Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Sobre L.I.X.O.

 
 

Sobre L.I.X.O.

Recebi da leitora Beatriz Couto os comentários mais abaixo, sobre minha coluna intitulada "L.I.X.O.". Ela é urbanista, professora titular de planejamento urbano e regional na UFMG, e trabalha desde 1984 com uma linha de pesquisa que, há coisa de dez anos, batizou de "relações sociais de produção intelectual". Leia:


Os casos extremos, como o relatado em "L.I.X.O.", seriam apenas um exemplo de tudo o que seres humanos são capazes de fazer por alguns minutos de glória ou trocados para financiar pesquisa, não fosse encobrirem uma mudança insidiosa que parece lançar uma grande parte dos pesquisadores atualmente a direcionar a pesquisa para garantir os índices de produtividade que os órgãos de pesquisa pariram sem maiores explicações.

Toda essa febre de medição começa com Solla Price, físico americano dos anos 60 que teve a honestidade de fazer uma pesquisa de autoria de publicação em periódicos americanos centenários. Fazendo um gráfico do número de artigos publicados por pesquisador ao longo de uma vida científica, determinou que a linha de corte inferior para o quartil superior dos mais produtivos era dez artigos durante uma vida científica.

Se a gente postulasse 30 anos de trabalho (deve ser menos), daria um artigo a cada três anos. Nos dias de hoje a expectativa é de três por ano, e há quem publique mais de 20. Se a gente ler Solla Price (o livro é Little science, big science) com cuidado, observa que a questão dele era identificar como se daria o relacionamento da elite intelectual com "o resto da massa de pesquisadores". Questão central para o atual produtivismo.
 
E quem se qualifica como elite? Bingo: quem produz mais artigos dentro do darwinismo acadêmico, "publish or perish". E aí é que entram as mudanças nas relações de produção da universidade e órgãos de pesquisa.

A mudança de regras de autoria em curso vem no sentido de reforçar o efeito de elitização sobre a coletivização do trabalho intelectual numa briga de foice para publicar: a elite, que controla os comitês editoriais, tem arbitrado em favor de seus próprios paradigmas, ao ponto de haver registros de membros individuais de órgão de pesquisa considerando que as revistas das associações nacionais de pós-graduação no Brasil já não poderem ser entendidas como representando pesquisa de valor internacional (observação: o movimento é internacional, mas neste país da perversão a céu aberto tudo é absurdamente feito às claras).
 
Exemplos da deturparção decorrente: para manter os índices de publicação exigidos dos doutorados nível sete, já há grupos que não podem mudar a linha de pesquisa, mesmo que considerem que o problema está em outro lugar, porque, até que o resultado sobrevenha, terão perdido a classificação; indivíduos exigindo sua participação na autoria desde que "sua" máquina (comprada com o dinheiro público) seja utilizada; fatiamento do resultado em tantos trabalhos quanto possível (esta pedra o Solla Price cantou); mudar o título e fazer ligeiras alterações no conteúdo e publicar em diversos periódicos; gente assinando trabalho de orientandos (nota: há um milênio na universidade ocidental autoria é autoria, orientação é orientação, e a justificativa da mudança, devendo-se considerar explicitamente como tratar o caso de a coletivização do trabalho ser exigida por alguns temas, não fica clara se não se leva em consideração a corrida para atingir o topo dos índices de que o caso citado por você é seguramente o mais deturpado e o que melhor evidencia os métodos e objetivos da elite). E há mais outros exemplos da criatividade publicista.
 
E claro, os órgãos de financiamento, as direções universitárias e os membros de comitês de publicação, confrontados com essas evidências, têm, com as exceções de sempre, a resposta pronta: isto é exceção decorrente de falha humana, B.L.A.B.L.A.B.L.A.

Escrito por Marcelo Leite às 16h15

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Boi na reta

 
 

Boi na reta

A revista UnespCiência traz na capa de sua edição de dezembro reportagem minha sobre emissões de gases do efeito estufa pela agropecuária nacional e as oportunidades de mitigação oferecidas pelo setor. Leia aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 18h44

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L.I.X.O.

 
 

L.I.X.O.

Falta ao Brasil um cientista tão empreendedor quanto Mohamed El Naschie. (...)

Se fosse brasileiro, El Naschie teria um currículo Lattes de cair o queixo. Produziu quatro centenas de artigos publicados em periódicos especializados acompanhados (indexados) pela ISI Web of Science, uma base de dados da Thomson Reuters que permite esmiuçar a vida acadêmica de qualquer pesquisador expressivo. Seus trabalhos já foram citados umas 5.000 vezes, indicador forte do impacto que os estudos tiveram na comunidade científica internacional.

El Naschie fundou e editou durante anos o periódico "Chaos, Solitons and Fractals" (CSF). Entre as 65 publicações da categoria Aplicações Interdisciplinares de Matemática classificadas pela Thomson-Reuters, "CSF" ocupava a segunda posição em 2007. Há alguns problemas com a produção do egípcio, no entanto.

Nos últimos anos, seus adversários se deram conta de que mais de 300 dos 400 artigos publicados por El Naschie o foram no próprio "CSF" por ele editado. A denúncia está na edição de dezembro do boletim "Siam News", da Sociedade de Matemática Industrial e Aplicada, com sede em Filadélfia (EUA).

Há mais. Das 4.992 citações obtidas pelo físico, cerca de 2.000 são de trabalhos editados no mesmo "CSF", boa parte deles de autoria do próprio El Naschie. A autocitação é um expediente comum em ciência, mas em geral condenado como uma forma artificial e antiética de melhorar as próprias estatísticas de produtividade. (...)

Alguém devia abrir um Laboratório Interdisciplinar de Xenotransplantes e Ozonoterapia no Brasil. Ou, quem sabe, obter financiamento público para editar um periódico intitulado "Brazilian Library of Advanced Biotechnology, Laboratory Agrosciences and Biomolecular Low-cost Analysis". Fariam o maior sucesso -bastando não usar as siglas na publicação dos milhares de estudos que produzirão.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 17h32

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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