Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Dia do meio ambiente?

 
 

Dia do meio ambiente?

Para mim, todo dia é dia, mas enfim... A Folha de S.Paulo de hoje traz um caderno especial (veja índice das reportagens e artigos aqui, só para assinantes) que o comemora (ou rememora, não sei). Tem muita coisa boa, a começar pelo texto de Claudio Angelo, "Amazônia repete sina da mata atlântica", que retoma nosso guru Warren Dean.

Entre as coisas menos boas há dois textos meus. O primeiro crava que "Sobra terra para agropecuária no Brasil". Sua conclusão:

"Nada menos que 725 mil km2 (17%) da floresta amazônica já foram derrubados, em geral para formar pastagens e alimentar uma pecuária pouco produtiva. É o bastante para duplicar a safra de grãos. Não falta terra no Brasil - nem na Amazônia."

O segundo, "Alarmismo pouco é bobagem", defende as ONGs e arremata:

"Em 2000, Ipam e ISA lideraram a confecção de um relatório de grande repercussão sobre o impacto do plano Avança Brasil, do governo FHC. Previa que 180 mil km2 de floresta amazônica pereceriam como consequência, em três décadas, no altar do desenvolvimentismo ambientalmente imprevidente. Foi manchete da Folha em 13 de março daquele ano.

Pelos dados do Prodes, 167 mil km2 da Amazônia perderam a floresta de lá para cá. Passaram-se só 9 anos dos 30 projetados (6 deles sob Lula).
Diante disso se poderia afirmar, com objetividade e fundamento técnico, que alarmismo pouco é bobagem. Em especial diante de um governo que deita tanto carvão, gás natural e petróleo na fogueira eleitoral para requentar o Avança Brasil com o molho salgado do PAC."

Escrito por Marcelo Leite às 08h41

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Macacos verdes me mordam

 
 

Macacos verdes me mordam

(...) leitores mais interativos não pestanejam antes de agredir o jornalista, outros leitores e o próprio bom senso. Reeditei a experiência pela enésima vez na quarta-feira, ao noticiar no blog Ciência em Dia um feito biotecnológico significativo, a reprodução de saguis transgênicos e fluorescentes no Japão.

Para encurtar a história, direi só que a ideia dos pesquisadores da Universidade Keio é obter animais mais úteis para a pesquisa de doenças como Alzheimer e Parkinson. Em lugar de camundongos geneticamente modificados para desenvolver males semelhantes, pretendem usar macacos, bichos com fisiologia e constituição mais próximas do homem.

Esse é o objetivo final. Por ora, a equipe japonesa obteve só o que se chama de prova de princípio. Introduziu em saguis um gene de água-do-mar que faz o organismo exibir um brilho verde sob luz ultravioleta.

Não tem nada a ver com diversão. O propósito do brilho verde é verificar mais facilmente se o gene foi mesmo incorporado em todos os tecidos, inclusive nas células reprodutivas, como espermatozoides e óvulos. Foi, e o grupo conseguiu provar obtendo uma segunda geração de macaquinhos transgênicos verdes.

O assunto é polêmico, por envolver experimentos com animais e, pior, primatas. Assinalei esse aspecto controverso na nota do blog. Partilho da opinião de alguns especialistas em bioética de que macacos merecem mais proteção contra excessos em experimentação científica do que animais menos aparentados com seres humanos, como roedores.

Das cerca de 20 mil pessoas que leram a nota nas primeiras seis horas em que esteve no ar, 27 se animaram a comentar. Foi um festival de protestos contra o experimento.

Até aí, nada demais. Sentimentalismo com animais parece ser uma faculdade tão bem distribuída quando o bom senso cartesiano. O fato deprimente está nas expressões e raciocínios empregados, que de cartesianos não tinham nada.

Qualificar autores do estudo e o mensageiro da notícia como "idiotas" é um dos recursos mais usados. Prejulgar o experimento como supérfluo e cruel, outro. Defensores irrefletidos dos direitos dos animais adoram também desafiar os cientistas a se oferecerem, e a seus filhos, como cobaias de seus experimentos, em lugar de torturar os bichinhos...

Esse povo parece que nunca tomou remédios, todos testados em animais. Quantos não terão nascido por meio de cesarianas, ou foram salvos da morte por cirurgiões que treinaram técnicas de corte e costura na carne viva de cães e porcos inocentes?

Esta coluna é a primeira a advogar que não se pode dar carta branca a pesquisadores em matéria de experimentação com animais e que eles devem satisfação à sociedade sobre esforços para reduzir o sofrimento e o abuso nos laboratórios. Mas tudo tem limite -o limite do bom senso.


Leia íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h52

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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