Ciência em dia
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Biotecnologias

O conto do gato hipoalergênico

 
 

O conto do gato hipoalergênico

Você pode não se lembrar mais dos gatos que não causariam alergia, graças à genética, porque jornais, revistas e TVs aparentemente também se esqueceram deles. A novidade apareceu em 2004 e repercutiu até 2006.

Quase ninguém conseguiria ter ficado sem saber da notícia, tantos foram os veículos que a divulgaram - Folha Online, Terra, O Globo, Estadão, G1, Veja Online... Não encontrei na Folha (edição impressa), mas pode bem ter saído e não aparecer no Google, que não é perfeito. Até a Scientific American incluiu o "feito" num quadro de reportagem sobre a domesticação de felinos.

Pois bem: leio agora no Biopolitical Times, em nota de Pete Shanks, que a empresa Allerca, vendedora, por US$ 3.950, dos bichanos geneticamente selecionados para não apresentar uma proteína alergênica, suspendeu os negócios (mas fui ao site deles e, estranhamente, a propaganda continua no ar).

De todo modo, o que Shanks revela de importante é que pelo menos um jornal - o San Diego Union Tribune - fez a lição de casa e foi investigar a empresa e seu dono, Simon Brodie, também conhecido como Simon Carradan (sobrenome que é também a marca de esquis que ele vende hoje a US$ 19 mil o par). O cara deu calote num monte de gente que pagou pelo bichano, sob a promessa de entrega da maravilha tecnológica em um ano. Até despejada por falta de pagamento de aluguel sua empresa foi. E a revista The Scientist também investigou o caso, como deveriam fazer todos os jornalistas.

Não foi só no Brasil que a imprensa ajudou a Allerca a tirar dinheiro dos trouxas. Nos EUA, Brodie/Carradan apareceu num monte de programas de TV. Exemplo:

 

 

Até blogs contra o conto do gato antialérgico existem (além de processos na Justiça). Um deles é "Is Allerca a Scam?". Tanto o blog quanto a reportagem do Union Tribune têm vários links para quem  quiser se aprofundar no escândalo. Mesmo quem pratica jornalismo que não vai além de cozinhar material estrangeiro ficará sem desculpa para deixar de corrigir a informação - intessante, mas não importante, e errada - alegremente disseminada por todos nós.
 

Escrito por Marcelo Leite às 17h20

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Prometer, prometer, até...

 
 

Prometer, prometer, até...

Como autor de um livro intitulado Promessas do Genoma (Editora da Unesp, 2007), tenho a satisfação de recomendar a leitura do ensaio "Promessas, promessas", de Stuart Blackman, na revista The Scientist.

Traduzo, como aperitivo, um pequeno trecho:


Nos seus momentos mais entusiasmados, a ciência sempre esteve inclinada a prometer mais, e mais cedo, do que conseguiu entregar. Por vezes dá a sensação de que as curas para as doenças estão sempre dez anos à frente, enquanto a fusão nuclear parece já há meio século a 50 anos de se tornar uma realidade prática. Pode ser fácil olhar para trás e rir da alegação de que a eugenia traria o fim não só da doenças hereditárias, mas também de problemas sociais como vadiagem e crimes, mas a alegação de um editorial do periódico científico Science de 1989 [D.E. Koshland, Jr., “Sequences and Consequences of the Human Genome,” Science, 246(4927)], na rampa de lançamento do Projeto Genoma Humano, de que a nova genética poderia ajudar a reduzir o problema dos sem-teto dando conta da doença mental, se mostra talvez recente o bastante para fazer os artelhos dos biólogos se curvarem de constrangimento.


 

Escrito por Marcelo Leite às 19h09

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Genoma amarelinho

 
 

Genoma amarelinho

Ninguém entendeu quando o tucano Mário Covas, naquele debate de 1998 entre candidatos a governador, perguntou a Paulo Salim Maluf o que ele faria para acabar com a doença do amarelinho. (...) Os espectadores não sabiam do que ele estava falando, mas o então governador deve ter achado que teria impacto a notícia de que pesquisadores paulistas estavam empenhados em sequenciar (soletrar) o DNA da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citros -mais conhecida como amarelinho da laranja.

Assim como Maluf, o amarelinho continua por aí, quase uma década depois de concluído o primeiro projeto genoma do país. Se alguém contava com o estudo para erradicar a doença, deu-se mal. Na mira de seus criadores, porém, estavam outros frutos: criar competência nacional no campo emergente da genômica, novo apelido da boa e velha biologia molecular. (...)

Que saldo ficou desse esforço dirigido de atualização da biologia nacional? Quanta inovação - ou seja, aplicações fora da pesquisa básica - surgiram da iniciativa?

Rogério Meneghini, do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), e Estêvão Cabestré Gamba, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), enfrentaram essas questões espinhosas. (...)

O resultado se encontra no estudo "Evolução da Produção Científico-Tecnológica em Biologia Molecular no Brasil (1996-2007): A Contribuição dos Programas de Genômica", ainda inédito. A genômica nacional e áreas afins tiveram um crescimento explosivo no período, concluem os autores.

A produção científica (quantidade de artigos) brasileira, em geral, cresceu 236%. Em contraste, a fatia da biologia molecular progrediu 434%: foram 1.928 trabalhos publicados em 2007, contra 361 em 1996. (...)

Artigos de pesquisadores baseados no Estado de São Paulo, onde nasceu o projeto Xylella, também avançaram consideravelmente: 515%. Sinal provável de que a iniciativa paulista ajudou a puxar o trem genômico em escala nacional.

Meneghini e Gamba se perguntaram, por fim, quantas patentes o esforço rendeu ao país. E foi aí que a biologia molecular nacional amarelou: em 12 anos, 279 patentes brasileiras depositadas nos EUA, meras 66 de origem paulista. Só para comparação, foram 996 da China, 1.054 da Índia e 2.221 da Coreia do Sul.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 10h29

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O mistério das células-tronco da Geron

 
 

O mistério das células-tronco da Geron

Começa a desfazer-se o mistério em torno do adiamento do teste clínico em seres humanos de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) da Geron contra traumas da medula espinhal. A razão do adiamento pela FDA (agência de alimentos e fármacos dos EUA) seria o surgimento de cistos microscópicos em animais submetidos à terapia experimental que poderia reverter o confinamento de muitas pessoas a cadeiras de rodas, segundo a expectativa geral.

Stevens Rehen, da UFRJ, foi quem avisou o blog da novidade, encaminhando link de reportagem da Associated Press na Forbes.

Segundo comunicado da empresa Geron veiculado ontem (27/8), cistos microscópicos se desenvolveram no local tratado em quantidade muito baixa de animais que participaram dos testes. "Os cistos eram não-proliferantes, confinados ao local do ferimento e não tiveram efeitos adversos sobre os animais. Nenhum animal desenvolveu teratomas ou qualquer outra estrutura ectópica. Cistos de tamanho muito maior aparecem no tecido cicatrizante da medula espinhal em até 50% dos pacientes com trauma de medula", afirma o comunicado.

Teratomas são tumores que podem ser induzidos por células-tronco embrionárias. Em realidade, são uma forma de testar a pluripotência de uma linhagem de supostas CTEHs, vale dizer, sua capacidade de transformar-se em outras células. Queremos que elas se transformem em neurônios ou outras células que ajudem na recuperação dos nervos danificados, mas não queremos que se reproduzam descontroladamente e deem origem a tumores.

A Geron afirma que o ocorrido faz parte do curso normal do desenvolvimento e aperfeiçoamento de um produto. É esperar e ver se a FDA concorda.

Escrito por Marcelo Leite às 16h26

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Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

 
 

Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

A grande esperança de cadeirantes vitimados por traumas da medula espinhal pode estar subindo no telhado. Ou, pelo menos, adiada. É só o que se sabe por ora da suspensão do teste clínico de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs), nos EUA, para tentar reverter o dano a nervos motores afetados por acidentes de carro e tiros, por exemplo.

A perspectiva de algum tratamento e cura, como a obtida em animais (roedores), foi recebida com fanfarra em janeiro, quando a FDA (agência federal de fármacos e alimentos dos EUA) deu autorização para a empresa Geron testar a terapia experimental em seres humanos.

A empresa conseguiu diferenciar (transformar) as polivalentes CTEHs em um tipo de célula nervosa chamada de oligodendrócito, que pode funcionar como uma espécie de zeladora de neurônios. Oligodendrócitos podem, por exemplo, ajudar a recompor a bainha de mielina das fibras que formam os nervos, sem a qual a ordem motora expedida pelo cérebro não se transmite até os músculos. A idéia é que, se essa terapia celular for aplicada em pessoas que sofreram traumas há menos de 15 dias, os nervos danificados ainda poderiam ser regenerados, antes que se forme tecido cicatrizante e a interrupção se torne definitiva.

Agora veio a água fria sobre a fervura, mas não está claro ainda se foi um copo ou um balde dela. A FDA sustou a realização do teste clínico em seres humanos, conforme anunciou - aparentemente num furo - o jornal californiano Silicon Valley Mercury News, em reportagem de Steve Johnson. Este blog tomou conhecimento da notícia pela newsletter da revista The Scientist. Saíram notas também no blog The Niche, da revista Nature, e no jornal The New York Times.

O adiamento do teste ocorreu depois de a Geron apresentar novos dados à FDA, colhidos em experimentos com animais para verificar o efeito de dosagens maiores do preparado de células. Como nem a Geron nem a FDA deram informações sobre o caso, mantido em sigilo pelo alto valor comercial da terapia se ela se revelar bem sucedida, as razões da suspensão ainda são um mistério.

Na versão mais benigna, trata-se só de um prazo imprescindível para os analistas da FDA processarem os novos dados (que devem ser volumosos, se seguirem o padrão da primeira documentação submetida pela Geron - 21 mil páginas). Na perspectiva mais pessimista, os novos documentos submetidos indicariam problemas de segurança no procedimento de injeção das células.

CTEHs, das quais se derivam os oligodendrócitos da Geron, são notórios por sua capacidade de multiplicar-se. Se começarem a fazê-lo de forma descontrolada no local de tratamento, o espaço apertado da medula espinhal, podem terminar causando mais dano do que benefício aos pacientes.

Tomara que não seja o segundo caso. Cadeirantes estiveram na linha de frente de muitas batalhas pela autorização da pesquisa com CTEHs, como aqui no Brasil, e seria péssimo constatar que todo aquele oba-oba pode não ter sido mais que uma maneira de lhes infundir falsas esperanças. De todo modo, leio na imprensa americana, eles estão furiosos com a FDA, pois defendem que eles mesmos devem ponderar os eventuais riscos envolvidos na terapia experimental e decidir se se submetem a ela ou não.

O que você acha - agências como a FDA devem reter esse poder discricionário sobre a doença alheia ou ceder à pressão de pacientes e familiares pelo direito de se agarrar a qualquer esperança, sem medir com o mesmo critério científico eventuais riscos envolvidos?

Escrito por Marcelo Leite às 17h47

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Promessas do genoma - e da epigenética

 
 

Promessas do genoma - e da epigenética

Graças à minha mulher, Claudia, tomei conhecimento de um dossiê da revista Newsweek sobre "as dores do parte da nova biologia", publicado na edição de 6 de julho. A coletânea de artigos faz uma espécie de necrológio do Projeto Genoma, dizendo que, apesar de todas as suas promessas, foi só o primeiro passo para a "revolução" que está varrendo a biologia e atende pelo nome de "epigenética" (uma intricada rede de regulação bioquímica composta por RNAs, proteínas e outras substâncias, que tira a primazia atribuída ao DNA pela razão genômica).

Hesitei um tanto antes de postar esta nota. Achei que pareceria cabotino, pois venho escrevendo coisas nessa linha há quase dez anos (a primeira vez que usei a palavra "epigenética" na Folha foi uma coluna publicada em 7 de novembro de 1999 - aqui, só para assinantes).

Quando a sequência do genoma foi publicada, em fevereiro de 2001, redigi um comentário (aqui, também com acesso restrito) em que dizia que a soletração punha em questão a própria noção de gene. Depois escrevi um livro sobre o assunto, Promessas do Genoma, publicado em 2007.

Às favas com os escrúpulos de consciência, como diria Jarbas Passarinho. Deixar de escrever a nota impediria partilhar com meus poucos e fiéis leitores um bem-acabado e esclarecedor trabalho jornalístico. Está todo disponível na rede, em inglês. Como não encontrei um link único para o dossiê, reproduzo todos:

As complexidades da vida, por Fred Gurtel
O casal estranho da biologia (Venter e Church), por Lily Huang
Além do Livro da Vida, por Stephen S. Hall
Um cessar-fogo na Guerra dos Transgênicos, por Mac Margolis
O mosquito revisado, por William Underhill
A visão de um médico para o futuro da medicina, por Leroy Hood
Aditivos cerebrais, por David H. Freedman
Uma biologia da doença mental, por Eric Kandel

Escrito por Marcelo Leite às 16h51

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Macacos verdes me mordam

 
 

Macacos verdes me mordam

(...) leitores mais interativos não pestanejam antes de agredir o jornalista, outros leitores e o próprio bom senso. Reeditei a experiência pela enésima vez na quarta-feira, ao noticiar no blog Ciência em Dia um feito biotecnológico significativo, a reprodução de saguis transgênicos e fluorescentes no Japão.

Para encurtar a história, direi só que a ideia dos pesquisadores da Universidade Keio é obter animais mais úteis para a pesquisa de doenças como Alzheimer e Parkinson. Em lugar de camundongos geneticamente modificados para desenvolver males semelhantes, pretendem usar macacos, bichos com fisiologia e constituição mais próximas do homem.

Esse é o objetivo final. Por ora, a equipe japonesa obteve só o que se chama de prova de princípio. Introduziu em saguis um gene de água-do-mar que faz o organismo exibir um brilho verde sob luz ultravioleta.

Não tem nada a ver com diversão. O propósito do brilho verde é verificar mais facilmente se o gene foi mesmo incorporado em todos os tecidos, inclusive nas células reprodutivas, como espermatozoides e óvulos. Foi, e o grupo conseguiu provar obtendo uma segunda geração de macaquinhos transgênicos verdes.

O assunto é polêmico, por envolver experimentos com animais e, pior, primatas. Assinalei esse aspecto controverso na nota do blog. Partilho da opinião de alguns especialistas em bioética de que macacos merecem mais proteção contra excessos em experimentação científica do que animais menos aparentados com seres humanos, como roedores.

Das cerca de 20 mil pessoas que leram a nota nas primeiras seis horas em que esteve no ar, 27 se animaram a comentar. Foi um festival de protestos contra o experimento.

Até aí, nada demais. Sentimentalismo com animais parece ser uma faculdade tão bem distribuída quando o bom senso cartesiano. O fato deprimente está nas expressões e raciocínios empregados, que de cartesianos não tinham nada.

Qualificar autores do estudo e o mensageiro da notícia como "idiotas" é um dos recursos mais usados. Prejulgar o experimento como supérfluo e cruel, outro. Defensores irrefletidos dos direitos dos animais adoram também desafiar os cientistas a se oferecerem, e a seus filhos, como cobaias de seus experimentos, em lugar de torturar os bichinhos...

Esse povo parece que nunca tomou remédios, todos testados em animais. Quantos não terão nascido por meio de cesarianas, ou foram salvos da morte por cirurgiões que treinaram técnicas de corte e costura na carne viva de cães e porcos inocentes?

Esta coluna é a primeira a advogar que não se pode dar carta branca a pesquisadores em matéria de experimentação com animais e que eles devem satisfação à sociedade sobre esforços para reduzir o sofrimento e o abuso nos laboratórios. Mas tudo tem limite -o limite do bom senso.


Leia íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h52

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Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão

 
 

Saguis brasileiros transgênicos e fluorescentes produzidos no Japão

Filhotes de sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus)

geneticamente modificado também nasceram com o gene para brilhar


O periódico científico Nature traz em sua edição de amanhã uma notícia perturbadora, ao menos para alguns leitores deste blog: pesquisadores do Japão liderados por Erika Sasaki (que desconfio ser brasileira, uma fisioterapeuta formada na PUC-PR em 1999, mas ainda não consegui confirmar a informação) conseguiram criar um sagui transgênico capaz de transmitir o gene extra - no caso, para produzir uma proteína fluorescente verde (GFP) - à sua prole.

Adendo às 21h30 de 27/5: Não encontrei nenhuma indicação firme de que Erika Sasaki seja brasileira. Creio que me precipitei. Uma pesquisa mais atenta no Google Scholar revela que a ES desse artigo na Nature atua no Japão pelo menos desde 1994.

Não são os primeiros macacos geneticamente modificados, mas sim os primeiros que tiveram o transgene incorporado à sua linhagem germinativa de células. No caso, uma macho cujos espermatozóides carregam o trecho de DNA introduzido para o bicho adquirir um brilho verde sob luz ultravioleta (o gene GFP é em geral usado como marcador, pois sua incorporação pelo organismo modificado pode ser facilmente constatada). Os dois macaquinhos da foto são filhotes dele.

O estudo está sendo saudado como uma façanha e ocupa a capa da Nature de amanhã. Ele abre espaço para prosseguir com parentes mais próximos do homem na avenida aberta para a pesquisa biomédica com camundongos transgênicos, cuja modificação genética permitiu criar roedores-modelo de doenças humanas para estudo mais detalhado e testes de novos remédios.

Seres humanos e roedores partilham ancestrais comuns que viveram há uns 75 milhões de anos. Já macacos do Novo Mundo como o sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus), nativo do Nordeste brasileiro, chegam muito mais perto de nós, pois nos separamos deles há uns 40 milhões de anos. Isso faz com que nossos corpos e os deles sejam muito mais semelhantes, o que facilita a compreensão da fisiologia de muitas doenças, em comparação com os camundongos.

Ser mais parecido quer dizer também mais próximo em outro sentido: para muita gente, inclusive alguns especialistas em bioética, macacos são seres mais "humanos", em certo sentido, com faculdades cognitivas e sensíveis mais parecidas com as nossas. Eles teriam algo mais parecido com consciência, talvez. Há quem considere que isso desautoriza coisas como a modificação genética, ou até mesmo o uso como animais de pesquisa biomédica, em que muitas vezes o experimento exige o sacrifício dos animais.

Escrito por Marcelo Leite às 16h13

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Células-tronco dão na vista

 
 

Células-tronco dão na vista

Recebi do leitor Tarciso Schirmbeck os comentários abaixo, acerca da coluna "Células-tronco à vista". Reproduzo-os com autorização do autor, pois creio que reforçam e ampliam a preocupação implícita na coluna:


Gostaria de parabenizá-lo pelo artigo deste domingo (24-05-09) no caderno Mais da Folha de S.Paulo. Esse artigo bastante me interessa por diversos aspectos: minha mãe (além de outros sete membros da família) tem retinose pigmentar; sou oftalmologista (naturalmente que motivos conscientes e inconscientes influenciaram minha escolha); fiz minha especialização no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (daí o fato de conhecer bem os pesquisadores mencionados – Rodrigo Jorge, André Messias, Rubens Camargo e Júlio Voltarelli).

Como todos os médicos tenho esperança que muitas (e não todas) doenças possam ter um melhor prognóstico, e até mesmo a cura, obtidos por meio do desenvolvimento de terapias com células-tronco. Nada seria mais indescritível do que observar uma melhora, mesmo pequena para os nossos desejos, da visão de minha mãe.

Devo, também, reforçar que confio na seriedade dos pesquisadores envolvidos (pelo menos se estes mantiveram os princípios da época em que os conheci). Todavia, conhecendo toda a complexidade das DEZ camadas da retina, da interação entre elas e, consequentemente, destas com as ouras partes das vias neurais visuais (corpo geniculado lateral, radiações ópticas, córtex occiptal etc.), torna-se difícil acreditar que algumas células-tronco indiferenciadas, simplesmente “jogadas” dentro do corpo vítreo, vão “promover uma recuperação da visão”.

Acredito ser esta etapa apenas um passo inicial desse processo, que teria como resultado somente avaliar a tolerância dos meios ópticos a esse tipo de célula, nada mais. Qualquer benefício ou estímulo não poderia ser creditado às células-tronco em si, mas à inflamação causada pelo procedimento e, naturalmente, ao efeito placebo envolvido em todo o contexto.

Não venho questionar a iniciativa, mas tão-somente a simplicidade do experimento perante a enorme esperança a ele creditado. Devemos acompanhar melhor a evolução desses trabalhos antes de qualquer comemoração precipitada.

Escrito por Marcelo Leite às 10h40

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Células-tronco à vista

 
 

Células-tronco à vista

Fazia algum tempo que as células-tronco não frequentavam o noticiário. Na semana que passou, essas células-curinga voltaram à cena por obra de um grupo do Hemocentro de Ribeirão Preto e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de lá. A ideia, desta vez, é fazer cegos voltarem a ver...

O grupo injetou esse coquetel de células, há poucos dias, nos olhos de três portadores de retinose pigmentar, doença de origem hereditária que leva à cegueira. Elas foram obtidas dos próprios pacientes, para não haver rejeição. A injeção foi no vítreo, o recheio do globo ocular. O plano é que as células-curinga se instalem na retina, a tela no fundo do olho onde se formam as imagens, e ajudem a recuperar vasos sanguíneos e outras estruturas.

A esperança, menos que uma hipótese, é que isso reverta parte da degeneração que resulta em cegueira. (...)

Os resultados obtidos com animais são "contundentes", segundo o oftalmologista Rodrigo Jorge, integrante do grupo. Esses estudos, em geral com camundongos, foram feitos fora do Brasil. O laboratório mais destacado é o de Atsushi Otani, do Instituto Scripps, da Califórnia (EUA).

Para o leigo, o mesmo adjetivo talvez não ocorra depois de ler os efeitos obtidos com os roedores. Empregam-se camundongos programados para desenvolver a degeneração da retina, que de fato chega a ser interrompida. Mas só se as injeções ocorrerem até o 16º dia de vida (30 bastam, no laboratório, para a cegueira terminar de se instalar no bicho).

A melhora pode ser medida por meio de eletrorretinografia, um teste que registra a atividade elétrica das células da retina sensíveis à luz. Funciona. Mas os autores do estudo alertam que o padrão de atividade é inteiramente anormal. O exame das retinas, depois de sacrificados os animais, também mostra anormalidades na proporção entre suas células sensíveis (bastonetes e cones). (...)

Jorge diz que o grupo só fez o anúncio porque um dos pacientes começou a falar do tratamento em sua cidade, Birigui, o que gerou "especulações". Foi a sua maneira de prevenir a proliferação de boatos e meias verdades, afirma o pesquisador.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h27

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Que pandemia?

 
 

Que pandemia?

Bastaram três semanas para a pandemia de gripe suína - perdão, influenza A (H1N1) - chegar, aterrorizar e sumir. Ao menos das manchetes. Terá servido, porém, para ajudar a vender um livro interessante, "Vacinado", de Paul A. Offit (Ideia e Ação, 2008, 256 págs., R$ 39,90). (...)

O herói da história é Maurice Hilleman, por coincidência nascido em 1919, durante a maior e mais mortífera pandemia de gripe de todos os tempos. Matou, provavelmente, mais de 50 milhões de pessoas. (...)

[Em] abril de 1957, Hilleman lia o jornal "The New York Times" em sua sala (...) quando topou com uma reportagem sobre gripe aviária que grassava em Hong Kong. Dez por cento da população afetada, filas de 20 mil pessoas nas portas dos hospitais. "Meu Deus: é a pandemia, ela chegou!" -disse Hilleman a si mesmo, segundo Offit.

O pesquisador telegrafou para conhecidos no Japão pedindo informações. Acabou localizando um jovem da Marinha japonesa que passara por Hong Kong e adoecera. Um oficial médico fez com que o marujo gargarejasse com salmoura e enviou o produto para Hilleman. Apenas um mês depois de ler o artigo no jornal, recebia o preparado, e começou o trabalho de verificar se era um vírus com potencial pandêmico.

O processo era para lá de laborioso. (...) [M]ultiplicadas as partículas virais, passou a testá-las com o soro sanguíneo de soldados estocado no Walter Reed.

Não encontrou nenhum que tivesse anticorpos contra o vírus. Usou em seguida amostras de soro de civis. Nada. Certo de que era um agente ameaçador, contra o qual a maioria das pessoas não teria defesa, enviou amostras para a recém-criada Organização Mundial da Saúde, para distribuição aos laboratórios do mundo. Distribuiu uma nota à imprensa avisando da iminente pandemia, mas nenhum jornal se interessou (outros tempos).

Em questão de meses se confirmou que só tinham anticorpos contra o vírus umas poucas pessoas da Holanda e dos Estados Unidos. Eram sobreviventes da pandemia de 1889-1890, que vitimara 6 milhões.

Em junho, os primeiros lotes de vacina eram produzidos. Mesmo assim, a pandemia de 1957 matou 70 mil americanos e 4 milhões noutras partes do mundo.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo de domingo passado (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h46

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Células-tronco na Science

 
 

Células-tronco na Science

Células-tronco do laboratório de Stevens Rehen

A revista Science de hoje traz uma reportagem (DOI:10.1126/science.324.5923.26) minha sobre a Rede Nacional de Terapia Celular financiada pelos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia, com destaque para o Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) iniciado por Lygia da Veiga Pereira, na USP, e Stevens Kastrup Rehen, na UFRJ.

Transcrevo os três últimos parágrafos, destraduzidos:


No início de 2010, esperam ter a capacidade de produzir 30 milhões de células pluripotentes por mês, certificadamente livres de anormalidades cromossômicas e contaminação por micoplasma. O LaNCE planeja dobrar a produção assim que 450 m² de laboratórios reformados estiverem disponíveis.

"Se isso funcionar, será fantástico", afirma a pesquisadora de células-tronco [Mayana] Zatz. "Precisamos dessas core facilities especializadas, como as que existem nos EUA e na Europa, fornecendo insumos de pesquisa para todo o país. Mas também precisamos de financiamento seguro de longo prazo. Três anos está longe de ser suficiente."

A reação do exterior também tem sido entusiástica. "Eu realmente aplaudo o governo brasileiro por seu investimento em tecnologia de células-tronco", afirma Marie Csete, pesquisadora-chefe do Instituto de Medicina Regenrativa da Califórnia, em São Francisco. Ela e [Jeanne] Loring [do Instituto de Pesquisa Scripps] gostariam de ver o grupo derivar linhagens de células iPS [pluripotentes induzidas] das muitas populações geneticamente diversificadas do Brasil pata testar se novos medicamentos funcionam da mesma maneira em grupos diferentes. "Células iPS de pacientes no Brasil podem ser empregadas para estabelecer modelos de 'doenças-numa-placa' que estarão disponíveis para teste sistemático de medicamentos em bibliotecas de novos compostos em [seu] país."

Escrito por Marcelo Leite às 11h26

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Toalha jogada

 
 

Toalha jogada

Células-tronco embrionárias humanas (grãos azuis) aderidas a microcarregador
Foto: Laboratório de Stevens Rehen (UFRJ)

Ao vencedor, as batatas.

Stevens Kastrup Rehen decerto conhecia a máxima machadiana quando retornou ao Brasil, em 2005, para retomar um posto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). (...)

Rehen poderia acrescentar agora, com conhecimento de causa: ao perdedor, as toalhas. Seria, no entanto, render-se a uma visão estreita do que significa perder e ganhar, em ciência.

Jogar a toalha na competição internacional, em seu caso, significa apenas um lance no clássico que é a pesquisa com células-tronco no Brasil. Um clássico em que ele entrou para decidir. (...)

Tanto a pesquisa básica, estágio atual, quanto a futura medicina regenerativa exigirão milhões e milhões dessas células, o que não é possível com os métodos artesanais dos laboratórios. Rehen e [Lygia da Veiga] Pereira se juntaram a Leda Castilho, também da UFRJ, para iniciar uma produção mais industrial e confiável.

Há um ano, Rehen e Castilho multiplicaram células-tronco embrionárias, ainda importadas, em biorreatores. Sua versão da técnica utiliza frascos rotatórios, para proporcionar às células um banho mais eficaz de nutrientes, e microesferas sobre as quais elas podem agarrar-se e dividir-se. A façanha foi relatada pela imprensa brasileira.

Para a opinião pública leiga basta o critério dos editores, mas, para a comunidade de pesquisa globalizada é preciso o aval de periódicos científicos, os famigerados "journals". Eles exigem que todo artigo passe pelo crivo da "peer review" (revisão por pares), crítica especializada e, em geral, anônima (o parecerista não sabe quem é o autor). [Correção em 31/3: Esta informação está errada. Em geral é o autor que desconhece a identidade do parecerista, e não vice-versa.]

Começou a corrida pela publicação. Rehen conta que enfrentou resistência dos revisores, possivelmente desconfiados de um trabalho de ponta proveniente de um laboratório periférico num país tropical. Um grupo de Wisconsin (EUA), a Roma das células-tronco, saiu na frente.

Ao trombar com o quarto "journal", Rehen jogou a toalha. Partiu para um periódico brasileiro, "Brazilian Journal of Medical and Biological Research". Apesar de editado em inglês, sua penetração internacional é menor. O artigo foi aceito nesta semana.

A toalha foi jogada, mas os dados científicos também. Ninguém tira de Rehen, Pereira e Castilho o mérito de garantir que, se a medicina regenerativa com células-tronco um dia entrar em campo, o Brasil poderá partir para o ataque com seus próprios talentos e células.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h19

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Males da infância

 
 

Males da infância


Foto: Reprodução

(...) [E]studo da universidade canadense McGill, na última edição do periódico científico "Nature Neuroscience", focaliza um mecanismo que ajuda a entender como, de modo concreto e não por meio de vagas "pulsões", experiências da infância conformam a base do comportamento do adulto.

McGowan não trabalhou com genes, que alguns desinformados ainda supõem conter todo o destino de uma pessoa escrito em código cifrado de DNA. Deu preferência para um dispositivo químico (metilação) que silencia genes, ou seja, impede que eles sejam usados pelas células. Fez essa escolha a partir de pesquisas com ratos apontando que era um mecanismo importante para gravar no cérebro efeitos de vivências infantis.

Ninguém sabe se roedores têm complexo de Édipo, mas já se conhece bem o resultado de lambidas frequentes das ratas sobre seus filhotes. Eles se tornam mais resistentes ao estresse, característica que mantêm até a vida adulta. E esta resposta tem a ver com hormônios glicocorticóides, como o cortisol (conhecido como o "hormônio do estresse").

No foco da pesquisa canadense estava a metilação do gene NR3C1, mordaça bioquímica que atrapalha a comunicação desses hormônios. Seguindo a pista dos ratos, a equipe de McGowan levantou a hipótese de que seres humanos maltratados na infância -por abuso sexual, espancamentos etc.- apresentariam o mesmo padrão de silenciamento. Acertaram na mosca do alvo invisível para Freud.

Como não dá para fazer com gente viva os experimentos infligidos a roedores, o grupo da McGill recorreu a cadáveres. Mais exatamente, cadáveres de suicidas, divididos em dois grupos: com e sem história documentada de abusos na infância. (...)

O resultado esperado era que o padrão de silenciamento de glicocorticóides entre suicidas maltratados na infância fosse mais intenso do que entre os outros suicidas ou entre não-suicidas. Não deu outra. McGowan mostrou que, assim como acontece com ratos, seres humanos carregam para a vida adulta marcas indeléveis do que os entes queridos lhes fazem (ou deixam de fazer). (...)

O inconsciente molecular, por assim dizer -de cuja compreensão não nos encontramos tão mais próximos assim do que estava Freud quando escreveu, em 1895, seu "Projeto para uma Psicologia Científica".



Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h00

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Sonhos de Natal na revista Piauí

Sonhos de Natal na revista Piauí

Esforço de reportagem no Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN-ELS)

(Foto: André Pantoja)

Saiu reportagem minha na revista Piauí, "Sonhos de Natal", sobre pesquisas chefiadas por Sidarta Ribeiro - um neurocientista fã de Freud, veja só - no Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Infelizmente, não está disponível na internet, nem para assinantes. Só para aguçar sua curiosidade e fazê-lo(a) sair correndo à banca para comprar seu exemplar, reproduzo os parágrafos iniciais:


Minha tática de jogador estreante é pegar tudo que há de munição e bônus pelos corredores da fortaleza, sem saber ao certo para que servirão. Só não dá para correr, pressionando o botão azul da esquerda no joystick, embora tenha sido instruído sobre o recurso, nem para decifrar as informações numéricas na base da tela do computador. Falta coordenação. Sigo em frente, incapaz de definir o que causa mais incômodo e tédio – se a ignorância das regras opacas do jogo, a repetição interminável dos passos iniciais no labirinto de portas, pátios, escadas e rampas ou os 29 fios brancos que partem dos eletrodos espalhados pelo couro cabeludo, rosto e peito. Sentada à esquerda, a estagiária Luciana Rocha não dá descanso. A cada morte no jogo, sua mão delicada e ligeiramente fria, que ainda há pouco pincelava cola sobre os contatos fixados com esparadrapo na cabeça, pressiona a tecla que reinicia Perdição (Doom) pela enésima vez.

 

            Os muros em volta são de pedra escura. No centro, um patíbulo. À esquerda encontra-se a Coisa, de costas. Das articulações projetam-se cones pontiagudos. A luta começa com o impulso da manopla para a frente e um toque quase automático sobre o botão azul à direita, reservado para a troca de armas. Após quase uma hora de tentativas, está claro que o revólver na mão direita é inútil contra a couraça e que A Coisa vai virar e esquivar-se pela direita.

 

            Toda a esperança de sobrevida reside num ataque frontal. Em outras raras investidas a Coisa termina derrotada. É hora de caminhar para a porta secreta de pedra cinza. Novo toque sobre o botão azul providencia outra troca de arma, pois a experiência mostrou que o novo adversário, um guarda munido de fuzil, sucumbe apenas a tiros de escopeta. Apertando o botão vermelho arredondado, à esquerda, ergue-se a porta de pedra: lá está ele, pronto para iniciar o tiroteio. Caso consiga alvejá-lo, haverá outro, e mais outro, e clones de Coisas com suas bolas de fogo, mais portas de aço e portas de pedra, piscinas azuis e piscinas amarelas, munições e cargas de força a serem recolhidas...

 

            O feixe de fios puxados para trás, como num rabo-de-cavalo, parece ser a origem da dor de cabeça que começa a se impor. São quase onze e meia da noite de uma segunda-feira de maio, e não vejo a hora de despregar a mão suada do joystick e sair do quarto-laboratório improvisado no primeiro andar do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) no bairro da Candelária, em Natal (RN), no qual entrei às oito e meia e onde já havia dormido conectado no dia anterior. Mais de uma hora havia sido gasta no preenchimento de questionários sobre hábitos de sono e atividades do dia. Mas ainda estava por vir o pior da experiência como cobaia voluntária, a 22ª deste experimento projetado por André Pantoja, fisioterapeuta por formação que deixou o Rio de Janeiro para arriscar-se num mestrado no mais novo centro de neurociência do Brasil.

Escrito por Marcelo Leite às 21h54

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PERFIL

Marcelo Leite Marcelo Leite é jornalista, colunista da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".

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