Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Hildebrando intimado pelo Ibama por biopirataria

Hildebrando intimado pelo Ibama por biopirataria

Leitores assíduos deste blog e do que escrevo na Folha de S.Paulo (leia aqui, se for assinante) sabem de minha implicância com a paranóia da biopirataria, uma lenda amazônica surgida talvez com o contrabando de 70 mil sementes de seringueira no século 19, pelo inglês Henry Wickham, que se espalhou entre ambientalistas, militares e militantes do PCdoB, fincando raízes no Ibama. Pois esse povo agora passou da conta, conforme leio no Jornal da Ciência.

A edição de hoje traz uma carta do ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, a seu colega do Meio Ambiente, Carlos Minc, pedindo atenção para uma intimação do Ibama apresentada a Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Rodrigo Stabeli, do Instituto de Patologia Tropical de Rondônia (Ipepatro). Ambos foram objeto de uma denúncia anônima de biopirataria, pois estariam coletando animais, vegetais e sangue de populações tradicionais e levando para fora do país.

Em primeiro lugar, duvido. Hildebrando é um pesquisador que já prestou enormes serviços à ciência e ao país. Depois de passar muitos anos no Instituto Pasteur de Paris, onde foi diretor, retornou já aposentado ao Brasil e foi se embrenhar onde raríssimos biólogos do Sul Maravilha pensariam em se estabelecer: Rondônia. Só por isso já mereceria mais consideração.

Leia o que diz Rezende, na carta:


A iniciativa da implantação do Ipepatro foi liderada e conduzida pelo Dr. Luiz Hildebrando Pereira da Silva, um dos mais importantes pesquisadores do país, e que na semana passada recebeu o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo, onde iniciou sua carreira acadêmica.


Sergio Mascarenhas, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), enviou artigo enfurecido ao Jornal da Ciência. Pergunta: "Darwin se julgado por estes ignorantes quando visitou o Brasil seria preso e encarcerado pelo Ibama?"

Com a palavra, o ministro Minc.

Escrito por Marcelo Leite às 16h01

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Ainda mais carbono na atmosfera

Ainda mais carbono na atmosfera

 

O Projeto Carbono Global, esforço coordenado de vários grupos de pesquisa pelo mundo "para estabelecer uma base de conhecimento comum e consensual de apoio ao debate e à ação política para diminuir a taxa de aumento de gases do efeito estufa na atmosfera", acaba de lançar um balanço tenebroso, o "Carbon Budget 2008" (veja aqui uma apresentação PowerPoint sobre os dados). Resumo da ópera:

  • Concentração de CO2 na atmosfera - Subiu 2,2 ppm (partes por milhão), 10% acima da média 2000-2007 (2 ppm) e quase 50% acima da média dos últimos 20 anos (1,5 ppm). Ou seja, está ocorrendo uma aceleração no aumento da camada de gases que agrava o efeito estufa. Estamos 38% acima dos níveis de 1990, ano de referência do semidefunto Protocolo de Kyoto. Chegamos a 383 ppm, contra 280 ppm antes da Revolução Industrial. É o maior valor nos últimos 650 mil anos.
  • Emergentes na frente - Países em desenvolvimento, em especial China e Índia, mas também o Brasil, já respondem por mais da metade das emissões mundiais de CO2. Queima de combustíveis fósseis (carvão mineral, óleo e gás natural) e produção de cimento são os maiores responsáveis pelo aumento. Em 2006, a China ultrapassou os EUA e se tornou a maior emissora. De um ponto de vista histórico, porém, os países menos desenvolvidos (80% da população) respondem só por um quinto do carbono extra lançado na atmosfera.
  • Sumidouros encolhem - Parte do carbono lançado pela humanidade na atmosfera é reassimilado por sistemas naturais, como oceanos e florestas. Mas essa parcela "neutralizada" está diminuindo: 50 anos atrás, 60% do emitido eram reabsorvidos; hoje, só 54%.

Isso tudo com o Protocolo de Kyoto, que previa redução de 5%, por países desenvolvidos, sobre os níveis de 1990. Imagine sem ele, como corremos o risco de ficar se fracassarem as negociações em curso pelos próximos 14 meses, diante da prioridade óbvia que a crise financeira norte-americana está assumindo.

De todo modo, se vier um acordo (o que é imprescindível; todavia, o imprescindível não aconteceu antes de 1914 e 1938), países como China, Índia e Brasil dificilmente escaparão de algum compromisso, mesmo porque nada aconteceria se eles também não agirem para reduzir suas emissões, com ou sem metas obrigatórias. Não é mais uma questão de política, mas de física.

Escrito por Marcelo Leite às 15h09

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61 Nobel apóiam Obama

61 Nobel apóiam Obama

Barack Obama recebeu um apoio de peso: 61 ganhadores de um Nobel publicaram carta a seu favor, num movimento organizado por Harold Varmus presidente do Memorial-Sloan Kettering Cancer Center de NOva York e agraciado com o prêmio de Medicina de 1989 (curiosidade: quando seu prêmio foi anunciado, Varmus era um "Nieman spouse", ou seja, acompanhava a mulher, Connie, durante a bolsa Nieman para o ano sabático que a jornalista usufruía na Universidade Harvard).

Não creio que o apoio vá fazer muita diferença, eleitoralmente. Afinal, os Estados Unidos são o país em que John McCain conseguiu dar um gás na sua candidatura escolhendo uma desconhecida fotogênica que tirou seu primeiro passaporte em 2007. Mas é engraçado ver tanta gente, de Marshall Nirenberg a Jim Watson e Wally Gilbert, na mesma lista.

Por falar em Nobel, os anúncios dos prêmios deste ano começam dia 6. Acompanhe aqui.

Eis a lista:


Escrito por Marcelo Leite às 12h04

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Abaixo o pensamento positivo dos EUA

Abaixo o pensamento positivo dos EUA

Barbara Ehrenreich, um misto de socióloga com jornalista, é alguém que se deve ler com atenção. Hoje no jornal The New York Times ela dá uma paulada na cultura do otimismo, autoconfiança e delírio carreirista que assola os Estados Unidos (ou assolava, antes da crise) e sustenta a alcatéia de autores de livros de auto-ajuda que se vêm às pencas nas livrarias de aeroporto.

Leia alguns trechos da fulana:


A idéia é acreditar firmemente que você vai conseguir o que quer, não só porque isso o fará sentir-se bem, mas porque "visualizar" algo - ardente e concentradamente - de fato faz com que aconteça. Você será capaz de pagar aquela hipoteca de juros variáveis ou, na outra ponta da transação, transformar milhares de hipotecas podres em gigalucros - basta acreditar que você pode. (...)

O pensamento positivo é endêmico na cultura americana - dos programas de emagrecimento aos grupos de apoio ao câncer - e, nas duas últimas décadas, lançou raízes profundas também no mundo corporativo. (...)

A antes sóbria indústria das finanças não ficou imune.  Nos seus websites, oradores motivacionais relacionam com orgulho companhias como Lehman Brothers e Merrill Lynch entre seus clientes. Mais que isso: para aqueles bem lá no topo da hierarquia corporativa, todo esse pensamento positivo não deve ter parecido nada delirante. Com a escalada da remuneração de executivos, os chefes podiam obter quase tudo que quisessem, bastava exprimir o desejo. Ninguém estava psicologicamente preparado para os tempos duros quando eles irromperam, porque, de acordo com os mandamentos do pensamento positivo, até pensar em problemas era atraí-los. (...)

Quando se trata de como pensamos, "negativo" não é a única alternativa a "positivo". Como mostram os casos de deprimidos, o pessimismo consistente pode ser tão imotivado e delirante quanto seu oposto. A alternativa a ambos é o realismo - enxergar os riscos, ter coragem para enfrentar as más novas e estar preparado para a penúria assim como para a fartura. Deveríamos dar-lhe uma chance.


Deveriam traduzir o texto e distribuir nas faculdades de administração e marketing de todo o Brasil. Talvez uma cópia também exercesse alguma influência nas mãos de Lula, nestes tempos de pré-sal e crises que "não atravessam o Atlântico"..

Escrito por Marcelo Leite às 10h55

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Lula, a ONU e a matriz energética

Lula, a ONU e a matriz energética

Ando meio em falta com os leitores deste blog, mas lhes agradeço por mantê-lo vivo com seus comentários, apesar da falta de assiduidade do titular.

Destaco hoje o discurso de Lula na ONU (leia aqui, ou ouça aqui). Não é nenhuma peça inesquecível de retórica, mas tem o mérito de apontar o dedo para os aspectos morais da crise econômica americana - aquilo que os economistas costumam chamar de "moral hazard", não sem pedantismo, mas quase sempre referindo-se aos mercados imperfeitos dos países pobres ou em desenvolvimento.

(Por falar nisso, um parêntese: não deixe de ler a reportagem reveladora e arrasadora de Sergio Leo, do jornal Valor Econômico, sobre como foi feito - nas coxas - o relatório "Doing Business", do Banco Mundial, que põe o Brasil lá em baixo em matéria de ambiente para negócios; o caso teve continuação aqui.)

O que me chamou a atenção no discurso presidencial foi a afirmação de Lula sobre a matriz energética cada vez mais limpa do país:


O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa.


Ora, como escrevi muito mais de dois anos atrás numa coluna ("Pobre e menos limpinho"), para mim o país andava era na rota de sujar sua matriz. Escrevi na época:


O governo brasileiro gosta de jactar-se pela matriz energética "limpa" do país. Nada menos que 45% da energia consumida aqui sai de fontes renováveis, como hidrelétricas (a média mundial é 13%). Considerada só a geração de energia elétrica, a fatia sobe para 85%, graças à abundância de rios e de chuvas para encher reservatórios.

A má notícia é que não vai continuar assim. Segundo Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (apesar do nome, a EPE é vinculada ao Ministério das Minas e Energia), em uma década essa participação cairá para 70%. A previsão está em artigo seu no jornal "O Estado de S. Paulo". Vem aí uma matriz obrigatoriamente mais suja, pois a diferença de 15 pontos percentuais terá de ser suprida por termelétricas a combustíveis fósseis (óleo, gás natural ou até carvão) ou energia nuclear.


Como então é que agora o governo vem dizer que as renováveis estão aumentando e já chegam a 90% da geração elétrica? Reverteu-se a tendência?

Depende do horizonte considerado. No curto prazo, o aumento da produção de cana e álcool está levando a um aumento na participação da queima de biomassa para produzir eletricidade.

No planejamento de longo prazo, para 2030, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta uma piora nos próximos anos e uma retomada de limpeza mais à frente. Veja o gráfico que consta do Plano Nacional de Energia 2030, com respeito à energia primária (todas as formas de energia em conjunto):

Reprodução do PNE 2030, pág. 38

No caso da geração elétrica, pelas contas da EPE, a participação das hidrelétricas cairá de 91% (em 2005, incluindo importação de Itaipu) para 78% em 2030. A diferença será coberta com um aumento da participação de biomassa, gás natural e... usinas nucleares, que passariam de 1% a 3% do total da eletricidade gerada.

Até o conceito de limpeza, como se vê, anda meio relativo.

Escrito por Marcelo Leite às 22h29

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Genoma a US$ 399

Genoma a US$ 399

A chamada genômica pessoal está mesmo deixando de ser uma ficção do marketing para se tornar realidade. A empresa 23andMe, dos Estados Unidos, anunciou que baixou o preço de sua análise individualizada do genoma de US$ 999 para U$ 399. Agora, se o serviço traz mesmo benefício real para o consumidor, isso já são outros 400. (...)

As opções mais em conta só fazem a chamada análise de SNPs (pronuncia-se "snips"). É a abreviação em inglês de "polimorfismos de nucleotídeo único", uma troca de letra em posições determinadas da cadeia do DNA.
Cada um de nós pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes de outra pessoa.

A maioria dos pontos do genoma onde ocorrem essas trocas já está mapeada. Bilhões de outras posições na seqüência ou não comportam variações (as mutações seriam prejudiciais) ou elas não têm grande efeito. A lógica da análise de SNPs é que doenças comuns devem correlacionar-se com as variantes individuais. (...)

Quem consultar a lista de "condições" da 23andMe (muitas não são doenças; confira a relação, em inglês, aqui) se decepcionará. Há no rol de 80 itens algumas coisas importantes, como diabetes e câncer de mama, mas também sensibilidade ao sabor amargo e tipo de cera de ouvido. (..)

No caso do diabetes tipo 2, os 20 SNPs associados explicariam só 2% a 3% da alta incidência em algumas famílias. O cliente da 23andMe com essas variantes poderia concluir que terá a doença. Na realidade, só tem uma probabilidade aumentada.

Há quem veja no esquema um furo muito mais grave. O jornal "The New York Times" publicou na terça-feira reportagem de Nicholas Wade com o geneticista de populações David Goldstein, da Universidade Duke (EUA), na qual o pesquisador põe sob suspeita a própria base científica da hipótese doença comum/variante genética comum.

Para Goldstein, é mais provável que a maioria das pessoas com tais moléstias sejam portadoras de variações raras, cuja detecção está fora de alcance no momento. Os poucos SNPs suspeitos encontrados só informam sobre correlações fracas. Nada dizem sobre os mecanismos biológicos das doenças -isso, sim, daria grande poder preditivo à análise do genoma individual.

Consultado sobre empresas como 23andMe, Goldstein respondeu na bucha: "Não passam de genômica recreacional".


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo, aqui (só para assinantes). A reportagem de Wade no NY Times você encontra aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 16h37

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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