Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

As metas do Brasil - um avanço

 
 

As metas do Brasil - um avanço

A pedido da redação da Folha, escrevi comentário sobre o relativamente surpreendente anúncio de que o país se compormete a cortar pelo menos 36,1% de suas emissões de gases do efeito estufa até 2020. Eis alguns parágrafos:


Não fosse pela concessão aos ruralistas, o governo Lula terminaria a semana num nirvana ambiental. Primeiro, um recorde -desta vez de baixa- no índice de desmatamento, o menor de todos os tempos. Depois, a adoção da meta audaciosa de corte na emissão de gases do efeito estufa, 36-39%.

As coisas estão ligadas, e não só pelos dividendos de marketing. A três semanas de Copenhague, Lula e Dilma Rousseff tentam aplicar um verniz verde na imagem. Para isso, tiveram de mostrar resultados (desmate) e assumir compromissos (emissões), o que não deixa de ser um avanço. (...)

Parece que enfim começa a vingar no governo aquilo que Marina Silva chamaria de "transversalidade". Em linguagem popular: caiu a ficha de que as questões ambientais não podem mais ser consideradas meras perfumarias, algo a ser tratado por assessores de marketing. Devem integrar o cerne do planejamento, pois já constituem um componente crucial da noção de competitividade. (...)

O sintoma mais forte da transformação é oferecido pelo Ministério da Agricultura. Do conflito quase automático com a pasta do Meio Ambiente, nesse debate parece ter-se dado conta de que o enfrentamento da mudança do clima traz uma chance única de levantar recursos para expandir medidas de racionalização do campo que já ocorrem. Um quarto do potencial de redução de gases do efeito estufa está na agropecuária. (...)

Escrito por Marcelo Leite às 18h20

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Metas do clima: Itamaraty é a barreira

 
 

Metas do clima: Itamaraty é a barreira

O governo federal já decidiu que é 40% o número da meta - objetivo, compromisso interno, qualquer que seja o nome - de redução de gases do efeito estufa até o ano 2020. Na reunião de sábado, às 10h, o que vai ser decidido é se se anuncia o número ou só as ações elencadas para chegar a ele. Coisas do Itamaraty.

(Aliás, essa é a grande novidade do processo capitaneado por Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente. O número não é um simples chute. Baseia-se em estimativas, por certo, sobre quanto o país emite hoje e quanto estará emitindo em 2020, mas também no potencial de redução de emissões avaliado por especialistas, setor por setor, da energia à agropecuária, dos transportes ao reflorestamento. Não chega perto do orçamento de carbono adotado no Reino Unido, mas fica um pouco menos longe disso.)

Diplomatas têm horror a pronunciamentos e tomadas de posição que comprometam o país com qualquer coisa (parece que essa regra só não vale quando se trata de passar a mão na cabeça de Hugo Chávez). Se o país anuncia a meta numérica, obviamente poderá ser cobrado por ela. Esta é exatamente a ideia.

Os itamaratecas deveriam prestar mais atenção à fonte de boa parte do prestígio internacional de Lula e mesmo do doméstico. Seu governo caiu nas graças dos formadores de opinião, inclusive as Economists e Wall Street Journals da vida, depois que levou a sério compromissos de estabilidade financeira e macroeconômica.

E o que está no cerne dessa política tão ao agrado da metrópole financista? A política de metas da inflação, que vem sendo cumprida à risca pela administração Lula.

O que está em jogo agora é uma política de metas de emissão de carbono. Se enunciada só como promessas de bom comportamento, é para inglês ver. Se vier com números acoplados, é para inglês ver e acreditar. E cobrar, como cobrarão os brasileiros.

Escrito por Marcelo Leite às 17h35

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Mais reitoria e co-autoria

 
 

Mais reitoria e co-autoria

Sinal dos tempos: a eleição para reitor da USP pode ter de ser realizada fora do campus, porque uma espécie de piquete impediu o comparecimento dos 324 delegados votantes. Mesmo quem não morre de amores por esse colégio eleitoral dominado por docentes (nem por eleição direta com a participação igualitária de funcionários e estudantes) percebe que tem alguma coisa errada aí.

Não acho que a suspeita de plágio no qual se viu envolvida a reitora Suely Vilela (leia mais aqui) tenha alguma relação direta com isso, a não ser pela coincidência da denúncia com a aproximação do pleito - imagino que alguém tenha interesse em queimar o grupo político da reitora. De todo modo, a acusação tratada neste blog suscitou uma correspondência com leitores  bem mais interessante que a questão do plágio em si, e por isso vale a pena voltar a ela.

Um desses leitores é o físico Peter Schulz, da Unicamp. Em reação à minha primeira nota e a comentários de leitores, ele escreveu:


Esse novo caso, levanta, entre outros, um aspecto importante: responsabilidades e contribuições de autores em trabalhos com um grande número de autores. É uma questão que vem sendo tratada há um bom tempo na comunidade, por exemplo, de física de partículas com experimentos realizados em grandes aceleradores. Mais recentemente temos os grandes projetos em rede, como os dos diferentes genomas.

Outras áreas da comunidade científica ainda não têm talvez uma "prática de gestão" de equipes com 10 ou mais participantes. Essa falta de gestão chega ao cúmulo de que o orientador da principal autora não revisa a versão final do artigo e nem se dá conta de que imagens estão sendo usadas.

Mas eu gostaria mesmo de chamar a atenção a vários comentários que levantam a questão de quem deve ser co-autor em um artigo. E alguns desses comentários precisam de respostas atentas.

A orientação de estudantes de pós-graduação não é uma atividade homogênea entre as diferentes áreas acadêmicas. Pelo que consegui vislumbrar ao longo dos anos, há diferenças importantes e o conhecimento dessas diferenças deve ser premissa do debate.

Nas chamadas ciências duras, os orientadores normalmente propõem o tema, introduzem o orientando à metodologia e discutem muito de perto os passos da pesquisa. Os resultados e o artigo são escritos a quatro mãos. Isso caracteriza claramente co-autoria.

Em humamanas esse prática é muito diferente, caracterizada por uma autonomia maior do estudante, que muitas vezes propõe o próprio projeto de pesquisa. Uma possível co-autoria aqui já é menos evidente.

Em orientações no âmbito de grandes projetos de pesquisa a identidade de uma dissertação ou tese é menos evidente a alguém de fora da comunidade.

Resumindo: estabelecer pontes entre as diferentes culturas acadêmicas parece-me cada vez mais uma condição importante para uma melhor avaliação pública de problemas éticos como os levantados na atua ldiscussão.


Respondi, então: Acho um pouco complicada essa argumentação em favor da co-autoria, porque no limite ela implica que o trabalho de mestrado e doutorado em ciências humanas tenha mais valor que o de ciências ditas duras, quase escolares. Será que os praticantes destas estarão dispostos a dar esse passo?

Schulz voltou à carga:


Questão complicada. Acho que não concordo contigo, mas sinto-me inquieto e com vontade de discutir o assunto. Abaixo vai, portanto, o meu relato pessoal, pois nisso minhas ferramentas de análise são bem escassas e preciso compartilhar então experiências pessoais.

Eu comecei a carreira como físico em meados da década de 80 e segui os passos do meu orientador, que propôs um projeto de mestrado (e depois também de doutorado). Era uma época em que a pressão por papers não era nem de longe tão intensa como é hoje e, mesmo assim, a prática de orientação/co-autoria parecida com o que acontece agora. Eu não questionei o modelo na época, nem discuti com amigos das humanas.

Quando me tornei um pesquisador independente segui o mesmo modelo de atuação e a minha produção científica é praticamente toda vinculada a orientação e colaboração com ex-orientandos. Sempre senti orgulho disso e agora com o teu questionamento preciso parar para pensar um pouco.

Vejamos:

1. A física se move por modas (outras ciências também, mas vou falar só da minha experiência pessoal), e os assuntos em moda são bastante competitivos, um monte de gente trabalhando neles no mundo todo. A chance de propor um projeto com o qual você se deparará publicado por outro grupo alguns meses depois é grande. Já aconteceu comigo e com vários colegas. Tem a ver com a grande internacionalização na Física.

2. Eu tenho a impressão de que em humanas o estudante tem uma tranquilidade maior para organizar seu projeto. Um grande amigo meu propôs um projeto sobre crônicas de um determinado autor sobre futebol. Conversando com ele, percebia-se que o temor de que alguém  fizesse algo muito parecido em alguma outra parte do mundo era muito pequena. Às vezes trabalha-se com documentos originais cujo acesso chega a ser praticamente exclusivo etc...

3. Em física, mesmo quando o orientador redige um projeto de doutorado, costuma existir uma espécie de cláusula (eu sempre coloco) que diz mais ou menos assim: "dada a dinâmica da área, o projeto proposto poderá ser modificado no decorrer de sua execução". E, em geral, as modificações acontecem e são relevantes. Aí entra o exercício de independência de um bom orientando. Uma vez acostumado a uma rede de referências que se modifica rapidamente, ele tem a segurança de propor essas mudanças de rumo.

4. Na minha vida profissional (e à minha volta) eu percebo que as orientações acabam sendo processo intensos. O contato com o orientando em vários momentos ocorre várias vezes por semana e durante horas, com intensas discussões sobre o projeto em si, que empaca, não avança, e uma descoberta parece ir para o ralo (não estou dizendo que seja seminal essa descoberta, mas a idéia é gerar conhecimento original num ambiente em que se sabe que a chance de "perder a corrida" para outro é grande).

Nesse momento não importa tanto se o currículo Lattes terá um item a menos ou não, mas o envolvimento pela oportunidade de ter a propriedade intelectual sobre a explicação de um fenômeno contagia orientando e orientador. Orientando e orientador passarem juntos noites em claro terminando juntos um manuscrito para uma conferência (antes das facilidades das TIC) era bastante frequente... Bem como reuniões nos fins de semana em função do entusiasmo do orientando querendo compartilhar uma sacada ou a "grande medida" que faltava para finalizar o trabalho, e não dava para esperar a segunda-feira.

Aliás, no meu departamento orientandos e orientadores convivem muito porque todos têm sala, computador e ficam no departamento quase que por tempo integral. Tenho algumas poucas informações de que isso é bastante diferente em vários outros departamentos em ciências humanas.

5. Em física não encaramos um estudante de pós-graduação como alguém que precisa mostrar sua independência com muita precocidade, embora alguns o sejam. Ele é orientado para obter essa independência ao final do doutorado. Casos como Einstein, trabalhando isoladamente em um escritório de patentes para revolucionar o mundo, são extremamente raros. Acho que esse exemplo em particular ajuda a sustentar uma lenda que não condiz em nada com o cotidiano da prática científica em física.

6. Para se ter uma idéa dessa competição, eu busquei no "scitation" (que é um buscador acadêmico com um recorte significativo, mas bastante incompleto, de revistas especializadas) a palavra "graphene" (grafeno, o tema de duas orientações minhas): aparece em 608 artigos em 2009, até 7/11.

Olhando essa lista rapidamente, notei 3 entre os 10 primeiros diretamente relacionados com os aspectos das duas orientações.

7. Bem, eu oriento no momento 3 estudantes em conjunto com uma pós-doutoranda, que assina/assinará artigos de pesquisas em conjunto. O meu desejo íntimo, nem sempre realizado, é que o orientando acabe fazendo um trabalho sozinho, no final, quando consegue se defender das feras nessa selva. Antes disso seria uma frutração muito grande, a chance de sempre perder a corrida é muito alta.


Enfim, acho que existem diferenças culturais importantes e acho que você chama a atenção a um problema que merece uma visão de vários ângulos: afinal o que é orientar nas diferentes áreas?

Escrito por Marcelo Leite às 11h37

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Clima: Serra Seis X Meia-Dúzia Lula

 
 

Clima: Serra Seis X Meia-Dúzia Lula

A Folha de hoje traz uma análise minha, feita a pedido, comparando a proposta do governador paulista José Serra para corte nas emissões de gases do efeito estufa (20% sobre o nível de 2005) com a que pode ser adotada pelo presidente Lula depois de amanhã (38% a 42% sobre o que o país estaria emitindo em 2020).

Acho que ninguém vai ler. Primeiro, porque é complicado e até um pouco chato. Segundo, porque está todo mundo querendo saber do novo apagão, se foi obra de hackers etc. Quando passar o zunzunzum, como vai passar o do vestido de Geisy, o clima continuará em pauta. Então, vai aqui um aperitivo do que escrevi:


Caso o objetivo do governador tucano José Serra tenha sido diferenciar-se de Lula em sua política para a mudança do clima, já pode dizer que está para o presidente como Arnold Schwarzenegger para George W. Bush. Repete-se aqui fenômeno já observado nos EUA, onde alguns governadores se adiantaram ao governo central nessa matéria. (...)

Quem só tiver ouvido falar de percentuais de cortes nas emissões de gases do efeito estufa poderá sair com a impressão de que Serra ficou aquém de Lula. O primeiro fala em reduzir 20% desses gases até 2020. O segundo ainda não falou com clareza, mas pode anunciar corte em torno de 40% na sexta-feira. (...)


Não se sabe ao certo quanto o país emitiu em anos recentes. Serra usa o valor de 2 bilhões de toneladas de CO2 emitidas nacionalmente no ano 2005. O dado consta de um estudo realizado na USP de Piracicaba pelo pesquisador Carlos Cerri.

Projeções de um grupo de especialistas conhecido como Rede Clima indicam que o Brasil possa chegar a 2020 emitindo 2,7 bilhões de toneladas de CO2. Adotada a meta superior, de 40%, isso cairia para 1,62 bilhão em uma década. Menos, portanto, que as emissões de 2005 (2 bilhões de toneladas), mas um valor quase idêntico ao que se alcançaria se aplicada a regra de Serra (menos 20%, o mesmo 1,6 bilhão). Empate. (...)

Escrito por Marcelo Leite às 09h48

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O Muro

 
 

O Muro

Paula e Ana (no banco de trás) com soldado oriental na "Faixa da Morte" do Muro (Foto: Claudia Kober)

Hoje faz 20 anos que o Muro de Berlim começou a cair. Ainda não chegou de todo ao chão. A história tem um ritmo às vezes difícil de suportar.

Basta viajar a Berlim, como fiz em julho depois de 13 anos de ausência. Quem não for cego vai notar - em meio a toda a exibição de glamour arquitetônico - os guetos de desolação pessoal e desajuste. Não faltam solitários e casais de meia idade esperando passar o tempo em bancos de praças de concreto com mato crescendo entre as rachaduras, um sanduíche vagabundo na mão, ou a garrafa.

A Queda do Muro, maiusculizada, não pode contudo deixar de ser comemorada e rememorada por quem já antes, mesmo que de esquerda, abominava as práticas soviéticas (e chinesas, por falar nisso). Era uma farsa que se acabava.

Talvez a maior farsa de todas se encenasse na Alemanha Oriental, com seu nome ridículo: República Democrática Alemã. A única coisa que abundava ali era falta de liberdade. Todo mundo vigiava todo mundo, parente contra parente, amigo desconfiando de amigo. Um encrave provinciano em que todos falavam uma língua de filósofos mas que se presta tão bem a enunciar ordens para cães.

Cada um que tenha nascido antes de 1970 extrairá da Queda do Muro suas próprias lições. As minhas se resumem a um alerta contra o entusiasmo em política. Daquele momento histórico prenhe de júbilo e euforia a memória preferiu reter mais cenas constrangedoras do que esperançosas.

As filas de alemães orientais para coletar seu Begrüßungsgeld, um troco que a rica Alemanha Ocidental dava de presente para os primos pobres que atravessavam pela primeira vez a fronteira, antes da reunificação em 3 de outubro de 1990.

Em 1º de julho do mesmo ano, dia da unificação monetária, a multidão reunida na Alexanderplatz erguendo notas de cem marcos no ar, como troféus. Quatro anos depois, veria pela TV cenas similares com o lançamento do real no Brasil.

Numa visita a fábricas fechadas em Bitterfeld - a Cubatão alemã-oriental -, ex-gerentes comunistas, ou gerentes ex-comunistas, fazendo rapapés para os novos patrões ocidentais enquanto afastavam às cotoveladas os jornalistas.

Soldados soviéticos com rostos infantis e asiáticos, no domingo de folga em Potsdam, posando para fotos ao lado de Mercedes-Benz e de turistas tão embasbacados com seus quepes monumentais quanto eles com os carrões.

Berlinenses ocidentais resmungando - ou hostilizando abertamente - contra os poloneses e ciganos romenos que invadiram a cidade nos primeiros meses de 1990 e passavam como gafanhotos pelos supermercados, esvaziando prateleiras de leite e de sabão em pó.

A história acontecia diante dos olhos, mas seus trabalhos, como na guerra, tinham um quê de mesquinho, sujo, pedestre. Era uma rendição em câmera lenta, inescapável e necessária, mas abjeta.

Pessoas que só haviam aderido ao socialismo por imposição ou oportunismo se livravam dele com um duplo rancor - contra o capataz comunista que fingia pagá-los enquanto fingiam trabalhar e contra os ricaços ocidentais que fingiam abraçá-los enquantro troçavam deles pelas costas.

Foi isso que testemunhei durante seis meses, de março a setembro de 1990, enquanto morei em Berlim Ocidental, como correspondente da Folha. A maior parte do Muro ainda estava lá, nos pedaços que qualquer passante podia descascar com formões e marretas alugados. Mas também nas cabeças, mais duras.

O governo democrata-cristão de Lothar de Maizière, encarregado de apagar a luz da RDA, se esforçava por manter as aparências de dignidade. Não era uma derrocada, mas uma nação que soberanamente se lançava nos braços de um país-irmão, de igual para igual. A seu lado, uma doutora em física e porta-voz não muito loquaz ouvia tudo e aprendia, sem a vocação de De Maizière para o rodapé da história: Angela Merkel.

Dos briefings quase diários de Merkel sobre a negociação do tratado de reunificação seguia para o Centro Internacional de Imprensa. Não havia internet, nem telefones celulares, apenas máquinas de escrever, fax e telex. Sendo esta a ligação mais barata, era opção obrigatória naqueles tempos de Plano Collor.

Funcionárias uniformizadas e monoglotas (quando muito conheciam rudimentos de russo) recebiam o texto em qualquer língua e o transcreviam de graça, com eficiência prussiana, em fitas perfuradas, que depois seriam empregadas para transmitir com rapidez a reportagem para o Brasil. Aos poucos, elas foram desaparecendo, engolidas na implosão da burocracia. Ao final, sentava e escrevia os textos diretamente na máquina de telex, em ligação direta com o Brasil.

Tudo ruía lentamente, como o Estado socialista, sob o peso da própria inoperância. O centro de imprensa ficava em Berlin-Mitte, na banda oriental, para onde seguia diariamente de carro saindo de Charlottenburg (bairro de Berlim Ocidental que abriga a famosa avenida Ku'Damm). Nas primeiras semanas, sendo estrangeiro, só podia cruzar a fronteira pelo Checkpoint Charlie, na Friedrichstraße.

Os guardas de fronteira alemães-orientais eram de início minuciosos e rudes, ciosos da reputação de atirar para matar. Verificavam o visto no passaporte e examinavam a parte debaixo do veículo com espelhos. Mandavam invariavelmente abrir o porta-malas do Corolla 1982.

Começaram então, imperceptivelmente, a relaxar. Um esquecia o espelho; noutro dia era o porta-malas. Lá por julho ou agosto o agente de gravata desfeita só acenava com a mão de dentro da cabina, como um guarda de trânsito ordenando que a história se acelerasse.

Não dava para passar mais depressa. O recinto estava cheio de obstáculos, barreiras e meandros. A história, como ensinam os livros de Stephen Jay Gould sobre evolução, se faz com o material disponível.

Sempre dá para mudar, mas não muito, nem necessariamente na direção almejada. Acaso e passado têm um peso enorme. Progresso é uma outra história, na qual foi bom deixar de acreditar.

Escrito por Marcelo Leite às 18h44

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Mais do mesmo - ética na academia

 
 

Mais do mesmo - ética na academia

A propósito do post abaixo, recebi as seguintes observação de outro leitor (que também pede para ficar anônimo):


1 - Primeiramente, uma correção: Marcos Fontes é da UNESP de Botucatu, atualmente vice-chefe do Departamento de Física e Biofísica do Instituto de Biociências.
 
2 - Uma frase do texto: "Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?"
R.: Não é o ideal, mas sim. A área de pesquisa de Andreimar Soares tem poucos pesquisadores formados, então acaba sendo natural que co-autores de trabalho acabem sendo membros de banca, por entenderem do assunto.

3 - Outro trecho: " É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês."
R: Andreimar Soares é pioneiro no Brasil no isolamento e estudo de toxinas de jararaca. Em função disso, muitos pesquisadores pedem ao prof. Andreimar que ceda estas toxinas, para utilizarem em seus respectivos trabalhos.
Provavelmente, a "moeda de troca" que o professor  pede é que ele seja co-autor dos artigos resultantes dos trabalhos. Daí a grande quantidade de artigos publicados.

Escrito por Marcelo Leite às 16h02

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Um outro muro

 
 

Um outro muro

Hugh Lacey é um filósofo da ciência australiano que trabalha nos EUA, mas também por aqui (na USP). Seus fãs tupiniquins aprenderam a admirá-lo por razões acadêmicas e humanas, entre elas a destreza no manejo da lógica contra a injustiça social. Se ele investir contra o muro que separa ciência de religião, pense antes de reagir. (...)

A defesa do pluralismo em ciência por Lacey (...) se encontra muito bem articulada em seu artigo "The Interplay of Scientific Activity, Worldviews and Value Outlooks" (a interação entre atividade científica, visões de mundo e perspectivas de valor), publicado em agosto de 2007 no periódico especializado "Science and Education".

Simplificando o argumento exposto em 22 páginas, Lacey deplora o sequestro da pesquisa científica atual pelo materialismo, definido como a metafísica inconfessada por trás da valorização do progresso tecnológico. Argumenta que tal valor não é inerente ao escopo da ciência. De fato não é. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 15h54

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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