Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Estrangeiros na Amazônia e no Rio Grande

 
 

Estrangeiros na Amazônia e no Rio Grande

A manchete de hoje da Folha, "Projeto de lei limita venda de terra para estrangeiros", uma reportagem exclusiva de Eduardo Scolese, veio acompanhada de uma comentário deste blogueiro, "Medida nacionalista nasce com pernas curtas". Reproduzo o trecho final:


Faz sentido, de todo modo, melhorar e aumentar o controle do Estado sobre esse território estratégico. Limitar propriedades de estrangeiros a 10% da área dos municípios parece sensato, também, pois eles são gigantescos na Amazônia. O de Altamira, no Pará, se espalha por 160 mil km2 -mais do que cinco Bélgicas. Segundo o Incra, há hoje 36 mil km2 da Amazônia titulados para estrangeiros. Uma cifra subestimada, porque parcela desconhecida estaria nas mãos de laranjas. Mesmo assim, isso representa menos de 1% do bioma amazônico no Brasil. Ou pouco mais do que três anos de desmatamento, no ritmo atual de destruição. Resta saber se o governo federal vai conseguir extinguir, também no caso dos estrangeiros, a tão brasileira instituição dos testas de ferro.


A íntegra você lê aqui, se for assinante.

Por falta de espaço, deixei de incluir o adendo de que, como esclarece Scolese na reportagem, a aquisição de terras acima do limite de 10% de um município por um estrangeiro ficará dificultada, se aprovado o projeto de lei, mas não se torna impossível: ela ainda poderia ser autorizada pelo Congresso.

Coisa semelhante já existe na legislação atual para terras de gringos na faixa de 150 km da fronteira do país - depende de autorização do Conselho de Defesa Nacional (CDN), órgão de consulta da Presidência da República.

Há 11 dias li no jornal Valor Econômico uma reportagem (aqui, para assinantes) reveladora de André Vieira: "Stora Enso obtém aval para regularização de terras no RS". A maior fabricante européia de papel adquiriu em terras gaúchas 457 km², como parte do plano de chegar a mil km² para neles plantar eucaliptos e produzir celulose.

O problema é que as terras ficavam a menos de 150 km da fronteira, e a Stora Enso não conseguiu a escritura no cartório. Informa Vieira: "Para evitar que houvesse problemas de posse numa eventual invasão de terras, a Stora Enso colocou as propriedades nas mãos da Azenglever Agropecuária, uma empresa cujos sócios, brasileiros natos, eram executivos da própria empresa. À época, ambientalistas acusaram a empresa de driblar a lei. O Ministério Público gaúcho investigou o caso, mas a Justiça arquivou a ação. Chegou-se a discutir até a mudança da lei, reduzindo-se a distância até a fronteira."

Nada disso será mais necessário, com a ajuda do CDN, em decisão assinada pelo ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Jorge Armando Félix. Como se vê, nacionalismo também tem limites.

Escrito por Marcelo Leite às 09h33

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Genoma amarelinho

 
 

Genoma amarelinho

Ninguém entendeu quando o tucano Mário Covas, naquele debate de 1998 entre candidatos a governador, perguntou a Paulo Salim Maluf o que ele faria para acabar com a doença do amarelinho. (...) Os espectadores não sabiam do que ele estava falando, mas o então governador deve ter achado que teria impacto a notícia de que pesquisadores paulistas estavam empenhados em sequenciar (soletrar) o DNA da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citros -mais conhecida como amarelinho da laranja.

Assim como Maluf, o amarelinho continua por aí, quase uma década depois de concluído o primeiro projeto genoma do país. Se alguém contava com o estudo para erradicar a doença, deu-se mal. Na mira de seus criadores, porém, estavam outros frutos: criar competência nacional no campo emergente da genômica, novo apelido da boa e velha biologia molecular. (...)

Que saldo ficou desse esforço dirigido de atualização da biologia nacional? Quanta inovação - ou seja, aplicações fora da pesquisa básica - surgiram da iniciativa?

Rogério Meneghini, do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme), e Estêvão Cabestré Gamba, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), enfrentaram essas questões espinhosas. (...)

O resultado se encontra no estudo "Evolução da Produção Científico-Tecnológica em Biologia Molecular no Brasil (1996-2007): A Contribuição dos Programas de Genômica", ainda inédito. A genômica nacional e áreas afins tiveram um crescimento explosivo no período, concluem os autores.

A produção científica (quantidade de artigos) brasileira, em geral, cresceu 236%. Em contraste, a fatia da biologia molecular progrediu 434%: foram 1.928 trabalhos publicados em 2007, contra 361 em 1996. (...)

Artigos de pesquisadores baseados no Estado de São Paulo, onde nasceu o projeto Xylella, também avançaram consideravelmente: 515%. Sinal provável de que a iniciativa paulista ajudou a puxar o trem genômico em escala nacional.

Meneghini e Gamba se perguntaram, por fim, quantas patentes o esforço rendeu ao país. E foi aí que a biologia molecular nacional amarelou: em 12 anos, 279 patentes brasileiras depositadas nos EUA, meras 66 de origem paulista. Só para comparação, foram 996 da China, 1.054 da Índia e 2.221 da Coreia do Sul.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 10h29

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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