Recebi de Nelson Breve, secretário de Imprensa da Presidência da República, mensagem questionando conclusões e afirmativas da coluna "Analfabetos em números" sobre o envolvimento de sua equipe no caso dos números sobre analfabetismo no Brasil e em São Paulo com que se enrolou o presidente Lula. Ela deu origem a uma troca de mensagens ácidas, ainda que respeitosas, as quais reproduzo por considerar instrutivo.
Prezado Marcelo Leite,
[M]anifesto a indignação pela forma injusta com que tratou do assunto em sua coluna publicada no domingo (15/02). Peço que reflita com humildade e independência sobre as considerações seguintes:
1) os colchetes não foram inventados para salvar a cara de ninguém, eles são utilizados há algum tempo na transcrição dos discursos e entrevistas do Presidente Lula, por inspiração da fórmula utilizada pela própria Folha, para que os lapsos ou imperfeições da comunicação oral não tornem incompreensível ou incorreta a comunicação escrita;
2) se ler com atenção o discurso, perceberá que o contexto da fala do Presidente é de quem está preocupado com problemas que são mais graves no Norte e Nordeste (por isso ele fez reuniões específicas com os governadores dessas regiões), mas também estão presentes em outras regiões mais ricas do País. Ele mencionava os dados para fazer um chamamento público aos mais de 5 mil prefeitos ali presentes por um pacto para acelerar a redução das desigualdades (inclusive o prefeito de São Paulo, que certamente tem muitos analfabetos em sua cidade, não por culpa dele, mas da dificuldade de levar políticas públicas aos cidadãos mais pobres sem uma integração mais efetiva entre os entes federativos);
3) os jornalistas ali presentes interpretaram essa parte do discurso como uma disputa política. É compreensível. Infelizmente, especialmente para seus leitores, ouvintes e telespectadores, a imprensa tradicional se transformou em um espaço público de disputa política e não de discussão política. Mas é grave o fato de que, para sustentar sua interpretação, grande parte dos veículos, voluntária ou involuntariamente, sonegaram dos leitores a parte da frase que permitiria melhor compreensão do discurso, a expressão "no Brasil";
4) no mesmo dia do evento, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República procurou esclarecer verbalmente o que consideramos ambigüidade na fala do Presidente; e a transcrição foi publicada em nossa página da internet com os complementos que indicam o que o Presidente quis dizer sem sonegar o que ele realmente disse; até porque o áudio integra o material disponibilizado;
5) só decidimos fazer a nota de esclarecimento no dia seguinte, porque a repercussão na oposição e no governo paulista partia de uma premissa equivocada, que provocou uma espuma até certo ponto ridícula. É como se estivessem dizendo: "é um absurdo dizer que São Paulo tem 3,5 milhões de analfabetos, quando o estado só tem 1,5 milhão". O foco deveria ser: "o estado mais rico do País não está tão mal quanto a maioria, mas ainda tem 1,5 milhão de analfabetos, que representa 10% do total de analfabetos brasileiros; como poderemos trabalhar juntos para mudar essa realidade?";
6) caso tenha dúvida se a tabela que distribuímos é realmente do IBGE, peço que confira com a instituição que considera ciosa das estatísticas; a insinuação de que estaríamos forjando dados é inaceitável; e
7) reconhecemos a omissão de que os dados estavam representados em milhares, mas apontar isso para desqualificar nossas informações é um sofisma desrespeitoso com seus próprios leitores.
Esse é um pedido sincero de reflexão e não de retificação. Me coloco a disposição para quaisquer esclarecimentos, inclusive em ocasiões futuras em que precisar de nossas informações ou nosso ponto de vista.
Nelson Breve
Prezado Nelson Breve,
Eu li e ouvi o discurso, não me fiei apenas na cobertura do evento. Concluí por conta própria que o presidente não cometeu só um, mas vários erros de informação e de contextualização. Um dos equívocos do presidente (que nem incluí na coluna) foi apontar suposto erro, no texto preparado para ele, sobre a parcela de 8% de analfabetos do Brasil na região Norte - dado correto, se somados os percentuais da última coluna da direita da tabela distribuída pela Secretaria. Esses erros, e o descuido ou a confusão que denotam, é que motivaram minha coluna, não a disputa política nem a cobertura supostamente enviesada.
Não fiz insinuação alguma a respeito do IBGE (poderia devolver seu argumento dizendo que sua carta insinua que a instituição não é ciosa das estatísticas), apenas apontei um erro banal, que você reconhece mas prefere chamar de "omissão", e que não seria cometido por eles.
Eu apresentei argumentos indicando por que me convenci de que o presidente não quis dizer o que o texto entre colchetes pretende indicar que era sua intenção, mas você não os enfrenta. Não se trata de ambiguidade, mas de erro. Basicamente, o discurso mistura o tempo todo taxas de analfabetismo e parcela de cada Estado no total de analfabetos do país, confusão fundamental que nem a nota "de esclarecimento" nem sua mensagem cuidam de desfazer.
Acho que faltou humildade e independência para retificar os erros com o devido cuidado.
Você não pede retificação, mas eu gostaria de dar transparência à queixa em meu blog reproduzindo seu e-mail. Tenho autorização para isso? Grato,
Marcelo Leite
Prezado Marcelo Leite,
nossa orientação, não apenas nesse caso, é fazer as retificações ou ajustes entre colchetes apenas nas situações em que possa haver incompreensão ou ambiguidade. Não checamos cada número que o Presidente menciona. Eventualmente retificamos em colchetes algum dado que temos certeza estar errado e pode dar margem a alguma confusão. No caso do dado da Região Norte, o presidente leu o número correto, mas desconfiou dele e cogitou outra cifra. Poderíamos ter informado o dado correto, mas passou batido porque não era nossa prioridade, pois o fundamental era esclarecer rapidamente a frase interpretada incorretamente pela imprensa providenciando a publicação da transcrição na nossa página.
O Presidente pode ter feito confusão ao ler os dados da tabela que recebeu dos organizadores do evento (Secretaria de Assuntos Federativos), mas não em relação aos dados de São Paulo. Eu mesmo perguntei a ele logo após o evento com as primeiras damas dos municípios, realizado na sequência do outro, o que realmente quis dizer ao mencionar o percentual de São Paulo. Ele me respondeu com absoluta convicção: "que São Paulo tem 10% do total de analfabetos do País".
Não peço para acreditar em mim, mas para analisar o fato sem preconceito. Converse com a repórter da Folha que cobriu o evento e outros jornalistas que conhecem o nosso trabalho. Nosso capital profissional é o mesmo que o seu: credibilidade. Que não pretendo colocar em risco por causa de um incidente pouco relevante diante dos problemas existentes no País, mais merecedores da dedicação de nosso tempo. Se insisto nesses esclarecimentos é em nome da verdade.
Portanto, do nosso ponto de vista, não existem erros a serem retificados.
No caso da publicação das ponderações feitas na mensagem anterior, não me oponho, desde que seja na íntegra. Mesmo sabendo que no veículo onde trabalha ou no seu blog sempre estarei em desvantagem, pois a argumentação final invariavelmente será sua.
Um abraço.
Nelson Breve
Prezado Nelson Breve,
Nem todos os leitores e ouvintes do discurso do presidente têm o privilégio de poder verificar pessoalmente com ele o que quis dizer. Vale, portanto, o que ele disse, não o que supostamente quis dizer. Eu mencionei em minha coluna um indício a meu ver forte de que o presidente estava misturando taxas com parcelas do total nacional, o fato de na frase imediatamente anterior ele ter mencionado taxa e não parcela:
"No Sudeste, nós temos 5,7% de analfabetos. Mas, pasmem, caiam de costas, Kassab, porque você não sabia e eu não sabia: no Estado de São Paulo nós ainda temos 10% de analfabetos no Brasil."
Qualquer entendendor, bom ou ruim, deduzirá daí uma comparação. No restante do discurso, o presidente vai e volta entre as duas coisas, taxas e parcelas, demonstrando - na minha interpretação - descaso ou inabilidade com o uso de números e com sua necessária contextualização. Repito que este foi o fulcro de minha coluna.
O esclarecimento distribuído pela Secretaria poderia ter contribuído para desfazer todo o equívoco, mas não o fez, concentrando-se em reafirmar que o presidente não tinha errado no ponto que lhe interessava. Entendo que você veja nisso uma limitação de suas atribuições, e espero que entenda também que uma interpretação alternativa é a de que houve uma omissão. Se não de sua Secretaria, do governo do qual faz parte, pois o esclarecimento completo devido nunca veio, de parte alguma. E isso afeta a credibilidade do governo como um todo.
Para não deixá-lo em desvantagem em sua busca pela verdade, reproduzirei no blog nosso intercâmbio omitindo esta última resposta minha. Você terá a última palavra, se me autorizar a reproduzir também a sua segunda mensagem. Espero não estar sendo movido por preconceito ao supor que os leitores tirarão conclusões mais parecidas com as minhas do que com as suas.
Grato,
Marcelo Leite
Prezado Marcelo Leite,
para não ficarmos em um debate interminável de conclusão previsível, pois não creio que um consiga convencer o outro de seu ponto de vista, deixo uma última referência para sua reflexão: imediatamente antes da frase que você menciona, o presidente reclama: "está fora de ordem, ouviu?".
A divergência respeitosa é saudável nas relações entre imprensa e estado ou imprensa e governo. Não tenho objeção à transparência de nossa troca de mensagens. Mas reafirmo que meu objetivo não é dar conhecimento do nosso ponto de vista aos seus leitores. Queria apenas que refletisse sobre cada palavra que usou no artigo e reparasse alguma injustiça caso percebesse ter cometido. Como aparentemente não é o caso, me contento se procurar conhecer o nosso ponto de vista antes de formar o seu juízo nos assuntos que nos afetam.
Um abraço.
Nelson Breve
Escrito por Marcelo Leite às 22h14