Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ao volante, somos todos patetas

Ao volante, somos todos patetas

 

Você já teve vontade de recomendar um livro antes mesmo de ler? É o que vou fazer aqui, sob o disfarce de recomendar a leitura da resenha que Mary Roach fez para o jornal The New York Times do livro Traffic, de Tom Vanderbilt.

O subtítulo do livro de Vanderbilt já diz quase tudo: "Por que dirigimos do jeito que dirigimos (e o que isso diz sobre nós)". E Roach diz tudo, quando afirma que um título alternativo para o livro seria "Idiotas".

Você sabia, por exemplo, que 12,7% da lentidão depois de um acidente nada tem a ver com a obstrução da pista pelo próprio, mas com o fato de os curiosos tirarem o pé do acelerador? Não conheço palavra específica para designar esse tipo de motorista em português, mas a resenha (e provavelmente o livro) usa duas, das boas: "gawkers" (boquiabridores?) e "rubberneckers" (pescoçudos?). Em alemão conheço o eufemístico "Schaulustiger" (espiófilos?).

Numa prévia ou pista do que terei a dizer amanhã em minha coluna na Folha, traduzo trecho da resenha de Roach sobre os jipões:


SUVs [veículos esportivos utilitários] são mais perigosos do que carros. Não só porque são mais lentos para parar e mais difíceis de conduzir, mas porque - por conferir uma sensação de segurança - convidam um comportamento negligente. "Quanto mais seguros os carros se tornam", diz Vanderbilt, "mais riscos os motoristas escolhem correr" (motoristas de SUVs têm maior probabilidade de não se importar com seus cintos de segurança, de falar no celular enquanto dirigem e de não usar cintos de segurança enquanto falam no celular).

Assim são as coisas em boa parte do universo da direção. Mais pessoas são mortas quando atravessam a rua na faixa do que fora dela. Motoristas passam mais perto de ciclistas numa rua com ciclovias do que numa sem ela.

Escrito por Marcelo Leite às 15h59

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Água em São Paulo para alemão ver (e ler)

Água em São Paulo para alemão ver (e ler)

A revista alemã de divulgação científica Bild der Wissenschaft trouxe no número de julho - que graças à greve do correio só recebi agora - reportagem minha sobre o problema da água em São Paulo e a tentativa de minorar a poluição do Pinheiros com a técnica da flotação. Infelizmente, a matéria não está disponível online, mas reproduzo abaixo o PDF de uma das duas páginas.

Outra versão da reportagem saiu na Folha em 4 de março e pode ser lida aqui, mas só por assinantes.

Escrito por Marcelo Leite às 14h04

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Milhares de gorilas recenseados no Congo

Milhares de gorilas recenseados no Congo

 

Bebê-gorila; as fêmeas têm em média um a cada cinco anos

Foto: Thomas Breuer/WCS-Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology

Não é todo dia que surgem boas notícias relacionadas com vida selvagem, então aqui vai uma - com um toque especial para quem se emocionou, 20 anos atrás, com Sigourney Weaver no papel de Dian Fossey no filme "Nas Montanhas dos Gorilas" (Gorillas in the Mist): de uma tacada, a população conhecida de gorilas da planície na África Ocidental mais que dobrou.

Calculava-se desde a década de 1980 que poderia haver menos de 50 mil deles. Um censo patrocinado pela Wildlife Conservation Society  (WCS) e e pelo governo da República do Congo descobriu 125 mil deles vivendo apenas em duas áreas no norte do país, num total de 47 mil km² (menor que o Estado do Rio Grande do Norte):

Existem duas espécies no gênero Gorilla, Gorilla gorilla e Gorilla beringei, cada uma com duas subespécies: G. g. gorilla e G. g. diehli; G. b. beringei e G. b. graueri). Todas eram até agora consideradas ameaçadas. A população recenseada pertence à primeira subespécie.

O censo foi feito pela contagem de ninhos dos animais. Parte da verba veio de entradas pagas para o recinto de gorilas do zoológico do Bronx (Nova York), que levantou um total de US$ 8,5 milhões desde 1999.

As razões para o aumento da população, segundo comunicado (em inglês) da WCS, foram a bem-sucedida manutenção de longo prazo das áreas protegidas do Congo e a inacessibilidade de alguns desses habitats.

Leia mais sobre os gorilas aqui (em inglês) e assista a um vídeo aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 13h32

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Pingüins nordestinos

Pingüins nordestinos

Outro dia tive um acesso de riso quando li a notícia de que o governo do Estado de São Paulo havia proibido a venda de bananas por dúzia. De ora em diante, a fruta que tabaréus do Vale do Paraíba gostam de comer com paçoca de amendoim só poderá ser comercializada por quilo.

Faz algum sentido. O peso é uma medida mais objetiva que a dúzia, pois bananas variam de tamanho. E não me refiro às variedades, como nanica, prata, ouro, maçã, São Tomé, da terra etc. Uma dúzia de nanicas pode esconder considerável variação. (...)

A voragem legiferante que assola o país tem lá seu lado ridículo, mas também produz efeitos positivos. Sério. (...)

Em São Paulo, causou revolta entre transportadoras e caminhoneiros novas regras com restrições de circulação em 100 km2 do chamado centro expandido. Pior, agora o rodízio dos horários de pico (7-10h e 17-20h) vale também para os caminhões. Já, já aparece um causídico oportunista alegando atropelamento do direito de ir e vir.

Sabe o que é pior? Não melhorou grande coisa. Cheguei de viagem quarta-feira na hora do almoço, apenas uma semana fora desta megacidade infeliz, e quase sufoquei. De raiva, com o congestionamento na Marginal Tietê. E literalmente, com a maior quantidade de poluição que já vi (para não falar do cheiro do rio).

O que é preciso, além disso, para as pessoas se darem conta de que o "direito" individual de viver como bem entendem vai nos levar todos para o abismo? (...)

Em pleno julho, cozinhamos no trópico de Capricórnio com temperaturas próximas dos 30C. Além das bananadas dos gerentões paulistas e das batatadas dos altos advogados de todo o Brasil, ouço no noticiário que um número recorde de pingüins está desembarcando no litoral brasileiro. Até em Sergipe eles foram parar.

Essas evidências episódicas não são prova de mudanças climáticas, claro. Mas também já parece sensato proibir que os pingüins continuem indo para o Nordeste


Leia a coluna Ciência em Dia na íntegra na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Pós-escrito

Pelo menos um leitor escreveu dizendo que não se deveria fazer piada sobre assunto tão sério (ele também informou que os pingüins foram mais ao norte, chegando a Itamaracá, PE).

De fato, é sério, e eu não fiz (só) piada. Não acho de verdade que se possa proibir pingüins filhotes de nadar até Pernambuco, uma vez que eles são levados a isso por força maior. E essa força se origina de nós, humanos - que no entanto nos preocupamos mais com o dilema da banana por peso ou por dúzia.

Escrito por Marcelo Leite às 12h42

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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