Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Canários versus alimentos orgânicos

 
 

Canários versus alimentos orgânicos

Minha coluna de hoje na Folha.com trata de outro assunto espinhoso: produtos orgânicos e sua naturalidade/superioridade..

Escrito por Marcelo Leite às 16h55

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Como a acupuntura diminui a dor (em camundongos, pelo menos)

 
 

Como a acupuntura diminui a dor

(em camundongos, pelo menos)

Leio no boletim ScienceNow uma nota preciosa de Dan Ferber sobre acupuntura e seu efeito sobre a dor. Já vou avisando que só fiz aplicações de agulhas uma vez, meio de brincadeira, e que gostei, mas não me livrei da dor de um torcicolo.

Ferber dá conta de um estudo publicado eletronicamente no periódico científico Nature Neuroscience por Maiken Nedergaard, do Centro Médico da Universidade de Rochester, no Estado de Nova York.

Nedergaard aparece como último autor do estudo, o que pelas convenções do ramo significa que ele era o chefe (autor sênior, em geral o dono e senhor do laboratório). A primeira autora é Nanna Goldman, que, apesar do sobrenome, é filha dele - a moça tem 16 anos e realizou a pesquisa como projeto de verão atribuído pelo pai... Parece que Nedergaard quer que ela siga a carreira paterna, não?

O pesquisador não estava satisfeito com nenhuma das duas hipóteses correntes para explicar o efeito analgésico da acupuntura, conta Ferber. A primeira diz que as agulhas estimulam nervos sensíveis à dor, desencadeando a produção de substâncias de tipo opiáceo chamadas endorfinas. Outra atribui a diminuição da dor a um efeito placebo (autossugestão).

Pai e filha se uniram para aprontar com camundongos, os bodes expiatórios de sempre em laboratórios biomédicos (se me permitem a incongruência zoológica).

Primeiro, anestesiaram os roedores e lhes meteram agulhas num ponto da perna consagrado pela tradição chinesa. (Sim, os chineses têm diagramas com pontos de acupuntura para animais; eu mesmo tive um cachorro dachshund CURADO de paralisia das patas traseiras com ajuda de eletroacupuntura, fisioterapia e aplicações de ozônio e laser.) Tiraram amostras de líquidos em volta da agulha, analisaram e descobriram níveis elevados da substância adenosina.

Num segundo passo do experimento, usaram drogas para estimular inflamações nos bichos. Aí deram adenosina para metade deles e compararam as reações dos dois grupos a estímulos dolorosos (como esquentar o local inflamado com laser). Os que tomaram adenosina demoraram mais a recolher o membro inflamado.

Num terceiro passo, testaram a associação de agulhas com adenosina e mostraram que é possível turbinar o efeito da acupuntura: os camundongos demoravam ainda mais para reagir à dor. O mesmo não ocorria, contudo, em roedores com carência de receptores químicos para a adenosina.

Resumindo a ópera: tudo indica que a adenosina é a mediadora do efeito analgésico da acupuntura. Resta saber se funcionará em humanos. Se não funcionar, Nedergaard e a filha se arriscam a ganhar um Prêmio IgNobel como o que foi conferido ao argentino Diego Golombek por "curar jetlag com Viagra... em hamsters".

Escrito por Marcelo Leite às 14h40

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Ando meio hiperativo

 
 

Ando meio hiperativo

Ilustração: Guto Lacaz

O simpático título de capa (acima) escolhido pelo editor do caderno Ilustríssima, Paulo Werneck, para minha reportagem com Cláudia Collucci na Folha de hoje, descreve bem a última semana. Além da (re)estreia virtual da coluna Ciência em Dia, produzi a toque de caixa a reportagem mencionada, com a ajuda de muito café - como registrado na nota de pé de página:


Conflito de interesses: os autores desta reportagem declaram que não contaram com apoio de drogas psicoativas, exceto cafeína.


Duas coisas me deixaram particularmente feliz com o resultado do trabalho:
 
1) A excelente ideia de convidar Guto Lacaz para ilustrar a reportagem (infelizmente a ideia não foi minha, mas, de novo, de Paulo Werneck). Já gostava do trabalho de Lacaz, ou do pouco que conheço dele, e agora passo a gostar mais. Não pela conexão com um trabalho meu, mas pela eloquente laconicidade de sua ilustração, que se aproxima do minimalismo da comunicação visual ao mesmo tempo em que substitui seu utilitarismo frio por uma graça moleque, com o que me pareceu ser uma citação à hiperatividade agora já clássica das múltiplas pernas do Geraldão de Glauco.

2) O achado da abertura com Huckleberry Finn de Mark Twain (esta sim ideia minha, lapidada com a ajuda do editor; veja reprodução no final desta nota). Quando li pela primeira vez sobre a existência de uma "doença" psiquiátrica para a inclinação patológica de certos escravos para a fuga ("drapetomania"), num num texto de Thomas Szasz, cismei que tinha de enfiá-la no texto.
Era um exemplo mais que eloquente - perfeito - da historicidade de um conceito nosológico que seus formuladores e usuários, na época, devem ter encarado como pura nomeação de uma entidade - "doença" - inequivocamente existente na natureza. Mas precisava de um veículo para introduzi-lo no texto de maneira não ruidosa, compatível com a dicção mais intelectualizada do caderno e sem o jargão que tantas vezes contamina minhas reportagens sobre ciência, alienando leitores a princípio desinteressados ou ignorantes dela.
Deitei na quarta-feira com o problema irresolvido, depois de muitas horas de leitura de artigos especializados de revisão sobre o transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e de algumas entrevistas. Às 5h30, ainda na cama, "escrevi" mentalmente os dois parágrafos inteiros, começando com o Huck hiperativo e seguindo com o Jim drapetomaníaco (a ordem dos fatores seria invertida depois, por sugestão de outro editor, mas não alterou o produto).
A citação literária solucionou a questão; o leitor poderá julgar se bem ou mal.
Mais esquisita foi a extensão do "diagnóstico" de hiperatividade ao Macunaíma de Mário de Andrade. De início, suspeitei que algum nacionalismo subconsciente tivesse imposto a obrigação de prestigiar a literatura brasileira, afinal a temática do TDAH é vista por muitos como um modismo comportamental importado dos Estados Unidos. Um exame de (in)consciência mais profundo e honesto, porém, revelou o que parece ter sido uma associação de ideias, ou melhor, de imagens: ao buscar um escravo entre obras que tivesse lido da produção nacional, dei com o negro Grande Otelo no grande filme de Joaquim Pedro de Andrade que, em 1969, contribuiu para toda uma geração de brasileiros conhecer e reconhecer-se no herói sem nenhum caráter.


HUCKLEBERRY FINN, PROTAGONISTA das aventuras do romance de Mark Twain (1835-1910) que leva seu nome, daria um sério candidato, nos dias de hoje, à domesticação com base na droga metilfenidato (Ritalina e Concerta são as marcas disponíveis no Brasil). Isso, claro, se algum orientador da escola conseguisse capturar o menino para encaminhar a um consultório de psiquiatria infantil.
Já o negro Jim, se caísse nas mãos de um psiquiatra de passagem pelo Mississippi em meados do século 19, seria provavelmente devolvido a ferros com um diagnóstico de drapetomania (do grego "drapetés", fugitivo). A especialidade médica tinha menos de meio século e se empenhava em cunhar suas próprias "doenças".
Huck, o amigo do escravo fujão, preencheria facilmente o mínimo de 6 dos 18 critérios de diagnóstico para o Transtorno de Deficit de Atenção e a Hiperatividade (TDAH), alvo do metilfenidato. Não era propenso a seguir instruções, ficar quieto ou pensar antes de responder. Reações precipitadas eram com ele mesmo. Lição de casa, nem pensar.
A viúva Douglas e a srta. Watson bem que tentavam civilizar o garoto impulsivo e agitado, mas ele fugiu -só para terminar nas garras do pai bêbado, que o trancou numa cabana. Huck fugiu de novo. Seguem-se 349 páginas de hiperatividade pura, que terminam com Huck anunciando nova partida, para territórios indígenas a oeste.
Huck, na nossa era multimídia, faria companhia aos 2,7 milhões de americanos entre 6 e 17 anos que tomam estimulantes como o metilfenidato e outros medicamentos psicoativos, entre os 4,6 milhões de diagnosticados com TDAH (8,4% da população nessa faixa etária). O consumo per capita de metilfenidato nos EUA é oito vezes maior que em países europeus. Estima-se que, no mundo, 5,3% dos jovens tenham TDAH.
Por aqui, o preguiçoso e irrequieto Macunaíma, de Mário de Andrade, talvez recebesse o mesmo diagnóstico (ou estigma). Nas escolas particulares e escritórios da cidade grande que fascinaram o herói sem nenhum caráter, seus descendentes descobriram o metilfenidato.
No Brasil, de 2000 a 2008, as vendas passaram de 71 mil caixas anuais para 1,2 milhão. Quantidade suficiente para medicar dezenas de milhares de adolescentes e crianças. (...)

Escrito por Marcelo Leite às 10h04

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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