Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

A Copa acabu - de volta aos problemas de fato

 
 

A Copa acabou - de volta aos problemas de fato

 

Desmatamento na Amazônia (Foto: Ayrton Vignola)

Não vi o jogo - ainda bem. Agora que o esquadrão do sargento Dunga toma o caminho de casa, o Brasil precisa voltar aos problemas reais. Por exemplo, ao "reacionário e predatório" projeto sobre florestas do deputado nominalmente comunista Aldo Rebelo (PCdoB-SP) -- qualificação que não é minha, mas do grande Márcio Santilli, em artigo cuja leitura recomendo.

 

Escrito por Marcelo Leite às 15h22

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Conselhos inúteis para chegar ao Nobel

 
 

Conselhos inúteis para chegar ao Nobel

 

Sir Harry Kroto responde a pergunta de estudante em teatro de Lindau (Alemanha)

(Foto: Marcelo Leite)


Duas figuras encantaram a plateia do 60º Encontro de Prêmios Nobel de Lindau (sul da Alemanha). Ambas poderiam ser avós ou bisavós da maioria dos 675 jovens pesquisadores presentes, em geral escolhidos pelas academias de ciência dos 68 países presentes. Quase todos os laureados dispensam conselhos a rodo sobre como ter sucesso na carreira, mas Oliver Smithies e Ada Yonath souberam fazê-lo com graça e sentimento, coisa em geral incomum em cientistas -- mesmo se distinguidos com um Nobel.

Oliver Smithies (Medicina, 2007, Reino Unido) é o campeão. Sua palestra de 30 minutos na quarta-feira foi de longe a mais aplaudida até agora (o encontro termina amanhã, com uma passeio de barco à ilha Mainau, no lago de Constança, onde haverá um debate).

Smithies começou por descrever-se como um estudante, um estudante da ciência. A maior parte de sua apresentação compôs-se de imagens de seus cadernos de anotações de laboratório (o último deles descrito como Z'3, "zê linha três", o que dá uma ideia da quantidade que acumulou na longa carreira). Uma das anotações mais recentes era datada do sábado anterior, 26 de junho. Aos 85 anos, Smithies ainda comparece diariamente ao laboratório, mesmo num sábado.

Disposição para trabalhar aos sábados, aliás, é uma das recomendações que ele fez aos jovens, para chegar ao sucesso (além de sorte). E arranjar um cônjuge compreensivo o bastante para lidar com isso. Françoise Barré-Sinoussi (Medicina, 2008, França), a seu lado num painel posterior sobre "Ser Cientista", contou que, no dia de seu casamento, o futuro marido ligou às 11h30 para ela, que estava no laboratório, e perguntou se ela conseguiria ir. Faltava meia hora para subir ao altar. Decidiram não ter filhos.

Ada Yonath (Química, 2009, Israel) fez o papel de vozona encantadora. Efervescente, começou a palestra com metáforas exasperantemente infantis sobre o ribossomo, fábrica de proteínas em que entram caminhõezinhos com aminoácidos por uma porta e sai a fita de polipeptídio por outra. Bem, havia físicos e químicos na plateia, que provavelmente não sabem o que é um ribossomo. Mas ela foi em frente, agregando informação cada vez mais abstrusa, e terminou por dar uma boa ideia do que está em jogo com esse fóssil molecular (leia post abaixo), compreensível até para jornalistas.

Foi no toque pessoal, porém, que Yonath conquistou a audiência. Contou que tem netos e que uma delas a elegeu "a melhor avó do ano". Perguntou à garota por que não melhor avó para sempre, e ela lhe respondeu: para que continuasse se esforçando (essa menina um dia ainda vai dar uma boa orientadora). Yonath mostrou um bolo de aniversário em formato de ribossomo. E trouxe o auditório abaixo com uma caricatura de si mesma com uma peruca igual à fábrica de proteínas.

Muitas perguntas dos jovens foram sobre como apresentar resultados de maneira compreensível, dada a complexidade da maioria das pesquisas hoje em dia. Smithies tomou rápido a palavra para dizer que Powerpoint devia ser proibido (embora ele tivesse empregado o dispositivo para mostrar as páginas de seus cadernos). O moderador, Adam Smith (que assinatura para um jornalista, não?), virou-se para sir Harry Kroto (Química, 1996, Reino Unido), que qualificou de "rei do Powerpoint", e perguntou o que achava do que Smithies tinha dito.

Kroto disse que o problema não era o programa, mas que as pessoas não sabem usá-lo, enfiam muita informação num só slide. Convidou Smithies a ver uma de suas apresentações, famosas pelo dinamismo. Kroto contou que investe muitas horas na preparação das palestras. De fato, é mais comum vê-lo debruçado sobre dezenas de imagens em seu laptop, nas mesas reservadas para jornalistas dentro do Insel Halle (auditório), do que prestando atenção nas palestras dos colegas de Nobel.

Não foram pouscos os Nobel, também, que defenderam o recurso a metáforas para explicar seus estudos esotéricos. Martin Evans, por exemplo, é seguidor da escola Yonath. Mostrou slide animado em que o mecanismo de inibição de um gene aparece como o cinto que segura as calças do bonequinho sem suspensório (o boneco do lado tem suspensório, ou uma versão "boa" de outro gene, BRCA). Quando o primeiro gene é desativado, a calça cai, quer dizer, a pessoa desenvolve câncer. Pode não ser a coisa mais engraçada do mundo, mas todo mundo entendeu.

Roger Tsien (Química, 2008, EUA) arrancou risadas com seu conselho aos físicos para ampliar o mercado de trabalho: dirijam-se para a biologia, não para a engenharia financeira. Ivar Giaever (Física, 1973, Noruega) secundou: não sobraram problemas na física do estado sólido, mas a biologia continua cheia de mistérios, como o da memória.

A melhor resposta, talvez por mais verdadeira e verdadeiramente clara, veio de John Mather (Física, 2006, EUA). Um estudante perguntou se depois de ganhar o Nobel eles tinham tido ideias melhores do as que que levaram ao prêmio. Mather retrucou na lata: "Não". E o complemento perfeito foi oferecido por Kroto (não siga os conselhos de seu orientador, nem os de um Prêmio Nobel) e por Evans: "Nullius in Verba", lema da Real Sociedade britânica desde o século 17, que significa algo como "não se fie na palavra de ninguém".

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h13

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Clima, certeza e (in)segurança

 
 

Clima, certeza e (in)segurança

(...) Entra governo, sai governo, e as áreas de risco não são mapeadas direito. As pessoas continuam morrendo arrastadas por enxurradas ou soterradas em lama.

Ao lançarem mais e mais dúvidas sobre a mudança do clima, os negacionistas - talvez inadvertidamente - contribuem para fixar a percepção de que nada se pode fazer a respeito. E, assim, ajudam a perpetuar a insegurança da população mais pobre. Com certeza não é essa sua intenção.

 


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia desta quarta-feira aqui. Acima vai só a conclusão.

Escrito por Marcelo Leite às 02h24

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Na escada com o Nobel

 
 

Na escada com o Nobel

 

 

Robert Laughlin, Nobel de Física de 1998, na escada do Insel Halle em Lindau

(Foto: Marcelo Leite)

Estar em Lindau tem muitas vantagens, como a vista do lago de Constança. Mas nada se compara com a chance de topar a toda hora com dezenas de pessoas interessantes, neste 60º Encontro de Prêmios Nobel, conferência sui generis iniciada pela nobre família Bernadotte. E nem todas elas são laureados – há centenas de pesquisadores jovens por aqui, vários bem mais espertos que um Nobel acomodado ou autossuficiente.

Um Nobel, contudo, continua sendo um Nobel. Bastam um ou dois dias para acostumar-se com o código de cores dos cordões dos crachás para reagir quase instintivamente ao turquesa. Só os bambambãs possuem um, ou melhor, só eles e os respectivos consortes. Amarelo é reservado para jornalistas (atenção!), cinza para os 675 cientistas convidados da platéia (humm...), e assim por diante.

Voltando do almoço, o canto do olho foi capturado pela fita azul no alto da escada, rodeada de cinza por todos os lados. Era Robert Laughlin (Física, 1998). Respondia placidamente a perguntas da moçada, visivelmente satisfeito com a situação.

Disse, por exemplo, que os vegetais não são nada ineficientes na conversão de energia solar, como dizem seus detratores. As plantas fazem isso há milhões de anos e seus organismos, na fase madura, alcançam eficiência similar à de painéis solares. Não lhe parece uma boa idéia de reinventar a roda da fotossíntese e tentar criar uma versão artificial – é melhor continuar a “fazer negócio” com as verdinhas, dando-lhes algo em troca de seus serviços.

Algumas palestras do programa oficial são cativantes. George Smoot (Física, 2006) falou no Hospital Evangélico (protestante), ontem à tarde, sobre o mapeamento do Universo e sua história. Pelo menos 70% do que disse era incompreensível para leigos, mas as animações que mostrou... Impossível não lembrar do impacto da primeira visita a um planetário. Sobrevoar a estrutura conhecida do Cosmo partindo a Terra não é viagem que sed realize todos os dias.

Smoot começou bem, comparando a luz que chega à Terra de todas as partes do Cosmo com os anéis de crescimento nos troncos das árvores. Metáforas boas são o segredo da explicação científica. Estudando sua estrutura (dos anéis e da luz), é possível descobrir muitas coisas sobre o passado.

No caso da luz sideral, há a vantagem de que os objetos mais distantes a emiti-la são também os mais antigos. Em boa hora: Smoot homenageou Galileu, cujo “Sidereus Nuncius” – mensageiro das estrelas – foi publicado há exatos 400 anos, em 1610.

O leigo pode não entender muitas coisas, mas aprende várias outras. O Universo tem cerca de 13,7 bilhões de anos. Só 4% dele é composto da matéria ordinária de que somos feitos e que podemos enxergar. Outros 23% seriam “matéria escura” e 73%, “energia escura”. Também é reconfortante ouvir que o próprio Smoot não sabe o que possam ser exatamente esses obscuros 96% do Cosmo.

Uma palestrante que fez sucesso entre os jovens cientistas foi Ada Yonath (Química, 2009). Falou com paixão do ribossomo (na medida em que alguém pode apaixonar-se por essa estrutura, como eu). Todas as células de qualquer organismo possuem muitos deles, das bactérias (uns 80 mil) às células de mamíferos (até 6 milhões).

Cerca de 98% de sua estrutura é a mesma em todos os reinos de seres vivos. Dito de outro modo, o ribossomo é uma das relíquias mais antigas do início da vida. Foi “inventado” pela seleção natural – perdão pela figura de linguagem de cunho intencional incabível – para realizar uma das funções mais básicas da vida como a conhecemos: fabricar proteínas com apoio na informação contida nas sequências de DNA e RNA.

A maioria dos antibióticos tem por alvo o ribossomo das bactérias e esses 2% de variação presente em sua estrutura molecular. São mutações nessa estrutura, também, que estão na origem da resistência bacteriana a tais medicamentos. Pequenas mudanças, às vezes de uma única “letra” no código da proteína, impedem a molécula de antibiótico de se encaixar no sítio ativo do ribossomo e, portanto, de travar o funcionamento da fábrica (sem ela, a bactéria não tem como prosseguir com sua missão malévola).

É verdade que parte do tempo pode ser desperdiçado, em Lindau, com pães adormecidos. Martin Chalfie (Química, 2008), por exemplo, repetiu a apresentação do ano passado. Até as piadas eram as mesmas. Mas não chega a ser desagradável. Dura só meia hora, e quem assiste sabe que a próxima palestra será dada por um Prêmio Nobel.

 


O repórter especial da Folha Marcelo Leite viajou à Alemanha para o 60º Encontro de Prêmios Nobel a convite da Fundação Encontro de Prêmios Nobel de Lindau

 

 

Escrito por Marcelo Leite às 10h03

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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