Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Já temos Ig Nobel

Já temos Ig Nobel

Sapo levitado magneticamente, Ig Nobel de 2001

(Foto: Reprodução/Wikipedia)

Para exterminar nosso complexo de vira-latas de vez, agora só falta emplacar um papa, um assento no Conselho de Segurança na ONU, um Oscar e um Nobel de verdade.

Quem disse que o jornalismo científico não presta para nada? Graças a Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, o Brasil conseguiu seu Ig Nobel, tornando-se o segundo país da América do Sul a obter o galardão humorístico (a Argentina já tinha o seu, Diego Golombek).

O prêmio foi para arqueólogo Astolfo Araújo, da USP, e seu colega José Carlos Marcelino, do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, "por demostrarem que tatus são capazes de bagunçar sítios arqueológicos". O estudo, de 2003, foi indicado para o Ig Nobel pelo próprio repórter, hoje editor.  Jornalismo científico engajado é isso aí.

Veja a lista completa de ganhadores de 2008 em inglês:

  • Archaeology: Astolfo Gomes de Mello Araujo and Jose Carlos Marcelino, for showing that armadillos can mix up the contents of an archaeological site
  • Biology: Marie-Christine Cadiergues, Christel Joubert, and Michel Franc, for discovering that fleas that live on dogs jump higher than fleas that live on cats
  • Chemistry: Sheree Umpierre, Joseph Hill, and Deborah Anderson, for discovering that Coca-Cola is an effective spermicide,[31] and C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu, and B.N. Chiang for proving it is not
  • Cognitive science: Toshiyuki Nakagaki, Hiroyasu Yamada, Ryo Kobayashi, Atsushi Tero, Akio Ishiguro, and Ágota Tóth, for discovering that slime molds can solve puzzles
  • Economics: Geoffrey Miller, Joshua Tyber, and Brent Jordan, for discovering that exotic dancers earn more when at peak fertility
  • Literature: David Sims, for his study "You Bastard: A Narrative Exploration of the Experience of Indignation within Organizations"
  • Medicine: Dan Ariely for demonstrating that expensive counterfeit drugs are more effective than inexpensive counterfeit drugs
  • Nutrition: Massimiliano Zampini and Charles Spence, for demonstrating that food tastes better when it sounds more appealing
  • Peace: The Swiss Federal Ethics Committee on Non-Human Biotechnology and the citizens of Switzerland, for adopting the legal principle that plants have dignity
  • Physics: Dorian Raymer and Douglas Smith, for proving that heaps of string or hair will inevitably tangle

Escrito por Marcelo Leite às 11h16

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Fungos, traças e ovos

Fungos, traças e ovos


Fotos: Rosamond Purcell

Quando criança, tinha certa fascinação por terrenos baldios, que meio século atrás nem sempre eram murados. Com sorte se encontravam ali objetos deslumbrantes, como restos de máquinas e aparelhos enferrujados, bicicletas emperradas e bonecas sem cabeça.

Revi um pouco desse encanto numas poucas fotos da fotógrafa dos EUA Rosamond Purcell, com que topei por acaso e que reproduzo nesta nota. A página da moça, "em construção", é meio pobre, mas o que achei ali promete deleites futuros. Se não, vejamos:

Pensando bem, não é completamente o mesmo tipo de decomposição - oxidação à frente - que me fascinava em incursões de arqueologia urbana amadora. Purcell parece ter uma sensibilidade aguçada para as maquinações de um decaimento mais orgânico do que físico-químico.

O traço deixado por traças ("Bookworms" é o título de um de seus livros de fotos) e a eclosão de fungos, por exemplo, são os vestígios quase forenses que ela parece perseguir metodicamente com a lente. De modo infértil, porém, sem de fato reconstituir fragmento de uma história por trás da decadência. Objetos prenhes de memória, mas das quais - se memórias fossem pessoas - nunca se conhecerão os nomes, o sexo, as preferências.

Ainda mais estranho é descobrir que o próximo livro de Purcell se chama "Ovo e Ninho". Já encomendei o meu, mais por curiosidade de investigar se há pontos de contato, e quais, com o trabalho anterior. Ovos e ninhos, afinal, são a imagem acabada do bem-construído, da organicidade, do intricado que abriga, nutre, protege. O oposto do que corrói, esfarela, desentranha.

Quem já viu de perto ou teve em mãos um ninho de japu, da mata atlântica, ou de japiim, na Amazônia, tem uma idéia do que se trata. Um emaranhado de fiapos e fibras e gravetos que de caótico só tem a trama; no todo, é uma obra-prima de regularidade e robustez. Nada a ver com um tronco caído na mata, infestado de cupins - que não deixa de ter sua beleza, por certo, mas no qual a desordem se impõe em ordem crescente, inapelavelmente desagregadora, com fatalidade entrópica.

Talvez o tema oculto do que Purcell fotografa seja isso, a regularidade imperiosa da ação da natureza. A ver. Enquanto o livro não chega (sai do prelo só dia 15), resta dar uma espiada nesta seqüência de imagens oferecida pela revista The Scientist (pode ser preciso registrar-se).

Escrito por Marcelo Leite às 12h27

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Corrida de sapo-cururu acalma australianos

Corrida de sapo-cururu acalma australianos

Foto: B. L. Phillips/Ecography

Leio na revista americana Science que corridas de sapos-cururus são um passatempo comum em bares australianos. Numa terra onde se come filé de canguru (experimentei, é bom), nada a estranhar. A não ser, claro, pela pergunta óbvia: o que fazem sapos-cururus na Austrália? E outra: o que isso tem a ver com ciência?

Calma.

O sapo-cururu (Bufo marinus), natural das Américas, do Texas até o sul da Amazônia, conhecido como sapo-da-cana em espanhol e inglês, foi introduzido em vários países na esperança de controlar pragas de canaviais, como besouros. Para a Austrália o bicho famoso por seu veneno (quem já viu um cachorro espumar e entrar em choque depois de morder as glândulas de um Bufo sabe do que estou falando) foi levado em 1935. Não acabou com os besouros e se tornou ele mesmo uma praga para a fauna de lá, na ausência de predadores naturais.

O cururu está em franca expansão pela Austrália. Começou pelo norte, mas algumas previsões catastróficas já projetaram que o bicho de 10-15 cm (o Guiness fala de um com 38 cm) invadiria as grandes cidades do sul, como Sydney e Melbourne.

Isso até Michael Kearney, da Universidade de Melbourne, promover a sua própria corrida de sapos. Ele não organizou a competição para se divertir, nem para tranqüilizar seus conterrâneos, mas essa pode ser a melhor contribuição de sua criatividade - tranqüilidade para australianos e diversão para nós, velhos conhecidos dos cururus ("Sapo-cururu / na beira do rio / quando o sapo canta, ó maninha / é porque tem frio...").

Kearney queria saber em que velocidade os cururus se locomovem em determinadas condições de temperatura, pois esse animais não controlam a do próprio corpo e sua atividade cai na razão direta da temperatura ambiente. Usou espécimes de populações de quatro áreas australianas e variou a temperatura. Descobriu que eles saltam de 0,3 km/h sob 15 °C a 2,2 km/h a 30 °C (abaixo e acima disso o desempenho dos atletas despenca vertiginosamente).

Com base nessa informação básica e em dados climáticos, o grupo de Kearney projetou num mapa a área de abrangência potencial do cururu na Austrália. Fez isso levando em conta também outras características do nicho ocupado pelo sapo, como a disponibilidade de lagos e poças para o bruto se reproduzir. Este mapa indica as condições mais favoráveis para o B. marinus (a linha preta demarca o território onde ele já se encontra):

A boa nova é que o cururu dificilmente chegará a Sydney e jamais alcançará Melbourne, conclui Kearney em seu artigo para o periódico científico Ecography, edição de agosto (material complementar pode ser visto aqui). É frio demais para ele, por lá. Em compensação, o noroeste da Austrália é uma avenida aberta para o sapo. Com a ajuda do aquecimento global, poderá chegar até Perth. Mas nunca colonizará o miolo desértico do país (Outback).

Ufa.

Escrito por Marcelo Leite às 19h43

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Vergonha na USP - mediocridade a caminho

Vergonha na USP - mediocridade a caminho

Recebi da leitora Beatriz Couto, professora titular de Planejamento Urbano e Regional da Escola de Arquitetura da UFMG, os comentários abaixo sobre minha coluna "Vergonha na USP", que reproduzo com sua autorização.

Antes, porém, agrego o meu comentário: a questão do plágio está se disseminando pela base da vida acadêmica. Estudantes, sobretudo nas faculdades que proliferaram da década de 1990 para cá, acham normal copiar trabalhos inteiros da internet; não seria de esperar outra coisa de quem entrou numa faculdade graças a uma seleção só para constar. Logo esses estudantes serão os novos professores e pesquisadores, o que faz supor que vem aí uma bola de neve. Aliás, já há professores e até diretores de escola que, na contingência de precisar produzir trabalho acadêmico, também cortam e colam. Se não fizermos algo JÁ, o pouco que sobrevive de rigor e valores acadêmicos poderá sair pelo ralo, e aí vai ser um bocado difícil de recuperar.

Agroa, os comentários de Beatriz Couto:


Bom que a Folha tenha tomado a si a exigência de resposta pública para a denúncia de plágio na USP: é preciso que a questão dos artigos "Ctrl c / Ctrl v" venha a público. Na verdade, é até preciso que se proponha uma auditoria na produção acadêmica contemporânea porque o caso mais freqüente é de autoplágio (o neologismo se justifica), com artigos inteiros com até muitíssimo mais que 25% de índice de recobrimento. Pela lógica do jogo em curso, como você verá, estes sequer correm o risco de serem denunciados.

Observe-se que tal questão não espanta ninguém, seja na universidade ou nos órgãos de fomento (quem veio a público se manifestar sobre a questão?), mas claro, desde que fique tudo interna corporis, regra que a Folha quebrou. Questionados, a resposta padrão dos órgãos responsáveis pela avaliação da produção acadêmica [tem sido] reagir sempre com a postura "isto é questão localizada, impossível de ser controlada numa instituição deste tamanho".

Espantosamente, ninguém propõe medida de implementação simples como a verificação de conteúdo idêntico entre artigos diferentes pelos atuais leitores de texto computadorizados que poderiam identificar com facilidade, em pouco tempo e em massa, se e em que medida cada artigo recorreu a plágio ou a autoplágio.

Motivo? Os índices de produtividade exigidos pelos órgãos de fomento, muito acima do que alguém, com dedicação e esforço pessoais possa atingir, como corretamente identifica Salinas no Painel do Leitor de 08/09/08. A dificuldade em tomar posição no caso há de ser hamletiana: identificação com o transgressor.

Esta exigência de produtividade sobre-humana não é também inocente. Infelizmente o problema não se reduz a disputas por migalhas de micropoder. Estamos mesmo é assistindo a mudança capitaneada pelos órgãos de fomento com a anuência silenciosa e nunca justificada de público das direções universitárias (que só reconhecem o lado positivo do recente aumento de produtividade na academia) de um padrão histórico de produção fincado na autoria reconhecível que vem da fundação da universidade ainda na Idade Média e do qual a ciência moderna dependeu para produzir tudo o que fez: pelos serviços prestados, a substituição de tal procedimento só poderia ser feita depois de uma vasta discussão pública, o que espantosamente não ocorreu.

Em seu lugar está em andamento a implantação do trabalho coletivo (bem-vindo!) com expropriação de mais trabalho (este é o x da questão). Ou seja, quem conseguir publicar mais é que controlará as relações de produção intelectuais: sai como chefe do grupo, conseguindo o escasso financiamento, induzindo suas idéias e capitalizando o prestígio intelectual gerado pelo trabalho produzido em grupo.

O verso da medalha é que aqueles que publicarem apenas o que de fato conseguem fazer de original acabarão como pouco produtivos, com dificuldade de conseguir financiamento e por isso candidatos a participar do "grupo" associado aos altamente produtivos.

As conseqüências estão à vista, inclusive com o rebaixamento da atividade crítica na universidade e com isto, a mediocrização ou perda de relevância do trabalho executado (o processo funciona melhor com a padronização dos conteúdos e linhas de pesquisa), fora o exemplo que está sendo passado para as novas gerações, objeto de disputa para tocar o trabalho empírico. O silêncio dos intelectuais tem lá as suas razões.

No limite, isto é que justifica a aparente cegueira dos órgãos de fomento e das universidades, que já até inventaram a avaliação de trabalhos terceirizada, ou seja, sem que o avaliador leia o texto, mas que apenas considere a credibilidade aparente ou convencionada do meio de divulgação. Como se editores de revistas fossem sempre infalíveis (olha o caso Sokal!), ou se o acesso a editor de revistas respeitáveis obedecesse sempre a um mecanismo meritocrático e transparente.

Escrito por Marcelo Leite às 14h58

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Vergonha na USP - monocultura da produtividade

Vergonha na USP - monocultura da produtividade

Recebi do leitor Peter Schultz, do Instituto de Física da Unicamp, os comentários abaixo sobre o caso de plágio na USP ea coluna que escrevi a respeito. Reproduzo-os com sua autorização:


Em relação ao "caso USP",concordo com a tua argumentação e acho que valeria a pena recapitular como casos análogos forma tratados em outros lugares. Eu gostaria, no entanto, de comentar uma questão que se coloca nas entrelinhas e o presente caso talvez não passe de um símbolo, exemplo ínfimo. Primeiro é preciso deixar claro que aparentemente não se trata de fraude no sentido de forjar dados, que quando interessantes despertarão curiosidade de outros grupos e, no caso da reprodutibilidade duvidosa, poderão ser investigados. É o caso recente da pesquisa sobre células tronco de um cientista coreano, sem mencionar o tristemente famoso Schoen do Bell Labs do começo deste século. Trata-se aqui de "cópia e cola" de trechos, ou seja, plágio, não da pesquisa, mas da comunicação dessa e omissão de créditos. Talvez a elaboração de um texto original - repetidas vezes sobre o mesmo tema - seja realmente uma tarefa penosa para os físicos, dada a formação pouco humanista que recebemos. É aí o passe para o ponto que quero abordar: um possível efeito da monocultura de indicadores que se criou. Publique-se em quantidade cada vez maior ao ponto de "cut and paste" passar a ser uma prática aceitável? E que seja em revistas de impacto (é caso da Physical Review C do acontecimento em questão) e, se possível, bastante citado. Mas que ninguém realmente preste atenção no conteúdo, pois ai a prática de cópia e cola pode ser descoberta. Parece-me um paradoxo daninho: passamos a fomentar a veiculação e citação crescentes das nossas pesquisas, mas não necessariamente do que realmente temos a dizer.

Escrito por Marcelo Leite às 15h21

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Vergonha na USP - o "fachadismo"

Vergonha na USP - o "fachadismo"

Recebi de João Carlos Alves Barata, professor do Instituto de Física da USP, a manifestação que reproduzo a seguir:


Gostaria de cumprimentá-lo pela matéria "Vergonha na USP", publicada na edição de hoje (28/09/2008) da Folha de S.Paulo.

Trata-se de uma matéria contundente e corajosa e que coloca em termos devidos diversos pontos de um dos mais lamentáveis episódios recentes da vida acadêmica uspiana e nacional.

Permita-me estender algumas considerações sobre seu texto e sobre o episódio.

Do ponto de vista de alguns dos pesquisadores docentes do Instituto de Física da USP (IFUSP), ao qual pertenço, o que está em jogo não é apenas a questão do plágio científico. Uma acusação de plágio científico é matéria grave, a exigir procedimentos de investigação e de julgamento, que devem culminar com o sentenciamento ou absolvição dos envolvidos, sempre resguardando o pleno direito de defesa aos acusados. Esses procedimentos, porém, devem ser também acompanhados de diversas salvaguardas que garantam aos denunciantes prosseguirem livres de pressões e de ameaças enquanto as investigações e os julgamentos são levados a cabo. Por diversas razões, a USP falhou nesse aspecto também.

Tem sido noticiado, mas a meu ver de forma insuficiente, que alguns dos acusados de cópia de artigos científicos, e alguns dos seus apoiadores, têm exercido pressões diretas e indiretas, interna e externamente ao IFUSP, sobre um grupo específico de pesquisadores ligados aos acusadores principais, resultando em um clima de ameaças veladas, abusos verbais e desmandos prepotentes que danifica gravemente a convivência acadêmico-científica e pessoal em nossa instituição. Aquela que já foi, talvez, o principal instituto de pesquisa em Física no país está agora, em conseqüência, talvez irreversivelmente condenado à decadência e à irrelevância científica.

Falando em nome pessoal, e talvez no de vários colegas no início ou meio de carreira (meu caso), vejo a perspectiva de continuar trabalhando nesta instituição como profundamente desanimadora. A presente crise teve a desvirtude de exacerbar problemas existentes há décadas no instituto, nos cursos ministrados, nas atribuições departamentais, na estrutura de poder e na própria postura individual dos pesquisadores. Não há reversão possível para esse estado de coisas face à conivência comodista, oportunista ou pusilânime de colegas e dos órgãos centrais da universidade.

Essas questões que circunscrevem a questão do plágio, às quais me referi acima, podem parecer à primeira vista de natureza paroquial, uma "briga de comadres por migalhas de micropoder institucional", como disse em seu artigo. Eu não o censuro por isso pois, de fato, é essa uma visão do episódio que parece refletir no meio externo à universidade. A natureza dessas questões, porém, deve sim atrair o interesse da sociedade em geral, pois diz respeito à condução da coisa pública na universidade brasileira, às dificuldades de criação de uma tradição acadêmica e científica em uma sociedade atrasada, patriarcal, corporativista e autoritária e, por fim, à postura individual freqüentemente observada em acadêmicos diante de questões relacionadas à imagem das instituições em que atuam.

Sem querer me estender demais nessas considerações, vale dizer que um dos aspectos mais lamentáveis que vivenciamos nesse episódio foram as repetidas demonstrações daquilo que chamo de "fachadismo uspiano": uma atrofia moral, abundantemente observada no seio da USP, que se manifesta na tentativa de preservar a todo custo a imagem externa da instituição como a de a mais importante universidade do país, livre de vícios e máculas. Segundo essa prática, todos os escândalos e todos os desvios de conduta devem ser internamente abafados e ocultados para que a sociedade externa não altere sua visão da universidade como sendo a de uma vestal erudita e serena, impoluta e estática. Não é necessário dizer a pessoas inteligentes e cultas que a única postura realmente eficaz em preservar a dignidade de uma instituição, qualquer instituição, é a oposta: a da transparência isenta e austera nos julgamentos e procedimentos corretivos.

Irmão do corporativismo, essa doença largamente disseminada nas instituições públicas nacionais, o "fachadismo uspiano" alimenta-se também da pusilanimidade, traço de caráter não-raramente encontrado em nosso meio acadêmico e que expressa uma característica marcadamente nacional no trato de questões públicas: o medo do indivíduo na defesa de seus direitos e interesses, fruto de uma sociedade ainda parcialmente refratária às virtudes da democracia.

Por que a crise no IFUSP interessa ao cidadão comum? Por exibir os perigos em que vivem instituições acadêmicas que tentam crescer em um meio pobre de tradições científicas, no qual não se impôs ainda a percepção do papel substantivo do mérito científico como critério de contratações e promoções acadêmicas e administrativas.

Por que a atuação da Reitoria da USP e dos órgãos centrais dessa universidade nos referidos episódios interessa ao cidadão comum? Por um lado, por exibir o fato de que a ausência de transparência associada ao corporativismo fachadista pode conduzir à situação na qual detentores de poder protegem detentores de poder sob o olhar complacente de órgãos que abdicam de sua independência para não obstar os interesses do poder universitário. Por outro lado, por exibir as conseqüências da condução ao poder universitário de indivíduos desconhecedores da natureza de uma Universidade real, de seus fundamentos e de seus propósitos.

A percepção de que o episódio do plágio envolve uma "briguinha por poder" é precisamente, portanto, a visão que interessa aos perpetradores do plágio e seus protetores. É a visão que os mesmos têm propagado internamente também.

Por uma questão de justiça, quero ressaltar, por fim, a importância que a Imprensa tem tido no tratamento desse episódio. Creio ser unânime entre meus colegas próximos a opinião de que o pouco que foi alcançado até o momento só foi possível devido ao exercício da liberdade que alguns valorosos repórters e colunistas se permitiram. Internamente à USP todos os esforços foram vãos e a nada levariam.

Agradeço a atenção da leitura desta mensagem. Se for do seu interesse divulgá-la de alguma forma, dou-lhe expressamente permissão para tal, desde que a integridade da mesma seja, por gentileza, preservada.

Escrito por Marcelo Leite às 12h10

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Vergonha na USP - reação

Vergonha na USP - reação

Recebi do leitor Elcio Abdalla, um dos professores do grupo do Instituto de Física da USP que acusa seu diretor de plágio, os comentários a abaixo:


Segui com interesse seu artigo hoje na Folha. No entanto gostaria de discordar apenas das razões que nos levam a tentar levar adiante o caso: não são apenas "brigas comezinhas pelo poder", ou "brigas de comadres". O fato é que a Universidade hoje está dominada por uma escória que nada tem a ver com a verdadeira academia. Nós que levamos o caso adiante, através inclusive da própria Folha, pelo esforço do Rafael Garcia, estamos tentando simplesmente reverter este tenebroso processo pelo qual a Universidade está dominada. Não é o poder a meta principal, mas a verdadeira academia que formou pessoas como você e tantos outros que têm dado contribuições relevantes ao país.

Escrito por Marcelo Leite às 21h01

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Vergonha na USP

Vergonha na USP

 

A Universidade de São Paulo, maior e melhor instituição pública de pesquisa e ensino superior do Brasil, faz 75 anos em 2009. (...)

Não só ex-alunos, mas todo contribuinte que sustenta a USP e qualquer pessoa que cultive valores intelectuais deve preocupar-se com o modo como o caso [de plágio no Instituto de Física] foi tratado pela reitoria. Se a instância máxima da universidade agiu com o propósito de resguardar seu prestígio, bem, escolheu a pior maneira de fazê-lo.

Causam perplexidade dois comunicados sobre o caso divulgados pela reitoria nos dias 22 e 23 deste mês (na internet). O primeiro informava que a Comissão de Ética da USP havia concluído -uma semana antes...- "os trabalhos de apreciação do caso de suposto plágio envolvendo professores do Instituto de Física".

O qualificativo "suposto" indica a disposição clara de proteger os investigados, embora eles próprios tivessem admitido o deslize. O paternalismo corporativo (ou seria "maternalismo"?) vem explicitado a seguir:

"Ressalte-se que o relatório da Comissão de Ética não é um documento público, uma vez que seu conteúdo envolve a avaliação de comportamento ético individual. Portanto, a divulgação de atos do processo só pode ser feita com a autorização dos investigados, conforme reza a Constituição Federal, em seu artigo 5º, [inciso] X". (...)

Uma espécie de errata foi publicada pela reitoria no dia seguinte, com a satisfação negada ao público 30 horas antes:

"Diante da conclusão dos trabalhos da Comissão de Sindicância e da Comissão de Ética, sobre a investigação de plágio, a Reitoria comunica que, no entendimento da Comissão de Ética, embora os trabalhos científicos, que foram objeto da investigação, contenham pesquisa original, houve um desvio ético na redação dos mesmos por uma inaceitável falta de zelo na preparação dos artigos publicados. Isso resultou na consignação, pela Comissão, de uma moção de censura ética aos autores, pela não-observância dos preceitos éticos da Universidade". (...)

É uma vergonha que a reitoria prossiga em sua recusa a dar uma explicação completa do caso.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 10h01

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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