Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Angra-3 e a metamorfose ambulante

Angra-3 e a metamorfose ambulante

Ninguém está obrigado a gostar de Raul Seixas a vida inteira, claro, nem a ser contra os transgênicos, contra a transposição do rio São Francisco ou contra a usina nuclear de Angra-3. Eu mesmo me divirto ouvindo as canções do roqueiro baiano e não morro de medo dos organismos geneticamente modificados, mas tenho sérias dúvidas sobre a transposição e as usinas termelétricas atômicas.

A julgar pela foto acima, enviada pelo incansável Roberto Smeraldi, quem exagera na "metamorfose ambulante" é Lula, nosso presidente. Como cita com freqüência a música homônima de Seixas, conclui-se que o ex-parceiro de Paulo Coelho é o único que ainda escapou do realismo governista (ou seria autocrítica de resultados?) do transpresidente.

Depois de rever posição sobre transgênicos e transposição, Lula já chamou usineiros de heróis, defendeu o desmatamento na Amazônia como exercício de soberania. E vai entrar para a história como o presidente que reativou o programa nuclear, completando a usina de Angra-3 e lançando a pedra fundamental de pelo menos mais quatro centrais termonucleares.

Como disse de início, tudo bem mudar de idéia. Nem por isso deixa de ser irônica a imagem da foto, uma passeata realizada em 1989 contra... Angra-3. Aquele de barba preta, à esquerda (sempre), é Lula, claro. O segundo da direita para a esquerda, com a camiseta espalhafatosa e a boca aberta para falar (sempre), é o atual ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, cuja primeira grande obra no governo depois de suceder Marina Silva foi ultimar a licença provisória de Angra-3, como seu mestre mandou (embora seja radicalmente contra - sempre). À sua direita (sempre), Fernando Gabeira, candidato a prefeito do Rio. Entre eles, de bigode (sempre), Jorge Bittar, e um ex-prefeito petista de Angra dos Reis, Neirobis.

Quase duas décadas depois, Lula e Minc começam a tirar Angra-3 do papel. Nada contra, pois têm autoridade e investidura para isso. Acho até uma grande idéia surfar a inevitabilidade da construção da central para extrair do governo o compromisso de, finalmente, providenciar um local para deposição permanente (o que não quer dizer definitiva nem final) dos rejeitos radiativos das usinas nucleares brasileiras, hoje provisoriamente acondicionados em tambores e piscinas. Se Marta Suplicy se tornou a ministra do relaxa-e-goza, quem sabe Minc não se transformará no ministro do relaxa-e-arranca?

Os manifestantes de 1989 provavelmente ririam do "compromisso" ora assumido. Se nem o local foi ainda escolhido, é piada acreditar que a construção do depósito comece antes de Angra-3 terminar.

Primeiro, porque ninguém combinou direito com os russos, quer dizer, com a Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), responsável legal pela deposição. O presidente da Cnen, Odair Gonçalves, já lançou água fria no fervor licenciatório do empreendimento Lulaminc (Licenciamento Urgente para Lula, Amigos e Maganos, Inc.) avisando que não dá para fazer projeto sem saber nem quanto combustível terá de ser armazenado. E, na hora em que o local for escolhido, a população, movimentos sociais e o Ministério Público entrarão em ação - para não falar da necessida de licenciar a própria obra do depósito pelo... Ibama.

Para completar a metamorfose, só falta Lula ressuscitar o colar de hidrelétricas no rio Xingu, a montante de Belo Monte. Aquelas que os empreendedores dentro e fora de seu governo hoje juram de pés juntos que não serão necessárias.

Escrito por Marcelo Leite às 15h00

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Demonização e endeusamento dos biocombustíveis

Demonização e endeusamento dos biocombustíveis

 

A última edição da revista The InterDependent, mantida por uma ONG americana que apóia a ONU (!), United Nations Association, publica artigo meu (páginas 14 e 15 deste PDF) sob o título "Demon Biofuel? Brazil Disputes Attacks" (em tradução livre: "Biocombustível do Demo? Brasil Questiona os Ataques"). Traduzo trechos dos parágrafos finais:


Os brasileiros estão cada vez mais conscientes das tensões entre dois imperativos incontornáveis para países emergentes, a saber, aumentar a produção e a renda para melhorar as condições de vida de seus cidadãos, de um lado, e preservar os habitats naturais em prol da biodiversidade, dos serviços ecossistêmicos e do bem-estar de gerações futuras. Há um longo caminho pela frente em termos de regulação e de cumprimento das leis para alcançar ambos os objetivos. O que eles não podem entender nem aceitar é a condenação internacional dos biocombustíveis como incompatíveis com a produção de alimentos e com a satisfação das necessidades dos pobres, porque essa alegação contradiz diretamente a experiênciado Brasil nas décadas recentes.

Os críticos fazem vistas grossas para uma importante diferenciação entre biocombustíveis. O etanol de cana brasileiros pode render 10,2 unidades de energia renovável por unidade de combustível fóssil consumido, enquanto o etanol de milho americano alcança mera 1,4 unidade. Apesar disso, o etanol brasileiro é prejudicado por uma tarifa de importação de US$ 0,14 por litro nos EUA e taxas similares a Europa.

Não espanta que os brasileiros e cidadãos de outros países em desenvolvimento permaneçam céticos diante dos sermões sobre liberdade comercial, cortes de gases do efeito estufa e a obrigação ética de salvar os pobres da fome. Afinal, eles é que estão fazendo a lição de casa.

Escrito por Marcelo Leite às 10h35

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Polpa dentária vira espermatozóide humano em testículo de camundongo

Polpa dentária vira espermatozóide humano em testículo de camundongo

Dois cientistas russos - Irina e Alexandre Kerkis - "importados" por Darcy Ribeiro para Campos de Goytacazes, que depois foram para a USp e terminaram na Clínica Abdelmassih em São Paulo (Irina também é do Instituto Butantan de SP), conseguiram uma proeza: identificar células-tronco na polpa de dente de leite de um doador macho humano, isolá-las, injetá-las no testículo de um camundongo e depois extrair dele espermatozóides humanos produzidos pelo animal.

Esquisito, porém esperto. Dois anos atrás a dupla já havia causado espanto ao conseguir produzir tanto óvulos quanto espermatozóides maduros in vitro (fora do corpo) a partir de células-tronco embrionárias (CTEs) de camundongo. O estudo abria a possibilidade inquietante de produzir óvulos (gametas por definição femininos) a partir de células masculinas. Comentei o assunto na época em uma coluna (que você pode ler aqui).

Soube da nova proeza com os dentes de leite e os roedores por meio de um press release (comunicado para jornalistas), que alerta tratar-se de pesquisa básica, ainda distante de aplicação clínica, mas que não deixa de falar em "esperança para homens inférteis". É o tipo da mensagem dupla que costuma acompanhar a promoção de certos estudos biotecnológicos.

Ora, em primeiro lugar dentes de leite só existem em meninos, não em homens adultos. Talvez se encontrem células-tronco com esse potencial nos dentes ou noutro tecido de um adulto infértil, mas não há garantia disso. A esperança é para lá de longínqua.

Depois, quem gostaria de engravidar com espermatozóides produzidos num roedor? Além da aversão simbólica, há questões de biossegurança, como a possibilidade de esse material ser infectado por vírus endógenos do animal.

O comunicado tem outros problemas, como chamar o Sunday Times de revista (é um jornal, que publicou reportagem sobre a pesquisa) e camundongo de rato (são espécies e gêneros diferentes, Mus musculus e Rattus norvegicus). Mas tem o mérito de reproduzir o abstract (resumo em inglês) do trabalho apresentado pelos Kerkis no Congresso Europeu de Reprodução Humana em Barcelona:


Human sperm cells yielded by adult stem cells transplantation into mouse testis

Kerkis, A.; Fonseca, SAS.; Lavagnolli, TMC.; Serafim, RC.; Abdelmassih, S.; Santos, EJC.; Pereira, VS.;  Abdelmassih, R.; Irina Kerkis.

Stem Cell Laboratory, Roger Abdelmassih Human Reproduction Clinic and Research Center; Laboratory of Genetics, Butantan Institute, Sao Paulo, SP, Brazil.

Introduction: Two cellular lineages, the germline and the soma, are involved in the process of spermatogenesis. Diploid cells, which are committed to originating germ cells (GC), proliferate and differentiate, undergo meiosis and further maturate as sperm. This multi-step process is frequently prone to errors, which leads to defective sperm formation and as a result to male infertility. Different therapeutic approaches are being developed using animal models for male infertility treatment, such as the transplantation of spermatogonial stem cells (SSC) from fertile donors to the testis of infertile ones to obtain donor-derived spermatogenesis. Another approach involves the in vitro derivation of GC from adult stem cells  (ASC). Here we extend both of these techniques aiming at the obtainment of patient-matched sperm cells from human adult stem cells using mouse testis as a conditioning environment. Material and Methods: Multipotent human immature dental pulp stem cells (hIDPSC) were isolated and reviously characterized by our group. At the present study female and male hIDPSC were used. RT-PCR analysis was performed in undifferentiated hIDPSC for Oct4, Nanog, keratin (CK18), vimentin, integrin subunit b1 and deleted in azoospermia (Daz cluster gene). The cell suspension (105 cells) was stained with Vybrant CM-DiI and injected into the testis of fertile mice. Control mice were injected with physiologic solution. The mice were killed 3, 5 and 9 days after hIDPSC injection. Thin whole-testis frozen sections (5µm) were prepared. Presence of hIDPSC in mouse testis as detected by Vybrant CM-DiI and by Fluorescent in situ hybridization (FISH) for human sex chromosomes. The homing of hIDPSC, within mouse testis, was analyzed by confocal microscopy.

Results: Our data demonstrated that undifferentiated hIDPSC express Oct-4 and Nanog (markers of primordial GC), as well as markers detected in germinal epithelium (Vimentin, CK18 and integrin subunit b1) and DAZ, gene expressed in GC. After hIDPSC transplantation into mouse testis fluorescent signals were observed within transversal sections of seminiferous tubules (ST). At day 3 after transplantation, hIDPSC were detected mainly in cell compartment, where Leyding and Sertoli cells were located. At days 5 and 9, these cells formed fluorescently labelled clusters similar to defined GC associations within mouse ST, which contain the cells morphologically similar to spermatogonia and to human sperm, observed in central part of the lumen. In all experiments these fluorescent cells have been seen only in a few ST. Control mouse ST (without hIDPSC) did not show any fluorescence. FISH analysis for human sex chromosomes confirmed our findings of hIDPSC haploidization, during the process of GC differentiation.

Conclusions: We showed that undifferentiated hIDPSC already express several genes involved in GC development and differentiation, which suggest their GC commitment. When transplanted in mouse testis, hIDPSC underwent differentiation following sequential order of mouse seminiferous epithelium. Our data indicate that the mouse ST environment influences the process of hIDPSC differentiation, yielding human sperm cells, although at a low efficiency. In this manner, the use of an animal ST environment would be a tool for human ASC differentiation in order to achieve human donor-derived spermatogenesis.

The present work was supported by the Roger Abdelmassih Human Reproduction Clinic and Research Center

Escrito por Marcelo Leite às 12h06

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Mania de grandeza

Mania de grandeza


Não é sempre que se topa com um relatório sobre o Brasil em inglês que cita nosso Hino Nacional, e ainda por cima de modo pertinente. Muito menos um texto bem escrito como "Brasil, A Economia de Conhecimento Natural", de Kirsten Bound, lançado pelo "think tank" britânico Demos.

Para quem anda deprimido com as supremas batatadas da política nacional, o documento garante overdose de otimismo. Temperado com realismo, portanto otimismo robusto. Basta erguer os olhos além do horizonte tacanho da corrupção, que domina o Brasil mas não o define, para vislumbrar um país com alguma grandeza.

Bound cita a estrofe de Joaquim Osório Duque Estrada no último parágrafo de seu estudo admiravelmente sintético sobre as relações entre natureza, economia e conhecimento (ciência, tecnologia e inovação, CT&I) no Brasil. Vem muito a calhar: "Gigante pela própria natureza / És belo, és forte, impávido colosso / E o teu futuro espelha essa grandeza".

A autora dá como favas contadas a constatação do primeiro verso. Ele é adequado tanto pela extensão territorial do país (quinto maior do mundo) quanto por abrigar 60% da maior floresta tropical do planeta, na Amazônia -além de outros cinco biomas. O problema, diz Bound, é saber se a promessa do segundo se cumprirá.

Ela avalia que as chances são boas. Mesmo deitado em berço esplêndido, o Brasil não ficou parado. Embora tenha começado a construir um sistema de CT&I digno do nome só na década de 1930, forma mais de 600 mil graduandos, mais de 30 mil mestres e 10 mil doutores por ano. É a maior potência tecnocientífica da América Latina, quiçá do hemisfério Sul.

Além disso, sua produção acadêmica se concentra nas áreas de agricultura, biologia e ciências da Terra. Tudo a ver com ganhos de produtividade nacional na utilização do capital natural. Uma condição necessária -mas não suficiente- para desviar-se da trilha de exploração predatória que sempre caracterizou seu setor primário.

Muito do otimismo do relatório decorre desse vislumbre: apesar de sua forte base natural, a economia do Brasil não está condenada a permanecer imatura e subdesenvolvida, como dita o pensamento convencional. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 16h28

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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