Caixa-preta: CNPq responde
Recebi da colega Vânia Gurgel, assessora de Comunicação do CNPq, as ponderações abaixo, a respeito das notas "Caixa-preta no CNPq? 1" e "Caixa-preta no CNPq? 2". Reproduzo-a sem tirar nem pôr:
A revisão por pares é a melhor alternativa utilizada por agências brasileiras e do exterior para subsidiar as decisões sobre financiamento a projetos de ciência e tecnologia. Em geral, as agências montam sistemas complexos, organizados em vários níveis de decisão, dos quais participam avaliadores diferentes. Esses sistemas, ainda que incorporem imperfeições inerentes às atividades humanas, tendem a minimizar os desvios. O resultado é que os recursos públicos, destinados à pesquisa, podem ser postos à disposição daqueles que têm melhores chances de produzirem resultados mais úteis e valiosos.
Em 2007 o CNPq recebeu mais de 53.493 mil solicitações, para os quais foram emitidos mais de 61.350 mil pareceres ad hoc. Esses pareceres são essenciais para as análises posteriores feitas em mais de 50 comitês de especialistas, que recomendam positivamente, ou sugerem denegar, a aprovação da proposta. A decisão final leva em conta esta recomendação diante do volume de recursos disponíveis, restringindo a escolha às melhores propostas.
Neste sistema hierarquizado, os pareceres ad hoc formam a base da decisão. Por esse motivo, o presidente do CNPq reiterou em mensagem de ampla circulação a recomendação que tem feito em várias oportunidades: os pareceres devem ser escritos com clareza para que possam ser transmitidos aos pesquisadores. Desta forma, procura atender reivindicação da própria comunidade.
Convém ressaltar, no entanto, que a decisão final positiva ou negativa sobre uma proposta leva ainda em conta, além do parecer ad hoc, a análise do currículo do solicitante, a prioridade relativa da proposta comparada às demais e a quantidade de recursos disponíveis para financiamento.
Vânia Gurgel
Assessoria de Comunicação Social do CNPq
Não creio que a nota do CNPq esclareça muita coisa a respeito da queixa apresentada nos posts anteriores. Por telefone, antes de enviá-la, Vânia Gurgel havia apresentado outro argumento em defesa do modus operandi: existem apenas cerca de 10.000 pareceristas disponíveis (pesquisadores de nível 1 e 2, segundo o CNPq, ou seja, de alta produtividade).
São, portanto, 6,2 pareceres em média por ano por pesquisador, dividindo os 61.350 citados na nota (acredito que o "mil" esteja sobrando ali) pelo número de pareceristas. Um a cada dois meses. Convenhamos, não é uma carga de trabalho absurda, ainda que feita pro-bono. Apesar disso, o presidente do CNPq ainda tem de pedir o óbvio - que os pareceres sejam decentes.
Mesmo sendo sapo de fora, vou chiar: o que preocupa, além da não-divulgação dos pareceres iniciais, é a aparente largueza cedida pelo CNPq aos tais comitês de especialistas, que dão a palavra final. Na minha humilde opinião, eles deveriam circunstanciar o melhor possível, com detalhes e argumentos, as razões de decisão negativa e encaminhá-la ao pesquisador rejeitado.
Se isso é feito ou não, e como é feito, eis o que importa saber. Com a palavra, os prejudicados.