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Biotecnologias
Macacos verdes me mordam
(...) leitores mais interativos não pestanejam antes de agredir o jornalista, outros leitores e o próprio bom senso. Reeditei a experiência pela enésima vez na quarta-feira, ao noticiar no blog Ciência em Dia um feito biotecnológico significativo, a reprodução de saguis transgênicos e fluorescentes no Japão. Para encurtar a história, direi só que a ideia dos pesquisadores da Universidade Keio é obter animais mais úteis para a pesquisa de doenças como Alzheimer e Parkinson. Em lugar de camundongos geneticamente modificados para desenvolver males semelhantes, pretendem usar macacos, bichos com fisiologia e constituição mais próximas do homem. Esse é o objetivo final. Por ora, a equipe japonesa obteve só o que se chama de prova de princípio. Introduziu em saguis um gene de água-do-mar que faz o organismo exibir um brilho verde sob luz ultravioleta. Não tem nada a ver com diversão. O propósito do brilho verde é verificar mais facilmente se o gene foi mesmo incorporado em todos os tecidos, inclusive nas células reprodutivas, como espermatozoides e óvulos. Foi, e o grupo conseguiu provar obtendo uma segunda geração de macaquinhos transgênicos verdes. O assunto é polêmico, por envolver experimentos com animais e, pior, primatas. Assinalei esse aspecto controverso na nota do blog. Partilho da opinião de alguns especialistas em bioética de que macacos merecem mais proteção contra excessos em experimentação científica do que animais menos aparentados com seres humanos, como roedores. Das cerca de 20 mil pessoas que leram a nota nas primeiras seis horas em que esteve no ar, 27 se animaram a comentar. Foi um festival de protestos contra o experimento. Até aí, nada demais. Sentimentalismo com animais parece ser uma faculdade tão bem distribuída quando o bom senso cartesiano. O fato deprimente está nas expressões e raciocínios empregados, que de cartesianos não tinham nada. Qualificar autores do estudo e o mensageiro da notícia como "idiotas" é um dos recursos mais usados. Prejulgar o experimento como supérfluo e cruel, outro. Defensores irrefletidos dos direitos dos animais adoram também desafiar os cientistas a se oferecerem, e a seus filhos, como cobaias de seus experimentos, em lugar de torturar os bichinhos... Esse povo parece que nunca tomou remédios, todos testados em animais. Quantos não terão nascido por meio de cesarianas, ou foram salvos da morte por cirurgiões que treinaram técnicas de corte e costura na carne viva de cães e porcos inocentes? Esta coluna é a primeira a advogar que não se pode dar carta branca a pesquisadores em matéria de experimentação com animais e que eles devem satisfação à sociedade sobre esforços para reduzir o sofrimento e o abuso nos laboratórios. Mas tudo tem limite -o limite do bom senso.
Leia íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 11h52
Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão 
Filhotes de sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) geneticamente modificado também nasceram com o gene para brilhar O periódico científico Nature traz em sua edição de amanhã uma notícia perturbadora, ao menos para alguns leitores deste blog: pesquisadores do Japão liderados por Erika Sasaki (que desconfio ser brasileira, uma fisioterapeuta formada na PUC-PR em 1999, mas ainda não consegui confirmar a informação) conseguiram criar um sagui transgênico capaz de transmitir o gene extra - no caso, para produzir uma proteína fluorescente verde (GFP) - à sua prole.
Adendo às 21h30 de 27/5: Não encontrei nenhuma indicação firme de que Erika Sasaki seja brasileira. Creio que me precipitei. Uma pesquisa mais atenta no Google Scholar revela que a ES desse artigo na Nature atua no Japão pelo menos desde 1994. Não são os primeiros macacos geneticamente modificados, mas sim os primeiros que tiveram o transgene incorporado à sua linhagem germinativa de células. No caso, uma macho cujos espermatozóides carregam o trecho de DNA introduzido para o bicho adquirir um brilho verde sob luz ultravioleta (o gene GFP é em geral usado como marcador, pois sua incorporação pelo organismo modificado pode ser facilmente constatada). Os dois macaquinhos da foto são filhotes dele. O estudo está sendo saudado como uma façanha e ocupa a capa da Nature de amanhã. Ele abre espaço para prosseguir com parentes mais próximos do homem na avenida aberta para a pesquisa biomédica com camundongos transgênicos, cuja modificação genética permitiu criar roedores-modelo de doenças humanas para estudo mais detalhado e testes de novos remédios. 
Seres humanos e roedores partilham ancestrais comuns que viveram há uns 75 milhões de anos. Já macacos do Novo Mundo como o sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus), nativo do Nordeste brasileiro, chegam muito mais perto de nós, pois nos separamos deles há uns 40 milhões de anos. Isso faz com que nossos corpos e os deles sejam muito mais semelhantes, o que facilita a compreensão da fisiologia de muitas doenças, em comparação com os camundongos. Ser mais parecido quer dizer também mais próximo em outro sentido: para muita gente, inclusive alguns especialistas em bioética, macacos são seres mais "humanos", em certo sentido, com faculdades cognitivas e sensíveis mais parecidas com as nossas. Eles teriam algo mais parecido com consciência, talvez. Há quem considere que isso desautoriza coisas como a modificação genética, ou até mesmo o uso como animais de pesquisa biomédica, em que muitas vezes o experimento exige o sacrifício dos animais.
Escrito por Marcelo Leite às 16h13
Células-tronco dão na vista
Recebi do leitor Tarciso Schirmbeck os comentários abaixo, acerca da coluna "Células-tronco à vista". Reproduzo-os com autorização do autor, pois creio que reforçam e ampliam a preocupação implícita na coluna:
Gostaria de parabenizá-lo pelo artigo deste domingo (24-05-09) no caderno Mais da Folha de S.Paulo. Esse artigo bastante me interessa por diversos aspectos: minha mãe (além de outros sete membros da família) tem retinose pigmentar; sou oftalmologista (naturalmente que motivos conscientes e inconscientes influenciaram minha escolha); fiz minha especialização no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (daí o fato de conhecer bem os pesquisadores mencionados – Rodrigo Jorge, André Messias, Rubens Camargo e Júlio Voltarelli). Como todos os médicos tenho esperança que muitas (e não todas) doenças possam ter um melhor prognóstico, e até mesmo a cura, obtidos por meio do desenvolvimento de terapias com células-tronco. Nada seria mais indescritível do que observar uma melhora, mesmo pequena para os nossos desejos, da visão de minha mãe. Devo, também, reforçar que confio na seriedade dos pesquisadores envolvidos (pelo menos se estes mantiveram os princípios da época em que os conheci). Todavia, conhecendo toda a complexidade das DEZ camadas da retina, da interação entre elas e, consequentemente, destas com as ouras partes das vias neurais visuais (corpo geniculado lateral, radiações ópticas, córtex occiptal etc.), torna-se difícil acreditar que algumas células-tronco indiferenciadas, simplesmente “jogadas” dentro do corpo vítreo, vão “promover uma recuperação da visão”. Acredito ser esta etapa apenas um passo inicial desse processo, que teria como resultado somente avaliar a tolerância dos meios ópticos a esse tipo de célula, nada mais. Qualquer benefício ou estímulo não poderia ser creditado às células-tronco em si, mas à inflamação causada pelo procedimento e, naturalmente, ao efeito placebo envolvido em todo o contexto. Não venho questionar a iniciativa, mas tão-somente a simplicidade do experimento perante a enorme esperança a ele creditado. Devemos acompanhar melhor a evolução desses trabalhos antes de qualquer comemoração precipitada.
Escrito por Marcelo Leite às 10h40
Células-tronco à vista

Fazia algum tempo que as células-tronco não frequentavam o noticiário. Na semana que passou, essas células-curinga voltaram à cena por obra de um grupo do Hemocentro de Ribeirão Preto e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de lá. A ideia, desta vez, é fazer cegos voltarem a ver... O grupo injetou esse coquetel de células, há poucos dias, nos olhos de três portadores de retinose pigmentar, doença de origem hereditária que leva à cegueira. Elas foram obtidas dos próprios pacientes, para não haver rejeição. A injeção foi no vítreo, o recheio do globo ocular. O plano é que as células-curinga se instalem na retina, a tela no fundo do olho onde se formam as imagens, e ajudem a recuperar vasos sanguíneos e outras estruturas. A esperança, menos que uma hipótese, é que isso reverta parte da degeneração que resulta em cegueira. (...) Os resultados obtidos com animais são "contundentes", segundo o oftalmologista Rodrigo Jorge, integrante do grupo. Esses estudos, em geral com camundongos, foram feitos fora do Brasil. O laboratório mais destacado é o de Atsushi Otani, do Instituto Scripps, da Califórnia (EUA). Para o leigo, o mesmo adjetivo talvez não ocorra depois de ler os efeitos obtidos com os roedores. Empregam-se camundongos programados para desenvolver a degeneração da retina, que de fato chega a ser interrompida. Mas só se as injeções ocorrerem até o 16º dia de vida (30 bastam, no laboratório, para a cegueira terminar de se instalar no bicho). A melhora pode ser medida por meio de eletrorretinografia, um teste que registra a atividade elétrica das células da retina sensíveis à luz. Funciona. Mas os autores do estudo alertam que o padrão de atividade é inteiramente anormal. O exame das retinas, depois de sacrificados os animais, também mostra anormalidades na proporção entre suas células sensíveis (bastonetes e cones). (...) Jorge diz que o grupo só fez o anúncio porque um dos pacientes começou a falar do tratamento em sua cidade, Birigui, o que gerou "especulações". Foi a sua maneira de prevenir a proliferação de boatos e meias verdades, afirma o pesquisador.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 18h27
Que pandemia?

Bastaram três semanas para a pandemia de gripe suína - perdão, influenza A (H1N1) - chegar, aterrorizar e sumir. Ao menos das manchetes. Terá servido, porém, para ajudar a vender um livro interessante, "Vacinado", de Paul A. Offit (Ideia e Ação, 2008, 256 págs., R$ 39,90). (...) O herói da história é Maurice Hilleman, por coincidência nascido em 1919, durante a maior e mais mortífera pandemia de gripe de todos os tempos. Matou, provavelmente, mais de 50 milhões de pessoas. (...) [Em] abril de 1957, Hilleman lia o jornal "The New York Times" em sua sala (...) quando topou com uma reportagem sobre gripe aviária que grassava em Hong Kong. Dez por cento da população afetada, filas de 20 mil pessoas nas portas dos hospitais. "Meu Deus: é a pandemia, ela chegou!" -disse Hilleman a si mesmo, segundo Offit. O pesquisador telegrafou para conhecidos no Japão pedindo informações. Acabou localizando um jovem da Marinha japonesa que passara por Hong Kong e adoecera. Um oficial médico fez com que o marujo gargarejasse com salmoura e enviou o produto para Hilleman. Apenas um mês depois de ler o artigo no jornal, recebia o preparado, e começou o trabalho de verificar se era um vírus com potencial pandêmico. O processo era para lá de laborioso. (...) [M]ultiplicadas as partículas virais, passou a testá-las com o soro sanguíneo de soldados estocado no Walter Reed. Não encontrou nenhum que tivesse anticorpos contra o vírus. Usou em seguida amostras de soro de civis. Nada. Certo de que era um agente ameaçador, contra o qual a maioria das pessoas não teria defesa, enviou amostras para a recém-criada Organização Mundial da Saúde, para distribuição aos laboratórios do mundo. Distribuiu uma nota à imprensa avisando da iminente pandemia, mas nenhum jornal se interessou (outros tempos). Em questão de meses se confirmou que só tinham anticorpos contra o vírus umas poucas pessoas da Holanda e dos Estados Unidos. Eram sobreviventes da pandemia de 1889-1890, que vitimara 6 milhões. Em junho, os primeiros lotes de vacina eram produzidos. Mesmo assim, a pandemia de 1957 matou 70 mil americanos e 4 milhões noutras partes do mundo.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo de domingo passado (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 18h46
Células-tronco na Science 
Células-tronco do laboratório de Stevens Rehen A revista Science de hoje traz uma reportagem (DOI:10.1126/science.324.5923.26) minha sobre a Rede Nacional de Terapia Celular financiada pelos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia, com destaque para o Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) iniciado por Lygia da Veiga Pereira, na USP, e Stevens Kastrup Rehen, na UFRJ. Transcrevo os três últimos parágrafos, destraduzidos:
No início de 2010, esperam ter a capacidade de produzir 30 milhões de células pluripotentes por mês, certificadamente livres de anormalidades cromossômicas e contaminação por micoplasma. O LaNCE planeja dobrar a produção assim que 450 m² de laboratórios reformados estiverem disponíveis. "Se isso funcionar, será fantástico", afirma a pesquisadora de células-tronco [Mayana] Zatz. "Precisamos dessas core facilities especializadas, como as que existem nos EUA e na Europa, fornecendo insumos de pesquisa para todo o país. Mas também precisamos de financiamento seguro de longo prazo. Três anos está longe de ser suficiente." A reação do exterior também tem sido entusiástica. "Eu realmente aplaudo o governo brasileiro por seu investimento em tecnologia de células-tronco", afirma Marie Csete, pesquisadora-chefe do Instituto de Medicina Regenrativa da Califórnia, em São Francisco. Ela e [Jeanne] Loring [do Instituto de Pesquisa Scripps] gostariam de ver o grupo derivar linhagens de células iPS [pluripotentes induzidas] das muitas populações geneticamente diversificadas do Brasil pata testar se novos medicamentos funcionam da mesma maneira em grupos diferentes. "Células iPS de pacientes no Brasil podem ser empregadas para estabelecer modelos de 'doenças-numa-placa' que estarão disponíveis para teste sistemático de medicamentos em bibliotecas de novos compostos em [seu] país."
Escrito por Marcelo Leite às 11h26
Toalha jogada 
Células-tronco embrionárias humanas (grãos azuis) aderidas a microcarregador Foto: Laboratório de Stevens Rehen (UFRJ) Ao vencedor, as batatas. Stevens Kastrup Rehen decerto conhecia a máxima machadiana quando retornou ao Brasil, em 2005, para retomar um posto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). (...) Rehen poderia acrescentar agora, com conhecimento de causa: ao perdedor, as toalhas. Seria, no entanto, render-se a uma visão estreita do que significa perder e ganhar, em ciência. Jogar a toalha na competição internacional, em seu caso, significa apenas um lance no clássico que é a pesquisa com células-tronco no Brasil. Um clássico em que ele entrou para decidir. (...) Tanto a pesquisa básica, estágio atual, quanto a futura medicina regenerativa exigirão milhões e milhões dessas células, o que não é possível com os métodos artesanais dos laboratórios. Rehen e [Lygia da Veiga] Pereira se juntaram a Leda Castilho, também da UFRJ, para iniciar uma produção mais industrial e confiável. Há um ano, Rehen e Castilho multiplicaram células-tronco embrionárias, ainda importadas, em biorreatores. Sua versão da técnica utiliza frascos rotatórios, para proporcionar às células um banho mais eficaz de nutrientes, e microesferas sobre as quais elas podem agarrar-se e dividir-se. A façanha foi relatada pela imprensa brasileira. Para a opinião pública leiga basta o critério dos editores, mas, para a comunidade de pesquisa globalizada é preciso o aval de periódicos científicos, os famigerados "journals". Eles exigem que todo artigo passe pelo crivo da "peer review" (revisão por pares), crítica especializada e, em geral, anônima (o parecerista não sabe quem é o autor). [Correção em 31/3: Esta informação está errada. Em geral é o autor que desconhece a identidade do parecerista, e não vice-versa.] Começou a corrida pela publicação. Rehen conta que enfrentou resistência dos revisores, possivelmente desconfiados de um trabalho de ponta proveniente de um laboratório periférico num país tropical. Um grupo de Wisconsin (EUA), a Roma das células-tronco, saiu na frente. Ao trombar com o quarto "journal", Rehen jogou a toalha. Partiu para um periódico brasileiro, "Brazilian Journal of Medical and Biological Research". Apesar de editado em inglês, sua penetração internacional é menor. O artigo foi aceito nesta semana. A toalha foi jogada, mas os dados científicos também. Ninguém tira de Rehen, Pereira e Castilho o mérito de garantir que, se a medicina regenerativa com células-tronco um dia entrar em campo, o Brasil poderá partir para o ataque com seus próprios talentos e células.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 11h19
Males da infância  Foto: Reprodução
(...) [E]studo da universidade canadense McGill, na última edição do periódico científico "Nature Neuroscience", focaliza um mecanismo que ajuda a entender como, de modo concreto e não por meio de vagas "pulsões", experiências da infância conformam a base do comportamento do adulto. McGowan não trabalhou com genes, que alguns desinformados ainda supõem conter todo o destino de uma pessoa escrito em código cifrado de DNA. Deu preferência para um dispositivo químico (metilação) que silencia genes, ou seja, impede que eles sejam usados pelas células. Fez essa escolha a partir de pesquisas com ratos apontando que era um mecanismo importante para gravar no cérebro efeitos de vivências infantis. Ninguém sabe se roedores têm complexo de Édipo, mas já se conhece bem o resultado de lambidas frequentes das ratas sobre seus filhotes. Eles se tornam mais resistentes ao estresse, característica que mantêm até a vida adulta. E esta resposta tem a ver com hormônios glicocorticóides, como o cortisol (conhecido como o "hormônio do estresse"). No foco da pesquisa canadense estava a metilação do gene NR3C1, mordaça bioquímica que atrapalha a comunicação desses hormônios. Seguindo a pista dos ratos, a equipe de McGowan levantou a hipótese de que seres humanos maltratados na infância -por abuso sexual, espancamentos etc.- apresentariam o mesmo padrão de silenciamento. Acertaram na mosca do alvo invisível para Freud. Como não dá para fazer com gente viva os experimentos infligidos a roedores, o grupo da McGill recorreu a cadáveres. Mais exatamente, cadáveres de suicidas, divididos em dois grupos: com e sem história documentada de abusos na infância. (...) O resultado esperado era que o padrão de silenciamento de glicocorticóides entre suicidas maltratados na infância fosse mais intenso do que entre os outros suicidas ou entre não-suicidas. Não deu outra. McGowan mostrou que, assim como acontece com ratos, seres humanos carregam para a vida adulta marcas indeléveis do que os entes queridos lhes fazem (ou deixam de fazer). (...) O inconsciente molecular, por assim dizer -de cuja compreensão não nos encontramos tão mais próximos assim do que estava Freud quando escreveu, em 1895, seu "Projeto para uma Psicologia Científica".
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 18h00
Sonhos de Natal na revista Piauí

Esforço de reportagem no Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN-ELS)
(Foto: André Pantoja)
Saiu reportagem minha na revista Piauí, "Sonhos de Natal", sobre pesquisas chefiadas por Sidarta Ribeiro - um neurocientista fã de Freud, veja só - no Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Infelizmente, não está disponível na internet, nem para assinantes. Só para aguçar sua curiosidade e fazê-lo(a) sair correndo à banca para comprar seu exemplar, reproduzo os parágrafos iniciais:
Minha tática de jogador estreante é pegar tudo que há de munição e bônus pelos corredores da fortaleza, sem saber ao certo para que servirão. Só não dá para correr, pressionando o botão azul da esquerda no joystick, embora tenha sido instruído sobre o recurso, nem para decifrar as informações numéricas na base da tela do computador. Falta coordenação. Sigo em frente, incapaz de definir o que causa mais incômodo e tédio – se a ignorância das regras opacas do jogo, a repetição interminável dos passos iniciais no labirinto de portas, pátios, escadas e rampas ou os 29 fios brancos que partem dos eletrodos espalhados pelo couro cabeludo, rosto e peito. Sentada à esquerda, a estagiária Luciana Rocha não dá descanso. A cada morte no jogo, sua mão delicada e ligeiramente fria, que ainda há pouco pincelava cola sobre os contatos fixados com esparadrapo na cabeça, pressiona a tecla que reinicia Perdição (Doom) pela enésima vez.
Os muros em volta são de pedra escura. No centro, um patíbulo. À esquerda encontra-se a Coisa, de costas. Das articulações projetam-se cones pontiagudos. A luta começa com o impulso da manopla para a frente e um toque quase automático sobre o botão azul à direita, reservado para a troca de armas. Após quase uma hora de tentativas, está claro que o revólver na mão direita é inútil contra a couraça e que A Coisa vai virar e esquivar-se pela direita.
Toda a esperança de sobrevida reside num ataque frontal. Em outras raras investidas a Coisa termina derrotada. É hora de caminhar para a porta secreta de pedra cinza. Novo toque sobre o botão azul providencia outra troca de arma, pois a experiência mostrou que o novo adversário, um guarda munido de fuzil, sucumbe apenas a tiros de escopeta. Apertando o botão vermelho arredondado, à esquerda, ergue-se a porta de pedra: lá está ele, pronto para iniciar o tiroteio. Caso consiga alvejá-lo, haverá outro, e mais outro, e clones de Coisas com suas bolas de fogo, mais portas de aço e portas de pedra, piscinas azuis e piscinas amarelas, munições e cargas de força a serem recolhidas...
O feixe de fios puxados para trás, como num rabo-de-cavalo, parece ser a origem da dor de cabeça que começa a se impor. São quase onze e meia da noite de uma segunda-feira de maio, e não vejo a hora de despregar a mão suada do joystick e sair do quarto-laboratório improvisado no primeiro andar do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) no bairro da Candelária, em Natal (RN), no qual entrei às oito e meia e onde já havia dormido conectado no dia anterior. Mais de uma hora havia sido gasta no preenchimento de questionários sobre hábitos de sono e atividades do dia. Mas ainda estava por vir o pior da experiência como cobaia voluntária, a 22ª deste experimento projetado por André Pantoja, fisioterapeuta por formação que deixou o Rio de Janeiro para arriscar-se num mestrado no mais novo centro de neurociência do Brasil.
Escrito por Marcelo Leite às 21h54
Pílulas antideterministas do Dr. Lander
Nas origens bizantinas deste blog, quatro anos atrás, costumava provocar amigos cegos de paixão pela biologia molecular (minha paixão por ela sempre foi mais, como direi, intelectual) com posts numerados intitulados "Pílulas antideterministas do Dr. Leite". Levei muita pancada por causa delas. Até me apelidaram de "GAGÁ-box" por causa disso - uma abstrusa referência ao mecanismo de leitura do DNA que só os iniciados podem entender, o que já dá uma idéia de quanto essse pessoal - meus amigos, insisto - está na praça mais para confundir do que para explicar.
Tudo bem. Se fosse me incomodar com todas as pancadas, incluindo fogo amigo, que recebo por pensar com a própria cabeça, já teria parado de escrever há muitos anos.
Pois agora, um desses amigos fanáticos da biologia molecular, alerta para a reportagem (aqui, em inglês) de Natalie Angier no jornal The New York Times sobre a obsolescência do conceito de "gene". Reconheço no texto vários argumentos e raciocínios que venho expondo, se me permitem a falta de modéstia, há anos (como no livro Promessas do Genoma, de 2007, baseado numa tese de 2005).
Mas o mais engraçado foi dar com as explicações e justificativas tortuosas de Eric Lander, um dos campeões das metáforas fundamentalistas sobre genes. Na minha leitura, elas se aproximam da afirmação "os fins justificam os meios", ou seja, tudo bem a gente vender o genoma como o Livro da Vida e só entregar um folheto de instruções de computador, como diz Angier. Até posso entender que cientistas ultrapragmáticos defendam essa retórica de resultados. Mas jornalistas de ciência...
Leia o que disse à repórter o articulado Lander, primeiro autor do artigo do Projeto Genoma Humano publicado na Nature em fevereiro de 2001:
“Geneticistas abusam alegremente do termo ‘gene’ para se referir a muitas coisas em muitos contextos. Isso pode ser uma fonte de enorme consternação para quem assiste de fora e quer entender a conversa, mas os geneticistas nem se incomodam.”
"Você não deveria se preocupar com o fato de ter de acrescentar outras camadas às coisas conforme segue em frente. Você nunca poderá capturar algo como a economia, um genoma ou um ecossistema com um só modelo ou uma taxonomia - tudo depende das questões que você quiser formular. Você precisa ser preparado para dizer que esta é a simplificação da terça-feira e que a de quarta pode ser diferente, por causa do incrível progresso que foi realizado por meio dessas simplificações.”
Então tá. Tudo bem os leigos continuarem de fora, querendo entender, e os geneticistas nem aí - os leigos que pagam pelas pesquisas, quer dizer, eu e você.
Para mim jornalismo (científico) existe para desafinar esse coro dos contentes, entre outros.
Escrito por Marcelo Leite às 22h43
O clone que veio do frio

Quagga, parente extinto da zebra (Foto: Reprodução)
Uma das maiores emoções que vivi num cinema foi com "Parque dos Dinossauros" (1993). Logo no começo do filme de Steven Spielberg, os heróis recém-desembarcados na ilha Nublar deparam com a imagem inesquecível: uma manada de braquiossauros. Em movimento.
Cinema em estado puro -ou seja, mentira. Ilusão. Mas quanta beleza... Depois do cinema e da literatura, só mesmo a ciência para realizar diante de nossos olhos alguns dos desejos e visões que só conseguimos projetar na tela da mente. Imagino a emoção de Michael Crichton (morto terça-feira) ao ver "vivos" os animais de "Jurassic Park", livro em que se baseou o filme.
Lembrei-me de "Parque dos Dinossauros" ao saber que pesquisadores produziram no Japão clones de camundongos congelados há 16 anos. Obra de Teruhiko Wakayama, o Spielberg da biologia. Foi o primeiro a clonar um animal macho adulto, e agora nos brinda com outra façanha.
O grupo de Wakayama no Centro de Biologia do Desenvolvimento do instituto Riken incendiou a imaginação com seu artigo no periódico "PNAS". Se eu fosse Spielberg, já estaria pensando num "Parque dos Mamutes".
Pense na lista de animais extintos que seria possível, em tese, ressuscitar. Dodôs (as aves avantajadas das ilhas Maurício), megatérios (preguiças-gigantes da América do Sul), quaggas (primas com menos listras das zebras) e tigres-dente-de-sabre. (...)
Mais urgente, porém, seria considerar outra lista, a dos 627 animais incluídos no "Livro Vermelho" do Ministério do Meio Ambiente. Bichos como o cairara, macaco da espécie Cebus kaaporis, cercados por madeireiros na reserva biológica Gurupi (PA). (...)
Apenas por prudência, seria o caso de começar a pensar em construir um bom congelador para guardar amostras dessas 627 espécies. Já não estão fazendo isso com sementes do mundo todo, na ilha Svalbard, no Ártico?
Foi por iniciativa do governo norueguês. O mesmo que se dispôs a doar US$ 1 bilhão para a Amazônia brasileira, se mantivermos a redução no desmatamento (o que será fácil em 2009, com a crise financeira). A Noruega bem que poderia ceder também um cantinho, lá, para preservar amostras de nossa fauna que estão sem futuro.
Tenho até sugestão de nome para o projeto: "A Arca dos Manés". Se virar filme, "O Parque das Antas".
Leia a coluna inteira na Folha de S.Paulo, aqui (apenas para assinantes do jornal e do UOL).
Escrito por Marcelo Leite às 23h32
Genoma a US$ 399
A chamada genômica pessoal está mesmo deixando de ser uma ficção do marketing para se tornar realidade. A empresa 23andMe, dos Estados Unidos, anunciou que baixou o preço de sua análise individualizada do genoma de US$ 999 para U$ 399. Agora, se o serviço traz mesmo benefício real para o consumidor, isso já são outros 400. (...)
As opções mais em conta só fazem a chamada análise de SNPs (pronuncia-se "snips"). É a abreviação em inglês de "polimorfismos de nucleotídeo único", uma troca de letra em posições determinadas da cadeia do DNA. Cada um de nós pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes de outra pessoa.
A maioria dos pontos do genoma onde ocorrem essas trocas já está mapeada. Bilhões de outras posições na seqüência ou não comportam variações (as mutações seriam prejudiciais) ou elas não têm grande efeito. A lógica da análise de SNPs é que doenças comuns devem correlacionar-se com as variantes individuais. (...)
Quem consultar a lista de "condições" da 23andMe (muitas não são doenças; confira a relação, em inglês, aqui) se decepcionará. Há no rol de 80 itens algumas coisas importantes, como diabetes e câncer de mama, mas também sensibilidade ao sabor amargo e tipo de cera de ouvido. (..)
No caso do diabetes tipo 2, os 20 SNPs associados explicariam só 2% a 3% da alta incidência em algumas famílias. O cliente da 23andMe com essas variantes poderia concluir que terá a doença. Na realidade, só tem uma probabilidade aumentada.
Há quem veja no esquema um furo muito mais grave. O jornal "The New York Times" publicou na terça-feira reportagem de Nicholas Wade com o geneticista de populações David Goldstein, da Universidade Duke (EUA), na qual o pesquisador põe sob suspeita a própria base científica da hipótese doença comum/variante genética comum.
Para Goldstein, é mais provável que a maioria das pessoas com tais moléstias sejam portadoras de variações raras, cuja detecção está fora de alcance no momento. Os poucos SNPs suspeitos encontrados só informam sobre correlações fracas. Nada dizem sobre os mecanismos biológicos das doenças -isso, sim, daria grande poder preditivo à análise do genoma individual.
Consultado sobre empresas como 23andMe, Goldstein respondeu na bucha: "Não passam de genômica recreacional".
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo, aqui (só para assinantes). A reportagem de Wade no NY Times você encontra aqui.
Escrito por Marcelo Leite às 16h37
Polpa dentária vira espermatozóide humano em testículo de camundongo
Dois cientistas russos - Irina e Alexandre Kerkis - "importados" por Darcy Ribeiro para Campos de Goytacazes, que depois foram para a USp e terminaram na Clínica Abdelmassih em São Paulo (Irina também é do Instituto Butantan de SP), conseguiram uma proeza: identificar células-tronco na polpa de dente de leite de um doador macho humano, isolá-las, injetá-las no testículo de um camundongo e depois extrair dele espermatozóides humanos produzidos pelo animal.
Esquisito, porém esperto. Dois anos atrás a dupla já havia causado espanto ao conseguir produzir tanto óvulos quanto espermatozóides maduros in vitro (fora do corpo) a partir de células-tronco embrionárias (CTEs) de camundongo. O estudo abria a possibilidade inquietante de produzir óvulos (gametas por definição femininos) a partir de células masculinas. Comentei o assunto na época em uma coluna (que você pode ler aqui).
Soube da nova proeza com os dentes de leite e os roedores por meio de um press release (comunicado para jornalistas), que alerta tratar-se de pesquisa básica, ainda distante de aplicação clínica, mas que não deixa de falar em "esperança para homens inférteis". É o tipo da mensagem dupla que costuma acompanhar a promoção de certos estudos biotecnológicos.
Ora, em primeiro lugar dentes de leite só existem em meninos, não em homens adultos. Talvez se encontrem células-tronco com esse potencial nos dentes ou noutro tecido de um adulto infértil, mas não há garantia disso. A esperança é para lá de longínqua.
Depois, quem gostaria de engravidar com espermatozóides produzidos num roedor? Além da aversão simbólica, há questões de biossegurança, como a possibilidade de esse material ser infectado por vírus endógenos do animal.
O comunicado tem outros problemas, como chamar o Sunday Times de revista (é um jornal, que publicou reportagem sobre a pesquisa) e camundongo de rato (são espécies e gêneros diferentes, Mus musculus e Rattus norvegicus). Mas tem o mérito de reproduzir o abstract (resumo em inglês) do trabalho apresentado pelos Kerkis no Congresso Europeu de Reprodução Humana em Barcelona:
Human sperm cells yielded by adult stem cells transplantation into mouse testis
Kerkis, A.; Fonseca, SAS.; Lavagnolli, TMC.; Serafim, RC.; Abdelmassih, S.; Santos, EJC.; Pereira, VS.; Abdelmassih, R.; Irina Kerkis.
Stem Cell Laboratory, Roger Abdelmassih Human Reproduction Clinic and Research Center; Laboratory of Genetics, Butantan Institute, Sao Paulo, SP, Brazil.
Introduction: Two cellular lineages, the germline and the soma, are involved in the process of spermatogenesis. Diploid cells, which are committed to originating germ cells (GC), proliferate and differentiate, undergo meiosis and further maturate as sperm. This multi-step process is frequently prone to errors, which leads to defective sperm formation and as a result to male infertility. Different therapeutic approaches are being developed using animal models for male infertility treatment, such as the transplantation of spermatogonial stem cells (SSC) from fertile donors to the testis of infertile ones to obtain donor-derived spermatogenesis. Another approach involves the in vitro derivation of GC from adult stem cells (ASC). Here we extend both of these techniques aiming at the obtainment of patient-matched sperm cells from human adult stem cells using mouse testis as a conditioning environment. Material and Methods: Multipotent human immature dental pulp stem cells (hIDPSC) were isolated and reviously characterized by our group. At the present study female and male hIDPSC were used. RT-PCR analysis was performed in undifferentiated hIDPSC for Oct4, Nanog, keratin (CK18), vimentin, integrin subunit b1 and deleted in azoospermia (Daz cluster gene). The cell suspension (105 cells) was stained with Vybrant CM-DiI and injected into the testis of fertile mice. Control mice were injected with physiologic solution. The mice were killed 3, 5 and 9 days after hIDPSC injection. Thin whole-testis frozen sections (5µm) were prepared. Presence of hIDPSC in mouse testis as detected by Vybrant CM-DiI and by Fluorescent in situ hybridization (FISH) for human sex chromosomes. The homing of hIDPSC, within mouse testis, was analyzed by confocal microscopy.
Results: Our data demonstrated that undifferentiated hIDPSC express Oct-4 and Nanog (markers of primordial GC), as well as markers detected in germinal epithelium (Vimentin, CK18 and integrin subunit b1) and DAZ, gene expressed in GC. After hIDPSC transplantation into mouse testis fluorescent signals were observed within transversal sections of seminiferous tubules (ST). At day 3 after transplantation, hIDPSC were detected mainly in cell compartment, where Leyding and Sertoli cells were located. At days 5 and 9, these cells formed fluorescently labelled clusters similar to defined GC associations within mouse ST, which contain the cells morphologically similar to spermatogonia and to human sperm, observed in central part of the lumen. In all experiments these fluorescent cells have been seen only in a few ST. Control mouse ST (without hIDPSC) did not show any fluorescence. FISH analysis for human sex chromosomes confirmed our findings of hIDPSC haploidization, during the process of GC differentiation.
Conclusions: We showed that undifferentiated hIDPSC already express several genes involved in GC development and differentiation, which suggest their GC commitment. When transplanted in mouse testis, hIDPSC underwent differentiation following sequential order of mouse seminiferous epithelium. Our data indicate that the mouse ST environment influences the process of hIDPSC differentiation, yielding human sperm cells, although at a low efficiency. In this manner, the use of an animal ST environment would be a tool for human ASC differentiation in order to achieve human donor-derived spermatogenesis.
The present work was supported by the Roger Abdelmassih Human Reproduction Clinic and Research Center
Escrito por Marcelo Leite às 12h06
Pilha fraca trabalha melhor
Não é de hoje que se conhecem os efeitos benéficos da restrição calórica _basicamente, comer pouco_ sobre a saúde e a longevidade. O problema é que as pessoas querem comer mais, e não menos. Para cinco pesquisadoras da USP, a saída talvez seja enfraquecer as pilhas do organismo para fazê-las trabalhar melhor.
Parece paradoxal, e é. A médica Alicia Kowaltowski e suas colegas do Instituto de Química centraram fogo nas mitocôndrias, organelas que fornecem energia para as células. Encontraram um modo de diminuir sua eficiência, em camundongos, o que prolongou as vidas dos roedores em cerca de 7%. De quebra, baixou seus níveis de glicose, triglicérides e insulina. (...)
O quinteto de cientistas decidiu mimetizar a restrição calórica com a ajuda do 2,4-dinitrofenol (DNP, para simplificar), um “desacoplador” de mitocôndrias. Ele promove uma diminuição na diferença de carga, transportando prótons (que têm carga positiva, ao contrário do elétron) para dentro da mitocôndria. É como se fosse um “curto-circuito” na bateria intracelular, resume Kowaltowski. (...)
“O que nossos estudos indicam é uma nova estratégia para controlar envelhecimento e doenças associadas: o desacoplamento mitocondrial”, conclui Kowaltowski. Seu plano é desenvolver e testar novos desacopladores, modificando o dinitrofenol para criar drogas eficazes em doses não-tóxicas.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Escrito por Marcelo Leite às 09h45
O cristão Francis Collins deixa direção do genoma
 Collins em sua Honda Nighthawk 750 cc
Depois de 15 anos à frente do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI, dos EUA), Francis S. Collins deixa o posto no próximo dia 1º de agosto. Foi o que anunciou em mensagem de correio eletrônico enviado para amigos e colegas. Collins estava ao lado de Bill Clinton e de Craig Venter em 26 de junho de 2000, quando a Casa Branca anunciou - com Tony Blair no link de satélite - a conclusão do seqüenciamento (soletração) do genoma humano (na verdade ele só seria finalizado em 2003).
Collins diz no e-mail que quer se dedicar mais a refletir, escrever e explorar novas oportunidades profissionais etc. etc. E avalia assim últimos 15 anos, seus e da genômica:
Olhando para trás, fico tremendamente orgulhoso por nossa obra coletiva de levar o Projeto Genoma Humano (PGH) à sua conclusão bem-sucedida em 2003 e pela nossa ampla gama de projetos de grande escala construídos sobre a fundação assentada pelo PGH. Cioletivamente, esses projetos e os dados inestimáveis que geraram têm transformado a pesquisa biomédica e capacitado pesquisadores no mundo inteiro. Estou orgulhoso também pelos compromissos desses projetos com a proteção da privacidade da informação genética e por considerarem as implicações éticas, legais e sociais da pesquisa genômica.
Em outras palavras, Collins tem orgulho de ter colaborado para tornar a genômica hegemônica na pesquisa biológica. Note que ele não deu uma palavra sobre a manutenção dos dados do genoma em domínio público, supostamente a sua grande batalha - ao lado do chefão britânico do PGH, John Sulston (que já abiscoitou o Nobel...) - contra o "mercenário" Venter.
De todo modo, um grande feito para um cientista adepto do motociclismo nas horas vagas e cristão fervoroso, autor do livro A linguagem de Deus - Um cientista apresenta evidências de que Ele existe (Editora Gente, 2007).

Por falar em genômica, a Nature de hoje traz reportagem de Helen Pearson sobre genômica pessoal, tema abordado aqui no último domingo.
Escrito por Marcelo Leite às 08h21
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PERFIL
Marcelo Leite é jornalista, colunista da Folha de S.Paulo e autor do livro "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp).
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