Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

O Brasil de Marina Silva

 
 

O Brasil de Marina Silva

A Folha de hoje traz um polpudo caderno sobre os candidatos a presidente e o que pretendem fazer pelo Brasil. Este blogueiro contribuiu com uma análise sobre o programa da candidata do PV que começa assim:


O Brasil de Marina Silva será um país austero. Sob vários aspectos, até mesmo conservador. Não, porém, convencional, como se espera de uma presidente verde.

Sua prioridade estará na educação, não no ambiente. Em lugar de um Plano de Aceleração da Sustentabilidade, quer marcar sua eventual gestão por um PAE, com "e" de educação e alvo na inovação tecnológica.

O conservadorismo religioso da candidata do PV pouco ou nada influenciará suas políticas. Confrontada com questões sensíveis como liberalização do aborto, ela sai pela tangente com a proposta de plebiscito. Em 125 proposições apresentadas por ela durante dois mandatos no Senado, nenhuma parece obviamente relacionada a igrejas evangélicas, como a sua Assembleia de Deus.

É na gestão da macroeconomia que se revelará sua face mais conservadora. Assessorada por economistas como Eduardo Giannetti da Fonseca, Marina assumiu compromisso com a manutenção da política econômica de FHC e Lula, calcada em metas de inflação, câmbio flutuante e independência do Banco Central.

O passo adiante será deslocar a ênfase da taxa de juros para o controle do gasto público. Um dos raros compromissos quantitativos nas diretrizes para um programa de governo é a meta de restringir o aumento da despesa a 50% do avanço do PIB.

Fala-se, também, em reduzir o número de cargos federais de livre provimento. Na mesma linha, as diretrizes prometem rever "programas extraordinários de anistia fiscal", como o Refis.

A obtenção de altos superavits primários não terá por objetivo financiar o consumo, e sim aumentar a capacidade de investimento do Estado. Não em um rol de obras de interesse de oligarquias estaduais e empresários apadrinhados pelo BNDES, como no PAC, mas com planejamento balizado pela descarbonização da economia.


A íntegra da análise pode ser lida por assinantes da Folha e do UOL aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 09h42

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Palpites sobre prêmios Nobel de 2010

 
 

Palpites sobre prêmios Nobel de 2010

O conglomerado de informação Thomson Reuters preparou de novo seu rol de nomes com alguma chance de ganhar prêmios Nobel, se as estatísticas que compila sobre produção científica e impacto têm de fato algum valor preditivo. Eis os palpites:

QUÍMICA - Patrick Brown, Susumu Kitagawa, Stephen Lippard e Omar Yaghi

FÍSICA - Charles Bennett, Thomas Ebbesen, Lyman Page, Saul Perlmutter, Adam Riess, Brian Schmidt e David Spergel

MEDICINA - Douglas Coleman, Jeffrey Friedman, ERnest McCulloch, Ralph Steinman, James Till e Shinya Yamanaka

ECONOMIA - Alberto Alesina, Nobuhiro Kiyotaki, John Moore e Kevin Murphy

A Thomson Reuters monta as listas com base em múltiplos critérios, inclusive o recebimento de outros prêmios prestigiados. Se quiser saber mais sobre o método, leia aqui. Detalhes sobre os nomes acima e seus temas de pesquisa, aqui.

Leve em conta que, mesmo errando mais que acertando, esse pessoal antecipou parte dos nomes de medicina no ano passado e em 2008, como se pode ler nesta reportagem da revista "The Scientist".

Escrito por Marcelo Leite às 19h46

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"Ciência em Dia" rides again

 
 

"Ciência em Dia" rides again

Após um longo e injustificável silêncio, o blog volta à ativa. Viagens e uma sucessão de problemas dificultaram sua atualização, mas isso não é desculpa. Com o rabo entre as pernas, gostaria de indicar duas coisas para o leitor:

1. IMPORTAÇÃO - Se for pesquisador, não deixe de responder ao questionário digital que um pessoal da UFRJ, Stevens Rehen à frente, lançou sobre o eterno problema da importação de equipamentos e insumos para pesquisa. Entra governo, sai governo, e a questão da burocracia não se resolve.

2. INTERNET BURRA - Na segunda-feira passada, a Folha publicou entrevista minha com Nick Carr, autor de "The Shallows What the Internet is Doing to Our Brains" (que poderia ser traduzido como "No Raso - O que a Internet Está Fazendo como Nossos Cérebros"). Embora ocupando uma página inteira do jornal, o texto ficou curto. Vale a pena ler a íntegra da conversa, publicada na Folha.com. Uma amostra:

Cena do filme "Fahrenheit 451", de F. Truffaut;

bombeiros eram encarregados de queimar livros


FOLHA - Seu livro, "The Shallows", deplora a internet como ameaça à mente formada pela invenção de Gutenberg, que nos deu o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Industrial e o Modernismo. Mas a invenção de Gutenberg também não destruiu a mente e a filosofia medievais, assim como toda a cultura clássica greco-romana? Ou seria mais preciso dizer que ambas as invenções amplificaram e continuaram a cultura do passado?
NICHOLAS CARR - Toda tecnologia de comunicação e escrita traz mudanças. Perdemos coisas do passado e ganhamos outras coisas novas. Isso é verdadeiro mesmo para o período anterior a Gutenberg, com a invenção do alfabeto, pela maneira como alterou a memória humana e nos deu maior capacidade de intercambiar informação. A internet, assim como tecnologias anteriores, amplifica certos modos de pensar e certos aspectos da mente intelectual, mas também, ao longo do caminho, sacrifica outras coisas importantes.

FOLHA - Uma espada de dois gumes, por assim dizer.
CARR - Sim.

FOLHA - Se a leitura e a reflexão profundas estão em risco, como explicar o sucesso de coisas como o Kindle e mesmo de seu livro?
CARR - As coisas não mudam de imediato. Há ainda um grande número de pessoas que leem livros. O número ao menos dos que leem livros sérios vem caindo há um bom tempo, mas haverá pessoas lendo livros por muito tempo no futuro. Meu argumento é que essa prática está se mudando do centro da cultura para a periferia, e as pessoas começam a usar a tela como sua ferramenta principal de leitura, não a página impressa. Acho também que, à medida que mudamos para dispositivos como Kindle ou iPad para ler livros, mudamos nossa maneira de ler, perdemos algumas das qualidades de imersão da leitura.

FOLHA - Mas as pessoas não os usam para navegar, leem como se fossem de fato livros.
CARR - O Kindle se sai bastante bem na tarefa de reproduzir a página impressa. O que sabemos sobre o futuro desses aparelhos é que as companhias que os fazem tendem a competir com base nas novas funções que lhes acrescentarem. A questão é saber se os leitores eletrônicos, ao competir, vão manter a competência da página impressa, ou se vão começar a incorporar novas funções baseadas na internet, redes sociais, sistemas de mensagens e outras ferramentas. Mesmo com o Kindle já vemos a tendência a incorporar novas funções, como as de redes sociais. Infelizmente, o efeito das novas funções será acrescentar mais distrações à experiência de ler.

FOLHA - O que pode ser feito em termos práticos e individuais para resistir a essa tendência_ reservar algumas horas no dia ou na semana para permanecer desconectado? É o que o Sr. faz nas montanhas do Colorado?
CARR - (Risos) Não escrevi o livro para ser do tipo de autoajuda. A mudança que estamos vendo faz parte de uma tendência de longo prazo, na qual a sociedade põe ênfase no pensamento para a solução rápida de problemas, tipos utilitários de pensamento que envolvem encontrar informação precisa rapidamente, distanciando-se de formas mais solitárias, contemplativas e concentradas. Por outro lado, como indivíduos, nós temos escolha. Mesmo que a desconexão se torne mais e mais difícil, pois a expectativa de que permaneçamos conectados está embutida na nossa vida profissional e cada vez mais na visa social, a maneira de manter o modo mais contemplativo de pensamento é desconectar-se por um tempo substancial, reduzindo nossa dependência em relação às tecnologias de tela e exercendo nossa capacidade de prestar atenção profundamente em uma única coisa.

FOLHA - Seu livro lembra o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut, baseado em romance de Ray Bradbury em que as pessoas decoravam livros para impedir que todos fossem destruídos. O Sr. acredita que essa seja a mensagem mais comum extraída dele, a importância de permanecer desconectado para preservar algo que não se deve perder?
CARR - Sim, e fico mesmo gratificado com isso. Muitas pessoas que o leram reagiram dessa maneira. O valor do livro para elas, pessoalmente, foi confirmar algo que talvez não tivessem percebido claramente antes, que estão de fato perdendo essa habilidade de ler e pensar em profundidade. Estão questionando sua dependência da nova tecnologia digital e, em alguns casos, tentam moderar o uso das engenhocas e retornar à leitura de material impresso, reservando tempo para contemplação, reflexão e meditação, modos mais solitários e calmos de pensar.

Escrito por Marcelo Leite às 10h23

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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