O papa piscou

Bento 16, o papa intelectual (já debateu até com Jürgen Habermas), parece agudamente consciente de que não dá para ignorar a ciência. Como religioso, porém, está obrigado a reafirmar a superioridade da fé - sobre o conhecimento terreno - como reveladora do significado último ("verdadeiro") da realidade.

Não parece ser outra a interpretação do que ele disse em sua homilia de ontem, Dia de Reis, a respeito do Universo (leia a notícia aqui). "O Universo não é fruto do acaso, como alguns querem que acreditemos", disse Bento 16 na celebração da Epifania (comemoração da chegada dos três reis magos até a manjedoura do Menino Jesus, seguindo a estrela de Belém).

É uma maneira antiga de (tentar) conciliar religião e ciência, a preferida por pesquisadores que preservam a própria fé: aquilo que a ciência descobre nada mais seria que as maquinações da mente de Deus. A ordem e a regularidade observadas e reconstruídas, meros reflexos da sapiência e sabedoria divinas. Não deixa de ser uma diminuição da potência divina, como se ela estivesse limitada pela necessidade da ordem. Se fosse um jogo de pôquer, seria como se o papa tivesse "piscado".

Esse modo teológico de conceber as coisas, no entanto, busca salvaguardar a onipotência e a onisciência de Deus diminuindo a própria ciência secular, que produziria só conhecimento parcial da realidade. A totalidade estaria apenas no alcance da mente de Deus. Humanos, desde que crentes, teriam acesso a ela apenas de uma maneira confusa, sensitiva, não precisamente racional: a fé.

Não deixa de ser oportuno um intelectual lembrar que a ciência não produz exatamente verdades, muitos menos imutáveis e completas, como pressupõe o senso comum (ignorante de que o conhecimento científico, embora objetivo, é provisório, sujeito a revisões seguidas). Serve para contrabalançar as tendências maximalistas e absolutistas de alguns propagandistas da tecnociência.

O problema é concluir, num perfeito "non sequitur", que essa limitação do conhecimento humano corrobora a infinitude do intelecto divino. A posição mais equilibrada seria dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra, ou seja, que a religião nada tem a informar ou prescrever para a ciência, e vice-versa (nas palavras mais cultas que aprendi de Stephen Jay Gould, que são "magistérios não coincidentes").

Eis aqui, em italiano, a passagem da homilia em que Bento 16 se estende sobre o Universo:


E veniamo così alla stella. Che tipo di stella era quella che i Magi hanno visto e seguito? Lungo i secoli questa domanda è stata oggetto di discussione tra gli astronomi. Keplero, ad esempio, riteneva che si trattasse di una “nova” o una “supernova”, cioè di una di quelle stelle che normalmente emanano una luce debole, ma che possono avere improvvisamente una violenta esplosione interna che produce una luce eccezionale. Certo, cose interessanti, ma che non ci guidano a ciò che è essenziale per capire quella stella. Dobbiamo riandare al fatto che quegli uomini cercavano le tracce di Dio; cercavano di leggere la sua “firma” nella creazione; sapevano che “i cieli narrano la gloria di Dio” (Sal 19,2); erano certi, cioè che Dio può essere intravisto nel creato. Ma, da uomini saggi, sapevano pure che non è con un telescopio qualsiasi, ma con gli occhi profondi della ragione alla ricerca del senso ultimo della realtà e con il desiderio di Dio mosso dalla fede, che è possibile incontrarlo, anzi si rende possibile che Dio si avvicini a noi. L’universo non è il risultato del caso, come alcuni vogliono farci credere. Contemplandolo, siamo invitati a leggervi qualcosa di profondo: la sapienza del Creatore, l’inesauribile fantasia di Dio, il suo infinito amore per noi. Non dovremmo lasciarci limitare la mente da teorie che arrivano sempre solo fino a un certo punto e che – se guardiamo bene – non sono affatto in concorrenza con la fede, ma non riescono a spiegare il senso ultimo della realtà. Nella bellezza del mondo, nel suo mistero, nella sua grandezza e nella sua razionalità non possiamo non leggere la razionalità eterna, e non possiamo fare a meno di farci guidare da essa fino all’unico Dio, creatore del cielo e della terra. Se avremo questo sguardo, vedremo che Colui che ha creato il mondo e Colui che è nato in una grotta a Betlemme e continua ad abitare in mezzo a noi nell’Eucaristia, sono lo stesso Dio vivente, che ci interpella, ci ama, vuole condurci alla vita eterna.