Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Biotecnologias

As proteínas milagrosas do Dr. Hecht

 
 

As proteínas milagrosas do Dr. Hecht

Está certo que Michael Hecht só salvou a vida de bactérias com as proteínas que criou, mas creio que produziu com elas a notícia do ano (pelo menos até aqui) na área de biologia. É o que apresento em minha coluna de hoje na Folha.com. Boa leitura.

Escrito por Marcelo Leite às 12h12

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Transgênicos: Europa X EUA, Brasil etc.

 
 

Transgênicos: Europa X EUA, Brasil etc.

 

Recebo do CIB (Conselho de Informações em Biotecnologia) notícia de um artigo de Alda Lerayer, presidente dessa associação da indústria de transgênicos, fazendo um balanço bem positivo - de seu ponto de vista - do setor no Brasil e no mundo. Seleciono um trecho revelador, na medida em que ela registra o abismo que há entre Europa e outras potências agrícolas, mas se isenta de comentar ou explicar:

"Ao todo, 25 países plantaram 134 milhões de hectares, o que corresponde a 9milhões de hectares a mais do que em 2008. Foram 14 milhões de grandes e pequenos agricultores no mundo que adotaram cultivos transgênicos em suas lavouras. Ainda de acordo com o ISAAA, os oito principais países no ranking de maiores produtores foram: Estados Unidos (64 milhões ha.), Brasil (21,4 milhões ha.), Argentina (21,3 milhões ha.),
Índia (8,4 milhões ha.), Canadá (8,2 milhões ha.), China (3,7 milhões ha.), Paraguai (2,2 milhões ha.) e África do Sul (2,1 milhões ha.).

"Diversas plantas geneticamente melhoradas estão disponíveis no mundo para o cultivo na Europa, mas apenas duas culturas transgênicas podem ser cultivadas comercialmente. A primeira é um milho resistente a insetos e a segunda é a batata com um maior teor de amilopectina, aprovada neste ano.

"Na Europa, a área plantada deste único milho transgênico alcançou 94.750 hectares em 2009. Os principais países de cultivo são: Espanha, República Checa, Romênia e Portugal. Além destes, a Eslováquia e a Polônia também estão cultivando o milho resistente a insetos. Hoje, a batata transgênica é plantada na Alemanha, República Checa e Suécia."

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h10

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Genomas sem patentes

 
 

Genomas sem patentes

A Folha de hoje traz uma reportagem de Sabine Righetti mostrando que todo o esforço de dotar São Paulo e o Brasil de um setor de genômica vigoroso ainda não produziu o efeito esperado em matéria de inovação (medido por quantidade de patentes na área de biologia molecular). Ela se baseia num estudo de Rogério Meneghini e Estêvão Gamba que comentei numa coluna de 2009, quando ainda estava em versão preliminar.

A pedido da Editoria de Ciência do jornal, produzi um novo comentário analisando a questão, para dizer que parte dessa "decepção" era previsível. Eis o cerne da argumentação:

 


(...) Talvez os arquitetos do Projeto Genoma Xylella alimentassem a fantasia de que, por estarem biologia molecular e genética historicamente tão próximas da ciência aplicada (biomedicina), inovações fluiriam dela como que por gravidade. Não era tão simples assim.

A publicação do artigo apresentando o sequenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da doença do amarelinho da laranja, completou dez anos no ano passado. Nesse período, nenhuma técnica relevante para o combate da doença surgiu das informações compiladas.

Pesa aqui, também, uma limitação que é geral, não especificamente brasileira: depositou-se expectativa demais na genômica.

Perto do Projeto Genoma Humano, que engoliu quase US$ 3 bilhões, o Xylella até que saiu barato (foram US$ 13 milhões). Para justificar o montante da fatura, aquele prometia nada menos que curar o câncer; este, dar conta do amarelinho.

Qualquer pessoa com mínimo conhecimento de biologia molecular já sabia naquela altura, ou deveria saber, que as promessas eram exageradas, retóricas. Dez anos depois, assim continuam. (...)

Escrito por Marcelo Leite às 15h13

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Brainbow - Cerebríris?

 
 

Brainbow - Cerebríris?

Certos jogos de palavras são intraduzíveis. É o caso de "brainbow", que une os vocábulos "brain" (cérebro) e "rainbow" (arco-íris), e se popularizou como técnica para marcar células individuais do cérebro (neurônios) com cores diferentes - uma pálida ideia aparece na foto acima).

Pensei em "cerebríris", mas desisti da ideia rapidinho.

Pouco importa. O que importa é que o periódico Cell publicou uma extasiante galeria de imagens produzidas com a técnica "brainbow". Veja aqui. É de cair o queixo.

Escrito por Marcelo Leite às 17h33

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Passarinhos e alimentos orgânicos - o retorno

 
 

Passarinhos e alimentos orgânicos - o retorno

Semana passada escrevi uma coluna sobre estudo em que canários mostravam preferência por ração de trigo convencional, em detrimento de trigo [transgênico] orgânico [corrigido em 13.jun com ajuda do leitor Mendes - v. comentários]. Busquei contato na época com os autores do estudo para esclarecer três pontos, mas só agora recebo as respostas de Ailsa McKenzie, da Universidade de Newcastle, Reino Unido, que traduzo para dar um pouco mais de transparência ao modo como são realizadas as pesquisas e o jornalismo científico - espero que ligeiramente melhor do que o método para fazer salsichas e leis, no dito famoso de Bismarck.


O que exatamente os levou a planejar e realizar esses quatro experimentos?
Esse trabalho foi realizado como parte de meu projeto de doutorado sobre o efeito da agricultura orgânica em pássaros. Notamos uma tendência nos estudos anteriores de pássaros e mamíferos, em laboratório, selecionarem alimentos orgânicos em vez de convencionais, quando têm escolha livre. Quisemos retestar esses resultados de laboratório, mas também testá-los no ambiente aberto. Nossos resultados foram contrarios aos outros estudos tanto no laboratório quanto no ambiente.

Vocês tentaram validar o indicador "taxa de bicadas" como medida substituta para a quantidade real de grãos ingeridos pelos anários engaiolados? Esta é uma questão inteiramente ingênua de um leigo: não poderia haver uma razão para os canários bicarem mais [na vasilha de] alimento convencional sem de fato ingeri-lo?
Com pássaros que comem sementes, é muito fácil de ver quando as bicadas são bem-sucedidas. Dá para ver o pássaro tomar a comida no bico e movê-la pela boca antes de engolir. Portanto, bicadas mal-sucedidas não foram incluídas na análise.

Vocês estão conduzindo mais experimentos comn outras espécies, para estabelecer a generalidade de seus resultados?
Sim, mas vai depender muito de financiamento. Planejamos fazer mais estudos com pássaros, de início, mas de uma ordem diferente (patos). Se isso der certo, podemos diversificar para testes com mamíferos (camundongos e ratos). Também gostaríamos de examinar os benefícios de longo prazo para a saúde de consumir uma dieta convencional em lugar de uma orgânica, pois, embora os pássaros em nossos experimentos terem mostrado uma preferência pelo trigo convencional, isso não nos diz nada quanto a ser melhor para eles no longo prazo.

Escrito por Marcelo Leite às 10h28

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Canários versus alimentos orgânicos

 
 

Canários versus alimentos orgânicos

Minha coluna de hoje na Folha.com trata de outro assunto espinhoso: produtos orgânicos e sua naturalidade/superioridade..

Escrito por Marcelo Leite às 16h55

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Novas aventuras de Venter

 
 

Novas aventuras de Venter

A bactéria "sintética" Mycoplasma mycoides, variante JCVI-syn1.0

(Divulgação - Science/AAAS)

Foi manchete da Folha de sexta-feira passada, e eu arrisquei um comentário interpretativo a respeito, do qual reproduzo um trecho relevante:


Está longe o tempo -se é que algum dia virá- em que a biologia será capaz de sintetizar células cardíacas para remendar corações infartados, por exemplo. O genoma humano é milhares de vezes maior que a bactéria inventada por Venter. Nossos 46 cromossomos são estruturas complexas, cuja estrutura contribui para definir quais genes serão ou não lidos pela célula, e quando.
Apesar da retórica, Venter é honesto a respeito. Quando fala de aplicações, restringe-se a conceitos menos grandiloquentes e mais rentáveis, no médio prazo: bactérias capazes de produzir hidrogênio a partir de água, assim como leveduras produzem álcool a partir de açúcares. Os biocombustíveis brasileiros que se cuidem.
Problema: bactérias também se destacam na produção de toxinas poderosas, como as do antraz e do botulismo. São os cavalos de batalha da guerra biológica. Genomas sintéticos soam como armas de sonho, se o seu custo vier a cair tão rápido quanto o de outras ferramentas biotecnológicas.


No mais, peço desculpas ao leitor do blog pela ausência da semana, que foi, digamos, de luto. Mas quarta-feira (dia 26) devo estrear na Folha.com o avatar da saudosa coluna Ciência em Dia. Avisarei aqui neste espaço.

Escrito por Marcelo Leite às 18h53

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Células que levitam

 
 

Células que levitam

O futuro da biotecnologia aplicada ao campo da saúde humana pode estar num coquetel bizarro de vírus assassinos de bactérias com nanopartículas de ouro e óxido de ferro magnetizado. (...)

A mistura assume a forma de um hidrogel, usado para cultivar células em espaço tridimensional. Campos magnéticos permitem fazer as células "levitarem" nesse meio de cultura de alta tecnologia -invento com a participação de brasileiros- e até controlar a forma do aglomerado celular. (...)

 

O primeiro autor da façanha, que ainda se encontra na fase que os pesquisadores chamam de prova de princípio, é o brasileiro Glauco Ranna Souza, 39. Souza cursou só até o ensino médio em Brasília, depois fez toda a formação acadêmica e a carreira científica nos Estados Unidos.

Ele desenvolveu a tecnologia -publicada eletronicamente pelo periódico "Nature Nanotechnology" há exatamente uma semana- no Centro de Câncer M.D. Anderson da Universidade do Texas, em colaboração com Tom Killian e Rob Raphael, da Universidade Rice, também no Texas. (...)

As nanopartículas de ferro entram no coquetel para garantir a manipulação magnética do corpúsculo em crescimento. Num futuro distante, a técnica pode levar à construção de órgãos artificiais. No presente, Souza está de olho no milionário mercado de testes de toxicidade de novas drogas em tecidos humanos, exigência crucial para aprovar seu uso comercial.

O artigo na "Nature Nanotechnology" descreve o cultivo em levitação de células tumorais, que assumem formas globulares diversas sob manipulação do campo magnético. Na empresa Nano3D, Souza já trabalha com células saudáveis de pulmão.

"Por que pulmão?" -pergunta, retoricamente. "Porque podemos trazer as células para a interface ar-líquido [do meio de cultura], o que é um desafio para o teste "in vitro" de agentes [químicos] no meio aéreo." Ou seja, condições mais realistas para reproduzir o funcionamento do órgão. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes do jornal e do UOL).

Escrito por Marcelo Leite às 19h41

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O conto do gato hipoalergênico

 
 

O conto do gato hipoalergênico

Você pode não se lembrar mais dos gatos que não causariam alergia, graças à genética, porque jornais, revistas e TVs aparentemente também se esqueceram deles. A novidade apareceu em 2004 e repercutiu até 2006.

Quase ninguém conseguiria ter ficado sem saber da notícia, tantos foram os veículos que a divulgaram - Folha Online, Terra, O Globo, Estadão, G1, Veja Online... Não encontrei na Folha (edição impressa), mas pode bem ter saído e não aparecer no Google, que não é perfeito. Até a Scientific American incluiu o "feito" num quadro de reportagem sobre a domesticação de felinos.

Pois bem: leio agora no Biopolitical Times, em nota de Pete Shanks, que a empresa Allerca, vendedora, por US$ 3.950, dos bichanos geneticamente selecionados para não apresentar uma proteína alergênica, suspendeu os negócios (mas fui ao site deles e, estranhamente, a propaganda continua no ar).

De todo modo, o que Shanks revela de importante é que pelo menos um jornal - o San Diego Union Tribune - fez a lição de casa e foi investigar a empresa e seu dono, Simon Brodie, também conhecido como Simon Carradan (sobrenome que é também a marca de esquis que ele vende hoje a US$ 19 mil o par). O cara deu calote num monte de gente que pagou pelo bichano, sob a promessa de entrega da maravilha tecnológica em um ano. Até despejada por falta de pagamento de aluguel sua empresa foi. E a revista The Scientist também investigou o caso, como deveriam fazer todos os jornalistas.

Não foi só no Brasil que a imprensa ajudou a Allerca a tirar dinheiro dos trouxas. Nos EUA, Brodie/Carradan apareceu num monte de programas de TV. Exemplo:

 

 

Até blogs contra o conto do gato antialérgico existem (além de processos na Justiça). Um deles é "Is Allerca a Scam?". Tanto o blog quanto a reportagem do Union Tribune têm vários links para quem  quiser se aprofundar no escândalo. Mesmo quem pratica jornalismo que não vai além de cozinhar material estrangeiro ficará sem desculpa para deixar de corrigir a informação - intessante, mas não importante, e errada - alegremente disseminada por todos nós.
 

Escrito por Marcelo Leite às 17h20

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Prometer, prometer, até...

 
 

Prometer, prometer, até...

Como autor de um livro intitulado Promessas do Genoma (Editora da Unesp, 2007), tenho a satisfação de recomendar a leitura do ensaio "Promessas, promessas", de Stuart Blackman, na revista The Scientist.

Traduzo, como aperitivo, um pequeno trecho:


Nos seus momentos mais entusiasmados, a ciência sempre esteve inclinada a prometer mais, e mais cedo, do que conseguiu entregar. Por vezes dá a sensação de que as curas para as doenças estão sempre dez anos à frente, enquanto a fusão nuclear parece já há meio século a 50 anos de se tornar uma realidade prática. Pode ser fácil olhar para trás e rir da alegação de que a eugenia traria o fim não só da doenças hereditárias, mas também de problemas sociais como vadiagem e crimes, mas a alegação de um editorial do periódico científico Science de 1989 [D.E. Koshland, Jr., “Sequences and Consequences of the Human Genome,” Science, 246(4927)], na rampa de lançamento do Projeto Genoma Humano, de que a nova genética poderia ajudar a reduzir o problema dos sem-teto dando conta da doença mental, se mostra talvez recente o bastante para fazer os artelhos dos biólogos se curvarem de constrangimento.


 

Escrito por Marcelo Leite às 19h09

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Genoma amarelinho

 
 

Genoma amarelinho

Ninguém entendeu quando o tucano Mário Covas, naquele debate de 1998 entre candidatos a governador, perguntou a Paulo Salim Maluf o que ele faria para acabar com a doença do amarelinho. (...) Os espectadores não sabiam do que ele estava falando, mas o então governador deve ter achado que teria impacto a notícia de que pesquisadores paulistas estavam empenhados em sequenciar (soletrar) o DNA da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citros -mais conhecida como amarelinho da laranja.

Assim como Maluf, o amarelinho continua por aí, quase uma década depois de concluído o primeiro projeto genoma do país. Se alguém contava com o estudo para erradicar a doença, deu-se mal. Na mira de seus criadores, porém, estavam outros frutos: criar competência nacional no campo emergente da genômica, novo apelido da boa e velha biologia molecular. (...)

Que saldo ficou desse esforço dirigido de atualização da biologia nacional? Quanta inovação - ou seja, aplicações fora da pesquisa básica - surgiram da iniciativa?

Rogério Meneghini, do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), e Estêvão Cabestré Gamba, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), enfrentaram essas questões espinhosas. (...)

O resultado se encontra no estudo "Evolução da Produção Científico-Tecnológica em Biologia Molecular no Brasil (1996-2007): A Contribuição dos Programas de Genômica", ainda inédito. A genômica nacional e áreas afins tiveram um crescimento explosivo no período, concluem os autores.

A produção científica (quantidade de artigos) brasileira, em geral, cresceu 236%. Em contraste, a fatia da biologia molecular progrediu 434%: foram 1.928 trabalhos publicados em 2007, contra 361 em 1996. (...)

Artigos de pesquisadores baseados no Estado de São Paulo, onde nasceu o projeto Xylella, também avançaram consideravelmente: 515%. Sinal provável de que a iniciativa paulista ajudou a puxar o trem genômico em escala nacional.

Meneghini e Gamba se perguntaram, por fim, quantas patentes o esforço rendeu ao país. E foi aí que a biologia molecular nacional amarelou: em 12 anos, 279 patentes brasileiras depositadas nos EUA, meras 66 de origem paulista. Só para comparação, foram 996 da China, 1.054 da Índia e 2.221 da Coreia do Sul.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 10h29

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O mistério das células-tronco da Geron

 
 

O mistério das células-tronco da Geron

Começa a desfazer-se o mistério em torno do adiamento do teste clínico em seres humanos de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) da Geron contra traumas da medula espinhal. A razão do adiamento pela FDA (agência de alimentos e fármacos dos EUA) seria o surgimento de cistos microscópicos em animais submetidos à terapia experimental que poderia reverter o confinamento de muitas pessoas a cadeiras de rodas, segundo a expectativa geral.

Stevens Rehen, da UFRJ, foi quem avisou o blog da novidade, encaminhando link de reportagem da Associated Press na Forbes.

Segundo comunicado da empresa Geron veiculado ontem (27/8), cistos microscópicos se desenvolveram no local tratado em quantidade muito baixa de animais que participaram dos testes. "Os cistos eram não-proliferantes, confinados ao local do ferimento e não tiveram efeitos adversos sobre os animais. Nenhum animal desenvolveu teratomas ou qualquer outra estrutura ectópica. Cistos de tamanho muito maior aparecem no tecido cicatrizante da medula espinhal em até 50% dos pacientes com trauma de medula", afirma o comunicado.

Teratomas são tumores que podem ser induzidos por células-tronco embrionárias. Em realidade, são uma forma de testar a pluripotência de uma linhagem de supostas CTEHs, vale dizer, sua capacidade de transformar-se em outras células. Queremos que elas se transformem em neurônios ou outras células que ajudem na recuperação dos nervos danificados, mas não queremos que se reproduzam descontroladamente e deem origem a tumores.

A Geron afirma que o ocorrido faz parte do curso normal do desenvolvimento e aperfeiçoamento de um produto. É esperar e ver se a FDA concorda.

Escrito por Marcelo Leite às 16h26

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Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

 
 

Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

A grande esperança de cadeirantes vitimados por traumas da medula espinhal pode estar subindo no telhado. Ou, pelo menos, adiada. É só o que se sabe por ora da suspensão do teste clínico de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs), nos EUA, para tentar reverter o dano a nervos motores afetados por acidentes de carro e tiros, por exemplo.

A perspectiva de algum tratamento e cura, como a obtida em animais (roedores), foi recebida com fanfarra em janeiro, quando a FDA (agência federal de fármacos e alimentos dos EUA) deu autorização para a empresa Geron testar a terapia experimental em seres humanos.

A empresa conseguiu diferenciar (transformar) as polivalentes CTEHs em um tipo de célula nervosa chamada de oligodendrócito, que pode funcionar como uma espécie de zeladora de neurônios. Oligodendrócitos podem, por exemplo, ajudar a recompor a bainha de mielina das fibras que formam os nervos, sem a qual a ordem motora expedida pelo cérebro não se transmite até os músculos. A idéia é que, se essa terapia celular for aplicada em pessoas que sofreram traumas há menos de 15 dias, os nervos danificados ainda poderiam ser regenerados, antes que se forme tecido cicatrizante e a interrupção se torne definitiva.

Agora veio a água fria sobre a fervura, mas não está claro ainda se foi um copo ou um balde dela. A FDA sustou a realização do teste clínico em seres humanos, conforme anunciou - aparentemente num furo - o jornal californiano Silicon Valley Mercury News, em reportagem de Steve Johnson. Este blog tomou conhecimento da notícia pela newsletter da revista The Scientist. Saíram notas também no blog The Niche, da revista Nature, e no jornal The New York Times.

O adiamento do teste ocorreu depois de a Geron apresentar novos dados à FDA, colhidos em experimentos com animais para verificar o efeito de dosagens maiores do preparado de células. Como nem a Geron nem a FDA deram informações sobre o caso, mantido em sigilo pelo alto valor comercial da terapia se ela se revelar bem sucedida, as razões da suspensão ainda são um mistério.

Na versão mais benigna, trata-se só de um prazo imprescindível para os analistas da FDA processarem os novos dados (que devem ser volumosos, se seguirem o padrão da primeira documentação submetida pela Geron - 21 mil páginas). Na perspectiva mais pessimista, os novos documentos submetidos indicariam problemas de segurança no procedimento de injeção das células.

CTEHs, das quais se derivam os oligodendrócitos da Geron, são notórios por sua capacidade de multiplicar-se. Se começarem a fazê-lo de forma descontrolada no local de tratamento, o espaço apertado da medula espinhal, podem terminar causando mais dano do que benefício aos pacientes.

Tomara que não seja o segundo caso. Cadeirantes estiveram na linha de frente de muitas batalhas pela autorização da pesquisa com CTEHs, como aqui no Brasil, e seria péssimo constatar que todo aquele oba-oba pode não ter sido mais que uma maneira de lhes infundir falsas esperanças. De todo modo, leio na imprensa americana, eles estão furiosos com a FDA, pois defendem que eles mesmos devem ponderar os eventuais riscos envolvidos na terapia experimental e decidir se se submetem a ela ou não.

O que você acha - agências como a FDA devem reter esse poder discricionário sobre a doença alheia ou ceder à pressão de pacientes e familiares pelo direito de se agarrar a qualquer esperança, sem medir com o mesmo critério científico eventuais riscos envolvidos?

Escrito por Marcelo Leite às 17h47

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Promessas do genoma - e da epigenética

 
 

Promessas do genoma - e da epigenética

Graças à minha mulher, Claudia, tomei conhecimento de um dossiê da revista Newsweek sobre "as dores do parte da nova biologia", publicado na edição de 6 de julho. A coletânea de artigos faz uma espécie de necrológio do Projeto Genoma, dizendo que, apesar de todas as suas promessas, foi só o primeiro passo para a "revolução" que está varrendo a biologia e atende pelo nome de "epigenética" (uma intricada rede de regulação bioquímica composta por RNAs, proteínas e outras substâncias, que tira a primazia atribuída ao DNA pela razão genômica).

Hesitei um tanto antes de postar esta nota. Achei que pareceria cabotino, pois venho escrevendo coisas nessa linha há quase dez anos (a primeira vez que usei a palavra "epigenética" na Folha foi uma coluna publicada em 7 de novembro de 1999 - aqui, só para assinantes).

Quando a sequência do genoma foi publicada, em fevereiro de 2001, redigi um comentário (aqui, também com acesso restrito) em que dizia que a soletração punha em questão a própria noção de gene. Depois escrevi um livro sobre o assunto, Promessas do Genoma, publicado em 2007.

Às favas com os escrúpulos de consciência, como diria Jarbas Passarinho. Deixar de escrever a nota impediria partilhar com meus poucos e fiéis leitores um bem-acabado e esclarecedor trabalho jornalístico. Está todo disponível na rede, em inglês. Como não encontrei um link único para o dossiê, reproduzo todos:

As complexidades da vida, por Fred Gurtel
O casal estranho da biologia (Venter e Church), por Lily Huang
Além do Livro da Vida, por Stephen S. Hall
Um cessar-fogo na Guerra dos Transgênicos, por Mac Margolis
O mosquito revisado, por William Underhill
A visão de um médico para o futuro da medicina, por Leroy Hood
Aditivos cerebrais, por David H. Freedman
Uma biologia da doença mental, por Eric Kandel

Escrito por Marcelo Leite às 16h51

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Macacos verdes me mordam

 
 

Macacos verdes me mordam

(...) leitores mais interativos não pestanejam antes de agredir o jornalista, outros leitores e o próprio bom senso. Reeditei a experiência pela enésima vez na quarta-feira, ao noticiar no blog Ciência em Dia um feito biotecnológico significativo, a reprodução de saguis transgênicos e fluorescentes no Japão.

Para encurtar a história, direi só que a ideia dos pesquisadores da Universidade Keio é obter animais mais úteis para a pesquisa de doenças como Alzheimer e Parkinson. Em lugar de camundongos geneticamente modificados para desenvolver males semelhantes, pretendem usar macacos, bichos com fisiologia e constituição mais próximas do homem.

Esse é o objetivo final. Por ora, a equipe japonesa obteve só o que se chama de prova de princípio. Introduziu em saguis um gene de água-do-mar que faz o organismo exibir um brilho verde sob luz ultravioleta.

Não tem nada a ver com diversão. O propósito do brilho verde é verificar mais facilmente se o gene foi mesmo incorporado em todos os tecidos, inclusive nas células reprodutivas, como espermatozoides e óvulos. Foi, e o grupo conseguiu provar obtendo uma segunda geração de macaquinhos transgênicos verdes.

O assunto é polêmico, por envolver experimentos com animais e, pior, primatas. Assinalei esse aspecto controverso na nota do blog. Partilho da opinião de alguns especialistas em bioética de que macacos merecem mais proteção contra excessos em experimentação científica do que animais menos aparentados com seres humanos, como roedores.

Das cerca de 20 mil pessoas que leram a nota nas primeiras seis horas em que esteve no ar, 27 se animaram a comentar. Foi um festival de protestos contra o experimento.

Até aí, nada demais. Sentimentalismo com animais parece ser uma faculdade tão bem distribuída quando o bom senso cartesiano. O fato deprimente está nas expressões e raciocínios empregados, que de cartesianos não tinham nada.

Qualificar autores do estudo e o mensageiro da notícia como "idiotas" é um dos recursos mais usados. Prejulgar o experimento como supérfluo e cruel, outro. Defensores irrefletidos dos direitos dos animais adoram também desafiar os cientistas a se oferecerem, e a seus filhos, como cobaias de seus experimentos, em lugar de torturar os bichinhos...

Esse povo parece que nunca tomou remédios, todos testados em animais. Quantos não terão nascido por meio de cesarianas, ou foram salvos da morte por cirurgiões que treinaram técnicas de corte e costura na carne viva de cães e porcos inocentes?

Esta coluna é a primeira a advogar que não se pode dar carta branca a pesquisadores em matéria de experimentação com animais e que eles devem satisfação à sociedade sobre esforços para reduzir o sofrimento e o abuso nos laboratórios. Mas tudo tem limite -o limite do bom senso.


Leia íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h52

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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