Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

A moral progride com a história?

Experimento com sífilis em Tuskegee, Arizona (EUA)

Minha coluna de hoje na Folha.com tece reflexões muito particulares sobre tenebrosos experimentos realizados na década de 1940 por pesquisadores americanos. Espero que os parágrafos de conclusão reproduzidos abaixo o convençam a ler o texto todo:


A lição que poucos extraem dessa história é que não existe um ótimo predeterminado em matéria de moralidade. Tendemos a considerar nossas próprias convicções como as mais universais e válidas, mas elas também terminarão por alterar-se. Basta dar tempo ao tempo.

Se a Igreja Católica mudou como mudou, e até os mitos de populações indígenas se alteram para incorporar experiências históricas (como o contato com os europeus), por que seriam imutáveis as noções atuais de direitos humanos?

Em lugar de "mutáveis", porém, deveria dizer "expansíveis". Não tem cabimento mudar os conceitos de dignidade e direitos para deles excluir seres, ou aceitar que eles, além de históricos, sejam culturalmente dependentes.

A matança de judeus e ciganos na Segunda Guerra é odiosa agora como no passado - na Alemanha, no Irã ou na França. A vingança travestida de punição pela pena de morte será um dia universalmente reconhecida como repulsiva _nos Estados Unidos, no Irã, em Israel ou na China.

Por ora, temos de nos contentar com o fato de que experimentos como os de Tuskegee, Guatemala ou Auschwitz já são vistos como obviamente criminosos e infames. É mais um passo - e está longe de ser o último.

Escrito por Marcelo Leite às 09h12

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20% verde

 
 

20% verde

Desde o primeiro turno andava incomodado com a "explicação" do aborto para o subida de 10% das intenções de voto de Marina Silva para os 20% de votos válidos que recebeu. Uma oportunidade de pôr a boca no trombone surgiu com o convite para escrever a tradicional coluna vertical da página 2 da Folha nesta terça. O assinante da Folha e do UOL poderá ler o texto aqui. Para o internauta, ofereço um aperitivo:

 


O pior dessa regressão [a discussão sobre aborto] é a tentativa de atribuir ao atraso a única coisa nova que surgiu nos programas encharcados de marketing: a campanha de Marina Silva, acomodada às pressas no maleável Partido Verde.
Sua alta nas pesquisas de intenção de voto e depois a confirmação da "onda verde" com 20 milhões de sufrágios sofreram uma desvalorização. Seriam, juram muitos, produto da migração de votos de evangélicos insatisfeitos com as supostas opiniões de Dilma Rousseff a respeito da interrupção da gravidez.
Não cabe, na tacanha imaginação política que domina as análises, a hipótese de que a votação obtida por Marina Silva tenha sido por seu programa, suas ideias ou seu desempenho nos debates engessados da TV. Que terceira via, que nada. É o velho atraso nacional dando as caras, mais uma vez.
Se Marina Silva é da Assembleia de Deus, e se não renegou suas opiniões conservadoras sobre aborto, drogas, homossexualismo etc., então os votos que empalmou só podem ter origem em mentes simplórias, que recuam em horror diante da hipótese de um genocídio abortivo.
É um silogismo mais amalucado que o normal em um país avesso à lógica. O tipo do chute que, numa esfera pública mais desenvolvida, ninguém se arriscaria a dar sem apoio em evidências. Onde estão?

Escrito por Marcelo Leite às 17h02

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Gleiser por Smolin

 
 

Gleiser por Smolin

Lee Smolin, físico e escritor, escreveu uma resenha generosa do novo livro do nosso Marcelo Gleiser. “Criação Imperfeita". Leia o parágrafo chave:

 


 

Concorde-se ou não com o argumento central de Gleiser, é um prazer seguir seu raciocínio porque o livro é tão lindamente escrito. A prosa é elegante e seu toque é suave. É um clichê do jornalismo científico popular medíocre abrir e fechar com uma história pessoal que foi obviamente enfiada de última hora por insistência de um editor: “Na semana passada fiz uma caminhada e fui surpreendido com a beleza da natureza e isso me relembrou de dois anos atrás, quando uma ideia me ocorreu enquanto eu ouvia uma palestra numa conferência”. Mas a história pessoal de Gleiser é central para seu livro, embora nunca se intrometa em seu argumento. É a história de uma criança que cresceu no Brasil, tornou-se um cientista e foi então abençoado com filhos que lhe ensinaram a ver o mundo de novo pelos olhos de seu próprio eu mais jovem. Ajuda o argumento porque é a história real da evolução do pensamento de um cientista inteligente e reflexivo.

 


Não consigo imaginar elogio mais cativante da parte de um par. No lugar de meu xará Gleiser, estaria radiante.

 

Escrito por Marcelo Leite às 17h31

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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