Nature e SciAm, agora juntas
Dois gigantes da divulgação científica - os periódicos científicos da família Nature e todos os produtos leigos da grife Scientific American - se encontram agora sob o mesmo teto, o do Grupo Editorial Nature (NPG) britânico. Leia o que diz comunicado distribuído a jornalistas de ciência pela Nature:
NPG e Scientific American estão se unindo em um único negócio, subordinado ao diretor administrativo do NPG, Steven Inchcoombe. As duas marcas icônicas de Nature e Scientific American posicionarão o NPG como o mais autorizado e abrangente grupo de mídia científica, abarcando do consumidor ao acadêmico, do estudante de ensino básico ao pesquisador.
É impressionante ver reunidas as duas fontes de informação que estiveram na origem de meu interesse e aperfeiçoamento como jornalista de ciência. A SciAm não figura mais como uma fonte relevante ou frequente de pautas para repórteres da área (e a Nature, cada vez menos), mas ainda assim são publicações para lá de respeitáveis, cuja leitura contribui muito para manter todos os interessados em pesquisa a par do que vai pelo mundo, sobretudo fora de suas áreas de especialidade.
Verticalização, porém, sempre traz seus riscos. A Nature montou uma máquina eficiente de divulgação antecipada do conteúdo de duas dúzias de revistas e periódicos, à qual se agrega agora a SciAm. Esse serviço é por vezes acusado de privilegiar trabalhos com mais apelo científico que jornalístico [CORREÇÃO em 25/6, 11h20: obviamente, "mais apelo jornalístico que científico"], e a estréia da SciAm fornece algum apoio à tese.
No site da Nature para jornalistas de ciência, o artigo destacado da SciAm versa sobre uso de técnicas forenses para localizar a origem de uma carga de dez toneladas de marfim ilegal apreendida em 2006. Leitura de interesse certo, pois envolve um elemento inconteste de sucesso na área - bichos, e ainda por cima bichos ameaçados e populares como elefantes. Note, porém, a capa da SciAm internacional de julho (não confundir com a tradução brasileira):

Capa da edição de julho (Reprodução)
O tema é a nova geração de biocombustíveis (álcool celulósico, obtido de restos vegetais, capim etc. - já apelidado em inglês de "grassoline"). Parece bem mais relevante, diante da necessidade mundial de desembarcar dos combustíveis fósseis, tanto é que ganhou a capa. Mas tem menos chance de atrair a atenção de repórteres de ciência, deve ser o cálculo.
Passei os olhos pelo artigo, bem informativo. Não toca, porém, na enorme diferença de rendimento entre cana-de-açúcar e milho para obtenção de etanol no momento presente, nem das sobretaxas protecionistas impostas pelos EUA (que usam milho) ao produto do Brasil (campeão da cana). "Cana" e "Brasil", aliás, são mencionados uma só vez na reportagem de capa.