Rubores e erros
Recebi do leitor Zenon Lotufo Jr., a propósito de minha coluna "O valor da face", o simpático comentário abaixo, que reproduzo para dar a outros leitores acesso às leituras que recomenda.
Só anotaria, sobre suas reflexões, que o rubor tem lá um quê de contra-senso: para que a característica que torna o parceiro desejável se manifeste e seja percebida, é preciso que este trapaceie ao menos uma vez e enrubesça ao mesmo tempo. Além disso, a seleção natural pode premiar tanto a veracidade quanto a trapaça (num exemplo hipotético: uma fêmea que aprenda a ruborizar de propósito e por meio dessa habilidade induza um macho de recursos a criar o filho de um macho forte e pobre).
Com a palavra, Lotufo:
Casei-me, há 47 anos, com uma mulher que se ruboriza com certa facilidade (e sempre achei mais atraentes aquelas que exibem esse "dom"). Nossos genes parece que se beneficiaram com isso, porque temos 6 filhos e, até agora, 9 netos.
Mas, falando sério, há tempos que me interesso pelo papel das emoções na comunicação, já tendo lido um bocado e publicado alguma coisa a respeito (inclusive uma tese de doutorado). Assim, acredito que o ruborizar-se possa ter uma explicação razoável dentro do marco da teoria da evolução, considerando o seguinte:
- O ruborizar-se só existe entre os humanos, os únicos dotados de uma linguagem elaborada;
- É um dos sinais de embaraçamento, este também exclusividade de humanos, mas não um sinal sempre presente [LEWIS, M. (1995). Embarrassment: the emotion of self-exposure and evaluation in TANGNEY, J. P. e FISCHER, K. W. (orgs.), Self-conscious Emotions: the psychology of shame, guilt, embarrassment, and pride. Nova York: Guilford].
- Fundamental como é a linguagem para a comunicação, ela é também um modo de esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos (como escreveu Tennyson: "For words, like Nature, half reveal// And half conceal the Soul within", apoiado por Talleyrand, "La parole a été donnée à l'homme pour déguiser sa pensée"). Ou seja, a linguagem conferiu ao ser humano uma capacidade única para enganar.
- Explicações evolucionistas com frequência destacam a importância que tem para o comportamento a segurança de que são os genes do próprio indivíduo que estão sendo transmitidos e cuidados.
- Em consequência, sinais que tornem um indivíduo mais confiável – como o ruborizar-se – porque dificultam que ele esconda seus pensamentos e sentimentos, ao mesmo tempo que pode prejudicá-lo em certas circunstâncias, pode também fazer dele(a) um(a) parceiro(a) mais desejável. Não sei até que ponto isso pode se aplicar aos homens, mas certamente se aplica às mulheres.
- O ruborizar e outros sinais de embaraçamento resultam, então, em vantagem reprodutiva na medida em que conferem a seus portadores uma espécie de "certificado de vergonha na cara" ou termo de garantia de que são menos propensos a traições, valorizando-os no mercado matrimonial.
- Não fique também sem menção o fato de que o rubor facial feminino, além de manifestação de embaraçamento, é também sinal de excitação sexual e, juntamente com a dilatação pupilar, torna a mulher mais atraente.
P.S.: Lotufo teve também a gentileza de apontar um erro vocabular na nota "Erros e furos de Darwin" neste blog: onde escrevi "imiscuível" (palavra que não existe, creio, mas que poderia ser criada a partir do verno "imiscuir-se"), leia-se "imiscível" (que não pode ser misturado).