Jogo de espera
Embarque no jato Ilyushin-76DT da empresa ALE, sexta-feira (Foto: Marcelo Leite)
Já perdi a conta de quantas vezes ouvimos dos funcionários da empresa Logística e Expedições Antárticas (ALE) a expressão "waiting game" (jogo de espera). A primeira coisa a pôr na bagagem, quando se pretende viajar para a Antártida, é paciência. Várias mudas de paciência. (...)
O clima até que está bom em Patriot. Há quatro dias faz sol, e a temperatura, apesar de negativa, não tem descido muito abaixo de -10C. Ninguém entende por que o jato não pousa.
Com o vento a 40 km/h, são outros 500. Ninguém fica muito tempo fora da barraca, agora que os trabalhos da Expedição Deserto de Cristal estão encerrados. Rochas e testemunhos de gelo coletados ao longo de um mês pela primeira expedição científica brasileira ao interior da Antártida estão todos encaixotados.
No confinamento das barracas, as opções não são muitas. Comer, beber, conversar -na barraca Weather Heaven da cozinha, apelidada pelos brasileiros de "jabuti", por seu formato. Ler, com algum esforço, em meio às pilhérias (que vêm diminuindo, quanto mais se alonga a espera). (...)
Todos se esforçam por dormir o máximo, e alguns conseguem fazê-lo por mais de 12 horas. Sonham com camas e colchões. Banhos e pães quentes. Vinhos chilenos. Cerveja gelada.
Quando este texto for publicado, pelo menos os enviados especiais da Folha (o repórter fotográfico Toni Pires e este colunista) já deverão estar em Punta Arenas. Quem sabe até no Brasil. Mas nada disso estava garantido, na tarde de quinta-feira, durante sua redação.
A última notícia da ALE havia sido dada na tarde do dia anterior. O gerente de operações em Patriot, Steve, viera ao módulo azul falar com Jefferson Cardia Simões, glaciologista gaúcho que chefia a expedição. Pela demora da conversação, já se sabia que seriam más novas.
Em resumo: a empresa está com vários atrasos acumulados e 97 passageiros retidos em Patriot. No Ilyushin cabem 60. A ALE só poderia dispor de dois lugares -para os jornalistas- no primeiro voo, previsto para a tarde de quinta-feira (o que não se verificou).
O restante da expedição teria de esperar o voo seguinte, que seria realizado 24 horas depois. Antes embarcariam passageiros mais atrasados que eles, como os repórteres, cujo retorno estava marcado para 29 de dezembro. Steve pediu paciência ao grupo. Não faltou nele quem achasse que o gerente estava pedindo demais.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Informo que Toni Pires e eu já nos encontramos em São Paulo. O avião da ALE acabou partindo de Patriot às 6h15 da manhã de sexta, dia 9, lotado. Nós dois, por exemplo, ficamos sem assentos normais e tivemos de encarar as 4h30 de vôo em banquinhos duros de metal, rodeados por tambores de combustível vazios.
O atraso de cinco dias em nossa partida da Antártida talvez se explique pela presença de um passageiro ilustre no vôo de ida até Patriot: o príncipe Alberto de Mônaco. A hipótese mais favorecida é que a ALE tenha adiado o vôo para satisfazer a agenda principesca.
Pior: o segundo vôo, programado para o dia seguinte, que deveria trazer de volta à América do Sul os oito integrantes da Expedição Deserto de Cristal, ainda não tinha ocorrido até a tarde de domingo, quando falei por satélite com Jefferson Cadia Simões, líder do grupo. Ele iria dar uma palestra para o príncipe dali a uma hora, mas acho que preferiria mesmo embarcar de volta, após mais de 40 dias no gelo.
Escrito por Marcelo Leite às 14h58