Vamos comer urubus?

 

Comer é coisa séria, embora nos esqueçamos disso com frequência. Qualquer povo indígena tem um monte de normas, interdições e recomendações. Tradições mais fundamentalistas, como muçulmanos e judeus ortodoxos, também. Nós, “ocidentais”, é que nos fazemos de onívoros sem preconceitos, dispostos a comer de tudo, em especial se vier num saquinho colorido e prateado.

Mas não conheço ninguém que coma cachorro. Nem urubu. Um excesso de fome, ou ter nascido noutra cultura, pode tornar essas coisas lícitas, mas em condições normais de temperatura e pressão – ou seja, mergulhados nos limites ao mesmo tempo opacos e transparentes da nossa própria cultura – somos todos moralistas, como ficou patente na pseudopolêmica contra os urubus de Nuno Ramos na Bienal.

A propósito, recomendo a leitura de seu texto, “Bandeira branca, amor”, no caderno Ilustríssima de ontem, domingo. Nuno consegue defender-se e ir ao ataque com franqueza e sem cabotinismo.

Noves fora, fica evidente que as novas senhoras de Santana, entre um regime e outro, ou no caminho entre a academia e o pet-shop, decidiram tornar-se defensoras dos direitos dos animais. Radicais, marcham com seus poodles para libertar urubus da arte e confiná-los de volta ao espaço bem mais estreito que o vão livre do prédio da Bienal.

É o mesmo tipo de adesão abstrata à “vida” que transforma algumas pessoas em fanáticos antiaborto. Ou em adeptos idem do vegetarianismo.

Este blog considera a pecuária (e o hábito de comer carne que a sustenta) um problema, mas não um pecado. Vê muitas razões para reformá-la e humanizá-la, não tantas para extirpá-la. Aceita de boa fé debater as implicações éticas da deglutição com um pensador honesto como o utilitarista Peter Singer, como na entrevista que serviu de base para o artigo “A dor dos moluscos”.

Prefere, no entanto, seguir a recomendação de Oscar Wilde ser moderado até no uso da moderação.Inclina-se, por isso, em favor das regras para o comer bem mais flexíveis propostas por Michael Pollan, o outro polo do artigo no Ilustríssima. Melhor sentar-se à mesa diante de um bom bife na companhia de Nuno Ramos e seus urubus, com boas maneiras e boas razões, do que jejuar entre apóstolos fundamentalistas prontos a vandalizar obras de arte em nome da falsária libertação animal.