Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ausência forçada

 
 

Ausência forçada

Estarei viajando até 6 de abril e, até lá, dificilmente terei condições de atualizar este blog. Conto com a paciência dos leitores.

Escrito por Marcelo Leite às 18h11

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Nuvens de incerteza

 
 

Nuvens de incerteza

 

Recomendo fortemente a leitura deste artigo na atual edição da revista Economist. É o balanço mais equilibrado e sensato que encontrei, nos últimos meses - se não anos - acerca das controvérsias em torno do aquecimento global. Aborda um por um os problemas levantados pelos céticos e lhes dá razão no que é devido, mas também mostra que dados têm permitido avançar na compreensão das coisas - em direção diversa do que os céticos gostariam - e que infelizmente isso não afeta sua estridência.

Escrito por Marcelo Leite às 12h18

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Ayahuasca é droga?

 
 

Ayahuasca é droga?

Três perguntas para Draulio de Araujo e Sidarta Ribeiro, co-autores de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) sobre efeitos do chá do Santo Daime no cérebro e na mente. Como as respostas foram só parcialmente aproveitadas na reportagem abaixo, reproduzo-as na íntegra recebida por e-mail:


1. A ayahuasca pode e deve ser classificada como droga? Perigosa, talvez?

Draulio de Araujo - A Ayahuasca pode ser classificada como uma droga, sim, usando o entendimento de que ela contém substâncias químicas que alteram os mecanismos de neurotransmissão cerebral de forma direta. Baseado na mesma definição também podemos incluir nesse conjunto, o tabaco, o álcool, o café, e o chocolate. Como qualquer outra sub stância psicoativa, há algumas considerações importantes a serem feitas para balizar uma avaliação sobr e o risco associado ao seu uso. A primeira diz respeito ao seu poder de dependência química. No caso da Ayahuasca, que age sobre o sistema serotonérgico, não há comprovação científica sobre a eventual dependência química causada pelo seu uso. O segundo, as alterações sobre o sistema nervoso autonômico. No caso da Ayahuasca, há evidências que as mudanças de pressão arterial, frequência cardíaca, e respiratória, além da temperatura do corpo, permanecem dentro de limites considerados normais. Por outro lado, sabe-se que é importante evitar o uso da Ayahuasca nos casos em que o indivíduo esteja fazendo uso de medicamentos que alteram os níveis de serotonina, como é o caso de alguns anti-depressivos que estão baseados na inibição seletiva de recaptação de serotonina , por exemplo, o PROZAC.

Sidarta Ribeiro - Droga certamente, como o LSD, a maconha, o álcool e o café. Perigosa.... depende de muitas variáveis. Certamente é uma droga muito mais benigna para o organismo do que a heroína e a cocaína, pois não há overdose conhecida, nem adição pronunciada. Entretanto acredito que existam grupos de risco que não devam experimentar.

2. Foi sábia a decisão de permitir seu uso, legalmente?

Draulio - Creio que a decisão de permitir seu uso foi acertada, por três motivos. Primeiro, a Ayahuasca tem alguns efeitos interessantes que agora começam a ser desvendados pela ciência. De certa forma, essas pesquisas avançam a passos largos tendo em vista a legislação em vigor, e seus resultados tem demonstrado vários efeitos positivos. Por exemplo, estudos realizados na USP de Ribeirão Preto, coordenados pelo Prof. Jaime Cecílio Hallak, tem encontrado resultados bastante animadores quando a Ayahuasca é utilizada em pacientes com depressão que não respondem bem ao tratamento convencional. Ainda, outros estudos tem apontado em uma direção curiosa: a Ayahuasca parece ter um papel importante para livrar
do vício dependentes químicos em outras drogas, como o crack e o álcool. Estas, sim, com um prejuízo in dividual e social tremendo. Segundo, os riscos associados à Ayahuasca, que vem sendo testada há séculos, são baixos (há indícios que seu uso ocorra desde 2000 a.C). Por fim, ela já tem um papel importante na expressão cultural do povo Brasileiro.

Sidarta - Acho que sim. A Ayahuasca é essencial para algumas religiões, e seu uso no contexto religioso me parece muito benigno, como o peyote entre os Navajo. Tornar ilegal uma planta sagrada me parece absurdo.

3. Acredita que o assassinato do cartunista Glauco poderá de alguma forma alterar a percepção pública sobre a relativa inofensividade da ayahuasca?

Draulio - Alterar, sim. Para qual lado, não sei. Depende da maneira como esse caso evolua. Meu temor é que a falta de informação e o juízo preconcebido acabem por pautar as discussões.


Sidarta - Espero sinceramente que não, pois o caminho para o "problema das drogas" não é proibir, e sim regular. O assassinato do Glauco não pode ser debitado na conta da Ayahuasca, pois o assassino usava "n" coisas diferentes, e parece ter psicotizado ao longo do tempo. Acredito porém que os grupos de risco para Ayahuasca não estão bem definidos. Psicóticos bordeline, gestantes e crianças deveriam ser impedidos de tomar o chá, na minha opinião.

Escrito por Marcelo Leite às 19h58

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Dai-me com moderação

 
 

Dai-me com moderação

O curandeiro equatoriano Carlos (à dir., com calças listradas) na Guatemala

O poder da ayahuasca sobre a vida de uma pessoa pode ser devastador -em geral, para o bem. A americana Margaret de Wys que o diga. Depois do contato com a bebida alucinógena originária da Amazônia, conhecida no Brasil como hoasca, sua carreira de compositora sofreu um baque e o casamento acabou, mas ela se curou de um câncer de mama.

O tumor havia sido diagnosticado em 1999. Com simpatia pelo xamanismo, De Wys (pronuncia-se "di uaiz"), rumou para a Guatemala. Queria buscar uma cura entre os participantes de uma cerimônia maia de caráter ecumênico, com curandeiros de vários países. Ali encontrou o equatoriano Carlos e, por suas mãos, a hoasca.

"Eu enxergo dentro de você -suas veias, seus órgãos, seu sangue, suas células", anunciou-lhe Carlos, da etnia shuar (ou jivaro), na cerimônia em que beberam o preparado do cipó Banisteriopsis caapi e das folhas de Psychotria viridis.
"A fumaça negra está presa em seu peito. Venha para o Equador e eu a curarei."

"Black Smoke - A Woman's Journey of Healing, Wild Love, and Transformation in the Amazon" (Fumaça Negra, ed. Sterling, 240 págs., US$ 19,95, R$ 36) é o título do livro que a professora do Bard College, de Nova York, publicou há um ano sobre "a jornada de cura, amor selvagem e transformação de uma mulher na Amazônia", como diz o subtítulo. (...)

Numa das alucinações, uma onça macho invadiu o corpo de Carlos, e outra, fêmea, o da americana. "O jaguar em Carlos era selvagem e brutal", contou De Wys à jornalista Roberta Louis em entrevista publicada pela "Bomb Magazine".
Hoje, sua relação com o equatoriano é estritamente profissional, ressalva.

O poder da hoasca sobre a mente deriva dos potentes alcalóides presentes no cipó B. caapi e no arbusto P. viridis empregados no preparo do chá.

O arbusto é rico na substância alucinógena dimetiltriptamina (DMT), que não tem efeito quando ingerido. Mas a DMT conta com a ajuda da harmina e da harmalina do cipó para chegar ao sistema nervoso central, onde juntas iniciam a subversão da consciência.

O mecanismo básico é uma inundação de serotonina, neurotransmissor com múltiplos e complexos efeitos no corpo e no cérebro.
Pessoas deprimidas, por exemplo, costumam ter baixos teores de serotonina. A fluoxetina (Prozac) consegue melhorar sua vida porque impede a recaptação (retirada) do neurotransmissor no espaço livre entre os neurônios, reforçando a comunicação entre eles.

Há uma tradição de pelo menos duas décadas de pesquisa sobre a hoasca no Brasil. Uma equipe de dez neurocientistas da USP de Ribeirão Preto, do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e do Centro IBM JB Watson (Nova York) tem apresentado em congressos um trabalho com algumas revelações surpreendentes sobre a beberagem. Seis deles já experimentaram a hoasca.

Draulio de Araujo, Sidarta Ribeiro e seus colegas trabalharam com dez usuários frequentes do chá. Todos eram membros do grupo de Mestre Pelicano (irmão do cartunista Glauco) em Ribeirão Preto. O manuscrito tem o título "Vendo com os Olhos Fechados". (...)

Sob a ação do chá, a imaginação chega ao poder, de certo modo, com a área visual primária (BA17) tomando a dianteira da ativação das áreas frontais envolvidas na vida consciente. Nessa sequência, as imagens compostas pela imaginação sem peias aparecem para a mente como fatos.

"A hoasca confere status de realidade às experiências interiores", resumem os neurocientistas. "É compreensível, portanto, por que a hoasca foi culturalmente selecionada ao longo de muitos séculos por xamãs da floresta tropical para facilitar revelações místicas de natureza visual."

"As mirações são tão reais quanto a percepção visual de elementos externos, pelo menos no que diz respeito à modulação observada no sistema visual primário", explica Draulio de Araujo.

"Foi uma baita surpresa", afirma Sidarta Ribeiro. "Esperávamos que as áreas frontais assumissem a liderança."
Tais conclusões, no entanto, "explicam" (aspas de Ribeiro, em comunicação por e-mail) como ocorrem as mirações, sem excluir nem confirmar interpretações místicas. (...)

Apesar do reconhecimento da legitimidade do uso religioso do chá, parece haver consenso de que se trata, sim, de uma droga. "Certamente, como o LSD, a maconha, o álcool e o café", afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro. "É uma droga muito mais benigna para o organismo do que a heroína e a cocaína, pois não há overdose conhecida, nem adição [vício] pronunciada."
Potencial perturbador. (...)

Para Ribeiro, a hoasca não deve ser dada a quem estiver no limiar de psicose, grávida ou for criança. "Pessoas com tendências psicóticas? Mentes frágeis? Esquece!", sentencia De Wys, que não admite gente desse tipo em seus grupos.
Mas ela sustenta que Carlos já curou esquizofrenia com a hoasca -e até gangrena. (...)

É ver para crer.


Leia a íntegra da reportagem no caderno Mais da Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes da Folha e do UOL).

Escrito por Marcelo Leite às 09h04

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Células que levitam

 
 

Células que levitam

O futuro da biotecnologia aplicada ao campo da saúde humana pode estar num coquetel bizarro de vírus assassinos de bactérias com nanopartículas de ouro e óxido de ferro magnetizado. (...)

A mistura assume a forma de um hidrogel, usado para cultivar células em espaço tridimensional. Campos magnéticos permitem fazer as células "levitarem" nesse meio de cultura de alta tecnologia -invento com a participação de brasileiros- e até controlar a forma do aglomerado celular. (...)

 

O primeiro autor da façanha, que ainda se encontra na fase que os pesquisadores chamam de prova de princípio, é o brasileiro Glauco Ranna Souza, 39. Souza cursou só até o ensino médio em Brasília, depois fez toda a formação acadêmica e a carreira científica nos Estados Unidos.

Ele desenvolveu a tecnologia -publicada eletronicamente pelo periódico "Nature Nanotechnology" há exatamente uma semana- no Centro de Câncer M.D. Anderson da Universidade do Texas, em colaboração com Tom Killian e Rob Raphael, da Universidade Rice, também no Texas. (...)

As nanopartículas de ferro entram no coquetel para garantir a manipulação magnética do corpúsculo em crescimento. Num futuro distante, a técnica pode levar à construção de órgãos artificiais. No presente, Souza está de olho no milionário mercado de testes de toxicidade de novas drogas em tecidos humanos, exigência crucial para aprovar seu uso comercial.

O artigo na "Nature Nanotechnology" descreve o cultivo em levitação de células tumorais, que assumem formas globulares diversas sob manipulação do campo magnético. Na empresa Nano3D, Souza já trabalha com células saudáveis de pulmão.

"Por que pulmão?" -pergunta, retoricamente. "Porque podemos trazer as células para a interface ar-líquido [do meio de cultura], o que é um desafio para o teste "in vitro" de agentes [químicos] no meio aéreo." Ou seja, condições mais realistas para reproduzir o funcionamento do órgão. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes do jornal e do UOL).

Escrito por Marcelo Leite às 19h41

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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