Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Um Oscar para Fred Pearce

 
 

Um Oscar para Fred Pearce

Pena que não existe Oscar nem Nobel para jornalismo científico investigativo, essa 'avis rara'. Se existisse, Fred Pearce levaria - fácil, fácil - o de 2010. Ele escarafunchou os 1.073 mensagens de e-mail furtadas/vazadas de pesquisadores do clima, no escândalo que ficou conhecido como "Climagate" (em inglês, "Climategate") e tem publicado no diário britânico The Guardian uma série de reportagens reveladoras sobre como se faz a ciência realmente existente - inclusive a do clima.

Os "céticos" e negacionistas da mudança do clima/aquecimento global antropogênico (causado pelo homem) estão se deliciando com a série. Mas não vão gostar muito de um das matérias recentes de Pearce, esta aqui. Mas recomendo também, para quem manter a cabeça aberta sobre a questão, ler ainda esta e esta.

Escrito por Marcelo Leite às 22h10

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Brasileiros "ocupam" hospital canadense no Haiti

 
 

Brasileiros "ocupam" hospital canadense no Haiti

Fotos: André François/ImageMagica

Leia abaixo os primeiros parágrafos da reportagem (aqui, só para assinantes) publicada ontem na Folha com uma bela foto de André François, parceiro constante da ONG Expedicionários da Saúde de quem reproduzo mais duas.


O ortopedista Ricardo Affonso Ferreira, de Campinas, é adepto da aventura. Quatro dias depois do terremoto no Haiti, estava em Santo Domingo com três toneladas de materiais hospitalares à espera do enfermeiro Hernane Santos, de Manaus, e de uma oportunidade para tratar vítimas da catástrofe.

Uma semana depois, conseguiu começar a operar com uma equipe de nove médicos brasileiros. Já estava em "seu" hospital, o Brenda Strafford, pequeno estabelecimento canadense especializado em oftalmologia.

Fica em Les Cayes, cidadezinha à beira-mar, a 200 km e seis horas de viagem de Porto Príncipe. O tremor ali foi fraco, só caíram dois prédios. A catástrofe veio depois, como um tsunami de gente: mais de 80 mil refugiados da capital.

"Já estava cheio de quebrados. Amputamos muita gente", conta, por telefone. "Começamos com pequenos procedimentos -limpar feridas, amputações que fossem mais necessárias. Devagar começamos com as fraturas, algumas fixações externas. Agora já fazemos 12 a 18 procedimentos por dia."

Escrito por Marcelo Leite às 12h26

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Tecnologia ianomâmi

 
 

Tecnologia ianomâmi

A casa coletiva da aldeia Watoriki (Reprodução/Foto: William Milliken)

A coluna (aqui, só para assinantes) Ciência em Dia de ontem, na Folha, trata de um belo livro, "Urihi A - A Terra-Floresta Yanomami", de onde foi extraída a foto acima. Infelizmente, deixei de levar em conta as respostas abaixo que me foram enviadas por um dos autores, Bruce Albert, pois elas só chegaram às minhas mãos na sexta-feira, quando a coluna já estava impressa.

Esta é uma das muitas vantagens de publicar um blog. Sempre é possível complementar o trabalho jornalístico "normal", por assim dizer, com material adicional para os leitores que quiserem ir além. Com a palavra, Albert:


Houve versão anterior do trabalho publicada em outra língua?

O livro é uma versão  reescrita, reorganizada e muito atualizada (dados de campo, análise da bibliografia) de um livro publicado em 1999 pela editora do Kew Botanical Gardens, cujo titulo era "Yanomami – A forest people" (inédito em português).

Você e Milliken são ambos antropólogos ou têm também formação em biologia/botânica?

Eu sou antropólogo, francês, com doutorado (1985) pela Université de Paris X Nanterre, diretor de pesquisa do IRD (Institut de recherche pour le développement) e pesquisador associado do ISA. Trabalho com os Yanomami desde 1975 e criei a CCPY em 1978 com a Claudia Andujar e o Carlo Zacquini.
William, inglês, é doutor em etnobotânica pela Universidade de Cambridge (1999) e chefe da Unidade de Botânica da América
Tropical nos Royal Botanic Gardens, Kew. Começou a trabalhar comigo nos Yanomami em 1993. Trabalhou também no Brasil com varios povos indigenas além dos Yanomami: Macuxi, Wapixana, Ye'kuana, Waimiri Atroari, Wai Wai, Ingariko.
 
Em poucos trechos do livro são usados nomes comuns das plantas. Na maioria das vezes aparecem só os nomes científicos e
Yanomami, o que dificulta a leitura por leigos como eu. Foi uma escolha deliberada?

Foi uma escolha deliberada sim, por varias razões:

  • muitas das plantas usadas pelos yanomami simplesmente não têm nome popular em português (aliás, algumas  vezes nem havia nome científico: uma foi nomeada com o nome da aldeia de Watoriki/Demini: Trichilia watorikensis – ver na página 36 a nota abaixo da tabela; outra é provavelmente uma nova espécie – ver fim da nota 63 p.46);
  • os nomes populares introduzem frequentemente mais confusão do que ajudam. Eles são, na maioria das vezes, muito vagos e frouxamente abrangentes, podendo se referir a várias espécies muito diferentes;
  • finalmente, é provável que os leitores das cidades ignorem a imensa maioria dos nomes populares das plantas da Amazônia, tanto quanto os nomes científicos.

Pensamos então que ficaria muito pesado no texto acrescentar esses nomes populares pouco confiáveis (quando disponíveis) sem muito ganho para os leitores. A ideia subjacente foi que os especialistas (botânicos, antropólogos, indigenistas etc.) possam se referir aos nomes científicos e yanomami enquanto as descrições e discussões do texto podem dar aos eventuais leitores não especialistas um apanhado geral da riqueza do conhecimento botânico dos Yanomami sem que eles tenham que conhecer cada planta mencionada. Quem quiser saber mais só precisa googlar os nomes científicos para conseguir fotos e bibliografia com muita precisão…
 

Se você tivesse de escolher dois usos de plantas por Yanomami que são muito característicos e incomuns, que divirjam do acervo geral de tecnologias amazônicas, quais seriam?

Tem várias coisas de destaque no conhecimento botanico yanomami:

  • por exemplo, sua considerável farmacopeia vegetal oriunda quase exclusivamente da floresta (o número de plantas medicinais que registram já coloca os yanomami entre os detentores das mais ricas farmacopeias da Amazônia indígena) -  215 plantas, ver p. 120;
  • pode ser também a excepcional diversidade dos seus venenos de pesca: ver pp. 69-73  e Tabela 7;
  • ou coisas mais curiosas como a importância dos cogumelos na sua dieta (mais de 20) ou seu consumo alimentar de flores como a da árvore na+hi - sobre tudo isso ver pp. 45-47.


Foi esse estudo que o levou para pesquisas no território Yanomami? E Milliken? Quando vocês chegaram lá e quanto tempo permaneceram?

No meu caso, não. Cheguei nos Yanomami no começo de 1975 para trabalhar num projeto da Universidade de Brasília-FUNAI destinado a proteger os Yanomami do impacto da Perimetral Norte (projeto dirigido pela Profa. Alcida Ramos, UnB). Portanto trabalho com os Yanomami no Brasil há 35 anos. Passei anos com eles e continuo trabalhando lá várias vezes ao ano com o ISA e a Hutukara Associaçao Yanomami.
Pedi em 1993 ao William para vir trabalhar comigo sobre a etnobotânica yanomami. Fizemos várias viagem de campo juntos nos
anos 1993-1995 e 2002 com uma duração  total de 3 ou 4 meses. Ver páginas 19 e 20. Mas obviamente estão atrás dessas pesquisas meus 30 anos de trabalho e amizade com os Yanomami.
 

Por que escolheu estudar a etnobotânica dos Yanomami? Para documentação de usos que possam depois ser (mal)apropriados por cientistas ou empresas não-índias, ou isso não teve peso na decisão?

Nossa pesquisas começaram no quadro de demandas da ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e seus projetos de campo (assistência em saúde e projetos ambientais) _ ver pp. 20-21.  Nos anos 1993-95 era um estudo para resgate de conhecimento de plantas medicinais, em 2002 um estudo sobre impacto do garimpo na TI [Terra Indígena] Yanomami. Finalmente decidimos  ampliar a pesquisa para dar um panorama dos conhecimentos botanicos yanomami a partir de nossos dados e da literatura sobre esse grupo. Como menciona a introdução do livro, os Yanomami são muito conhecidos por várias coisas: guerras e polêmicas a propósito da sociobiologia, seu xamanismo, sua vitimização pelo garimpo, as polêmicas do livro do Patrick Tierney e recente documentario de José Padilha etc., mas não por uma coisa muito óbvia: seu extraordinário conhecimento e uso da floresta  (ver na conclusão do livro por que este saber se destaca entre os povos da Amazônia pp 149-152). Mostrar isso nos pareceu uma maneira de contribuir para  reforçar as justificativas da preservação da TI Yanomami no seu formato atual (a CCPY, cujas atividades foram desde o ano passado assumidas pelo ISA, lutou de 1978 até 1992 para conseguir a homologação da TI Yanomami). Portanto, nosso trabalho sempre teve um cunho de engajamento em prol da causa yanomami.
 
Além disso, foram mencionadas no livro somente identificações de plantas já descritas e bem conhecidas na literatura
etnobotânica. Para as demais optamos por proteger os conhecimentos inéditos específicos aos Yanomami não mencionando seu nomes científicos no texto do livro: ver nota 196 p. 121. Essas espécies foram selecionadas por terem sido registradas e publicadas em outros estudos com as mesmas indicações medicinais atribuídas pelos Yanomami. Nomes de espécies cujas indicações medicinais parecem ser peculiares aos Yanomami foram suprimidos desta e de publicações anteriores, no intuito de minimizar o risco de violação dos seus direitos de propriedade intelectual (vide Milliken e Albert, 1996; 1997a).


Se boa parte da farmacopeia Yanomami é partilhada com vários outros povos indígenas da Amazônia, como ficaria a questão da propriedade intelectual e da repartição de benefícios em caso de isolar-se e sintetizar-se um princípio ativo de aplicação comercial? Quem deveria ser tomado como titular desse conhecimento tradicional gerador de valor?

Não sou um especialista nesse assunto e a ideia de mercantilização dos conhecimentos indígenas não me agrada muito de uma maneira geral. Boa parte das plantas usadas pelos yanomami é, como pode se imaginar, idêntica à de muitos outros povos indigenas da Amazônia. Só uma pequena parte é específica.

Finalmente, a problemática de royalties para uso de plantas medicinais comuns à maioria dos povos da Amazônia ou de algumas grandes regiões (patrimônio coletivo intelectual imemorial) é meio insolúvel, a não ser que esses royalties sejam atribuídos talvez a federações de associações que representam uma maioria dos povos da região ou de sub-regiões com uma porcentagem especial para o povo onde o trabalho de pesquisa  que desembocou na identificação da planta e do princípio ativo foi realizado (o povo "porta de entrada" do conhecimento coletivo enquanto conjunto de pesquisadores indígenas associados).

Mas, repito, não sou um especialista em questões legais nesse campo e isso é uma hipótese improvisada que deveria ser debatida em primeiro lugar com os povos indígenas.

Escrito por Marcelo Leite às 12h01

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Colombo e a sífilis

 
 

Colombo e a sífilis

Gravura de sifilítico atribuída a Albrecht Dürer (1471-1528)

Com algum atraso, chamo a atenção para reportagem que saiu sexta-feira passada na Folha. Reproduzo só os três primeiros parágrafos:


Quem for ao portal do Ministério da Saúde pesquisar sobre a sífilis encontrará que a doença sexualmente transmissível, de péssima fama, foi levada por marinheiros de Cristóvão Colombo da América para a Europa, no final do século 15. Uma informação errada, segundo estudo que surgiu de um curso de pós-graduação da USP.

A disciplina foi ministrada um ano atrás por Sabine Eggers no Instituto de Biociências. Sob o título "Variabilidade em Homo sapiens: aspectos genéticos e ambientais", não tinha a princípio nada a ver com sífilis.
A geneticista deixou os alunos escolherem o que queriam fazer. Eles optaram por estudar o efeito da evolução darwiniana na medicina, aprender paleopatologia (estudo de doenças em vestígios fósseis) e escrever um artigo científico.

O resultado saiu em formato eletrônico no periódico "PLoS Neglected Tropical Diseases", dedicado a doenças tropicais negligenciadas, em janeiro: uma refutação da hipótese de que a doença só tenha chegado à Europa depois de 1492. Os marinheiros de Colombo e as índias com quem tenham mantido relações sexuais foram inocentados da acusação de ter iniciado a epidemia que devastou Nápoles em 1495.

Leia mais aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 10h59

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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