genômica. CHURCH - Acho que há menos exagero hoje. Mas o problema é o que sobrou nas pessoas. Sempre há aquele atraso de cinco anos entre mudar a maneira de apresentar uma mensagem e esta mensagem alcançar as pessoas. Creio que a maioria de nós mudou a maneira de apresentar a mensagem, mas vai demorar um pouco para as pessoas entenderem. As pessoas precisam de experiência direta. Até agora não importava muito, de certa maneira, porque não tiveram a chance de lidar com isso. É como no início dos anos 1970: não importava se as pessoas tinham todas aquelas concepções [despropositadas] sobre computadores, porque ninguém usava computadores – mas isso mudou. Tivemos de adquirir percepções mais acuradas sobre o que os computadores podem fazer. Algumas pessoas achavam que computadores eram robôs, artificialmente inteligentes. Agora, não mais, [sabemos que] eles só realizam tarefas.
CIÊNCIA EM DIA - Agora todo mundo sabe que eles são bem estúpidos. CHURCH - Mas eles estão cada vez mais espertos [risos].
CIÊNCIA EM DIA - Alguns colegas seus criticaram o marketing da genômica personalizada, como algo prematuro. David Altshuler, do MIT, deu declarações bem fortes para uma reportagem no diário “Boston Globe”. Como o sr. vê essas críticas? CHURCH - É importante ter esse tipo de crítica. Em primeiro lugar isso faz com que as pessoas fiquem atraídas pelo tema. Um pouco de controvérsia faz as pessoas se interessarem. Também precisamos policiar isso. O que poderá se tornar desafiador é manter essas críticas. No momento temos o nível correto, mas as pessoas ficarão entediadas com elas, e aí sim vamos ter problemas. Não podemos deixar que essas empresas se sintam como se ninguém estivesse vigiando, porque elas começarão a ficar negligentes e preguiçosas. Precisamos manter o diálogo crítico em andamento. Acho que aquele artigo estava um pouco fora do contexto. David [Altshuler] estava focalizando seus comentários em doenças comuns e nos resultados mais recentes. Ele não teve tempo, numa citação curta, para abordar as muitas doenças que são individualmente raras, mas para as quais temos testes muito bons. Dá para pensar na genética (e eu sei que aquele artigo não ia nessa direção) como um seguro. Você faz seguro e espera nunca ter de usar. Ninguém quer que sua casa pegue fogo, nem um acidente de carro. Se você adquire informação genômica pessoal, a esperança é que diga que nada há de errado com você, que você pode continuar comendo alimentos gordurosos. [risos]
CIÊNCIA EM DIA - O sr. já seqüenciou seu próprio genoma, ou tem planos de fazê-lo? CHURCH - No Projeto Genoma Pessoal estamos seqüenciando um monte de gente e, por exigência do IRB, fui requisitado a fazer essa experiência precoce, de modo que, se houvesse algo errado, eu veria. Creio que tem sido valioso para me ajudar a entender algumas das questões que vão além da tecnologia. Não estou obcecado com meu genoma, sou apenas parte da equipe.
CIÊNCIA EM DIA - O sr. topou com alguma informação muito entusiasmante, ou que preferiria não conhecer? CHURCH - A maioria das coisas que eu gostaria de não conhecer eu já sabia antes de olhar o meu genoma. Eu gostaria de não saber que eu posso ter doença cardíaca, câncer de pele (por causa da minha pele clara), que tenho narcolepsia e posso cair no sono quando estou conversando com as pessoas – felizmente isso não aconteceu durante a nossa conversa.
CIÊNCIA EM DIA - Já estou chegando ao fim [risos]. CHURCH - Eu já sabia disso tudo. Mas algumas coisas são surpresas. Eu não deveria ser capaz de sentir o gosto amargo, mas consigo. Preciso descobrir o que querem dizer com isso. Mas não há quase nada que eu não gostaria de saber. Esse é o meu tipo de pessoa, mas há outros que prefeririam não saber. Mesmo quando não há tratamento, você pode querer agir em benefício de sua família, ou de outras pessoas no mundo que tenham a mesma doença intratável – levantar fundos, conscientizar, fazer pesquisa...
CIÊNCIA EM DIA - Coisas como Huntington... CHURCH - Huntington, Parkinson, diabetes... Todas essas coisas que contam com organizações de militantes, como a de Nancy Drexler. Há uma oportunidade para se tornar um ativista de saúde pública, ou ativista de genômica pessoal. É nisso que estou interessado.
Post rápido: o jornal The New York Times de ontem trouxe uma interessante reportagem de Andrew Pollack sobre inesperadas conexões moleculares entre moléstias disparatadas, como distrofia muscular de Duchenne e doença cardíaca. A partir daí, pesquisadores começaram a tentar traçar um mapa dessas conexões, que já foi apelidado de "diseasome" (algo como "doençoma" ou "molestioma", por analogia comk "genoma", mapeamento de genes). Eis aqui uma amostra (clique na imagem para abrir o infográfico animado do NYT):
Depois de um vôo turbulento, cheguei aonde queria. No caminho, li longos trechos de um livro perturbador, Biology under the Influence, sobre o qual nada mais direi. Fica para outro dia.
Li também uma entrevista que combina um tanto com o livro, feita por Claudia Dreifus com Arno Motulsky, 84, que em 1957 - o ano em que eu nasci - identificou a primeira interação negativa de um medicamento com certas variantes de proteínas e genes humanos. É considerado o ponto de partida da farmacogenômica, ou do que se chama de medicina personalizada.
Modulsky solta o verbo. Selecionei dois trechos mais que interessantes:
Penso que a promessa da farmacogenética às vezes é muito exagerada. Há pessoas pensando que nós seremos capazes de resolver quase tudo com uma prescrição individualizada [baseada na análise dos genes da pessoa]. Precisamos de mais pesquisa, que custará caro.
No lado esperançoso, as pessoas dizem que logo será possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por US$ 1.000. Assim que descobrirem métodos de baixo custo para seqüenciar o genoma, o preço da medicina personalizada cairá. Mesmo assim, é preciso não se deixar enganar. O que sabemos sobre o genoma hoje não é suficiente para todos os milagres que muitos esperam desse campo. Há muita coisa sobre o que regula os genes e sobre como interagem que ainda precisamos entender. Não teremos as respostas amanhã.
Na mesma edição do caderno "Science Times" há uma boa reportagem de William Broad sobre as novas centrífugas em construção pelo Irã, com base na surpreendente divulgação de um lote de 48 fotos de uma visita do presidente iraniano à central de Natanz, como esta:
Mahmoud Ahmadinejad (dir.) inspeciona partes de um centrífuga:
à dir., o cilindro prateado é a capa; à esquerda, o rotor interno, feito de carbono
Coluna Ciência em Dia Folha de S.Paulo 27 de abril de 2008
Todo geneticista, hoje em dia, defende a idéia de que genes e outras seqüências de DNA atuam em conjunto com o meio para manter a saúde ou desencadear doenças. Juram, de pés juntos, que nunca foram deterministas. Quer dizer, jamais acreditaram que o DNA explicava todas as características e temperamento das pessoas.
Não há maior problema, desde que os pesquisadores comecem a dar conseqüência às suas (novas) convicções. Foi o que fizeram Greg Gibson e seu estudante de doutorado Youssef Idaghdour, autores de um revelador estudo publicado no periódico de acesso livre "PLoS Genetics" (www.plosgenetics.org).
O comunicado da Universidade Estadual da Carolina do Norte (EUA, onde ambos atuavam) sobre a pesquisa exagera um pouco ao dizer que o ambiente ("nurture") marcou 1 x 0 sobre a natureza ("nature"). Por outro lado, não resta dúvida de que a dupla conseguiu um exemplo eloqüente do enorme peso que as condições de vida podem ter sobre o funcionamento do corpo de uma pessoa, após comparar grupos geneticamente homogêneos que vivem em lugares diferentes de Marrocos.
Todos os 46 indivíduos estudados são berberes, etnia que teve relativamente pouca miscigenação com outros povos da África. Testes realizados por Gibson e Idaghdour confirmaram a homogeneidade necessária para poder atribuir as diferenças encontradas a hábitos variados, como dieta, ocupação e estresse.
Os autores coletaram amostras de sangue de 16 beduínos (nômades), 18 moradores de Anza, uma favela perto da cidade costeira de Agadir, e 12 habitantes da vila rural de Sebt-Nabor, escondida nas montanhas. Separaram para análise genética apenas glóbulos brancos (ou leucócitos, soldados do sistema de defesa do organismo). A análise consistiu em levantar o perfil de expressão gênica das células.
É um método que consegue, por assim dizer, registrar um instantâneo de todos os genes ativos no material. Também quantifica o grau de utilização de cada gene; se este contiver a receita para fabricar uma proteína, a técnica permite estimar o ritmo de produção dessa proteína na hora da coleta.
Gibson diz que esperava encontrar não mais que 5% a 10% de divergência nos perfis das três populações, que pudessem ser interpretados como "assinaturas geográficas [influência do ambiente local] ou culturais [dieta, modo de vida]". Topou com cerca de 30%. "Foi bem chocante."
Gibson e Idaghdour verificaram que cerca de um terço dos mais de 10 mil genes ativos nas células (dos 23 mil por eles investigados) têm seu uso pelo sistema de defesa do organismo modulado por fatores externos, ambientais. Por exemplo: os berberes da área urbana têm um perfil aumentado de expressão de genes ligados ao sistema respiratório e à ocorrência de asma. Os pesquisadores atribuem isso à influência da poluição urbana provocada por uma fábrica de cimento próxima a Anza.
Gibson acredita que aí está a chave para entender a raiz de muitas doenças da humanidade. Uma espécie jovem (100 mil a 200 mil anos), que ainda não teve tempo para desenvolver defesas contra doenças desencadeadas pelos muitos ambientes em que se meteu.
É a tese que defende no livro "It Takes a Genome: How a clash between genes and modern life is making us sick" (algo como "Só com um Genoma: Como o Choque entre Genes e a Vida Moderna Está nos Deixando Doentes"), que sai no fim do ano.
Pós-escrito
Depois de fechar o texto da coluna, consegui contato também com Youssef Idaghdour, primeiro autor do artigo na PLoS Genetics. Vale a pena ler o que ele disse sobre o estudo e sobre o "spin" do comunicado de imprensa da universidade sobre seu próprio trabalho:
A motivação por trás do projeto era simplesmente olhar para o tipo de alterações que ocorrem no nível da expressão gênica entre os modos de vida tradicional e urbanizado, dado que a incidência de doenças complexas tais como asma e depressão coincide com as transições no modo de vida. Concordo que não seja uma linha de pesquisa comum hoje em dia, mas em grande medida [isso vale] só para humanos. É um tanto desafiador, na realidade, amostrar a variação natural no nível transcriptômico [da expressão gênica, ou seja, quais genes estão sendo de fato lidos e utilizados pela célula] numa população humana.
Nós ainda acreditamos que o determinismo genético é importante. O que nossos resultados mostram é a possibilidade de que a expressão gênica seja dependente do contexto. A última afirmação não é um achado particularmente novo, mas mostramos isso numa população humana (e não em linhagens celulares) aparentemente sadia que tem uma conformação genética similar, embora com modos de vida distintos em domínios geográficos diferentes.
O que eu acrescentaria a este ponto é o fato de que, apesar do dilúvio de dados genéticos na década passada, a identificação de variantes genéticas é prejudicada pela complexidade da etiologia das doenças humanas. Muitas das associações genéticas descobertas até o momento dão conta de uma pequena fração da variação e, com freqüência, levam a fracassos quando se tenta reproduzi-las com populações diferentes. Creio que só devemos nos alegrar com o fato de que fatores ambientais tenham dado forma à biologia das espécies (incluindo a humana) por meio tanto de um efeito direto quanto de interações gene-ambiente.
A imprensa usualmente usa os termos "nature" [natureza] e "nurture" [criação] como uma frase de efeito conveniente para os papéis da genética e do ambiente, mas acredito que "interações gene-ambiente" são um modo mais apropriado de enquadrar nossa linha de pesquisa.
Agradeço a Idaghdour pelas observações. Anoto apenas que, como é comum entre cientistas naturais, ele parece fazer uma pequena confusão entre "determinismo" (que eu definiria apressadamente como a noção de que efeitos observados são produto direto de uma ou poucas causas discretas e suficientes) e "reducionismo" (método de pesquisa que busca discriminar o peso ou o papel de tantos fatores causais quantos estiverem envolvidos na produção de um efeito). No meu modo de ver, o próprio conceito de interações gene-ambiente defendido por Idaghdour é contraditório com o de determinismo genético - mas este é só o meu modo de ver.
FDA debate testes de terapias com células embrionárias
Em azul, camada de células de retina recuperadas com células-tronco embrionárias (Foto: Reprodução/ACT)
Se você acha que os EUA estão atrasados na pesquisa de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) porque George Bush proibiu pesquisas com embriões, pode tirar o cavalo da chuva. Bush só proibiu o uso de verbas federais para esse tipo de pesquisa. Atrasado, literalmente, está o Brasil, que permitiu os estudos, em 2005, mas a rigor não permitiu, porque uma ação direta de insconstitucionalidade se arrasta desde então, sem decisão à vista do Supremo Tribunal Federal (como registrei aqui).
Leio agora na agência Bloomberg que três empresas americanas já se preparam para fazer, talvez ainda em 2008, testes pré-clínicos (fase 1) de tratamentos com CTEHs transformadas (diferenciadas) em células de reposição de tecidos lesados. São elas:
Geron Corp., de Menlo Park, Califórnia - Em meados do segundo semestre poderá iniciar testes preliminares com células nervosas derivadas CTEHs (oligodendrócitos e neurônios dopaminérgicos) no tratamento de traumas de medula espinhal, que confinam tantas pessoas a cadeiras de rodas. Até o momento a empresa só obteve a chamada prova de princípio de que essa terapia celular poderia funcionar, ao restaurar a função de nervos seccionados de ratos com a ajuda de células humanas. Falta provar que é seguro (esta é a função do teste de fase 1) e que funcionaria também em gente (fase 2).
Advanced Cell Technology, de Alameda, Califórnia - A empresa já obteve das CTEHs células pigmentares da retina que pretende testar no tratamento da degeneração macular, moléstia que pode provocar perda progressiva da visão e afeta de 15% a 25% das pessoas com mais de 75 anos (estimam-se 60 mil novos casos por ano no Brasil). A ACT prevê um mercado de US$ 28 bilhões para o tratamento, se der certo. Veja uma apresentação da empresa sobre a pesquisa, em inglês, aqui.
Novocell, Inc., de San Diego, Califórnia - Em fevereiro, a companhia anunciou ter obtido de CTEHs células pancreáticas capazes de produzir insulina em camundongos. Outra prova de princípio, neste caso de que a terapia com células embrionárias poderia tratar pacientes de diabetes tipo 1, que hoje dependem da injeção constante de insulina.
Não por acaso as três empresas se encontram na Califórnia. O Estado do Oeste dos EUA há muito se voltou para a alta tecnologia e embarcou cedo no trem das células-tronco. Em 2004, por meio da Proposição 71, o governo estadual consultou a população sobre a criação de um Instituto de Medicina Regenerativa (CIRM), e obteve autorização para investir US$ 3 bilhões na iniciativa. Enquanto isso, no Brasil, discutia-se se era o caso de permitir a pesquisa com embriões (e ainda discutimos).
Hoje em dia, nos EUA, o debate já é outro: como testar a segurança das CTEHs, ou melhor, das células terapêuticas delas derivadas. CTEHs são células polivalentes ("pluripotentes", no jargão biomédico), capazes de assumir a identidade de células da maioria das centenas de tecidos que compõem o corpo humano: sangue, dente, cérebro, músculo, osso etc. É preciso ter certeza de que as CTEHs usadas no tratamento vão se transformar só nas células do tecido que se quer regenerar, e em nada mais.
"Você não vai querer um dente crescendo em seu olho, portanto precisamos saber com absoluta certeza o que vai acontecer", disse à Bloomberg Robert Lanza, diretor da ACT. "Não é do interesse de ninguém correr riscos de qualquer tipo."
O problema é que ninguém sabe que tipo de testes é preciso fazer, porque se trata de uma terapia nunca antes experimentada. Nem se existiria uma maneira de padronizar esses testes, como em geral se faz com novos medicamentos, ou se será necessário desenvolver um padrão para cada tipo de células e terapia desenvolvida a partir das CTEHs.
Foi com esse objetivo que a agência de alimentos e fármacos dos EUA, a FDA, realizou cinco dias atrás uma reunião exploratória, como noticiou a revista The Scientist. Não se alcançou definição alguma - a não ser sobre a necessidade de criar um ensaio-modelo para testar a capacidade de cada tipo de célula derivada de CTEHs para induzir tumores (não adianta nada resolver tetraplegia, cegueira ou diabetes e ao mesmo tempo arranjar um câncer para o paciente). Mas pelo menos estão discutindo.
E aqui, na Terra dos Papagaios, não conseguimos nem saber se e quando o STF dará uma decisão final sobre pesquisas com embriões. Quem é que se atrasou?
Parkinson: novo argumento contra pesquisa com embriões
Reprodução/PNAS Imagem do artigo mostra células induzidas integradas no cérebro de camundongo
O ministro Carlos Alberto Menezes Direito, do Supremo Tribunal Federal (STF), vai adorar o novo estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) sobre células-tronco. Ao pedir vista, na sessão de 5 de março, Direito emperrou a decisão do STF que, tudo indica, manteria a legalidade da pesquisa com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs). Seu prazo de 30 dias encerrou-se sexta-feira, mas Direito, como os outros ministros do STF, estão acima desses constrangimentos a que estão submetidos os comuns dos mortais.
Melhor para ele e para tantos quantos sustentam a ação direta de inconstitucionalidade (Adin nº 3.510) iniciada pelo então procurador-geral da República, Claudio Fonteles, contra a Lei de Biossegurança, por ela permitir a pesquisa com embriões inviáveis, ou então congelados em clínicas de reprodução há mais de três anos. "Tantos quantos", no caso, são aqueles católicos dedicados - como Direito e Fonteles - que não admitem a destruição do embrião para obter as CTEHs, que equiparam a "assassinato" (sua tática, já se vê, é atirar na pesquisa com embriões para fulminar o aborto).
Melhor porque o estudo que sai hoje no periódico da academia de ciências dos EUA (PNAS) lhes traz mais um argumento. Problemático, mas mais um. A equipe de Rudolph Jaenisch no MIT mostrou, em camundongos, que se pode fazer com células adultas coisa muito parecida com o que se pretende fazer com CTEHs contra o mal de Parkinson.
As células que Jaenisch e cia. usaram são as chamadas de iPS, abreviação anglo-saxã para "células-tronco pluripotentes induzidas" (em português se usaria talvez a sigla CTPi). É uma técnica que permite ativar quatro genes que tornam células adultas muito parecidas com células embrionárias, ou seja, entidades capazes de se transformar em células de vários tecidos do corpo. No caso, neurônios produtores de dopamina numa área do cérebro chamada de substantia nigra. É a falta do neurotransmissor dopamina nessa região que provoca os tremores e, no limite, a paralisia característica de Parkinson.
A idéia é que, sendo tão similares, as iPS possam ser usadas para repovoar o cérebro do paciente de Parkinson com neurônios dopaminérgicos zero-quilômetro, sem necessidade de produzir embriões clonados de células adultas do paciente para depois extrair deles as CTEHs para tratamento (a chamada clonagem terapêutica). Bastaria, em princípio, retirar células da pele do parkinsoniano, induzi-las à pluripotência e depois diferenciá-las (fazer com que se transformem) em neurônios novos em folha.
Obviamente, Jaenisch e equipe estão muito longe disso. Primeiro, porque só obtiveram uma prova de princípio: as iPS podem ser transformadas em neurônios e se integram no cérebro, diminuindo os sintomas de Parkinson. Mas apenas em camundongos, por ora. E eles mesmos alertam que o mecanismo de indução é arriscado, porque a reprogramação genética é feita com auxílio de vírus, contumazes causadores de encrencas. O grupo alerta no artigo que seria preciso criar um meio de conseguir a indução sem recorrer a transformação genética para obter uma terapia segura, aplicável em seres humanos - isso, claro, se o modelo usado com roedores puder ser reproduzido em nossa espécie, o que nem sempre ocorre.
Não há dúvida de que Direito, Fonteles e seu séquito católico lançarão mão desse argumento a mais, mas não é um argumento tão bom assim. As iPS podem eventualmente substituir CTEHs, certo, mas só depois de superarem "n" problemas técnicos, tanto ou mais que as CTEHs. Não deriva daí razão alguma para abandonar nenhuma das vertentes de pesquisa, se a questão for encarada do ponto de vista do benefício potencial - e remoto, é sempre bom repetir - para os pacientes. Mas os opositores da pesquisa com embriões estão preocupados mesmo com a doutrina católica, perdão, com a santidade, perdão, com a dignidade da vida dos embriões congelados.
Na realidade, o trabalho no PNAS é só um tijolo na muralha da China que a biomedicina procura erguer contra doenças degenerativas como Parkinson. Este projeto também é abalado, de tempos em tempos, por terremotos - como um outro estudo, de Jeffrey Kordower (Universidade Rush, de Chicago, EUA) e equipe de várias instituições, publicado eletronicamente ontem do periódico Nature Medicine.
Kordower conta no estudo que uma paciente tratada com células fetais (e não embrionárias; trata-se de ums alternativa menos avançada e mais limitada), os sintomas de Parkinson voltaram 14 anos depois do transplante. Isso reforça uma corrente de especialistas na doença para os quais ela deriva de algum outro fator no corpo, capaz de degenerar também as células transplantadas, com o passar do tempo.
Ou seja, mesmo que a terapia celular (fetal ou embrionária, induzida ou obtida por clonagem) um dia deixe de ser experimental e se torne de uso corrente, ela estará apenas ganhando tempo para o parkinsoniano. É melhor que nada. Mas não é o milagre que muitos enxergam nas CTEHs, instigados pela propaganda não menos irresponsável que a de católicos dogmáticos, ainda que com sinal trocado.
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