Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Complexidade causa mudança de paradigma na epigenética

Complexidade causa mudança de paradigma na epigenética

 

Complexidade, segundo N. Dewar (Reprodução/Nature)

O sempre alerta Cássio Leite Vieira (deve ser alguma coisa nos genes de portadores do sobrenome "Leite") chama a atenção para um saboroso material publicado na edição de ontem da Nature. Em foco, termos de larga utilização no meio científico, mas que poucas pessoas saberiam definir corretamente:

Mudança de paradigma
Epigenética
Complexidade
Raça
Ponto de não retorno ("tipping point")
Células-tronco
Significativo (em estatística)
Consciência

Cada um desses termos é tratado em reportagens-verbete de vários autores, compondo um glossário rápido de termos em voga. O periódico traz ainda um ensaio de Jeffrey Parsons e Yair Wand sobre os mal-entendidos que podem surgir entre cientistas como resultado de definições e classificações equívocas. Exemplo: a definição de "planeta" e em que categoria encaixar o distante Plutão. E há também as divertidas ilustrações de N. Dewar.

Cássio sugere incluir na lista, com mal-disfarçada animosidade contra a minha tribo das humanidades: saberes, alteridade, reinventar, sujeitos humanos. Eu, em contrapartida, sugiro: princípio da incerteza, salto quântico, código genético, genes para [x], correlação, quebra de simetria, genômica, transcriptômica, proteômica...

E a sua lista, qual é?

Escrito por Marcelo Leite às 12h12

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Em busca do Kyoto perdido

Em busca do Kyoto perdido

 

"A maior falha de mercado que o mundo já viu." Nos dias de hoje, quem lê a frase famosa de sir Nicholas Stern, que já foi economista-chefe do Banco Mundial e conselheiro de Gordon Brown, então ministro das Finanças britânico, poderá concluir que ele se referia à mãe de todas as crises financeiras. Antes fosse.

Na realidade, trata-se de coisa muito mais grave, como se dedica a expor "Kyoto 2", do jornalista Oliver Tickell. O subtítulo do livro explica de que se trata: "Como administrar a estufa global".

O sistema planetário é maior que a economia mundial, que faz parte dele. Esta vive uma crise aguda, que pode ou não ser superada no curto prazo. Já aquele padece de uma doença crônica, que no longo prazo pode levar à morte. (...)

O melhor do volume está na desconstrução de Kyoto. A acusação mais séria ao tratado adotado na cidade japonesa em 1997, por assim dizer para regulamentar a Convenção sobre Mudança do Clima de 1992, é de ineficiência.

Tickell fornece uma medida convincente da inoperância de Kyoto comparando-o com o Protocolo de Montréal. Adotado uma década antes para combater outro problema da atmosfera, o buraco na camada de ozônio estratosférico, Montréal acabou contribuindo quatro vezes mais do que Kyoto para mitigar o aquecimento global, pois alguns dos gases que atacam o ozônio são também gases do efeito estufa.

A receita de Tickell é abandonar por completo o caminho de Kyoto. Não apenas adotando metas muito mais ambiciosas, mas dispositivos inteiramente diferentes. Para o autor, o protocolo não funcionou por força de dois defeitos principais: estabelecer metas por países, quando o problema a resolver é planetário, e pretender que governos nacionais ao mesmo tempo usufruam e fiscalizem os mecanismos de mercado desenhados para incentivar a redução de emissões de gases do efeito estufa.

Na alça de mira do livro estão os famigerados créditos de carbono, a alma de Kyoto. Uma gigantesca nomenclatura foi montada para pô-los em prática, mas, como resultado, colheu-se uma série impressionante de distorções.

Basta dizer que o mercado de carbono mais festejado, o chamado Esquema Europeu de Comércio de Emissões (Euets, em inglês), transformou-se numa espécie de sifão para desviar bilhões de euros dos consumidores para empresas de energia. Negócio de fazer inveja aos derivativos de hipotecas "subprime", nos bons tempos de Alan Greenspan.


Leia a resenha completa do livro "Kyoto 2" no caderno Mais da Folha de S.Paulo, aqui (se for assinante da Folha ou do UOL). Resolvi ler o livro e propus escrever sua resenha só por ter sido indicado por George Monbiot, colunista do diário britânico The Guardian. Se o aquecimento global for mesmo uma conspiração, como acredita uma minoria de incautos e mal-intencionados, Monbiot é o conspirador com maior talento na praça.

Escrito por Marcelo Leite às 18h07

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Ciência: use com cuidado

Ciência: use com cuidado

Desculpe o leitor o expediente, que pode soar cabotino, de usar como título desta coluna o do livro lançado há uma semana. Como pelo menos uma pessoa inteligente se equivocou ao interpretá-lo, impõe-se uma explicação. Não como justificativa, mas para curvar-se ao ajuste contínuo de interpretações que caracteriza e enobrece tanto o jornalismo quanto a pesquisa científica.

O que se entende como cuidado com o qual o público deve "usar" a ciência? Um exemplo ajudará a esclarecer a questão. Há uma enorme concorrência entre laboratórios espalhados pelo mundo para chegar a uma solução para o drama de pessoas que perdem o domínio de partes do corpo, como paraplégicos. São várias as estratégias perseguidas. (...)

Uma delas, que tem chamado muita atenção, é o emprego de células-tronco embrionárias humanas para reparar o dano aos feixes de fibras nervosas contidos na medula que levam o impulso motor do sistema nervoso até os músculos.

A empresa americana Geron está para anunciar um teste clínico com seres humanos baseado nessa estratégia. Mas a terapia em questão valerá só para certos casos específicos de traumas subagudos (ocorridos há poucas semanas). Isso se der certo, e depois ainda terá de obter aprovação da FDA (agência de alimentos e fármacos dos EUA). (...)

Nesta semana, o periódico científico "Nature" trouxe pesquisa de grande repercussão sobre uma quarta estratégia: usar interfaces cérebro-máquina para levar impulsos não a dispositivos robóticos, mas diretamente aos músculos que se quer ativar.

O trabalho, da Universidade de Washington (noroeste dos EUA), representa só uma prova de princípio, pois foi feito com macacos, em um único músculo. Demandaria anos ou décadas de refinamento para resultar em aplicações práticas para humanos.

Não parece possível dizer, no estágio atual, qual dessas quatro estratégias (ou outras não mencionadas aqui) será a mais bem-sucedida. Uma poderá revelar-se mais eficaz para certos casos, outra para outros.

O jornalista de ciência que induzir conclusão diversa estará traindo a confiança que lhe deposita o leitor, ao sonegar os avisos de cautela imprescindíveis para fazer bom uso da informação científica.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 17h52

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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