Em busca do Kyoto perdido
"A maior falha de mercado que o mundo já viu." Nos dias de hoje, quem lê a frase famosa de sir Nicholas Stern, que já foi economista-chefe do Banco Mundial e conselheiro de Gordon Brown, então ministro das Finanças britânico, poderá concluir que ele se referia à mãe de todas as crises financeiras. Antes fosse.
Na realidade, trata-se de coisa muito mais grave, como se dedica a expor "Kyoto 2", do jornalista Oliver Tickell. O subtítulo do livro explica de que se trata: "Como administrar a estufa global".
O sistema planetário é maior que a economia mundial, que faz parte dele. Esta vive uma crise aguda, que pode ou não ser superada no curto prazo. Já aquele padece de uma doença crônica, que no longo prazo pode levar à morte. (...)
O melhor do volume está na desconstrução de Kyoto. A acusação mais séria ao tratado adotado na cidade japonesa em 1997, por assim dizer para regulamentar a Convenção sobre Mudança do Clima de 1992, é de ineficiência.
Tickell fornece uma medida convincente da inoperância de Kyoto comparando-o com o Protocolo de Montréal. Adotado uma década antes para combater outro problema da atmosfera, o buraco na camada de ozônio estratosférico, Montréal acabou contribuindo quatro vezes mais do que Kyoto para mitigar o aquecimento global, pois alguns dos gases que atacam o ozônio são também gases do efeito estufa.
A receita de Tickell é abandonar por completo o caminho de Kyoto. Não apenas adotando metas muito mais ambiciosas, mas dispositivos inteiramente diferentes. Para o autor, o protocolo não funcionou por força de dois defeitos principais: estabelecer metas por países, quando o problema a resolver é planetário, e pretender que governos nacionais ao mesmo tempo usufruam e fiscalizem os mecanismos de mercado desenhados para incentivar a redução de emissões de gases do efeito estufa.
Na alça de mira do livro estão os famigerados créditos de carbono, a alma de Kyoto. Uma gigantesca nomenclatura foi montada para pô-los em prática, mas, como resultado, colheu-se uma série impressionante de distorções.
Basta dizer que o mercado de carbono mais festejado, o chamado Esquema Europeu de Comércio de Emissões (Euets, em inglês), transformou-se numa espécie de sifão para desviar bilhões de euros dos consumidores para empresas de energia. Negócio de fazer inveja aos derivativos de hipotecas "subprime", nos bons tempos de Alan Greenspan.
Leia a resenha completa do livro "Kyoto 2" no caderno Mais da Folha de S.Paulo, aqui (se for assinante da Folha ou do UOL). Resolvi ler o livro e propus escrever sua resenha só por ter sido indicado por George Monbiot, colunista do diário britânico The Guardian. Se o aquecimento global for mesmo uma conspiração, como acredita uma minoria de incautos e mal-intencionados, Monbiot é o conspirador com maior talento na praça.