Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Recuperação de floresta pode levar milênios

Recuperação de floresta pode levar milênios

 

Um estudo na edição deste mês do periódico Biological Conservation traz boas notícias para a mata atlântica, que precisa desesperadamente delas depois de perder 93% de sua cobertura original. A floresta que recobria o litoral oriental do Brasil na chegada dos europeus consegue, sim, recuperar-se em tempo relativamente curto: 100 a 300 anos.

Em outras palavras, seriam necessárias de 4 a 12 gerações de brasileiros para recompor a mata destruída nas últimas 20. Se parece muito, prepare-se para a má notícia: o trabalho concluiu que a recomposição de toda a biodiversidade da floresta pode demorar entre 40 e 160 gerações (1.000 a 4.000 anos).

O estudo foi realizado por três pesquisadores da Universidade Federal do Paraná a partir de uma idéia de Marcia Marques, do Laboratório de Ecologia Vegetal. "Surgiu de uma curiosidade minha em compreender a resiliência [resistência] da floresta", conta. "Quando se observa uma floresta que se regenerou após um distúrbio, sempre vem a pergunta se aquela floresta corresponde ou não ao que era originalmente."

Seu estudante de mestrado Dieter Liebsch, co-orientado por Renato Goldenberg, se encarregou de levantar os dados. Eles foram obtidos em 18 outros estudos sobre mata atlântica publicados entre 1994 e 2007 que estabeleciam com alguma segurança a data de início da exploração da floresta. É o que se chama de "meta-análise" (compilação de informações de outros trabalhos).


Leia a íntegra de minha reportagem na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes). O resumo (abstract) do artigo científico em inglês pode ser encontrado aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 11h34

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Mais mistérios na cabeça de homossexuais

Mais mistérios na cabeça de homossexuais

 

Imagem mostra área e grau de correlação entre as amídalas (áreas do cérebro envolvidas com emoções) em heterossexuais masculinos e femininos e homossexuais masculinos e femininos (da esq. para a dir.)


Não é de hoje que pesquisadores procuram e à vezes encontram - com muita controvérsia, como ocorreu com Simon LeVay ainda nos anos 1990 - estruturas e fisiologia cerebrais ligeiramente diferenciadas dentro da cabeça de homossexuais. Surge agora um novo estudo de Ivanka Savic e Per Lindström, do Instituto Karolinska de Estocolmo, revelando que a amídala - uma pequena área do cérebro importante para o processamento de emoções - de pessoas homossexuais têm semelhanças estatisticamente significativas com pessoas do sexo oposto (ou seja, homossexuais masculinos mais parecidos com mulheres e lésbicas mais parecidas com homens).

O trabalho aparece na edição desta semana do periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, PNAS. Quando for publicado, o artigo ficará disponível aqui, em inglês. Savic e Lindström já haviam publicado algo semelhante em 2005, sobre a reação diferenciada a feromônios (leia mais aqui, em português).

Savic e Lindström procuraram assimetrias entre as duas metades do cérebro de 90 pessoas nos quatro grupos possíveis de sexo genético e orientação sexual, usando imagens de tomografia por emissão de pósitrons (PET) e ressonância magnética nuclear (MRI). Encontraram, como se pode ver na imagem acima.

No artigo, afirmam: "Os resultados não podem ser atribuídos a efeitos adquiridos e sugerem uma ligação com entidades neurobiológicas". É um modo eufemístico e nem um pouco firme ("sugerem...") de dizer que seriam características biologicamente inatas. É algo muito diferente de afirmar que são de fato características inatas e que portanto foi excluída a hipótese de que as diferenças resultem do que essas pessoas fizeram na vida, e não de como elas eram ao nascer.

Mesmo supondo que sejam estruturas inatas, "determinadas" por genes "do" homossexualismo, que conclusão seria possível tirar disso? Muitos homossexuais se sentiriam confirmados na sua orientação sexual e talvez com menos dificuldade de viver com ela, pois afinal eles "são" assim, biologicamente falando. Genes gays em lugar de orgulho gay, ou justificando o orgulho gay.

Genes gays, se existirem (quem me lê há algum tempo sabe que tenho sérias dúvidas a respeito), porém, podem ser lidos de outra maneira, especialmente por quem já tem inclinações homofóbicas: eles trariam a "prova" de que a homossexualidade é uma anormalidade, não um signo de liberdade. Uma doença, enfim, que poderia, e talvez devesse, ser curada ou prevenida, da proveta nas clínicas de fertilização in vitro ao útero e à infância, por meio de testes, psicoterapia e remédios.

Pessoalmente, acho o estudo intrigante e gostaria de saber mais. Jamais seria contrário a esse tipo de pesquisa, embora preveja que sua assimilação e uso pela opinião pública possam ser distorcidos. Mas podem também trazer esclarecimento - algo que é sempre desejável ter mais do que ter menos.

Escrito por Marcelo Leite às 15h50

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ABC da qualidade

ABC da qualidade

 

Quanto é boa a Academia Brasileira de Ciências (ABC) em termos internacionais? Não é uma questão fácil de responder. Talvez nem seja prudente perguntar.

Como recebeu resposta provisória de membro da própria academia, o biomédico Rogério Meneghini (também especialista em cienciometria, o campo de medidas de produtividade em pesquisa), presume-se que será ouvida ali com um mínimo de interesse. Além de provisória, a resposta é modesta e indireta.

Aparece no artigo "Comparação de cientistas da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos EUA com base no índice h", que Meneghini publicou com Abel Packer e Rogério Mugnaini no periódico Brazilian Journal of Medical and Biological Research.

A constatação mais geral do trio é que a ABC apresenta grande heterogeneidade de desempenho entre as dez áreas nas quais classifica seus integrantes. O estudo não aponta a razão disso, mas sugere uma hipótese para futuras análises: que os critérios de seleção de membros da ABC não correspondam necessariamente ao mérito da performance do investigador em categorias particulares.

Usou-se no levantamento uma nova medida de qualidade que é ela própria controversa, o índice h. Normalmente se emprega o número de artigos publicados em periódicos reconhecidos e a quantidade de citações que recebem em artigos subseqüentes. Mas essa medição tradicional admite distorções, como beneficiar um autor de poucos artigos, ou mesmo um só, com centenas ou milhares de citações.

Aí entra o índice h. Ele corresponde ao número de artigos de um cientista que angariaram, cada um, pelo menos o mesmo número de citações. Exemplo: se não publicar mais que cinco trabalhos com pelo menos cinco citações, seu h será 5 -pouco importa se um deles recebeu 18 ou 1.800 citações. O indicador exprime sua capacidade de continuar produzindo estudos úteis para a comunidade de pesquisa.

Os piores h da ABC estão nas ciências humanas, com a média de 4,1 (nas outras nove áreas, o h médio varia entre 8,5, na matemática, e 24,1, nas ciências biomédicas). O primeiro colocado em humanidades é o sociólogo Simon Schwartzman, com 10. Fora da ABC, o cientista social brasileiro com mais alto h é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (14).


Leia o restante da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes) e as tabelas por área da ABC nas dez notas abaixo, neste blog.

Escrito por Marcelo Leite às 10h31

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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