Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

O mistério das células-tronco da Geron

 
 

O mistério das células-tronco da Geron

Começa a desfazer-se o mistério em torno do adiamento do teste clínico em seres humanos de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) da Geron contra traumas da medula espinhal. A razão do adiamento pela FDA (agência de alimentos e fármacos dos EUA) seria o surgimento de cistos microscópicos em animais submetidos à terapia experimental que poderia reverter o confinamento de muitas pessoas a cadeiras de rodas, segundo a expectativa geral.

Stevens Rehen, da UFRJ, foi quem avisou o blog da novidade, encaminhando link de reportagem da Associated Press na Forbes.

Segundo comunicado da empresa Geron veiculado ontem (27/8), cistos microscópicos se desenvolveram no local tratado em quantidade muito baixa de animais que participaram dos testes. "Os cistos eram não-proliferantes, confinados ao local do ferimento e não tiveram efeitos adversos sobre os animais. Nenhum animal desenvolveu teratomas ou qualquer outra estrutura ectópica. Cistos de tamanho muito maior aparecem no tecido cicatrizante da medula espinhal em até 50% dos pacientes com trauma de medula", afirma o comunicado.

Teratomas são tumores que podem ser induzidos por células-tronco embrionárias. Em realidade, são uma forma de testar a pluripotência de uma linhagem de supostas CTEHs, vale dizer, sua capacidade de transformar-se em outras células. Queremos que elas se transformem em neurônios ou outras células que ajudem na recuperação dos nervos danificados, mas não queremos que se reproduzam descontroladamente e deem origem a tumores.

A Geron afirma que o ocorrido faz parte do curso normal do desenvolvimento e aperfeiçoamento de um produto. É esperar e ver se a FDA concorda.

Escrito por Marcelo Leite às 16h26

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Verde Virgin

 
 

Verde Virgin

Quem sabe sabe. Fred Pearce é um veterano jornalista de ciência e meio ambiente, que deve ser lido com toda a atenção. Dificilmente o leitor deixará também de divertir-se, ainda que por razões tragicômicas - como na inspirada denúncia que acaba de assestar contra sir Richard Branson, o "alternativo" dono da Virgin Air.

Fred Pearce foi atrás dos índices de emissões de gases do efeito estufa da "verde" Virgin. Descobriu que ela perde feio, no quesito gramas de carbono por passageiro/km, para empresas com péssima imagem ambiental, como a RyanAir. Não deixe de ler.

Escrito por Marcelo Leite às 19h58

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Preparação para mudança climática custaria até três vezes mais, alerta estudo

 
 

Preparação para mudança climática custaria até três vezes mais, alerta estudo



O Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento (IIED, na abreviação em inglês) lançou hoje o relatório "Avaliando os custos da adaptação à mudança climática", em parceria com o Imperial College de Londres, com um alerta preocupante: estão subestimados os custos até agora calculados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, órgão criado pela ONU) para que os países se preparem para a parcela de aquecimento global que não pode mais ser evitada. Pelos novos cáculos, a conta poderia ser até três vezes mais alta.

O principal autor do estudo é Martin Parry, que foi um dos coordenadores, entre 2002 e 2008, do grupo de trabalho do IPCC que se debruçou justamente sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação. A Convenção da ONU sobre Mudança Climática estimava que seriam necessários de US$ 40 bilhões a US$ 170 bilhões por ano _ou o custo de até três Olimpíadas_ para pagar obras de infraestrutura e perdas econômicas provocadas por secas, inundações, epidemias etc. Parry e co-autores estimam que o valor deve multiplicar-se por 2 ou 3, quando se computam uma série de aspectos deixados de fora pelo IPCC.

"A quantidade de dinheiro sobre a mesa em Copenhague é um dos fatores-chave para determinar se alcançaremos um acordo sobre mudança climática", afirmou Parry em comunicado do IIED. "Mas estimativas anteriores da adaptação avaliaram substamcialmente mal a escala dos fundos necessários."

Alguns destaques do estudo:

  • Água - A estimativa anterior de US$ 11 bilhões excluía o custo da adaptação a enchentes e para transprote de água entre regiões;
  • Saúde - Os US$ 5 bilhões previstos desconsideravam países desenvolvidos e se baseavam apenas em malária, diarréias e desnutrição, ou seja, no máximo 30% a 50% dos problemas de saúde que afligem o mundo;
  • Infraestrutura - Pode sair até oito vezes mais caro que os US$ 10 bilhões/ano para mantê-la e ampliá-la de modo a garantir desenvolvimento para países pobres, como na África;
  • Zonas costeiras - US$ 11 bilhões excluíam aumento da intensidade de tempestades e se baseavam em previsões subestimadas de elevação do nível do mar (18-59 cm, quando estudos posteriores a 2007 sugerem até 150 cm);
  • Ecossistemas - O IPCC deixou de fora o custo de preservar ecossistemas para que mantenham seus serviços à economia, o que pode custar US$ 350 bilhões.

Escrito por Marcelo Leite às 11h57

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Argumento esfumaçado

 
 

Argumento esfumaçado

Vocês leram os artigos de João Pereira Coutinho ("Até tu, São Paulo?", 18/8) e de Luiz Felipe Pondé ("A volta das freiras feias sem Deus", 24/8) na Folha de S.Paulo, contra a nova lei antifumo paulista? Ambos a qualificam como fascista e sustentam que a raiz dessa inclinação totalitária está no recurso à ciência.

O primeiro afirmou, com a empáfia habitual:


Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer. O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.


O segundo empesteou de vez o ar:


O outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos. A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a "ciência" tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los? Imagine, caro leitor, se em alguns anos "a ciência descobrir" que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse "a ciência descobrir" pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder? Arrisco dizer que nossas freiras feias sem Deus proporiam campos de concentração para os fumantes. Assim garantiríamos um ar sempre puro.


Luiz Roberto Barradas Barata, médico sanitarista e secretário de Estado da Saúde de São Paulo, respondeu ao primeiro noutro artigo da Folha, "O 'mito'(?) do fumo passivo". Decerto tem mais autoridade científica que Christopher Booker, um historiador e colunista do diário inglês Sunday Telegraph e da revista Spectator que defende a pseudoteoria do design inteligente e ataca o que considera dogmas da ciência, como o aquecimento global, malefícios do amianto, do tabagismo passivo e da doença da vaca louca para seres humanos. Leia o que diz o médico:


Insistir nessa tese surrada, como no artigo "Até tu, São Paulo?", publicado nesta Folha no última dia 18 (Ilustrada), é o mesmo que desacreditar toda a comunidade médica mundial e os inúmeros trabalhos científicos que contribuíram para a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificar o tabagismo passivo como a terceira causa de morte evitável do planeta. Em 1993, a Agência de Proteção ao Meio Ambiente dos EUA publicou o primeiro estudo científico mostrando que a fumaça do cigarro no ambiente causa câncer. Encerrava-se aí a polêmica sobre os malefícios do fumo passivo. Na década de 90 do século passado, a Associação Médica Americana publicou estudo demonstrando que a incidência de câncer no pulmão era 30% maior nas mulheres que, embora nunca tivessem fumado, tinham inalado fumaça do cigarro no ambiente em que viviam. Aqui no Brasil, um estudo divulgado em 2008 pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) revelou que pelo menos sete pessoas morrem diariamente por doenças provocadas pela exposição passiva à fumaça do cigarro, como câncer de pulmão, doenças isquêmicas do coração e derrames. São inúmeras, portanto, as evidências científicas que mostram a relação entre tabagismo passivo, câncer e doenças cardiovasculares e que respaldaram, inclusive, a Convenção-Quadro para Controle do Tabaco, tratado internacional da OMS que recomenda a proibição do fumo em espaços coletivos.


Posso até discutir que haja excessos autoritários na lei antifumo, mas no restante a argumentação de Coutinho e Pondé é de doer. Quem são eles para pontificar que "ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre 'fumo passivo' e câncer", ou lançar a suspeita de que os estudos antitabagismo sejam "quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes"?

Não se trata só de uma questão de credibilidade e autoridade, claro, que não resolvem todas as questões, embora sejam guias úteis para a vida prática. Um ponto de vista minoritário pode estar correto, decerto. Mas aí é preciso partir para o mérito, ou seja, pôr as evidências sobre a mesa. É a regra do bom debate.

E que evidências Coutinho ou Pondé trouxeram para o debate? Zero. Falta-lhes até verossimilhança, como na fantasiosa fabricação de lobbies contra fumantes - quem ganharia dinheiro com isso, os fabricantes de remédios e chicletes para parar de fumar? Faz favor.

Fumei durante sete ou oito anos, dos 13 aos 20. Até hoje sonho que estou fumando, e posso garantir que é ótimo. Não suporto mais o cheiro de cigarro, em especial o de cinzeiros cheios, mas tolero as pitadas de minha empregada. Incomoda-me receber baforadas num restaurante, mas nunca pedi para um vizinho de mesa apagar o cigarro. Tenho sido o primeiro a criticar a tecnociência e suas seitas, mas acho irresponsável desqualificar de vez a noção de que os ganhos racionais possíveis na algaravia da opinião pública dependem, em última instância, de testes de objetividade (observações, medições e suas interpretações).

Leio com boa vontade, de vez em quando, os artigos dos pós-conservadores Coutinho e Pondé, que redescobriram o filão "épater le gauchiste", mas não lhes perdoo o rebaixamento do nível do debate. Quem recorre à ciência ou a ataca para apoiar seus pontos de vista está obrigado, na minha cartilha, a citar fontes e dados. Sem eles, o argumento fica um tanto esfumaçado.

Escrito por Marcelo Leite às 22h12

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Cheiro de goiaba verde

 
 

Cheiro de goiaba verde

Leio no jornal Valor Econômico reportagem segundo a qual o PV, além de Marina Silva, quer também Gabriel Chalita na eleição de 2010:


Dirigentes do PV contam com a eleição, no Estado, de um senador da provável chapa PSDB/ PMDB e apostam na força eleitoral de Chalita, que em 2008 obteve 102 mil votos para a Câmara Municipal de São Paulo. Ligado à Renovação Carismática da Igreja Católica, Chalita é apresentador na TV Canção Nova, autor de livros e foi secretário da Educação do governo de Geraldo Alckmin (PSDB-SP).


Se eu fosse carola como eles, diria: "Meu Deus!" Sarneyzinho, Gabeira e Chalita no mesmo palanque, justo o de Marina Silva. As voltas que o mundo dá. Só falta agora alguém propor que ele seja o vice da candidata verde.

Escrito por Marcelo Leite às 11h47

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Questão de visibilidade

 
 

Questão de visibilidade

Imagine um portal de publicações científicas que agregue o conteúdo de 637 periódicos especializados editados em 14 países. Que, ao longo de 12 anos, tenha veiculado 204.764 artigos de pesquisa em 13.824 edições dessas revistas. (...)

Trata-se da SciELO, a Biblioteca Eletrônica Científica Online ("Scientific Electronic Library Online", na sigla em inglês). Apesar do nome, nasceu há 12 anos em São Paulo. De lá para cá, espalhou-se pela América Latina e pela península Ibérica. Agora, atravessou o Atlântico Sul. (...)

É provável que nenhuma outra instituição ou iniciativa tenha feito tanto para tornar a pesquisa brasileira mais visível no cenário internacional. Ao veicular de graça na internet as edições completas dos periódicos científicos associados, a SciELO torna-as acessíveis para qualquer outro pesquisador, ou curioso, do planeta. (...)

A última aquisição foi a África do Sul, onde se fala inglês de verdade -além de africâner, xhosa, zulu e sotho. Uma participação ainda modesta, com apenas cinco periódicos e um total de 25 números. Bem menos que a potência científica da Espanha, cuja adesão teve início em 1999 e conta hoje com 39 revistas (das quais pelo menos cinco em inglês).

A entrada da África do Sul acaba de render mais algumas fichas para a SciELO. Wieland Gevers, um bioquímico que presidiu a Academia de Ciências daquele país de 1998 a 2004, escreveu para o periódico americano "Science" -um dos mais lidos e influentes do mundo- um editorial sobre globalização das publicações científicas que elege a SciELO como exemplo a ser seguido por outras nações africanas e regiões do mundo. O texto saiu na edição de anteontem. (...)

Não é café pequeno. Em alguns gabinetes de Brasília, contudo, a SciELO costuma provocar urticária. Ali se faz vista grossa -e põe grossa nisso- para a inovação brasileira que faz sucesso por todo lado: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, México, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai, Venezuela - e, agora, África do Sul.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 10h08

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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