Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Para melhorar o clima

 
 

Para melhorar o clima

Soube por meio do Yale Forum on Climate Change and the Media que foi lançado em 19 de abril uma página jornalística só para reportagens sobre mudança do clima, Climate Desk (algo como "Editoria do Clima"). Já começou com reportagens de peso, como esta, de Mark Hertsgaard, sobre efeitos do aquecimento global na produção de vinhos.

Se você for admirador de publicações americanas como Wired, Slate, The Atlantic, Mother Jones e Grist, vai adorar. Elas se uniram ao Center for Investigative Reporting e ao programa "Need to Know" da TV pública PBS para "explorar o impacto humano, ambiental, econômico e político do clima em mudança", uma "história fascinante" que não tem sido bem contada.  Há quatro razões para o fracasso, segundo os organizadores da página:


1) A mudança do clima se dá em câmera lenta e é grande demais para as organizações noticiosas darem conta dela; 2) A cobertura que calha de existir tende a ser fragmentada e compartimentalizada - aspectos científicos, tecnológicos, políticos e empresariais tendem a ser cobertos por equipes separadas, apesar das conexões intrínsecas; 3) Com excessiva frequência a cobertura se fixa na vida selvagem ameaçada, no jogo político ou no "debate" sobre a existência da mudança do clima, tudo às custas do avanço da história maior - como vamos enfrentar, mitigar e nos adaptar a ela; 4) Os cortes nas organizações noticiosas só estão piorando as coisas.

Escrito por Marcelo Leite às 09h38

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O Belo Monte de Lula

 
 

O Belo Monte de Lula

Eis a primeira pergunta e a correspondente resposta do presidente Lula em entrevista dada por escrito  ao jornal Diário do Pará, publicada hoje:


Jornalista: Belo Monte é vista como uma necessidade para o crescimento do país, mas vem gerando uma série de polêmicas, principalmente com índios, movimentos sociais, pesquisadores e MPF. Faltou o governo explicar melhor como será a obra e os benefícios e impactos que trará. O fato da AGU querer processar os procuradores do MPF-PA não seria uma prova de que o governo quer "enfiar" o projeto "goela abaixo", sem um debate construtivo? E alguns especialistas afirmam que se fossem feitos reparos na área de energia, que teria um desperdício de 15% pelo menos, não precisaríamos de Belo Monte. Como o senhor vê essas questões?

Presidente: Belo Monte não nasceu da noite para o dia. Os estudos sobre a hidrelétrica vêm sendo desenvolvidos há mais de 30 anos, com debates e discussões envolvendo os mais diferentes segmentos da sociedade. O resultado é que o projeto original foi profundamente alterado, no sentido de minimizar as interferências ambientais. Por exemplo, a área alagada pelo reservatório, que seria de 1225 km², foi reduzida para 516 km². É importante ressaltar que a usina vai gerar 18.600 empregos diretos e recursos anuais de R$ 121 milhões de ISS (durante a construção da usina) e de R$ 203 milhões de ICMS, após a implantação de todas as máquinas e durante todo o período de operação da usina. Os municípios com áreas afetadas pelo reservatório vão receber R$ 88 milhões por ano de compensação financeira e o Estado do Pará também receberá a mesma quantia anualmente. Além do mais, o consórcio vencedor vai investir na área nada menos que R$ 3,3 bilhões em obras de compensação ambiental e social e em ações de fomento ao desenvolvimento regional. Isso representa mais de 17% do valor total do empreendimento. Por todos os cuidados que estamos tendo, não existe a política de enfiar o projeto goela abaixo de ninguém. Foram realizadas, no período de 2007 a 2009, 12 consultas públicas e 10 oficinas com comunidades, 15 fóruns técnicos, sendo 4 em Belém, e reunião com gestores públicos da região do Xingu. Em complementação ao trabalho de comunicação, agentes de interação fizeram visitas a 5.328 famílias, 61 reuniões com 2.100 pessoas presentes e realizaram 10 palestras em escolas do ensino fundamental e médio, para cerca de 530 alunos. Finalmente, destaco as audiências públicas em 4 municípios. Em Altamira, nada menos que 6 mil participantes debateram o projeto, antes da emissão da Licença Prévia pelo IBAMA. Quanto à Advocacia-Geral da União (AGU), o órgão apenas advertiu funcionários, inclusive do Ministério Público, que poderiam responder por atos que excedessem suas atribuições legais. Da mesma forma que o MP adiantou que iria à Justiça, a AGU também poderia questionar seus atos na Justiça. Estamos falando de ações dentro dos marcos da legalidade. Portanto, não há qualquer imposição do projeto à sociedade. Finalmente, no planejamento energético, não se trata de optar por construir hidrelétricas ou evitar o desperdício. Tanto a construção de hidrelétricas, como Belo Monte, quanto o aumento da eficiência energética – ou redução do desperdício –, são considerados no plano de expansão de energia nacional, que prevê a obtenção de cerca de 60 mil MW nos próximos dez anos. O governo vem incentivando diversos programas e ações de eficiência, como, por exemplo, a substituição de lâmpadas incandescentes e de geladeiras e, mais recentemente, a introdução de painéis solares para aquecimento de água nas residências do programa Minha Casa, Minha Vida. Quero chamar a atenção, sobretudo dos críticos da usina, incluindo de outros países, para o fato de que, no Brasil, 74% da energia elétrica consumida provém da hidreletricidade, que é mais barata e muito menos poluente. Veja que no Japão, a hidreletricidade contribui com 8% e nos Estados Unidos, com apenas 7% – o restante, ou seja, a quase totalidade, é obtida com a queima de gás, óleo, carvão etc.


Note que o presidente não faz uma defesa das vantagens da usina de Belo Monte em particular (a não ser pelos supostos benefícios para o Pará e a região de Altamira), mas da hidreletricidade em geral. E não apresenta um argumento que seja para justificar a usina do ponto de vista socioambiental (a não ser pela redução do reservatório).

Nenhuma palavra sobre a diminuição da vazão nos 130 km da Volta Grande do Xingu e sobre sua secagem. Nenhuma palavra efeitos sobre a pesca artesanal e de sobrevivência. Nenhuma palavra sobre as dúvidas em torno da energia firme de Belo Monte e sua viabilidade técnico-financeira.

Escrito por Marcelo Leite às 10h13

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Veja X Viveiros de Castro

 
 

Veja X Viveiros de Castro

A contenda entre a revista Veja e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (leia mais abaixo) teve réplica da publicação e tréplica do atingido. Começo reproduzindo o início da resposta da Veja:


O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro enviou a VEJA uma carta - divulgada amplamente na internet - sobre a reportagem "A farra antropológica oportunista", publicada nesta edição da revista. Na carta, Viveiros de Castro diz: "(1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma".

Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado "No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é", que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.

Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto ("Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante" e "pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante").

O antropólogo Viveiros de Castro pode não corroborar integralmente o conteúdo da reportagem, mas concorda, sim, como está demonstrada em sua produção intelectual, que a autodeclaração não é critério suficiente para que uma pessoa seja considerada indígena. Abaixo, a íntegra do texto que ele autorizou que VEJA usasse da forma que bem entendesse: (...)


Leia a sequência da resposta com o artigo aqui. Agora, a tréplica de Viveiros de Castro:


Aos Editores da revista Veja:

Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria "A farra da antropologia oportunista", o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título "No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é". Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.

Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: "(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma".

Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:

(1) "Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado "No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é", que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética."

Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem. Não "recomendei a leitura" de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter "autorizado Veja" a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a  "usar de maneira sintética" esse texto, observo que, além de isso "não condizer com a verdade", certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só não se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.

Veja contesta o segundo ponto com o argumento:

(2) "Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto ("Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante" e "pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante")." Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto "da forma que bem entendesse".

(...)

Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original"), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a "usar" o texto da forma que ela "bem entendesse" parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que "sintetizavam" o texto. Esse arrogante "da forma que bem entendesse" não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.

Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração "Só é indio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original". Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletivdade) "ser índio". A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.

A afirmação "só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original" é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem "ambientes culturais originais"; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser "original", nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o "ambiente cultural original" dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruido meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental. A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que "ser índio" é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV -- só que isso se chamou "Renascimento" e não "farra de antropólogos oportunistas". Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.

E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?


Grato mais uma vez pela atenção

Eduardo Viveiros de Castro
antropólogo - UFRJ


 ADENDO: A Associação Brasileira de Antropologia entrou na questão, aqui e aqui. O antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai, também reagiu - leia aqui.

 

Escrito por Marcelo Leite às 12h24

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O tacape da Veja

 
 

O tacape da Veja


Não tenho muita simpatia com o oportunismo de alguns grupos de agricultores que se declaram índios ou quilombolas apenas para tentar ganhar posse das terras que ocupam ou pretendem ocupar. Acho que prestam um desserviço à causa indígena e à causa negra.

Isso, claro, além de ser uma atitude em si mesma deplorável. Como qualquer forma de estelionato - uma jovem casar-se com um velhinho aposentado para ficar com a pensão, declarar-se (falsamente) negro para abiscoitar uma vaga na universidade, pedir recibos de valor mais alto para ludibriar o empregador nas prestações de contas de viagem, forjar doença para ganhar aposentadoria, adulterar letras da placa do carro para escapar de radares, arrancar poste e placa de sinalização "proibido estacionar" nas imediações do restaurante chique etc. A lista da "criatividade" do brasileiro é longa.

Não escrevo, portanto, para defender "índios" que compram cocar de penas de galinha na feira. Há outras formas de estelionato, porém, inclusive intelectual.

Uma delas é apresentar esses casos revoltantes, porém isolados, para desacreditar todo o processo de demarcação de terras indígenas e de quilombos, cuja posse a Constituição de 1988 manda reconhecer como um direito originário. Foi o que fez a revista Veja, com a reportagem - em realidade, um editorial - intitulada "A farra da antropologia oportunista" (só para assinantes, mas é possível encontrar reproduções na internet).

O que tem a demarcação de Raposa/Serra do Sol a ver com essas falcatruas? A Veja não apresenta um fiapo de evidência de que o laudo antropológico correspondente tenha sido fraudado, como insinua. Talvez a ONG indígena CIR não devesse receber do governo todo o dinheiro que a Veja afirma receber (R$ 88 milhões em dez anos), mas isso não afeta a legitimidade das pretensões - mantidas pelo STF em 2009, ainda que com algumas condicionantes - das várias etnias que a ocupam.

Embora a reportagem não chegue a enunciá-la, o texto está baseado numa falácia: se alguns processos de demarcação se baseiam em falsificações, então todos eles devem ser fraudulentos.

Para piorar, a matéria cai na presepada numerológica (leia reportagem na Folha, aqui - só para assinantes) tão ao gosto da senadora ruralista Kátia Abreu, que a encomendou a um pesquisador da Embrapa: 90% do território brasileiro estaria congelado e inacessível ao "progresso", como terras indígenas, quilombos, parques, cidades e infra-estrutura. Acredite quem quiser.

Não é por causa de Raposa/Serra do Sol que a direita está em campanha, mas pela bola da vez: as terras dos guaranis em Mato Grosso do Sul. Os descendentes daqueles paulistas que os escravizaram e (quase) exterminaram estão em pé de guerra contra o Ministério Público, que não deixa a Funai esmorecer na obrigação de salvar o que restou desse povo.

Nessa cruzada, a Veja já escolheu o seu tacape. Para derrubar o espantalho "multiculturalista" erguido pelos neoconservadores tupiniquins, pelo visto vale até inventar declarações - como se deduz da manifestação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, supostamente ouvido na reportagem, e que reproduzo a seguir.


Ao Editores da revista Veja:

Na matéria "A farra da antropologia oportunista" (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de  "montado" ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante. Grato pela atenção,

Eduardo Viveiros de Castro
RG: 2.397.700 IFP-RJ

Escrito por Marcelo Leite às 14h50

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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