Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Transgênicos: Europa X EUA, Brasil etc.

 
 

Transgênicos: Europa X EUA, Brasil etc.

 

Recebo do CIB (Conselho de Informações em Biotecnologia) notícia de um artigo de Alda Lerayer, presidente dessa associação da indústria de transgênicos, fazendo um balanço bem positivo - de seu ponto de vista - do setor no Brasil e no mundo. Seleciono um trecho revelador, na medida em que ela registra o abismo que há entre Europa e outras potências agrícolas, mas se isenta de comentar ou explicar:

"Ao todo, 25 países plantaram 134 milhões de hectares, o que corresponde a 9milhões de hectares a mais do que em 2008. Foram 14 milhões de grandes e pequenos agricultores no mundo que adotaram cultivos transgênicos em suas lavouras. Ainda de acordo com o ISAAA, os oito principais países no ranking de maiores produtores foram: Estados Unidos (64 milhões ha.), Brasil (21,4 milhões ha.), Argentina (21,3 milhões ha.),
Índia (8,4 milhões ha.), Canadá (8,2 milhões ha.), China (3,7 milhões ha.), Paraguai (2,2 milhões ha.) e África do Sul (2,1 milhões ha.).

"Diversas plantas geneticamente melhoradas estão disponíveis no mundo para o cultivo na Europa, mas apenas duas culturas transgênicas podem ser cultivadas comercialmente. A primeira é um milho resistente a insetos e a segunda é a batata com um maior teor de amilopectina, aprovada neste ano.

"Na Europa, a área plantada deste único milho transgênico alcançou 94.750 hectares em 2009. Os principais países de cultivo são: Espanha, República Checa, Romênia e Portugal. Além destes, a Eslováquia e a Polônia também estão cultivando o milho resistente a insetos. Hoje, a batata transgênica é plantada na Alemanha, República Checa e Suécia."

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h10

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As metáforas sem monotonia dos patagões

 
 

As metáforas sem monotonia dos patagões

Em viagem recente à região de El Calafate (Argentina) e Torres del Paine (Chile), aproveitei para ler "Na Patagônia", de Bruce Chatwin (Cia. das Letras). O livro, de 1977, foi muito falado na década de 1980, mas, apesar de uma queda por relatos de viagem, nunca cheguei nem a comprá-lo.

Pelas mãos delicadas de Claudia, cheguei enfim a esse belo livro (do qual ela gostou menos que eu), uma lição para jornalistas sobre narrativas cheias de informação e com juízos apenas na medida certa. Chatwin andou a pé pela região por meses, atrás de coisas e lendas como um pedaço de pele de milodonte (um fóssil de preguiça gigante) e até do bandoleiro Butch Cassidy.

No capítulo 64, ele conta o trabalho insano de Thomas Bridges (a região andou cheia de ingleses e galeses) para aprender e registrar a língua dos índios yaghan, "que Darwin menosprezava" (sim, esse inglês famoso também andou por lá). Ao discutir a velha e equivocada noção de que línguas "primitivas" carecem de conceitos abstratos, Chatwin escreve (com tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura):

"A língua yaghan - e por inferência todas as línguas - opera como um sistema de navegação. As coisas nomeadas são pontos fixos, alinhados ou comparados, que permitem a quem fala planejar o passo seguinte. Se Bridges tivesse desvendado a extensão das metáforas yaghan, seu trabalho jamais chegaria ao fim. Ficou-nos, porém, o suficiente para que possamos ressuscitar a clareza do intelecto daqueles índios.

"O que deveremos pensar de um povo que definia monotonia como "ausência de amigos"? Ou, para depressão, recorria à palavra que descrevia a fase vulnerável do ciclo sazonal do caranguejo, quando ele se desprendeu da casca e aguarda que outra cresça? Ou que derivava preguiçoso do pinguim-jumento? Ou adúltero do pequeno falcão que adeja aqui e ali, e paira imóvel sobre sua próxima vítima?

"Seguem alguns de seus sinônimos:
Chuva misturada com neve - Escamas de peixe
Cardume de arenques pequenos - Muco pegajoso
Emaranhado de árvores caídas bloqueando o caminho - Soluço
Combustível - Algo que se queimou - Câncer
Mexilhões fora de estação - Pele enrugada - Velhice

Escrito por Marcelo Leite às 14h25

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Mutirão de risco

 
 

Mutirão de risco

 

(Foto: Marino Azevedo/Governo do Estado do Rio de Janeiro)

A Folha de hoje traz reportagem (aqui, para assinantes) com detalhes do sistema nacional de alerta de desastres que o governo federal decidiu criar, com vários anos, se não décadas, de atrasos. A matéria se baseia num documento de 13 páginas apresentado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que aponta dois gargalos para um sistema desses funcionar. Diz a reportagem:

“Os mapas de risco constituem o principal gargalo do futuro sistema de alerta. O plano prevê mapear o risco de deslizamento em 500 áreas e o de inundação em outras 300 áreas. Esse levantamento consumiria os próximos quatro anos, até cobrir a maior parte das áreas de risco do território nacional. (...)

"O esforço abrangeria, eventualmente, até os batalhões de engenharia do Exército. É o que ocorre nos Estados Unidos com o Corps of Engineers, que tem a redução do risco de desastres incluída em sua missão.

“O segundo gargalo é a falta de interligação dos dados produzidos por radares meteorológicos, fundamental para saber com precisão o volume real de chuvas numa região. Há 20 desses radares no Brasil, mas com falhas de manutenção e de cobertura geográfica (boa parte do Nordeste fica de fora).” 

Fala-se muito em inovação, talvez demais, na área de política de ciência e tecnologia no Brasil. Pôr um sistema assim de pé também constitui inovação – social.

Mobilizar o melhor conhecimento e a melhor tecnologia para salvar vidas e melhorar segurança e qualidade dos assentamentos humanos, evitando de quebra parte dos prejuízos materiais e o gasto posterior com salvamento e reconstrução: dá para imaginar aplicação mais necessária, criativa e útil da pesquisa nacional?

Agora, um sistema desses só sai se a presidente Dilma Rousseff cuidar e cobrar pessoalmente. Se for depender de ministérios e da barafunda de instituições de meteorologia e defesa civil, vai acontecer o mesmo que já ocorreu com a comissão coordenada há não sei quantos anos por Luiz Antonio Barreto de Castro, ex-secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia – aquele que chutou o pau da barraca ao sair: “A gente falou muito e fez muito pouco”.

Escrito por Marcelo Leite às 11h01

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Um protestante no Vaticano e um genoma na rede

 
 

Um protestante no Vaticano e um genoma na rede

Dois dropes rápidos:

1. O papa Bento 16 nomeou um protestante para presidir a Pontifícia Academia de Ciências. É o suíço Werner Arber, Nobel de 1978 pela co-descoberta das enzimas de restrição (ferramenta fundamental da biologia molecular).

Trata-se do primeiro não católico a presidir a academia do Vaticano, segundo leio no boletim ScienceInsider. A agremiação conta com 80 membros, entre eles o palmeirense fervoroso Miguel Angelo Laporta Nicolelis.

2. Conhece Steven "Tabula Rasa" Pinker? Pois agora poderá conhecer melhor um dos mais midiáticos pesquisadores dos EUA. O professor de Harvard pôs à disposição em sua página pessoal, ao lado de fotos etc., um link para a ficha individual no Projeto Genoma Pessoal.

Além de detalhes sobre a composição genética do psicólogo evolutivo (leia-se: sociobiólogo pós-moderno), você pode ver ali sua ficha médica e ficar sabendo que o homem toma 83 mg de aspirina todos os dias, já teve um câncer no nariz (em 2000) e sofre com dores lombares.

Escrito por Marcelo Leite às 17h08

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Clima de alarmismo

 
 

Clima de alarmismo

A nova hecatombe na região serrana do Rio sugere que as previsões sobre desastres inomináveis no futuro, em decorrência da mudança do clima, podem não ser tão exagerados quanto afirmam os céticos do aquecimento global. Tudo depende de conectar causalmente esse tipo de desastre, e sua frequência, com as predições dos modelos climáticos de que uma atmosfera mais quente trará mais eventos meteorológicos extremos como esses - o que não é coisa trivial de fazer.

Pressupor tal conexão, no entanto, já foi muito criticado por pesquisadores do clima. Não haveria uma tragédia planetária por acontecer de imediato, como fantasiou o filme "O Dia Depois de Amanhã". Agora, uma pesquisa de psicologia aplicada vem corroborar essa percepção, dizendo que mensagens alarmistas sobre a mudança climática podem ser contraproducentes e alimentar o ceticismo na população a respeito do aquecimento global.

O estudo foi publicado por Matthew Feinberg e Robb Willer em dezembro no periódico Psychological Science. Usaram dois experimentos para "provar" que mensagens alarmistas de fato aumentam o ceticismo por contradizerem a tendência das pessoas a acreditar que o mundo é justo. Se a mudança do clima vai matar, empobrecer ou prejudicar também pessoas inocentes, como as crianças afogadas em lama no Rio, uma reação natural das pessoas seria duvidar de que o aquecimento global seja uma realidade. Li rapidamente o artigo e os dois experimentos não me convenceram muito, mas fica o convite para o leitor formar sua própria opinião.

A tese, porém, é boa. Com efeito, é de pasmar a capacidade de muita gente de não enxergar - ou não querer ver - como são abundantes os indicativos da ciência de que há, sim, uma mudança climática em curso. Uma explicação, obviamente, é político-ideológica. Muitos optam por não acreditar em aquecimento global porque acham que é uma conspiração dos socialistas para extinguir a liberdade empresarial (por meio de regulamentação) ou a liberdade individual de dirigir jipões movidos a diesel, mas também há socialistas e comunistas - como no Brasil - convencidos de que a conspiração é de imperialistas americanos para impedir o desenvolvimento de países emergentes como o Brasil.

Quem reage irracional e psicologicamente ao alarmismo ou ideológica e canhestramente a fantasmas conspiradores vai ter razão de sobra para se tornar ainda mais cético diante do sítio de internet Global Warning (um trocadilho intraduzível entre Global Warming - aquecimento global - e Global Warning - alerta global). Trata-se de um esforço para vincular aquecimento global com ameaças à segurança doméstica dos EUA - de bases militares ameaçadas de inundação à dependência de combustíveis fósseis importados. Ou seja, para sensibilizar o americano médio, conservador e republicano e diminuir seu ceticismo diante do fenômeno.

Se Feinberg e Willer estiverem certos, o tiro vai sair pela culatra. E os socialistas céticos tupiniquins vão babar um pouco mais de raiva dos imperialistas.

EM tempo: recomendo a leitura deste texto de Mac Margolis.

Escrito por Marcelo Leite às 17h04

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O Novo Norte

 
 

O Novo Norte

 

Leia abaixo a íntegra da Entrevista da Segunda publicada hoje na Folha, que precisou ser cortada em mais ou menos 25%:

 


 

Depois dos Brics, os Norcs. Para Laurence C. Smith, geógrafo e especialista em mudança do clima da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a primeira metade do século 21 assistirá à emergência de uma região do globo em que não se presta muita atenção: o Norte. Um Novo Norte, com crescimento econômico e demográfico acelerados pelo aquecimento global e pela globalização.


“Norc” é a abreviação de “Northern Rim countries”, os países da Orla Norte. Em português, soaria melhor Extremo Norte. É das nações que circundam o oceano Ártico que trata seu livro, “The World in 2050 _ Four Forces Shaping Civilization's Northern Future” (O Mundo em 2050 _ Quatro Forças que Moldarão o Futuro da Civilização no Norte”; Dutton, 322 págs., US$ 26,95).


As quatro forças do título são a demografia (a população mundial continuará a crescer até 2050, chegando a 9,2 bilhões), a demanda por recursos naturais (idem), a globalização da economia e a mudança do clima. O Ártico, assinalam modelos climáticos, é a região do globo que mais se aquecerá. Melhor dizendo, já se aquece, à taxa de 1C ou 2C por década, dez vezes mais rápido que a média no restante do globo.


Isso se traduz em invernos mais amenos no norte do Canadá, Sibéria, Escandinávia e Alasca. E, quem sabe, nas próximas décadas, o derretimento completo da calota de gelo sobre o oceano Ártico durante o verão. Grande oportunidade para a navegação (um caminho mais curto entre Europa e Ásia) e para as jazidas já detectadas de petróleo e gás natural, porém de exploração e escoamento difíceis nas condições climáticas atuais.


Smith, no fundo, é um grande otimista. Ele não omite os problemas que serão causados no próprio Ártico pela mudança do clima, como o derretimento do solo congelado conhecido como “permafrost”, que pode arruinar a infraestrutura dos Norcs.


Trata-os, contudo, com fleuma, assim como à temível previsão de que o consumo de combustíveis fósseis _carvão, petróleo e gás natural, motores do aquecimento global_ continuará a crescer. “Na minha opinião, estamos só no início de uma batalha que durará séculos”, como quem diz: não adianta nada desesperar-se.


Smith também prefere acreditar que não haverá graves disputas geopolíticas no Novo Norte, nem guerras ou restrições à imigração. “Não se trata de dizer que a guerra não possa acontecer entre países como Canadá e Dinamarca, mas as linhas de fissura para um conflito estão muito menos aparentes do que para outras partes do mundo”, tranquiliza.


Leia os trechos principais da entrevista realizada por e-mail:



Folha – Se a temperatura não está crescendo tão depressa nos países tropicais, e como o Brasil e nações africanas vêm descobrindo _além de sua biodiversidade e terras agricultáveis_ imensas reservas de matérias primas como petróleo (a exemplo das recentes descobertas brasileiras na camada do pré-sal), não seria mais correto predizer que um avanço mais importante deve ocorrer por volta de 2050 na altura do equador, em parceria com a China, do que na altura do círculo polar ártico?

Smith – Esses avanços pelo restante do mundo também acontecerão, não são mutuamente excludentes. Está muito claro que a Mongólia interior, por exemplo, é uma peça decisiva no futuro energético da China. Está igualmente claro que as areias betuminosas do Canadá e a península Yamal da Rússia são peças decisivas para o futuro da energia na América do Norte e da Europa, respectivamente.

Folha – Levando em conta as areias betuminosas do Canadá, petróleo e gás dos Norcs, mais petróleo no Brasil e na África, carvão abundante nos EUA, na Rússia e na China, pode-se dizer que o mundo já está comprometido com um aumento paulatino das emissões de CO2 e com um aquecimento superior a 2C neste século? O livro afirma que “simplesmente não existe um meio realista de eliminar o petróleo, o carvão e o gás natural do portfólio de energias mundiais em apenas 40 anos”.

Smith – A maioria dos formuladores de políticas concorda, depois dos fracassos de Copenhague e de Cancún em produzir um tratado internacional legalmente vinculante sobre mudança do clima, que estamos provavelmente comprometidos com um aumento superior a 2C na temperatura média global. Mas o aquecimento do clima não para simplesmente por aí, 2C é só o começo, a não ser que tomemos medidas concretas para controlar as emissões de carbono.

Os oceanos nem sequer estão dando conta, ainda, do CO2 que já produzimos. Em nossa trajetória atual estamos a caminho de triplicar a queima de carvão até 2050. Quanto acabarão os seres humanos por aquecer o clima? Quais serão os debates dentro de 20 anos? Na minha opinião, estamos só no início de uma batalha que durará séculos.

Folha – Legisladores americanos parecem apostar na captura e no armazenamento de carbono (CCS) para matar dois coelhos com uma só cajadada: mitigar a mudança do clima, diminuindo emissões de carbono, ao mesmo tempo em que se permite a manutenção da exploração de imensas reservas de carvão. É uma aposta errada?

Smith – A tecnologia CCS, na escala necessária para sequestrar todas as emissões de CO2 do carvão, é algo ainda inteiramente carente de comprovação. Seria uma aposta perigosa contar com isso.

Folha – Quanto mais tarde os EUA enfrentarem a necessidade de cortar suas próprias emissões de CO2, maior e menos resgatável se tornará sua “dívida de carbono” com a atmosfera terrestre. Não será fácil pagá-la sem um desconto ou sem comprometer a competitividade das empresas americanas numa economia globalizada. Como reagirá o governo dos EUA, com medidas protecionistas?

Smith – Futuros políticos são impossíveis de predizer, porque são impelidos pelas decisões de líderes individuais. É muito mais difícil saber se os EUA continuarão com seu modelo de globalização mantido há tempos do que conhecer o futuro da temperatura média global.

Folha – Algumas passagens do livro deixam no leitor a impressão de que o sr. se preocupa mais com a água do que com o esgotamento de reservas de petróleo. A impressão está correta?

Smith – Ambas são criticamente importantes, é óbvio. Mas a água será muito provavelmente a crise definidora do século 21. Podemos encontrar tipos alternativos de energia, mas não tipos alternativos de água.

Folha – Quando o sr. se questiona sobre o que faz as civilizações vicejarem, deixa a guerra fora da equação. Não é muito optimismo?

Smith – Há razões para otimismo quando se considera a probabilidade de guerra aberta entre os países Norc. Não se trata de dizer que a guerra não possa acontecer entre países como Canadá e Dinamarca, mas as linhas de fissura para um conflito estão muito menos aparentes do que para outras partes do mundo.

Folha – Os Norcs, de acordo com sua análise, parecem ter uma faca de dois gumes em suas mãos: o efeito da mudança do clima pode ser visto tanto como um bônus quanto como uma maldição para eles. O petróleo que se espera extrair do Ártico vai acelerar as emissões de carbono e a mudança do clima, que tornará o permafrost instável para construir estradas e prédios. Não estaríamos diante de um ciclo econômico mais do tipo expansão-e-crise (“boom-and-bust”)?

Smith – A desestabilização do permafrost pode tornar certas áreas antieconômicas e talvez forçar seu abandono. Mas petróleo e gás são apenas uma pequena parte deste livro. Em graus variados, os Norcs possuem vantagens crescentes em coisas como água, educação, companhias globalizadas e políticas de imigração favoráveis. Meus argumentos se baseiam nelas, também, e não simplesmente na extração de recursos naturais.

Folha – Por que o sr. está tão seguro de que a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Unclos, na abreviação em inglês) oferece uma moldura adequada para prevenir disputas perigosas pelo controle das riquezas no leito marinho do Ártico? O direito internacional não impediu os EUA de invadir o Kuait nem o Iraque.

Smith – A convenção parece satisfatória, ao menos por ora, porque todas as cinco potências do Ártico se alinharam com ela de modo unânime. Eles resistem claramente a quaisquer outras propostas de governança para a região, por exemplo a governança internacional da Antártida.

Folha – Sua conclusão é que a questão mais importante não é de capacidade, mas sobre o desejo: “Que tipo de mundo queremos?” Seria um sinal de que os pesquisadores do clima estão finalmente reconhecendo que sua ciência sempre teve uma dimensão ética que a maioria deles tentou soterrar sob toneladas de dados nos últimos 20 anos?

Smith – Essa sentença final fala sobre algo muito além da ciência do clima, sobre enfrentar os muitos outros dilemas éticos aventados pela obra. Até que ponto podemos danificar ecossistemas para obter os recursos naturais necessários para a sociedade moderna? Deveriam os imigrantes globais ser barrados ou cobiçados? Os idosos deveriam receber cuidados de seres humanos ou de robôs? O leitor encontrará muitas dessas questões éticas no livro.

 

Mapa de rotas marítimas no Ártico (Reprodução)

Escrito por Marcelo Leite às 11h05

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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