Pílulas antideterministas do Dr. Lander
Nas origens bizantinas deste blog, quatro anos atrás, costumava provocar amigos cegos de paixão pela biologia molecular (minha paixão por ela sempre foi mais, como direi, intelectual) com posts numerados intitulados "Pílulas antideterministas do Dr. Leite". Levei muita pancada por causa delas. Até me apelidaram de "GAGÁ-box" por causa disso - uma abstrusa referência ao mecanismo de leitura do DNA que só os iniciados podem entender, o que já dá uma idéia de quanto essse pessoal - meus amigos, insisto - está na praça mais para confundir do que para explicar.
Tudo bem. Se fosse me incomodar com todas as pancadas, incluindo fogo amigo, que recebo por pensar com a própria cabeça, já teria parado de escrever há muitos anos.
Pois agora, um desses amigos fanáticos da biologia molecular, alerta para a reportagem (aqui, em inglês) de Natalie Angier no jornal The New York Times sobre a obsolescência do conceito de "gene". Reconheço no texto vários argumentos e raciocínios que venho expondo, se me permitem a falta de modéstia, há anos (como no livro Promessas do Genoma, de 2007, baseado numa tese de 2005).
Mas o mais engraçado foi dar com as explicações e justificativas tortuosas de Eric Lander, um dos campeões das metáforas fundamentalistas sobre genes. Na minha leitura, elas se aproximam da afirmação "os fins justificam os meios", ou seja, tudo bem a gente vender o genoma como o Livro da Vida e só entregar um folheto de instruções de computador, como diz Angier. Até posso entender que cientistas ultrapragmáticos defendam essa retórica de resultados. Mas jornalistas de ciência...
Leia o que disse à repórter o articulado Lander, primeiro autor do artigo do Projeto Genoma Humano publicado na Nature em fevereiro de 2001:
“Geneticistas abusam alegremente do termo ‘gene’ para se referir a muitas coisas em muitos contextos. Isso pode ser uma fonte de enorme consternação para quem assiste de fora e quer entender a conversa, mas os geneticistas nem se incomodam.”
"Você não deveria se preocupar com o fato de ter de acrescentar outras camadas às coisas conforme segue em frente. Você nunca poderá capturar algo como a economia, um genoma ou um ecossistema com um só modelo ou uma taxonomia - tudo depende das questões que você quiser formular. Você precisa ser preparado para dizer que esta é a simplificação da terça-feira e que a de quarta pode ser diferente, por causa do incrível progresso que foi realizado por meio dessas simplificações.”
Então tá. Tudo bem os leigos continuarem de fora, querendo entender, e os geneticistas nem aí - os leigos que pagam pelas pesquisas, quer dizer, eu e você.
Para mim jornalismo (científico) existe para desafinar esse coro dos contentes, entre outros.


