Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Friedman quer mundo verde, e não plano e quente

Friedman quer mundo verde, e não plano e quente

Reprodução

O economista José Eli da Veiga chama a atenção para esta entrevista do jornalista Thomas Friedman no site da revista Foreign Policy, sobre seu novo livro, Hot, Flat, and Crowded: Why We Need a Green Revolution — and How It Can Renew America (Farrar, Straus and Giroux).

O que ele tem a dizer sobre perfurações de petróleo na costa norte-americana - algo que os Estados Unidos NÃO fazem no momento - adquire sentido muito interessante para o Brasil do pré-sal, também. Além de se preocupar com gastar o dinheiro (que ainda não existe...) em refino e educação, Lula deveria preocupar-se também com o que o colunista chama de "elétrons baratos" (fontes alternativas e renováveis de energia).

Escrito por Marcelo Leite às 09h21

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Universidade Federal de ‘Outro Planeta’

Universidade Federal de ‘Outro Planeta’

Recebi do leitor Marco Antonio A. Carneiro (Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP) o artigo abaixo, que reproduzo com sua permissão:


De uma forma ou de outra, dentre todas as Instituições públicas brasileiras, as Universidades sempre gozaram de certo prestígio junto à opinião pública. Afinal de contas, na Academia estão em questão objetivos ‘nobres’ como a pesquisa científica, o ensino e o desenvolvimento do conhecimento. Houve até mesmo pesquisadores anônimos que declararam que as “universidades são os últimos bastiões da moralidade no serviço público brasileiro”. Se não há dúvidas da grande contribuição das Universidades públicas a sociedade, por outro as reportagens nos grandes meios de comunicação mostrando que a “farra dos cartões corporativos” chegou até mesmo na Universidade pública, expõem um lado obscuro da Universidade e do dinheiro investido em ensino e pesquisa no país.

No Brasil e em outras sociedades estamos ‘acostumados’ a políticos desonestos, e a expressão “político honesto” pode ser considerada uma figura de linguagem formada por termos contraditórios, um oxímoro. Segundo um pesquisador americano (Thomas F. Babor, Addiction 2003) nós devemos trabalhar para que a expressão “pesquisa ética” não venha a se tornar também um oxímoro como no caso de ‘político honesto’. No Brasil, praticamente os órgãos normativos de pesquisa não estão atentos a esta necessidade. Os pesquisadores tanto como os políticos não estão imunes ao dinheiro e a fama.

O sistema acadêmico prestigia o mérito do pesquisador, e não poderia ser diferente, quem mais trabalha, e trabalha com mais qualidade, acaba tendo acesso a mais financiamentos das agências de Fomento, e a uma série de benesses, como ‘bolsa’ de pesquisador do CNPq, uma quantia em dinheiro fornecida aos pesquisadores com maior produção na suas respectivas áreas de pesquisa. Para definir quem merece recebê-la são considerados três requisitos básicos: quantidade/qualidade de artigos publicados, número de estudantes de pós-graduação formados e o número de vezes que seus artigos são citados por outros pesquisadores.

Mas em última análise o que conta mesmo é o número de artigos científicos publicados em revistas especializadas. Esta situação criou um ambiente que nos chamamos de “corrida publicacionista” entre os pesquisadores. Atualmente, os pesquisadores são compelidos a publicar cada vez mais artigos e em determinadas revistas, consideradas de grande prestígio ou em revistas cientificas que estão ‘na moda’. Este clima foi talvez antecipado por Albert Einstein em 1906 quando o cientista alemão fez a seguinte observação a um amigo “Uma carreira Acadêmica em que a pessoa é forçada a produzir textos científicos em grande quantidade gera o risco da superficialidade intelectual” (Walter Isaacson, “Albert Einstein: sua vida, seu universo”; Companhia das Letras, 2007).

Esta enorme pressão para produzir cada vez mais tem levado alguns pesquisadores a desvios de conduta na hora de definir quem são os autores do trabalho científico (veja Carneiro et al. 2007, “Ethical abuses in the authorship scientific papers”em Revista brasileira de Entomologia, vol. 51, n° 1; e veja Carneiro et al. 2008 “Artigos científicos e atropelos éticos” em Scientific American Brasil, fevereiro 2008).

Temos alguns ‘tipos’ indevidos de autores: autor convidado é aquele que não deveria ter o nome como autor, mas acabou sendo incluído por tem dinheiro para fazer pesquisa, ou seja, é ele que compra os reagentes caros normalmente importados; ou porque é famoso e seu nome no artigo acaba ajudando a publicar o artigo; ou porque simplesmente é o chefe do laboratório e exerce seu poder sobre seus subordinados.

No Brasil é muito comum se incluir o nome de um pesquisador famoso para ter o artigo aceito mais rapidamente. Só isto poderia explicar as situações bizarra relatas pelos corredores das Universidades, com aquela de um pesquisador aposentado, com um problema de saúde que o incapacita de trabalhar, mas que continua publicando. Seus ex-alunos continuam colocando seu nome no artigo para poder publicá-los mais facilmente! Outro problema muito freqüente no Brasil é a retirada o nome de um autor devido a desentendimentos entre os autores, é o autor fantasma. O pesquisador, embora tenha feito o trabalho teve seu nome indevidamente retirado do rol de autores. Isto também é muito comum acontecer com estudantes que após se desentender com o professor orientador da pesquisa, acaba tendo seu nome retirado do artigo.

As Universidades como os demais setores do serviço público brasileiro e seu corporativismo histórico não fazem nada além de se omitir e acobertar os infratores. Entretanto, estas e outras irregularidades poderiam ser minimizadas através de uma fiscalização mais rigorosa do CNPq, das Agências Estaduais de Fomento a pesquisa e dos Conselhos Regionais. Sanções severas deveriam ser aplicadas aos pesquisadores que apresentam desvios de conduta e as Instituições que os protegem como perda de bolsa de produtividade, suspensão de programas de pós-graduação e cancelamento de financiamentos.

É preciso pontuar diferentemente artigos com muitos autores e artigos com um ou menos de três autores. Da mesma forma, pesquisador bolsista de produtividade deveria ter uma produção mínima de artigos como primeiro autor e não apenas publicar artigos como colaborador de seus orientados. Também a comunidade científica deveria ter uma posição mais crítica, avaliando não só a quantidade de artigos, mas principalmente o caráter inovador de cada trabalho, voltando a considerar o conteúdo de cada artigo como o mais importante e não a revista em que o artigo foi publicado.

Escrito por Marcelo Leite às 10h29

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Pachauri continua à frente do IPCC

Pachauri continua à frente do IPCC

 

Gore e Pachauri (dir.) com o Nobel da Paz de 2007

Foto: Ken Opprann/The Norwegian Nobel Institute

O indiano Rajendra K. Pachauri, sob cuja liderança o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, da ONU) recebeu metade do Prêmio Nobel da Paz, foi reconduzido por unanimidade à presidência do painel de milhares de cientistas. Ele esteve à frente da produção do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC (2007), também conhecido como AR4 (aqui, em inglês, ou aqui, em espanhol).

Os teóricos da conspiração que vêem no aquecimento global uma fraude, cuja orquestração reúne de Albert Gore aos editores da Nature e da União Européia ao Banco Mundial, para não falar da associação de indústrias britânicas, enxergarão na reeleição de Pachauri mais um sinal de que cresce a pressão para o Brasil não se desenvolver e para impedir as plantinhas de vicejar em concentrações crescentes do maravilhoso CO2.

Escrito por Marcelo Leite às 14h37

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Brasil prepara agência nuclear independente

Brasil prepara agência nuclear independente


Piscina com combustível nuclear em Angra 2 (Foto: Divulgação/Eletronuclear)

A capa do caderno Dinheiro da Folha e sua página 3 trazem hoje reportagem minha sobre a nova feição do programa nuclear brasileiro, apresentada ao presidente da República duas semanas atrás. Entre os destaques está a criação de uma agência fiscalizadora separada da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e alcançar auto-suficiência em combustível nuclear até 2014.

A reportagem foi editada em três partes ("retrancas", como se diz na Folha). Se for assinante do jornal ou do UOL, você pode lê-las aqui, aqui e aqui.

O prazo previsto para o governo bater o martelo sobre o novo programa é meados de outubro. Já pôr as alterações em prática pode levar de um a dois anos, segundo a Cnen.

Além de separar seus setores de radioproteção, segurança e salvaguardas (cláusulas de acordos internacionais) numa agência reguladora, surgiriam também duas empresas estatais, para cuidar de rejeitos e de radiofármacos. Esta última informação acabou cortada por mim da reportagem, por falta de espaço, mas reproduzo a seguir o trecho omitido:


Do desmembramento da Cnen surgiria uma estatal para fabricar radiofármacos. Esses insumos de medicina nuclear já são produzidos em unidades da Cnen, sobretudo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) de São Paulo, mas o país ainda depende do Canadá para suprir sua demanda. Aqui, também, o comitê propõe obter auto-suficiência até 2014.

Há pouco tempo, a agência reguladora independente do Canadá encontrou problemas no reator que produz dois terços dos radiofármacos consumidos no mundo. Decidiu fechá-lo. Dois dias depois, conta Odair Gonçalves, da Cnen a presidente do órgão caiu.

Escrito por Marcelo Leite às 10h37

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Raposa e os municípios

Raposa e os municípios

 

Mapa: Instituto Socioambiental (ISA)

O voto do relator Carlos Ayres Britto no STF (Supremo Tribunal Federal) trouxe alguma luz sobre a controversa TIRSS (Terra Indígena Raposa/Serra do Sol). Mas muita confusão e má-fé ainda se propagam pelo éter, na internet e sobre papel, o que justifica voltar ao tema.

O prefeito de Pacaraima (RR), Paulo César Quartiero (DEM), líder dos rizicultores que contestam a área contínua homologada, alega que seu município desaparecerá. Não é verdade. (...)

São três as localidades em questão: Pacaraima, Uiramutã e Normandia. A última vila é o município mais antigo, tendo sido criado em 1982. Cinco anos, portanto, depois de iniciados os trabalhos de identificação da área indígena, em 1977.

Pacaraima e Uiramutã são mais complicados. Sua instituição ocorreu em 1995, dois anos depois de concluídos os trabalhos de identificação pela Funai (Fundação Nacional do Índio). Foi uma reação de deputados federais roraimenses, que conseguiram aprovar plebiscitos de criação para tentar garantir na terra indígena a escassa população não-índia.

Se a TIRSS é grande (17 mil km2, em números redondos), os municípios também são, como de regra na região amazônica. Os territórios de Normandia, ao sul, e Uiramutã, ao norte, dividem Raposa/Serra do Sol mais ou menos ao meio.

Os dois municípios medem, respectivamente, 7 mil km2 e 8 mil km2 -algo em torno de cinco municípios de São Paulo. Cada uma das localidades tem população aproximada de 7 mil pessoas. Na capital paulista, são quase 11 milhões.

A Pacaraima de Quartiero tem menos da metade de seu território na TIRSS. A parte maior fica noutra TI, São Marcos, homologada em 1991. Isso não impediu Pacaraima de existir nem Quartiero de se eleger, mesmo cercado de índios, no lado brasileiro, e de venezuelanos, no outro.

Há mais. Os núcleos urbanos de Normandia e Uiramutã já foram excluídos do perímetro da terra indígena homologada. O primeiro, em 1993, e o segundo, em 2005.

Esses dados, com freqüência escamoteados, podem solucionar a questão jurídica, talvez. Assim se pronunciou o relator Britto, mas ainda faltam os outros dez ministros do STF.

Não resolvem, contudo, a situação de fato: habitantes não-índios dos três povoados ficarão isolados, imprensados contra as fronteiras da Venezuela e da Guiana.

Para garantir seu direito de ir e vir, não há necessidade de excluir as estradas que cortam a terra indígena de seu perímetro. Basta que a Funai mantenha controle do acesso em nome do titular das terras, a União.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

O jornal também publicou ontem um editorial sóbrio, "Ocupar as fronteiras", desvinculando a demarcação/homologação de Raposa Serra do Sol da Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas adotada pela ONU, com anuência do governo brasileiro. O editorial critica o Itamaraty por ter assinado a declaração. Interpretar que ela entra em conflito com a Constituição Federal.

O Itamaraty responde numa carta ao Painel do Leitor, argumentando, entre outras coisas, que a delegação brasileira aprovou o acordo, porém, com uma declaração de voto, em que ressalva precisamente o ponto destacado no editorial. Leia aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 16h42

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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