Três erres

Os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e os 150 da publicação de "Origem das Espécies" não são as únicas efemérides da ciência em 2009. Neste ano celebra-se também meio século do nascimento de um conceito generoso: 3R.

Três erres: "replacement, reduction, refinement". Numa tradução forçada para preservar a aliteração: retirada, redução e refinamento. Substituir animais usados em pesquisa, reduzir seu emprego quando inevitável e diminuir seu sofrimento.
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Os 3R foram propostos pelo zoólogo William Russell e pelo microbiologista Rex Burch em 1959, na obra "The Principles of Humane Experimental Technique" (título ainda mais difícil de traduzir, pois "humane" em inglês é o adjetivo reservado para quem mostra benevolência com animais). Seria algo como "Princípios Humanitários da Técnica de Experimentação com Animais".

O livro foi uma encomenda para a comemoração dos cem anos de "Origem". Nada mais adequado, pois Darwin foi um campeão da compaixão com animais. A começar pelo animal-homem, cujo sofrimento físico provocava nele uma repulsa intensa, a ponto de os biógrafos Adrian Desmond e James Moore enxergarem em sua recusa da escravidão uma das ideias-força da teoria da evolução.

Meio século depois, muito progresso se obteve nos três erres. Modelos computacionais do corpo humano, bonecos robóticos e culturas de células e tecidos permitem substituir testes de remédios e treinamentos cirúrgicos que antes dependiam de mamíferos (camundongos, cães, gatos, coelhos, macacos etc.). (...)

Apesar desses progressos, nunca se usaram tantos animais em pesquisa. Em parte isso decorre da explosão do campo de investigação biomédica nesse meio século. Com a capacidade de introduzir e "desligar" genes em organismos, camundongos transgênicos e "nocautes" se tornaram matéria-prima -ou vítimas- indispensáveis de laboratórios de ponta.

Muitos defensores dos direitos dos animais acreditam que já existem alternativas tecnológicas para substituir todos os animais em pesquisa. Infelizmente, não é verdade. Por outro lado, soa comodista demais a convicção de 73% dos pesquisadores britânicos de que cobaias nunca poderão ser dispensadas por completo dos laboratórios, como relatou a especialista Vicky Robinson na revista de divulgação "New Scientist". (...)



Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).