Imprensa que ladra

[O argentino Diego] Golombek faz parte de uma estirpe de cientistas que, de Carl Sagan a Richard Dawkins, abraça a publicidade com entusiasmo -mesmo que isso implique encarar jornalistas. Aos poucos, seu exemplo se espalha entre pesquisadores. Se não ainda (ou não tanto) no Brasil e na Argentina, ao menos nos cinco países que lideram a produção científica mundial: Alemanha, EUA, França, Japão e Reino Unido.

A prova está na edição de anteontem do periódico americano "Science". Um grupo coordenado por Hans Peter Peters, do Centro de Pesquisa de Jülich (Alemanha), fez o primeiro estudo multinacional sistemático do proverbial mau relacionamento entre pesquisadores e jornalistas. Para surpresa da equipe, descobriu que eles nunca se deram tão bem. (...)

Pasme: 57% dos respondentes se disseram "predominantemente satisfeitos" com o resultado de seu último contato com a imprensa, e só 6% "predominantemente insatisfeitos". Considerando o impacto de toda a relação sobre suas carreiras, 46% declararam ter sido "mais para positivo" e apenas 3% "mais para negativo". (...)

[O]s autores concluem que os cientistas cada vez mais reconhecem os benefícios de relacionar-se com a imprensa. A razão mais citada (93%) é genérica: induzir "uma atitude mais positiva do público diante da ciência". Mas parece pesar muito, também, a chance de obter mais visibilidade para o próprio trabalho -tanto entre pares quanto entre financiadores.

Dominique Brossard, co-autora do estudo e professora de jornalismo da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA), conclui: "A pesquisa mostra que os cientistas encaram interações com jornalistas como necessárias. Não precisamos mais conquistar os cientistas. Passamos desse ponto". O Brasil não tem Nobel nem IgNobel, mas ainda chega lá.


Leia a íntegra da coluna na Folha de S.Paulo.