Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

O tempo quente da super-sucuri

 
 

O tempo quente da super-sucuri

 

Titanoboa cerrejonensis, a cobra titânica de Cerrejón (Colômbia)
(Ilustração: Jason Bourque)

A revista científica Nature, traz, em sua edição de amanhã, a descrição da maior cobra jamais encontrada: um exemplar da
Titanoboa cerrejonensis, com 13 m e mais de uma tonelada de peso. O curioso é que a reconstrução das dimensões do bicho, por pesquisadores do Canadá, dos Estados Unidos e do Panamá, se baseou em algumas poucas vértebras.

A nossa sucuri (Eunectes murinus) dificilmente ultrapassa 7 m. Esse limite máximo parece ser determinado pela temperatura ambiente, pois répteis como esses boídeos, de sangue frio, dependem dela para sua termorregulação. Os descobridores da T. cerrejonensis calculam que, quando ela viveu (há 58-60 milhões de anos), a super-sucuri (ou seria "superssucuri"?) enfrentasse temperaturas médias de 30-34°C (veja gráfico abaixo).

Gente, seria MUITO pior que Manaus... Mas calma, calma, que a gente chega lá. É só continuar queimando petróleo, carvão e florestas como estamos fazendo.

Escrito por Marcelo Leite às 14h18

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Rubores e erros

 
 

Rubores e erros

Recebi do leitor Zenon Lotufo Jr., a propósito de minha coluna "O valor da face", o simpático comentário abaixo, que reproduzo para dar a outros leitores acesso às leituras que recomenda.

Só anotaria, sobre suas reflexões, que o rubor tem lá um quê de contra-senso: para que a característica que torna o parceiro desejável se manifeste e seja percebida, é preciso que este trapaceie ao menos uma vez e enrubesça ao mesmo tempo. Além disso, a seleção natural pode premiar tanto a veracidade quanto a trapaça (num exemplo hipotético: uma fêmea que aprenda a ruborizar de propósito e por meio dessa habilidade induza um macho de recursos a criar o filho de um macho forte e pobre).

Com a palavra, Lotufo:


Casei-me, há 47 anos, com uma mulher que se ruboriza com certa facilidade (e sempre achei mais atraentes aquelas que exibem esse "dom"). Nossos genes parece que se beneficiaram com isso, porque temos 6 filhos e, até agora, 9 netos.

Mas, falando sério, há tempos que me interesso pelo papel das emoções na comunicação, já tendo lido um bocado e publicado alguma coisa a respeito (inclusive uma tese de doutorado). Assim, acredito que o ruborizar-se possa ter uma explicação razoável dentro do marco da teoria da evolução, considerando o seguinte:

- O ruborizar-se só existe entre os humanos, os únicos dotados de uma linguagem elaborada;

- É um dos sinais de embaraçamento, este também exclusividade de humanos, mas não um sinal sempre presente [LEWIS, M. (1995). Embarrassment: the emotion of self-exposure and evaluation in TANGNEY, J. P. e FISCHER, K. W. (orgs.), Self-conscious Emotions: the psychology of shame, guilt, embarrassment, and pride. Nova York: Guilford].

- Fundamental como é a linguagem para a comunicação, ela é também um modo de esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos (como escreveu Tennyson: "For words, like Nature, half reveal// And half conceal the Soul within", apoiado por Talleyrand, "La parole a été donnée à l'homme pour déguiser sa pensée"). Ou seja, a linguagem conferiu ao ser humano uma capacidade única para enganar.

- Explicações evolucionistas com frequência destacam a importância que tem para o comportamento a segurança de que são os genes do próprio indivíduo que estão sendo transmitidos e cuidados.

- Em consequência, sinais que tornem um indivíduo mais confiável – como o ruborizar-se – porque dificultam que ele esconda seus pensamentos e sentimentos, ao mesmo tempo que pode prejudicá-lo em certas circunstâncias, pode também fazer dele(a) um(a) parceiro(a) mais desejável. Não sei até que ponto isso pode se aplicar aos homens, mas certamente se aplica às mulheres.

- O ruborizar e outros sinais de embaraçamento resultam, então, em vantagem reprodutiva na medida em que conferem a seus portadores uma espécie de "certificado de vergonha na cara" ou termo de garantia de que são menos propensos a traições, valorizando-os no mercado matrimonial.

- Não fique também sem menção o fato de que o rubor facial feminino, além de manifestação de embaraçamento, é também sinal de excitação sexual e, juntamente com a dilatação pupilar, torna a mulher mais atraente.


P.S.: Lotufo teve também a gentileza de apontar um erro vocabular na nota "Erros e furos de Darwin" neste blog: onde escrevi "imiscuível" (palavra que não existe, creio, mas que poderia ser criada a partir do verno "imiscuir-se"), leia-se "imiscível" (que não pode ser misturado).

Escrito por Marcelo Leite às 11h33

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O valor da face

 
 

O valor da face

Nada como uma boa pergunta. De preferência, simples. Na edição desta semana da revista britânica "New Scientist", o primatólogo holandês Frans de Waal apareceu com uma questão antológica: por que ruborizamos?

A revista, na realidade, havia pedido a 14 personalidades da área de biologia que respondessem a uma outra pergunta: quais são as maiores lacunas que restam na teoria da evolução? A peça resultante faz parte de uma série sobre os 200 anos do nascimento de Charles Darwin (1809-1882), que se comemoram dentro de 11 dias. (...)

"Somos os únicos primatas que fazem isso em consequência de situações embaraçosas (vergonha), ou quando são apanhados na mentira (culpa). Ficamos nos perguntando por que, afinal, precisamos de um sinal tão óbvio para comunicar esses sentimentos de autoconsciência. O rubor interfere na manipulação inescrupulosa de outros humanos. Estiveram os primeiros humanos sujeitos a pressões seletivas para se manterem honestos? Qual era o seu valor de sobrevivência?" (...)

O rubor facial é um ponto de partida propício para a interrogação. Exclusivo de seres humanos, como assinala Waal, é também fisiologia à flor da pele. Em grande medida involuntário, escapa aos meandros insondáveis da psicologia subjetiva. Ao mesmo tempo, possui função apenas no domínio interpessoal -afinal, só prejudica aquele que enrubesce e só favorece seus interlocutores.

Para ruborizar, é necessário que vasos capilares de uma região específica do corpo se dilatem, após a ativação de circuitos específicos de nervos e células. Todo um módulo de programas comportamentais precisa ser acionado, e isso em resposta a ocorrências puramente interiores e morais.

Por sua regularidade nos indivíduos e pela frequência populacional, é de supor que o módulo se encontre de alguma forma inscrito em genes. De outra maneira, não haveria como ser preservado pela seleção natural, transmitido de geração a geração.

Outra maneira de encarar a questão de Waal é dar-se conta de que ele está na pista de raízes biológicas do aparato ético da espécie, ou de valores fundamentais como a veracidade. Muita gente na área das humanidades não vai gostar -mais por hábito do que por reflexão.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes). E, já que você estará plugado no jornal, não deixe de ler a entrevista que Claudio Angelo fez com Dan Everett, o inimigo linguístico número 1 de Noam Chomsky (que não merece, aliás, o qualificativo de "maior intelectual vivo").

Escrito por Marcelo Leite às 13h04

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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