Valor e fraude em ciência
Um pouco antes da mesa-redonda de sábado na exposição Einstein (leia aqui), um dos palestrantes - o físico Carlos Escobar - alertou-me para extenso material publicado no caderno EU & Fim de Semana do jornal Valor Econômico, de autoria de Carla Rodrigues, sob o título "É proibido colar" (aqui, para cadastrados).
O ponto de partida é o caso de plágio que pôs em polvorosa o Instituto de Física da USP, já comentado por mim (leia aqui). Rodrigues, porém, amplia o debate para incluir várias iniciativas pelo mundo para enfrentar a epidemia.
Lendo sua reportagem, lembrei-me de um livro vigoroso, ainda que um pouco moralista, que li e resenhei: The Great Betrayal – Fraud in Science (A Grande traição - Fraude em ciência), de Horace Freeland Judson (Harcourt, 2004, ISBN 0151008779). Não consegui encontrar link da resenha na internet, feita em 2005 para a revista EntreLivros. Mas reproduzo alguns trechos que vêm a calhar, inclusive e sobretudo o parágrafo final:

Horace Freeland Judson é um jornalista de ciência que se notabilizou por escrever o jovem clássico The Eighth Day of Creation (O Oitavo Dia da Criação, 1979), um dos principais livros sobre a história da descoberta da estrutura em dupla hélice do DNA. Partindo daquela monumental reportagem, Judson enveredou pela história ciência, tornando-se diretor do Centro para História da Ciência Recente da Universidade George Washington. Sua meticulosidade no manejo de fontes escritas e entrevistas fazem deste The Great Betrayal (A Grande Traição) um forte candidato a ocupar lugar honroso na literatura sobre fraude científica.
A maior qualidade do livro é que Judson não se limita a narrar casos de fraude. Ele se propõe a extrair da narrativa sobre vários episódios algumas conclusões sobre a própria natureza da investigação científica no mundo contemporâneo, sob intensas pressões de competitividade. Traça paralelos instigantes com o aumento concomitante dos casos de fraude financeiras (Enron, Worldcom) e jornalística (Jason Blair).(...)
Nos capítulos finais, o fôlego analítico de Judson se revela quando tece relações entre a ocorrência contemporânea de fraudes e outras questões relevantes para a sociologia da ciência, como as deficiências do mecanismo de peer-review (revisão por pares). Dirige palavras duras também para a autoria banalizada (artigos com autores demais) e propriedade intelectual. E ainda encontra ânimo para especular sobre as implicações da emergência de publicações eletrônicas sem peer-review e as atualmente tensas relações entre o mundo judicial e a esfera da ciência. (...)
Como é farto em detalhes sobre os casos mais rumorosos de fraude, a obra oferece um panorama revelador dos meandros da ciência realmente existente, que tem muito pouco a ver com a atividade idealizada no imaginário social. Ao ocupar-se dos tropeços de cientistas de carne e osso, também eles movidos por interesses e vaidade, chama a atenção do público para um problema que se generaliza, ao menos na cena internacional, embora não sejam ainda muitos os casos conhecidos no Brasil –provavelmente, pela crônica moléstia nacional da subnotificação.