Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

 
 

Adiado teste de células-tronco para tratar traumas de medula

A grande esperança de cadeirantes vitimados por traumas da medula espinhal pode estar subindo no telhado. Ou, pelo menos, adiada. É só o que se sabe por ora da suspensão do teste clínico de células-tronco embrionárias humanas (CTEHs), nos EUA, para tentar reverter o dano a nervos motores afetados por acidentes de carro e tiros, por exemplo.

A perspectiva de algum tratamento e cura, como a obtida em animais (roedores), foi recebida com fanfarra em janeiro, quando a FDA (agência federal de fármacos e alimentos dos EUA) deu autorização para a empresa Geron testar a terapia experimental em seres humanos.

A empresa conseguiu diferenciar (transformar) as polivalentes CTEHs em um tipo de célula nervosa chamada de oligodendrócito, que pode funcionar como uma espécie de zeladora de neurônios. Oligodendrócitos podem, por exemplo, ajudar a recompor a bainha de mielina das fibras que formam os nervos, sem a qual a ordem motora expedida pelo cérebro não se transmite até os músculos. A idéia é que, se essa terapia celular for aplicada em pessoas que sofreram traumas há menos de 15 dias, os nervos danificados ainda poderiam ser regenerados, antes que se forme tecido cicatrizante e a interrupção se torne definitiva.

Agora veio a água fria sobre a fervura, mas não está claro ainda se foi um copo ou um balde dela. A FDA sustou a realização do teste clínico em seres humanos, conforme anunciou - aparentemente num furo - o jornal californiano Silicon Valley Mercury News, em reportagem de Steve Johnson. Este blog tomou conhecimento da notícia pela newsletter da revista The Scientist. Saíram notas também no blog The Niche, da revista Nature, e no jornal The New York Times.

O adiamento do teste ocorreu depois de a Geron apresentar novos dados à FDA, colhidos em experimentos com animais para verificar o efeito de dosagens maiores do preparado de células. Como nem a Geron nem a FDA deram informações sobre o caso, mantido em sigilo pelo alto valor comercial da terapia se ela se revelar bem sucedida, as razões da suspensão ainda são um mistério.

Na versão mais benigna, trata-se só de um prazo imprescindível para os analistas da FDA processarem os novos dados (que devem ser volumosos, se seguirem o padrão da primeira documentação submetida pela Geron - 21 mil páginas). Na perspectiva mais pessimista, os novos documentos submetidos indicariam problemas de segurança no procedimento de injeção das células.

CTEHs, das quais se derivam os oligodendrócitos da Geron, são notórios por sua capacidade de multiplicar-se. Se começarem a fazê-lo de forma descontrolada no local de tratamento, o espaço apertado da medula espinhal, podem terminar causando mais dano do que benefício aos pacientes.

Tomara que não seja o segundo caso. Cadeirantes estiveram na linha de frente de muitas batalhas pela autorização da pesquisa com CTEHs, como aqui no Brasil, e seria péssimo constatar que todo aquele oba-oba pode não ter sido mais que uma maneira de lhes infundir falsas esperanças. De todo modo, leio na imprensa americana, eles estão furiosos com a FDA, pois defendem que eles mesmos devem ponderar os eventuais riscos envolvidos na terapia experimental e decidir se se submetem a ela ou não.

O que você acha - agências como a FDA devem reter esse poder discricionário sobre a doença alheia ou ceder à pressão de pacientes e familiares pelo direito de se agarrar a qualquer esperança, sem medir com o mesmo critério científico eventuais riscos envolvidos?

Escrito por Marcelo Leite às 17h47

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A cartada de Marina Silva

 
 

A cartada de Marina Silva

Reproduzo abaixo cópia da carta da senadora Marina Silva em que sedesliga do PT:


Brasília, 19 de agosto de 2009

Caro companheiro Ricardo Berzoini,

Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica. 

O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória  política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção. Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.

Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.

Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida. 

Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.

É evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas públicas para mantê-las.

Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil – com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais – é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte por quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.

Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias. Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada militante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras  em outras searas.

Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.

Saudações fraternas,

Marina Silva

Escrito por Marcelo Leite às 19h28

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Darwin na PUC-SP

 
 

Darwin na PUC-SP

Escrito por Marcelo Leite às 18h32

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Candidata verde

 
 

Candidata verde

Parece unânime entre comentaristas da política a avaliação de que a provável candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo Partido Verde oxigenou a pré-campanha eleitoral. Ótimo para a campanha. Péssimo para a senadora. (...)

Ela quer usar o palanque e a televisão para impor temas ambientais ao debate sobre os rumos do país. Tem experiência e conhecimento para isso. É duvidoso, contudo, que tenha maturidade para elevar esse debate acima do patamar tacanho em que aliados costumam mantê-lo. (...)

Marina Silva é prisioneira do cercado temático -o salvacionismo ambiental- em que construiu trajetória admirável. Com todas as realizações e a repercussão mundial de sua carreira, prossegue refém de causas ou modelos locais e regionais, como as reservas extrativistas e a luta antibiopirataria. Todas com escasso potencial para forjar uma proposta ousada de desenvolvimento para a Amazônia, menos ainda para o Brasil. (...)

No governo Lula, sua maior contribuição foi uma ideia abstrata: a "transversalidade" da questão ambiental. Perdeu todas as batalhas importantes para a rainha do pragmatismo, a ex-pedetista Dilma Rousseff, cuja candidatura agora balança. Mas teve a coragem de entregar a cabeça ao presidente, não o juízo; meses depois, consegue dar o troco, com o vagar e a astúcia de um jabuti.

Tanto apego às origens, contudo, explica também atitudes descabidas como aceitar, ainda ministra, participar de uma reunião de apologia ao criacionismo, ou patrocinar celebridades esotéricas como Fritjof Capra. Marina Silva tem o direito de ser religiosa ou mística, óbvio. Como integrante de um governo leigo, não devia dar o mau exemplo de promover doutrinas anticientíficas.

A deficiência crônica de um projeto para o Brasil passa decerto pela incorporação visionária da questão ambiental. Não existe proposta coerente e articulada para revolucionar padrões de uso da terra, do capital natural e humano e de energia moldados por séculos de dilapidação colonial, mentalidade escravista e desenvolvimentismo a ferro e fogo.

Esse programa não virá de Dilma, Serra ou Ciro. Nem de Marina Silva. O projeto de que o país precisa, diante do xeque-mate planetário armado pelo aquecimento global, terá de delimitar e negociar a contribuição de alguns setores que a neorreligião verde nasceu para demonizar: petróleo, hidrelétricas, energia nuclear, biotecnologia, agronegócio... A candidata Marina Silva não está pronta para isso.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes). Leia também as colunas de Janio de Freitas e Elio Gaspari na Folha, além da entrevista de José Eli da Veiga no Estadão.

Escrito por Marcelo Leite às 16h42

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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