Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Acampamento na Antártida

 
 

Acampamento na Antártida

Primeiro acampamento científico brasileiro no manto de gelo antártico

(Foto: Nupac/UFRGS)

Recebo por e-mail a notícia de que os cientistas do Programa Antártico do Brasil (Proantar) inauguraram anteontem às 16h (horário de Brasília) o primeiro acampamento brasileiro no interior da Antártica, nas coordenadas 80°18'S, 81°22'W, 2.157 km ao sul da Estação Antártica Comandante Ferraz e a 1.083 km do pólo Sul geográfico.

A equipe chegou no local do acampamento à 1h30 da madrugada e trabalhou durante toda a "noite" para  montar as várias barracas polares ao lado de um módulo de fibra de vidro chileno deixado no local.

Neste período do ano, na latitude que se encontra o acampamento, há 24 horas de luz solar. A temperaturas pode ser considerada agradável, ao redor de -10°C (dez graus negativos), e sensação térmica de -20°C.

O acampamento foi montado diretamente sobre o manto de gelo antártico, que no local tem uma espessura de 700 m (em outras regiões da Antártida, pode chegar a mais de 4.000 m). A altitude do acampamento é de 920 m acima do nível do mar.

A equipe liderada pelo glaciologista Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ficará nesse acampamento até o início de janeiro de 2009 realizando estudos sobre o impacto das mudanças do clima no manto de gelo antártico.

Escrito por Marcelo Leite às 12h29

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É uma usina portuguesa com certeza

Você sabe onde fica a maior instalação de turbinas eólicas da Europa? E a maior usina solar do planeta?

Não é no Reino Unido, primeiro país desenvolvido a adotar um orçamento de carbono. Nem na Alemanha, pioneiro verde do Velho Mundo. Nem na Dinamarca. Acredite se quiser, ambas as instalações do primeiro parágrafo ficam em Portugal.

Acabo de descobrir essas coisas lendo duas reportagens de John Vidal no diário britânico The Guardian. A primeira, de hoje, dá conta de que começou a entrar em rede a energia produzida por 120 turbinas eólicas em Viana do Castelo, no Alto Minho.

A segunda, de 6 de junho, apresenta a fazenda de 2.520 coletores fotovoltaicos instalada no distrito alentejano de Moura, cada um do tamanho de uma casa, na descrição de Vidal (uma figura impagável, aliás, que tive o prazer de conhecer em recente visita ao jornal londrino). Móveis, os painéis mantêm um ângulo constante de 45° em relação ao Sol, movimentando-se como girassóis em sua direção ao longo do dia.

O mais incrível das duas reportagens é topar com um ministro da Economia - sim, da ECONOMIA -, Manuel Pinho, dando declarações que n~´ao sonhamos ouvir nem de Carlos Minc, ocupado como está em explicar por que o melhor que o Brasil pode fazer contra o aquecimento global é destruir só 11.700 km² de floresta por ano, ou o equivalente a 1/8 do território português.

Leia alguns trechos das reportagens:



"Temos de reduzir nossa dependência de petróleo e gás", diz Pinho. "O que parecia extravagante em 2004, quando decidimos partir para as energias renováveis, parece agora ter sido uma decisão muito boa."

Ele espera que Portugal venha a gerar 31% de toda a sua energia de fontes limpas até 2020. Isso significa elevar sua fatia de energia renovável de 20% em 2005 para 60% em 2020, comparado com a meta britânica de 15% até 2020.

"Países que não investirem em renováveis pagarão um alto preço no futuro. O custo da inação é mesmo muito alto. A percepção de que a energia renovável é muito cara muda a cada dia, conforme sobe o preço do petróleo."

Ele acrescenta: "Energia e ambiente são o maior desafio de nossa geração. Precisamos desenvolver um modelo de baixo carbono para a economia mundial. A situação presente é perigosa."


Algo me diz que o Manuel teria algumas coisas a ensinar para Dilma Rousseff, Edison Lobão, Guido Mantega e, ora pois, a Lula Marolinha da Silva.

Escrito por Marcelo Leite às 19h25

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Sonhos de Natal na revista Piauí

Sonhos de Natal na revista Piauí

Esforço de reportagem no Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN-ELS)

(Foto: André Pantoja)

Saiu reportagem minha na revista Piauí, "Sonhos de Natal", sobre pesquisas chefiadas por Sidarta Ribeiro - um neurocientista fã de Freud, veja só - no Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Infelizmente, não está disponível na internet, nem para assinantes. Só para aguçar sua curiosidade e fazê-lo(a) sair correndo à banca para comprar seu exemplar, reproduzo os parágrafos iniciais:


Minha tática de jogador estreante é pegar tudo que há de munição e bônus pelos corredores da fortaleza, sem saber ao certo para que servirão. Só não dá para correr, pressionando o botão azul da esquerda no joystick, embora tenha sido instruído sobre o recurso, nem para decifrar as informações numéricas na base da tela do computador. Falta coordenação. Sigo em frente, incapaz de definir o que causa mais incômodo e tédio – se a ignorância das regras opacas do jogo, a repetição interminável dos passos iniciais no labirinto de portas, pátios, escadas e rampas ou os 29 fios brancos que partem dos eletrodos espalhados pelo couro cabeludo, rosto e peito. Sentada à esquerda, a estagiária Luciana Rocha não dá descanso. A cada morte no jogo, sua mão delicada e ligeiramente fria, que ainda há pouco pincelava cola sobre os contatos fixados com esparadrapo na cabeça, pressiona a tecla que reinicia Perdição (Doom) pela enésima vez.

 

            Os muros em volta são de pedra escura. No centro, um patíbulo. À esquerda encontra-se a Coisa, de costas. Das articulações projetam-se cones pontiagudos. A luta começa com o impulso da manopla para a frente e um toque quase automático sobre o botão azul à direita, reservado para a troca de armas. Após quase uma hora de tentativas, está claro que o revólver na mão direita é inútil contra a couraça e que A Coisa vai virar e esquivar-se pela direita.

 

            Toda a esperança de sobrevida reside num ataque frontal. Em outras raras investidas a Coisa termina derrotada. É hora de caminhar para a porta secreta de pedra cinza. Novo toque sobre o botão azul providencia outra troca de arma, pois a experiência mostrou que o novo adversário, um guarda munido de fuzil, sucumbe apenas a tiros de escopeta. Apertando o botão vermelho arredondado, à esquerda, ergue-se a porta de pedra: lá está ele, pronto para iniciar o tiroteio. Caso consiga alvejá-lo, haverá outro, e mais outro, e clones de Coisas com suas bolas de fogo, mais portas de aço e portas de pedra, piscinas azuis e piscinas amarelas, munições e cargas de força a serem recolhidas...

 

            O feixe de fios puxados para trás, como num rabo-de-cavalo, parece ser a origem da dor de cabeça que começa a se impor. São quase onze e meia da noite de uma segunda-feira de maio, e não vejo a hora de despregar a mão suada do joystick e sair do quarto-laboratório improvisado no primeiro andar do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) no bairro da Candelária, em Natal (RN), no qual entrei às oito e meia e onde já havia dormido conectado no dia anterior. Mais de uma hora havia sido gasta no preenchimento de questionários sobre hábitos de sono e atividades do dia. Mas ainda estava por vir o pior da experiência como cobaia voluntária, a 22ª deste experimento projetado por André Pantoja, fisioterapeuta por formação que deixou o Rio de Janeiro para arriscar-se num mestrado no mais novo centro de neurociência do Brasil.

Escrito por Marcelo Leite às 21h54

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Saiu orçamento de carbono britânico

Saiu orçamento de carbono britânico

 

Saíram os documentos com as diretrizes para o governo britânico mencionadas no post "Londres Lança orçamento de carbono", mais abaixo.

O leitor pode encontrá-los nos seguintes links:

Relatório completo, "Building a low-carbon economy – the UK’s contribution to tackling climate change"
Página principal
Comunicado à imprensa
Folheto explicativo
Sumário executivo

Além da meta geral de reduzir 80% das emissões até 2050, foi fixado o objetivo intermediário de cortar 34% até 2020. Caso saia um acordo global em Copenhague, daqui a um ano, os cortes deverão ser de 42% (nos dois casos, sobre os níveis de 1990).

Duas surpresas relativas:
1. Aviação e navegação ficaram de fora, devido às incertezas e à dificuldade de mensurar/atribuir suas emissões a este ou àquele país, mas há uma recomendação para que sejam acompanhadas de perto, para futura inclusão;
2. Créditos de carbono provenientes do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto não poderão ser empregados para inteirar a meta de corte de 34%, só para a de 42%.

A proposta foi preparada pelo Comitê de Mudança Climática (CCC), órgão independente criado por lei para subsidiar e supervisionar o governo britânico nessa matéria. O gabinete do trabalhista Gordon Brown deve agora apresentar ao Parlamento a sua versão do orçamento de carbono, justificando as modificações que introduzir, para que ele seja votado até junho de 2009.

Os 3 orçamentos até 2022, para cumprir as metas de reduzir 34% (metade superior da tabela) ou 42%
Reprodução/Sumário executivo do
orçamento proposto pelo CCC

Escrito por Marcelo Leite às 19h49

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Criacionismo no Mackenzie

Criacionismo no Mackenzie

Reprodução

O Instituto Presbiteriano Mackenzie abrange uma universidade e uma escola das mais tradicionais de São Paulo. Só na unidade paulistana do colégio há mais de 1.800 alunos. Seu campus no quarteirão ladeado pela avenida da Consolação e pela rua Maria Antônia é um ponto de referência na cidade.

Talvez poucos se dêem conta de que se trata de um estabelecimento confessional de ensino. Isso está bem explícito no nome da instituição, porém. Agora o Colégio Mackenzie é também, oficialmente, criacionista. (...)

A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso opor-lhe o contraditório. Em outras palavras: ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies. (...)

A doutrina criacionista não é apresentada somente nas aulas de religião, mas igualmente nas de ciências. Em 2008 foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1, ainda em fase piloto, uma série de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI, na abreviação em inglês), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.

A coleção utilizada com crianças de 6 a 9 anos se chama Crescer em Sabedoria. Na capa do volume do terceiro ano estava estampado "Ciências - Projeto Inteligente".

É uma alusão ao argumento do "design inteligente": a natureza é tão complexa e os organismos tão perfeitos que só o desígnio de um arquiteto (Deus) pode ter sido responsável por sua criação. "Quando Deus formou a Terra, criou primeiro o ambiente. Criou elementos não vivos, como o ar, a água e o solo. Depois, Deus criou os seres vivos para morarem nesse ambiente", afirma-se na pág. 10. O item 2.1 do volume se chama "O plano de Deus para os ambientes". (...)

A direção do Mackenzie justifica a omissão da evolução por seleção natural, nessa apostila de ciências, dizendo que se trata de conteúdo previsto apenas para o ensino fundamental 2. Além disso, o material da fase piloto de 2008 foi revisto e a ênfase religiosa, atenuada, mas não excluída.

Darwin, todavia, continua de fora. Só uma dúzia de pais reclamou.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só pra assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 17h19

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Londres lança orçamento de carbono

Londres lança orçamento de carbono

 

Fonte: McKinsey

Duas crises infernizam o mundo: a financeira, para ontem, e a climática, para amanhã. Disposto a dar o exemplo na conferência sobre mudança climática que começa hoje em Poznan (Polônia), o governo britânico engatilhou um segundo orçamento nacional, expresso em toneladas de gás carbônico (CO2) e não em libras esterlinas.

A adoção do orçamento carbônico começa amanhã, com o lançamento da primeira proposta, e vai até 1º de junho de 2009. É a peça central da Lei de Mudança Climática aprovada pelo Parlamento no dia 18. Foi formulada pelo Comitê de Mudança Climática (CCC, na sigla em inglês), um órgão independente de aconselhamento e supervisão do governo na matéria, outra inovação britânica.

Até março, o governo do trabalhista Gordon Brown tem de anunciar se acata a proposta do CCC e justificar as alterações que nela fizer. Seguem-se dois meses de debates parlamentares sobre o orçamento consolidado por Brown. Em 1º de junho, a peça tem de virar lei, e o governo passa a responder por seu cumprimento, sob a vigilância de revisões anuais do comitê enviadas ao Parlamento.

Haverá sempre três orçamentos enfileirados, todos qüinqüenais. Na primeira leva, para os períodos 2008-2012, 2013-2017 e 2018-2022. Cada um deles terá metas específicas de redução de gases do efeito estufa propostas pelo CCC, de modo a delinear a trajetória para alcançar o objetivo de cortar 80% das emissões até 2050. (...)

Agora o governo britânico almeja liderar, dando o exemplo, a travada negociação internacional sobre clima. Um corte de 80% nas emissões até 2050 -em todos os países- é tido como necessário para evitar que a temperatura média da atmosfera planetária se aqueça mais que 2C. Acima disso, avaliam cientistas, o clima poderia enlouquecer de vez, com secas graves, tormentas e inundações mais freqüentes.

Até agora as tratativas para distribuir o ônus entre as nações foram paralisadas pela disputa entre países desenvolvidos, maiores responsáveis pelo carbono já emitido, e em desenvolvimento. O Reino Unido pretende romper o impasse dando o exemplo e exibindo metas ambiciosas e uma lei que o obriga a cumpri-las.

Mesmo com a adoção de metas similares pelos EUA de Barack Obama, que prometeu US$ 150 bilhões em dez anos para a pesquisa de tecnologias limpas, o avanço da negociação é encarado com ceticismo. Caso um improvável acordo consiga estabilizar as emissões mundiais nos níveis do ano 2000, ainda assim haveria 75% de chance de a temperatura ultrapassar os 2°C. (..)

David Kennedy, secretário-executivo da CCC, está otimista. Ele acredita ser possível descarbonizar inteiramente a matriz energética britânica até 2050. Para isso, o orçamento de carbono que ajudou a finalizar prevê um leque amplo de medidas, da conservação de energia à eletricidade nuclear. Haveria lugar ainda para biocombustíveis e créditos de carbono (leia abaixo), além de investimentos para desenvolver usinas termelétricas a carvão "limpas": com captura e injeção subterrânea do CO2.

Um dos grandes nós são as emissões da aviação e da navegação, que não foram incluídas no Protocolo de Kyoto, mas farão parte dos orçamentos carbônicos britânicos e, talvez, do acordo climático que for possível alcançar em Copenhague, daqui a um ano. Sem a inclusão desses setores, seria impossível alcançar a meta de longo prazo: baixar a emissão per capita a algo da ordem de 2 toneladas anuais, na média mundial. (...)

Conseqüências para o Brasil

A proposta de orçamento de carbono que o Comitê de Mudança Climática (CCC) britânico apresentará amanhã ao governo Brown terá conseqüências para o Brasil. Uma das atribuições da comissão independente é estipular o peso dos biocombustíveis na descarbonização da economia do país.

A expectativa é que o CCC recomende teto de 20% para biocombustíveis, até 2020. Aí estaria incluído o álcool que o Reino Unido importa do Brasil.

No futuro, isso dependerá do cumprimento de padrões socioambientais, alerta Joan Ruddock, secretária-executiva do recém-criado Ministério da Energia e Mudança Climática. E não será para sempre: "Pensamos que os biocombustíveis têm um papel útil no curto e no médio prazo", diz. (...)

As plantas usadas como matéria-prima do álcool contribuem menos para o aquecimento global porque, ao crescer, retiram CO2 da atmosfera. Depois mais carbono será emitido na queima do combustível, mas o saldo pode ser muito favorável, como no caso do álcool de cana comparado à gasolina.


Leia a íntegra de minha reportagem na Folha de S.Paulo (aqui e aqui, só para assinantes do jornal e do UOL).

Escrito por Marcelo Leite às 17h03

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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