Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Estamos todos um pouco mais órfãos

 
 

Estamos todos um pouco mais órfãos

Escrito por Marcelo Leite às 09h09

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Padre Cícero contra o Demo da Motosserra

 
 

Padre Cícero contra o Demo da Motosserra

O pessoal do Greenpeace é do além. Para popularizar a ideia de que as matas devem ser preservadas, foram buscar ajuda até do milagreiro Padre Cícero, repaginado como "O Padroeiro das Florestas". Tudo para conter as investidas contra o Código Florestal do que chamam piedosamente de "bancada da motosserra".

A iniciativa do Greenpeace se baseia num "santinho" com 11 "mandamentos para o agricultor":


Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau
Não toque fogo no roçado nem na caatinga
Não cace mais e deixe os bichos viverem
Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer;
Não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza;
Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar a água da chuva;
Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta;
Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só;
Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar você a conviver com a seca;
Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer;
Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.

 

 


O undecálogo vem estampado também nas costas de uma camiseta vermelha, que tem na frente a figura do Padim e em ambos o slogan apocalíptico "Quem desmata semeia o inferno na Terra" ("inferno" com minúscula e "Terra" com maiúscula).

Escrito por Marcelo Leite às 11h21

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Um africano no Greenpeace e no Brasil

 
 

Um africano no Greenpeace e no Brasil

Não sei com certeza a que ONGs internacionais Suzana e Claudio Padua se referiram na entrevista que deram a Patrícia Trudes da Veiga, Cássio Aoqui e André Lobato, da Folha, na qual criticaram a "sublocação" das ONGs pequenas e nacionais pelas grandes irmãs do Norte. Mas desconfio que CI (Conservation International), WWF e Greenpeace se encaixariam no figurino traçado pela dupla dinâmica do Ipê (Instituto de Pesquisas Ecológicas), à qual estou devendo um visita.

Entre ONGs genuinamente nacionais, a CI já teve um apelido maldoso, "Conversation International". Muito glamour e dinheiro, mas pouco pé no barro, esta era a base da crítica. O duo Padua eleva o nível da crítica ao apontar o baixo investimento em capacitação de ONGs e ongueiros nacionais pelas grandes. A CI até chegou a ter um grupo de brasileiros mandando bem em Washington, mas aparentemente isso não tinha muito reflexo na retaguarda que ficava por aqui.

Ninguém ignora que a Amazônia é uma galinha de ovos dourados (ou "cash-cow") para as grandes ONGs que fazem campanha em defesa da biodiversidade e de combate ao aquecimento global. Para o Greenpeace, com certeza. Depois de pelo menos duas décadas atuando no Brasil, mais da metade dos recursos que mantêm a organização aqui vêm de doações de pessoas residentes fora do país (o Greenpeace não aceita doações de empresas nem de governos). E a floresta amazônica constitui um apelo de vendas insubstituível, decerto.

Durante anos, o programa amazônico do Greenpeace, com escritório em Manaus, era pilotado em conexão direta com Londres, e não com o escritório de São Paulo. Isso mudou (as atividades de Manaus e São Paulo foram reunidas numa só estrutura). E, aparentemente, essa não é a única coisa que vem mudando na organização internacional.

Não por acaso, foi o Brasil um dos primeiros países a ser visitado pelo novo diretor-executivo do Greenpeace, Kumi Naidoo. Foi, claro, levado para conhecer a Amazônia - não só a parte turística, matas e rios, mas também a barra pesada de Altamira e quetais. Passou por São Paulo, onde deixou boa impressão.

Até aí, nada demais - a não ser pelo fato de que Naidoo não é europeu nem americano. É sul-africano. Sua militância no chamado terceiro setor não começou pelo movimento ambientalista, mas na área de direitos civis, aos 15 anos, em luta contra o apartheid. Só mais recentemente se tornou dirigente da Campanha Global do Clima, uma espécie de federação temática de ONGs de várias partes do globo.

Parece uma tremenda mudança, ter um africano na direção da ONG internacional e ainda por cima não propriamente um ambientalista (embora se confesse admirador da organização desde os 20 anos de idade, quando dela ouvir falar pela primeira vez em notícia sobre o atentado contra o navio Rainbow Warrior na Nova Zelândia, em 1985). Que seja para melhor, e com mais atenção para a capacitação de brasileiros, africanos, chineses, indianos etc. na aplicação de recursos angariados ao menos parcialmente em seu nome.

Bem-vindo, Kumi Naidoo.


Adendo em 9/3: Não deixe de ler a entrevista de Daniela Chiaretti com Kumi Naidoo e a narrativa de encontro do chefe do Greenpeace com empresários na FGV (aqui e aqui, só para assinantes do jornal Valor Econômico).

Adendo em 11/3: Acabei escrevendo um pequeno perfil de Kumi Naidoo para a Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes do jornal e do UOL).

Escrito por Marcelo Leite às 15h05

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Gaia para presidente

 
 

Gaia para presidente

Poucos filmes provocam uma cisão tão forte no espectador crítico quanto "Avatar". Os olhos se enchem com as imagens possantes e o emprego virtuoso, nada exibicionista, dos recursos tridimensionais (3D). Já o argumento... (...)

 O filme é um pastiche de todos os clichês e gêneros cinematográficos de sucesso, mas resultaria inofensivo se não fosse também a xaropada ambientalista. (...)

Para não deixar dúvida sobre a importância da interconexão, o povo de Cameron (James Cameron, o diretor) criou até uma trança USB, por assim dizer. Na ponta do feixe de cabelos, minhoquinhas brilhantes se fundem com as de uma antena em cavalos de seis patas, com as de dragões de montaria, até com as de árvores.

O exemplo cinematográfico de evolução convergente cumpre a função didática de sublinhar a comunicação direta entre "humanos" e a Natureza, com "n" maiúsculo. Em língua na'vi, com a divindade Eywa, a força telúrica que tudo interliga, ou religa. (...)

[A] pré-candidata a presidente da República pelo Partido Verde, Marina Silva, reservou tempo em sua agenda para dele tratar em seu blog. O texto tem uma centena de linhas e o título "Avatar e a Síndrome do Invasor". (...)

Quem conhece Marina Silva (...) logo percebe que ela foi fisgada pela pedagogia mística de Cameron. A destruição se revela tanto um pecado quanto uma agressão contra a crença alheia identificada com o bem.

"No filme, como o valor em questão era a riqueza do minério, a floresta em si, com toda aquela conectividade, toda a impressionante integração entre energias e formas de vida, não vale nada para os invasores. Pior, é um estorvo, uma contingência desagradável a ser superada", escreveu. (...)

A componente mística e enaltecedora dos povos iluminados da floresta não é obrigatória para adotar uma perspectiva ética nas considerações sobre a relação entre homem e natureza. Pode-se chegar a isso pela pura força da razão, sem a fantasia deslumbrante de eleger Gaia.


Leia a íntegra da coluna Cência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 17h08

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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