Analfabetos em números

Os colchetes inventados

para salvar a cara do presidente

não funcionaram
 

Pior que errar é não reconhecer o erro -ao qual todos estão sujeitos, afinal. O presidente Lula errou feio quando se meteu a falar de analfabetismo em São Paulo e no Brasil, em comício para prefeitos. Não se corrigiu, oferecendo constrangedora demonstração pública de inabilidade tanto com números quanto com fatos.

Sua máquina de propaganda, sob o nome de Secretaria de Imprensa da Presidência, tentou justificar o deslize. Fez circular "esclarecimentos" sobre o discurso para "proporcionar seu correto entendimento". Insinuou, nas entrelinhas, que o erro fora dos jornalistas presentes, mas em verdade protagonizou um típico caso de emenda pior que o soneto.

Aos números e aos fatos, portanto: uma verdadeira salada presidencial. Lula afirmou: "No Sudeste, nós temos 5,7% de analfabetos. Mas, pasmem, caiam de costas, Kassab, porque você não sabia e eu não sabia: no Estado de São Paulo nós ainda temos 10% de analfabetos no Brasil. O Estado mais rico da Federação".

Uma emenda orwelliana da secretaria agregou à transcrição da fala, entre colchetes, a expressão "do total", coisa que Lula não pronunciou, nem parece ter tido em mente. Na versão retocada, a frase ficou assim: "No Estado de São Paulo nós ainda temos 10% [do total] de analfabetos no Brasil".

O índice correto de analfabetismo em SP, ou seja, a parcela da população do Estado nessa condição, é 4,2%, como informa o "esclarecimento". O que o texto não destaca, como deveria para dar o quadro interpretativo correto, é que essa é a quarta melhor taxa brasileira (atrás só de DF, RJ e SC). A média nacional, outro parâmetro de comparação, é 9,2%. (...)

A tabela da Secretaria de Imprensa da Presidência cita como fonte a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, instituição ciosa das estatísticas oficiais do país. No quadro, porém, a população brasileira total de pessoas com dez anos ou mais aparece com o valor 159.361.

Obviamente, trata-se de 159 milhões e quebrados. Faltou indicar que todas as cifras ali relacionadas estão em milhares.
Não é só o presidente que se enrola com números no Planalto.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo aqui (só para assinantes).