Higgs, 44

 

Pedaço das entranhas do LHC (Foto: CERN)

(...) O ano era 1989, e a máquina era o LEP, construída para colidir elétrons com suas partículas-irmãs de carga oposta (positiva), os pósitrons. O clarão da chuva de subpartículas produzido com a colisão iluminaria a escuridão da matéria.

Era essa a promessa. A esperança.

Em 2 de novembro de 2000, após 11 anos de operação, o LEP foi desligado. Ajudara a pôr o Modelo Padrão em base sólida: só existiam três famílias de partículas fundamentais da matéria -léptons, bósons e quarks.

A aposentadoria deveria ter ocorrido em setembro, mas o LEP reservara uma surpresa de última hora. Em algumas de suas colisões finais, os cientistas do Cern acreditaram ter vislumbrado a assinatura do Higgs.

Dois meses de sobrevida mostraram que se tratava de um alarme falso. O bóson permaneceria incógnito, e assim continuou durante os oito anos de construção do sucessor do LEP, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês).

Chegou a vez do LHC de ser inaugurado, no mesmo túnel. Os primeiros feixes foram acelerados na última quarta-feira.

Agora, prótons serão lançados contra prótons. Muito mais maciços, esses ocupantes dos núcleos atômicos (hádrons) devem alcançar energias nunca antes registradas num acelerador de partículas. Sua colisão frontal, quando se realizar nos próximos meses, poderá finalmente flagrar o bóson de Higgs.

É essa a promessa. A esperança.

Isso ajudaria a explicar por que só algumas partículas têm massa. Mas nada garante que o Higgs dê as caras, 44 anos após a previsão teórica. Muitos físicos já dizem que sua ausência resultará mais fecunda para a física que a detecção, pois forçará uma reforma do modelo.

São, ao todo, 19 anos de caçada no subsolo da fronteira franco-suíça. Só no LHC foram enterrados US$ 9 bilhões. É difícil imaginar uma fortuna mais bem empregada.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes). Aproveito a chance para recomendar a leitura do editorial "Cool philosophies" na edição de 4 de setembro do periódico científico Nature (em inglês). Ali se defende que os físicos, se quiserem fazer justiça à importância do LHC e do que ele pode render, devem ir além das frases grandiosas sobre a maior máquina no mundo e da busca hercúlea para revelar os mistérios sobre como tudo começou.

O editorialista da Nature se baseia, no comentário, em um ensaio de Alexei Grinbaum intitulado "Na aurora do LHC: questões conceituais em física de altas energias" (59 páginas, em inglês, que ainda não tive tempo de enfrentar). A julgar pelo comentário na Nature, parece bem bacana. Traduzo um pequeno trecho do editorial:


Para o LHC, algumas dessas questões fundacionais são levantadas pelo papel da estética como guia para a teoria física, em particular argumentos baseados na simetria. Num plano pragmático, a simetria tem sido uma ferramenta imensamente fértil, e ela está na base da noção de um mecanismo Higgs para a massa. Mas não existe uma justificativa rigorosa para confiar nela, e é possível que o LHC venha a pontar o rumo para uma nova física que a descarte como um princípio dominante.


Não dá vontade de ler?