Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Me engana que eu gosto

 
 

Me engana que eu gosto

Ilusão criada por Edward H. Adelson, do MIT; A e B são da mesma cor

Adoro ilusões de óptica, foi uma das coisas que levou a interessar-me por ciência quando ainda era criança. Chega a ser irritante que nossa percepção possa enganar-se tão óbvia e burramente, mas é mais que um consolo sermos capazes de investigar e descobrir por que, objetivamente, isso acontece.

A revista Scientific American produziu um número especial sobre elas e pôs na internet amostra com uma dezena de imagens fascinantes. A primeira, minha preferida, vai acima - você acredita que os quadrados A e B são da mesma cor?

Então veja, para crer:

Escrito por Marcelo Leite às 10h53

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Como trocar ideias e não sair perdendo

 
 

Como trocar ideias e não sair perdendo

Marina Silva em roda de conversa sobre segurança pública
Foto: Divulgação/IDS

Eis a versão mais longa da reportagem (aqui, só para assinantes) publicada hoje na Folha e cortada por exigências de diagramação e do noticiário, sobre as rodas de conversa que o Instituto Democracia e Sustentabilidade está promovendo para contribuir com ideias novas para o Brasil do século 21:


Pareceu um oásis, para quem não se satisfaz com o enquadramento maniqueísta _ou “plebiscitário”_ da campanha presidencial. Durante três horas inteiras anteontem, no centro de São Paulo, cinco especialistas debateram a fundo soluções para a segurança pública. Um candidato ouvia tudo com atenção. E em silêncio.

Não era José Serra (PSDB), nem Dilma Rousseff (PT). Era “o duende que veio da floresta para nos devolver a paixão pela política” (Marina Silva, do PV), como a definiu Marcos Rolim, jornalista gaúcho e ativista de direitos humanos, na “roda de conversa” que lançou o Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), presidido pela pré-candidata verde.

Marina qualifica o IDS como uma espécie de Instituto Cidadania, ONG produtora de estudos e projetos que acolhia o candidato Lula entre uma campanha eleitoral e outra. A ex-ministra do Meio Ambiente diz que se licenciará do instituto quando oficializar a candidatura, em junho, “para não misturar os canais”.

A ideia é que as rodas alimentem um programa de governo, mas sem vinculação direta. O IDS já estava em gestação antes de surgir a candidatura. “Plural e apartidário”, entende-se como “fórum de debates de propostas e ideias que contribuam para aprofundar a democracia e colocar a sustentabilidade como valor central para a vida”. Já se realizaram rodas sobre saúde, cidades e educação, mas a de segurança foi a primeira pública.

A coordenação do debate coube ao antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública de Lula e coautor do livro “Elite da Tropa” (com André Batista e Rodrigo Pimentel), base do filme “Tropa de Elite”. Além de Soares e Rolim, estavam na mesa José Luiz Ratton, assessor do governo de Pernambuco, Luis Flavio Sapori, ex-secretário adjunto de Defesa Social de Minas, e Oscar Vilhena Vieira, da Escola de Direito da FGV-SP. Em volta, mais de 30 convidados.

Soares apontou como central o “modelo de polícia herdado da ditadura”. Ele se baseia no desmembramento da função policial em duas corporações, as polícias militar (policiamento ostensivo) e civil (investigação). Noutros países com mais de uma polícia, ou elas atuam em bases territoriais separadas ou ficam responsáveis por crimes diferentes.

Hostilidade e competição, aqui, contribuem para a ineficiência e a irracionalidade do trabalho policial. E elas se traduzem na baixa qualidade das provas levadas ao Judiciário, concordaram os debatedores.

Apesar de falido, o modelo terminou consagrado na Constituição de 1988 (artigo 144). Pesquisa realizada em 2009 com mais de 64 mil profissionais de segurança pública revelou que 70% rejeitam o modelo de divisão do ciclo policial.

Houve consenso entre os debatedores, ainda, quanto à necessidade de desvincular os problemas de segurança pública do discurso sobre pobreza e exclusão. “O tráfico de drogas não é só estratégia de sobrevivência”, disse Sapori. “Os meninos querem visibilidade.”

Não é qualquer projeto social, contudo, que resolverá o problema. Prover cultura, esportes e ensino em projetos demonstrativos não afasta automaticamente adolescentes do tráfico. Formar gerações de percussionistas e pichadores não basta para baixar índices de impunidade e criminalidade.

Políticas específicas e focadas na segurança pública podem ter efeitos notáveis mesmo sem melhora significativa na renda da população. Exemplo à mão: até 2003 a quantidade de homicídios subia à razão de 5% ano ano, quando passou a declinar _provável resultado da campanha de desarmamento e de iniciativas estaduais.

Ainda assim, há 40 mil homicídios por ano, uma taxa de 26 por 100 mil habitantes. O Brasil é mais violento que o Paraguai e a Colômbia.
Outras cifras sobre a mesa: R$ 39,5 bilhões anuais gastos com segurança pública no país; 93% dos réus aparecem sem peças de defesa no processo; só 20% dos presos trabalham; 50% de deficit de vagas em penitenciárias; 80 mil detentos em delegacias; só 21% dos brasileiros afirmam cumprir a lei todo o tempo...

Marina Silva ouviu tudo e elogiou a rodada de estatísticas e diagnósticos no IDS: “Existe uma inteligência na tessitura social que pode ser trazida a lume”. Não se pronunciou, contudo, sobre a proposta concreta central de Luiz Eduardo Soares: encaminhar ao Congresso em seis meses, caso eleita, uma proposta de emenda constitucional modificando o art. 144, que desmembra as polícias.

Definições da candidata, por ora, há aquelas apresentadas na entrevista coletiva que antecedeu a roda de conversa: contra a descriminalização das drogas (defendida pelo ex-presidente tucano FHC) e contra um Ministério da Segurança Pública (defendido por Serra).

Alguma polarização, afinal, ajuda a manter a visibilidade.

Escrito por Marcelo Leite às 12h11

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A exceção e a regra

 
 

A exceção e a regra

Cartaz desenhado por aluno de esnino médio da Escola Tuyuka Utapinopona,

na comunidade São Pedro (Alto Tiquié, AM) - Foto: Marcelo Leite

(...)
"Antigamente, sábio era quem obedecia às regras", pondera Higino Pimentel Tenório, 55, a autoridade reconhecida em São Pedro. Professor há 35 anos, Poani -seu nome cerimonial em tuiuca- lamenta que os jovens tenham abandonado muitos costumes.

Uma das interdições importantes, explica Poani, é a abstinência sexual de 15 dias antes de beber o caapi (bebida alucinógena similar à ayahuasca). "Quem obedece às regras tem mais poder, progride mais", afirma o professor sobre a sabedoria veiculada pelas "mirações" desencadeadas pela bebida. "[A gente vê] muita cobra colorida no vômito, entende a música e as palavras da cachoeira."

Seu orgulho é ter revertido o "êxodo rural", como se refere à saída de jovens para as antigas missões salesianas da região, Pari-Cachoeira e Taracuá, ou para a sede do município, São Gabriel da Cachoeira. A regra era abandonarem as aldeias em busca de educação.

São Pedro ficou reduzida a 14 famílias, em 2000. Hoje são 23. A língua tuiuca, antes à beira da extinção, agora é falada por todos, dentro e fora da sala de aula. Inclusive pelos alunos tucanos, desanas, yebamasãs, barás ou miriti-tapuias vindos de aldeias vizinhas para os módulos de 15 dias, intercalados com 15 dias passados na comunidade de origem, para trabalhar com os pais na roça e na pesca.

Os moços não precisam mais mudar-se para São Gabriel, 700 quilômetros rio abaixo, para cursar o ensino médio. A primeira turma do secundário da escola Utapinopona -"Filhos da Cobra de Pedra"- formou-se no ano passado, Marcos Resende entre eles (hoje dá aulas para a nova turma da escola comunitária).

Agora só lhes falta o reconhecimento de um diploma oficial. E já discutem como poderia ser um ensino superior indígena.

Alunos e professores de esnino médio da Escola Tuyuka Utapinopona,

na comunidade São Pedro (Alto Tiquié, AM) - Foto: Marcelo Leite

 


Leia a íntegra da reportagem "A exceção e a regra" no caderno Mais da Folha de S.Paulo (só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h49

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Águas turvas

 
 

Águas turvas

(...)
Preconceitos, estridência, falácias, invenções e estatísticas (...) transformam todo o debate público numa bacia amazônica de turbidez. Não é privilégio da questão indígena. Tome a usina hidrelétrica de Belo Monte. Ou o tema explosivo da disponibilidade de terras para o agronegócio, epicentro [de uma] reportagem da revista "Veja".

"Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil", afirmam seus autores, sem citar a fonte. "Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional."

É provável que a origem omitida seja o estudo "Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista", encomendado à Embrapa Monitoramento por Satélite pela Presidência da República (...). A estimativa terminou bombardeada por vários especialistas, inclusive do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Nesta semana veio à luz, graças às repórteres Afra Balazina e Andrea Vialli, mais um levantamento que contradiz a projeção alarmante. O novo estudo foi realizado por Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em colaboração com a Universidade de Chalmers (Suécia).

Para Miranda, se toda a legislação ambiental, fundiária e indigenista fosse cumprida à risca, faltariam 334 mil km2 -4% do território do Brasil- para satisfazer todas as suas exigências. O valor dá quase um Mato Grosso do Sul de deficit.

Para Sparovek, mesmo que houvesse completa obediência ao Código Florestal ora sob bombardeio de ruralistas, sobraria ainda 1 milhão de km2, além de 600 mil km2 de pastagens poucos produtivas usadas para pecuária extensiva (um boi por hectare). Dá 4,5 Mato Grosso do Sul de superavit.

A disparidade abissal entre as cifras deveria bastar para ensopar as barbas de quem acredita em neutralidade científica, ou a reivindica. Premissas, interpretações da lei e fontes de dados diversas decerto explicam o hiato.

Mas quem as examina a fundo, entrando no mérito e extraindo conclusões úteis para o esclarecimento do público e a tomada de decisão? Faltam pessoas e instituições, no Brasil, com autoridade para decantar espuma e detritos, clarificando as águas para que se possa enxergar o fundo. De blogueiros e bucaneiros já estamos cheios.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h25

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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