Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Mais ética na academia

 
 

Mais ética na academia

A imagem sob suspeita (reprodução)

Aos poucos parece que o caso do suposto plágio em artigo com co-autoria da atual reitora da USP, Suely Vilela (leia aqui e aqui), vai deixando a questão localizada do plágio para suscitar uma discussão mais ampla das duvidosas práticas de autoria de artigos científicos.

É a coisa certa a fazer - ampliar o diagnóstico. É opinião corrente nos meios acadêmicos e intelectuais que a pressão por publicações, a organização semi-industrial da pesquisa científica e a competição entre periódicos acadêmicos estão conduzindo a um relaxamento ético no setor, com aumento da frequência de fraudes, manipulações e deslizes.

O jornalismo científico investigativo precisa se debruçar sobre o fenômeno, se os próprios filtros acadêmicos não estão dando conta de separar o joio do trigo - ou publicando o joio, como diz a boutade de H.L. Mencken. É a fé pública da ciência que está em jogo.

Recebi de um leitor, que pede para manter sua identidade oculta (o que me parece justificável no caso), algumas observações sobre fatos colhidos nos currículos Lattes de envolvidos no caso. Eles sugerem que pode haver algo de anormal na produtividade e nos costumes do grupo que produziu a pesquisa ora sob sindicância:


Carolina Dalaqua Sant´Ana defendeu o doutorado em 2008. Segundo o Lattes de seu orientador, os membros da banca eram: FONTES, M R M; RODRIGUES, V. M.; ALBUQUERQUE, S; dos Santos. A.C.; SOARES, A. M. Dois desses membros da banca são também co-autores de Carolina em artigos publicados em 2008 e 2007 (e 2006, e 2005). Um dos membros da banca é co-autor do artigo com o suposto plágio. Papers de 2005, supõe-se, já poderiam fazer parte de seu doutorado. Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?

 

Os pesquisadores-colaboradores-participantes da banca da Carolina são M.R.M Fontes (físico que agora estuda toxinas) e o biólogo Sergio Albuquerque  (especialista em tripanossoma, organismo supostamente retratado na foto sob suspeita). Todos livre-docentes da USP, pesquisadores de primeiro escalão do CNPq.

O orientador de doutorado Andreimar Soares e a orientadora de mestrado Suely Vilela estão presentes na maior parte desses artigos. É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês.


Eis a legenda, em inglês, da figura em questão (acima):

Fig. 3. Transmission electron microscope of parasites treated with Bothrops jararaca LAAO. Trypanosoma cruzi epimastigote forms were incubated for 24 h with 5 and 15 μg/ml of BjarLAAO-I. (A) untreated parasite showing kinetoplast (k) and nucleus (n); (B) treated parasite with 5 μg/ml of BjarLAAO-I exhibiting kinetoplast disorganization. Note the gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins. (C) Parasites completely destroyed after treatment with 15 μg/ml of BjarLAAO-I. Transmission electron microscopy of Leishmania amazonensis promastigotes cultivated in untreated (D) and treated medium with BjarLAAO-I (E). Promastigotes treated for 24 h with enzyme (5 μg/ml) showing alterations in the flagella or nucleus (arrows). Bars = 0.5–1.0 μm. These data are representative of three experiments.

Escrito por Marcelo Leite às 11h28

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Fazendeiros defendem Código Florestal

 
 

Fazendeiros defendem Código Florestal

Fogo em pilha de madeira no pasto visto da Fazenda Bang Bang, em São José

do Xingu (MT), "um lugar de paz" (Foto: Ayrton Vignola Jr.)

A Folha de hoje traz reportagem sobre carta de proprietários de Mato Grosso, na maioria, que estão fartos do vaivém da bancada ruralista e do governador Blairo Maggi. Abaixo, alguns parágrafos da matéria (leia texto completo aqui, só para assinantes do jornal ou do UOL):


Um grupo de 35 fazendeiros ligados à organização não-governamental Aliança da Terra lançou ontem carta aberta defendendo a manutenção e a consolidação do Código Florestal, com "alguns ajustes". A manifestação evidencia que nem todos os produtores agropecuários do país rezam pela cartilha da bancada ruralista no Congresso Nacional. (...)

Mesmo pecuaristas do porte de Luiz Carlos Nunes Castelo, dono de 13 mil hectares no município de São José do Xingu (nordeste de Mato Grosso), assinaram o documento da Aliança. "O Código Florestal representa uma das mais importantes ferramentas para viabilizar a produção sustentável com responsabilidade socioambiental", defende a carta.

O principal ajuste proposto é incluir áreas de preservação permanente (como beiras de rio e topos de morros) no cálculo da reserva legal. A redução da reserva a 50% na Amazônia ficaria condicionada à previsão do zoneamento econômico-ecológico em cada Estado. (...)


Leia a íntegra da carta aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 09h49

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A reitora e a ética acadêmica

 
 

A reitora e a ética acadêmica

Não consegui encontrar no site da USP a nota da reitora Suely Vilela sobre o caso de plágio de artigo científico em que aparece como co-autora, segundo reportagem (aqui, só para assinantes) de Eduardo Geraque na Folha de hoje. O que li no "outro lado" publicado pelo jornal não chega a ser esclarecedor.

Parece provável que a reitora não tenha tido participação direta no suposto plágio. Mas isso quer dizer que não tenha responsabilidade? Não é de hoje que se discute na comunidade acadêmica como é frouxa a noção de autoria em artigos científicos, certamente uma deterioração ética induzida pela pressão por produtividade.

A reitora quer distanciar-se de Carolina D. Sant'Ana, a autora da tese de doutorado que virou artigo do periódico Biochemical Pharmacology agora posto em questão. Segundo a Folha, a nota de Vilela afirma: "Minha colaboração com o docente [Andreimar Martins Soares, orientador de Sant'Ana] é na área de isolamento e purificação de toxinas animais, matéria distinta em relação às passagens e imagens questionadas."

Fiquei curioso em saber se Vilela vai mencionar em alguma nota que foi orientadora do mestrado defendido por Sant'Ana em 2005, como se pode verificar em seu currículo Lattes. Ali também se podem contar mais de 30 trabalhos da pesquisadora em que Suely Vilela aparece como co-autora, a maioria de 2004 a 2008, quando já era pró-reitora e reitora.

Seria interessante se a reitora também esclarecesse qual foi exatamente sua participação no artigo em tela e nas outras dezenas (vários periódicos já exigem dos autores que detalhem quem fez o quê). Se não o fizer, deixará no ar a suspeita que tenha melhorado seus índices de produtividade por meio do que se chama eufemisticamente de "autoria honorária". Uma enganação, incompatível com a ética acadêmica, que proíbe levar crédito pelo trabalho alheio.

Adendo às 19h30: Graças ao leitor Roberto Takata, descubro que a nota da reitoria pode ser lida aqui, tendo sido divulgada às 16h20 de hoje. Leia e diga se esclarece alguma coisa.

Escrito por Marcelo Leite às 13h31

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O bonde de Copenhague

 
 

O bonde de Copenhague

Como o bonde da foto, acordo de Copenhague pode virar peça de museu

Escrevi um texto curto de análise, na Folha de hoje, para comentar o adiamento do anúncio da meta brasileira de corte de emissões de gases do efeito estufa, se é que ainda haverá uma. Leia alguns trechos:


É mais comum o governo Lula perder uma boa oportunidade de calar. Ontem ele deixou passar em branco uma chance de falar -e dizer a que veio, em matéria de aquecimento global e liderança mundial.

O acordo de Copenhague, que deveria ser fechado em dezembro para substituir o Protocolo de Kyoto a partir de 2012, está à beira do abismo. A última rodada de negociação, em Barcelona, vai de mal a pior. (...)

Era o momento adequado para Lula demonstrar a liderança inovadora que lhe atribuem no estrangeiro. Mesmo que não anunciasse os 40% de redução de emissões de gases do efeito estufa almejados por seu ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, qualquer cifra acima dos 20% garantidos pela trajetória atual de redução do desmatamento já ajudaria a aliviar a atmosfera.

A decisão fica adiada até 13 de novembro, quando faltarão 22 dias para Copenhague. O Brasil segue o exemplo dos EUA, que não conseguem fechar uma posição por dificuldades políticas domésticas. A diferença é que lá se trata de uma dissensão no Legislativo, não no Executivo. (...)

O Brasil pode, sim, contribuir para desatar o nó de Copenhague. Só depende de Lula.

Escrito por Marcelo Leite às 09h46

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Prometer, prometer, até...

 
 

Prometer, prometer, até...

Como autor de um livro intitulado Promessas do Genoma (Editora da Unesp, 2007), tenho a satisfação de recomendar a leitura do ensaio "Promessas, promessas", de Stuart Blackman, na revista The Scientist.

Traduzo, como aperitivo, um pequeno trecho:


Nos seus momentos mais entusiasmados, a ciência sempre esteve inclinada a prometer mais, e mais cedo, do que conseguiu entregar. Por vezes dá a sensação de que as curas para as doenças estão sempre dez anos à frente, enquanto a fusão nuclear parece já há meio século a 50 anos de se tornar uma realidade prática. Pode ser fácil olhar para trás e rir da alegação de que a eugenia traria o fim não só da doenças hereditárias, mas também de problemas sociais como vadiagem e crimes, mas a alegação de um editorial do periódico científico Science de 1989 [D.E. Koshland, Jr., “Sequences and Consequences of the Human Genome,” Science, 246(4927)], na rampa de lançamento do Projeto Genoma Humano, de que a nova genética poderia ajudar a reduzir o problema dos sem-teto dando conta da doença mental, se mostra talvez recente o bastante para fazer os artelhos dos biólogos se curvarem de constrangimento.


 

Escrito por Marcelo Leite às 19h09

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Saudades da mata

 
 

Saudades da mata

(...) Pobre de quem nunca caminhou pela mata atlântica nem teve o privilégio de ver um tiê-sangue traçar um risco de fogo no ar, com suas penas. Poderá ter conhecido as sequoias da Califórnia, a Floresta Negra da Alemanha ou até a floresta amazônica, mas seu conceito de floresta sairá empobrecido. Nenhuma floresta deveria morrer, ao menos não de morte matada.

A mata atlântica, contudo, continua correndo risco de vida (alguém precisa preservar esta locução sob ameaça de extinção, sob pressão do predador "risco de morte"). Resta menos de 8% de seu 1,3 milhão de quilômetros quadrados (km2) originais, cerca de um sétimo do território brasileiro atual.

Entre 2005 e 2008, mais mil km2 caíram, uma área equivalente a dois terços do município de São Paulo. O bioma é monitorado há décadas pela organização não-governamental SOS Mata Atlântica. O resultado pode ser visualizado neste mapa: http://mapas.sosma.org.br. Cuidado para não se deprimir muito.

O mapa mostra certas coisas curiosas. Uma das maiores concentrações de remanescentes de mata atlântica está em São Paulo. Justamente o Estado mais desenvolvido, mais populoso e mais associado com sua destruição, para ceder lugar ao café e depois à cana-de-açúcar.

São 25.359 km2, ou 15% da cobertura original. (...) Ainda dá para matar as saudades -se a mata não morrer antes.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo, aqui (só para assinantes).

Aquarela de Daniel William Conrade (Reprodução)

Escrito por Marcelo Leite às 14h36

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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