Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Gabão dá no couro

 
 

Gabão dá no couro

Tartaruga-de-couro (Foto: Projeto Tamar)

Como é raro a ciência da conservação produzir boas notícias, não resisto a dar uma - excelente - aqui, obtida por meio da Agência Fapesp: um levantamento aéreo de 600 km de praias do Gabão (veja mapas abaixo) estimou entre 15.730 e 41.373 o número de fêmeas de tartarugas-de-couro (Dermochelys coriacea) que desovam por ali. Como a população mundial de fêmeas em idade reprodutiva era calculada em 34 mil indivíduos, o estudo acrescenta de uma só tacada entre 46% e 122% ao contingente.

A D. coriacea é a maior tartaruga-marinha existente, com sua carapaça lisa de 1,8 m e peso de 500 kg na idade adulta (o recorde é de 2,9 m e 916 kg, segundo o sítio da Parceria de Tartarugas Marinhas do Gabão). É também um dos maiores répteis existentes no planeta.

No Pacífico, a população de tartarugas-de-couro declinou 95% nas últimas décadas. Era uma espécie classificada até agora como cirticamente ameaçada, portanto necessitada de boas notícias como essa. Presume-se que o Gabão detenha agora a maior população em reprodução do mundo. E 79% das áreas de desova, ali, estão em áreas protegidas.

Uma das muitas boas coisas que a profissão de jornalista me proporcionou foi ter o privilégio de assistir à desova de uma fêmea dessas num praia da costa do Pacífico da Costa Rica. Nunca vou esquecer os ovos parecidos com bolas de pingue-pongue, úmidos, depositados na cova, que a quele bicho desajeitado fora d'água laboriosamente cobriu com as nadadeiras de trás. No mar, pode mergulhar por 1 h e alcançar 1.000 m de profundidade.

Que os netos de meus netos possam um dia assistir ao mesmo espetáculo nas areias quentes do Gabão.

 

Escrito por Marcelo Leite às 09h46

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Que pandemia?

 
 

Que pandemia?

Bastaram três semanas para a pandemia de gripe suína - perdão, influenza A (H1N1) - chegar, aterrorizar e sumir. Ao menos das manchetes. Terá servido, porém, para ajudar a vender um livro interessante, "Vacinado", de Paul A. Offit (Ideia e Ação, 2008, 256 págs., R$ 39,90). (...)

O herói da história é Maurice Hilleman, por coincidência nascido em 1919, durante a maior e mais mortífera pandemia de gripe de todos os tempos. Matou, provavelmente, mais de 50 milhões de pessoas. (...)

[Em] abril de 1957, Hilleman lia o jornal "The New York Times" em sua sala (...) quando topou com uma reportagem sobre gripe aviária que grassava em Hong Kong. Dez por cento da população afetada, filas de 20 mil pessoas nas portas dos hospitais. "Meu Deus: é a pandemia, ela chegou!" -disse Hilleman a si mesmo, segundo Offit.

O pesquisador telegrafou para conhecidos no Japão pedindo informações. Acabou localizando um jovem da Marinha japonesa que passara por Hong Kong e adoecera. Um oficial médico fez com que o marujo gargarejasse com salmoura e enviou o produto para Hilleman. Apenas um mês depois de ler o artigo no jornal, recebia o preparado, e começou o trabalho de verificar se era um vírus com potencial pandêmico.

O processo era para lá de laborioso. (...) [M]ultiplicadas as partículas virais, passou a testá-las com o soro sanguíneo de soldados estocado no Walter Reed.

Não encontrou nenhum que tivesse anticorpos contra o vírus. Usou em seguida amostras de soro de civis. Nada. Certo de que era um agente ameaçador, contra o qual a maioria das pessoas não teria defesa, enviou amostras para a recém-criada Organização Mundial da Saúde, para distribuição aos laboratórios do mundo. Distribuiu uma nota à imprensa avisando da iminente pandemia, mas nenhum jornal se interessou (outros tempos).

Em questão de meses se confirmou que só tinham anticorpos contra o vírus umas poucas pessoas da Holanda e dos Estados Unidos. Eram sobreviventes da pandemia de 1889-1890, que vitimara 6 milhões.

Em junho, os primeiros lotes de vacina eram produzidos. Mesmo assim, a pandemia de 1957 matou 70 mil americanos e 4 milhões noutras partes do mundo.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo de domingo passado (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h46

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O outro Darwin

 
 

O outro Darwin

Medalhão de porcelana Wedwgood (Reprodução)


Os 200 anos de nascimento de Charles Darwin forneceram ocasião para um frenesi editorial. Celebrou-se a efeméride sobre o único grande pensador do século 19 a atravessar o 20 incólume, ou bem adaptado, com dezenas de livros. Darwin foi exumado, de novo, para demonstrar o excelente estado de conservação do mito do cientista guiado apenas pelas luzes da razão e dos fatos.

Eis o homem cujo pensamento pôs a religião de joelhos. Aquele que expulsou os vendilhões de valores do templo do conhecimento objetivo. O profeta barbudo da teoria que tudo explicou e tudo explicará, muito além de Marx e Freud.

Felizmente há historiadores na praça, como Adrian Desmond e James Moore. Autora de uma já celebrada biografia de Darwin ("A Vida de um Naturalista Atormentado", 1994), a dupla produziu aquele que poderá permanecer como o livro mais importante da safra de 2009, "A Causa Secreta de Darwin". Uma tijolada de 485 páginas na vitrina de cientificismo em que se converteu boa parte da divulgação científica.

Leitura obrigatória, em especial para brasileiros. Desmond e Moore (D&M) põem no meio do salão vitoriano o preto que muitos nacionais ainda relutam em admitir no sofá da casa grande. A obra fundamenta a tese de que a senzala brasileira, afinal, pode ter sido tão importante para a teoria da evolução quanto as ilhas Galápagos. Na origem de tudo, a escravidão. (...)

Darwin seria movido não só por uma convicção abstrata, mas também por um sentimento mais visceral: compaixão. Esta subtese, pouco desenvolvida no livro, sugere que Darwin, mais até do que animalizar o homem, estendeu as raízes do humano em direção aos animais.

De um lado, Darwin buscou nas emoções baixas dos primatas, e mais atrás, as origens das elevadas faculdades humanas. De outro, explicou a existência de raças na espécie humana -talvez a sua maior dificuldade- como produto de instintos inferiores, pelo mecanismo da seleção sexual. Nada de essencial nos separaria das bestas.

"Dois assuntos que comoviam meu pai talvez mais profundamente do que quaisquer outros eram a crueldade com animais e a escravidão -sua ojeriza por ambos era intensa, e sua indignação era avassaladora em caso de qualquer leviandade ou falta de sentimento nessas matérias", testemunhou o filho William em 1883, como destacam D&M no capítulo final de "A Causa Secreta".

O biocientista pós-moderno, avesso a todo "sentimentalismo" e interferência de valores "ideológicos" na pesquisa, terá alguma dificuldade de reconciliar esse outro Darwin com seu mais celebrado herói.

"Darwin's Sacred Cause. How a Hatred of Slavery Shaped Darwin's Views on Human Evolution" ("A Causa Secreta de Darwin. Como o Ódio à Escravidão Conformou a Visão de Darwin sobre a Evolução Humana") Adrian Desmond e James Moore. Houghton, Mifflin Harcourt, 485 págs., US$ 30,00.


Leia a íntegra da resenha do livro na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 11h29

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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