Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Prêmio X para genômica pessoal

Prêmio X para genômica pessoal

 

A Fundação Prêmio X ficou famosa por causa do Prêmio X Ansari, que em 2004 rendeu US$ 10 milhões à empresa Mojave Aerospace Ventures por três vôos do avião-foguete SpaceShipOne até 100 km de altitude no prazo de duas semanas. Agora, ela ataca na seara da genômica individual, com o Prêmio X Archon: de novo, US$ 10 milhões para quem conseguir seqüenciar (soletrar) 100 genomas humanos no prazo de 10 dias.

Saiba mais sobre o desafio no vídeo de oito minutos (em inglês):

Escrito por Marcelo Leite às 11h48

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Genômica pessoal 1 - Entrevista com George Church

Genômica pessoal 1 - Entrevista com George Church

George Church, da Universidade Harvard e do MIT, é um dos luminares em duas áreas de ponta da biotecnologia: biologia sintética (criação de organismos com genoma escolhido a dedo) e genômica pessoal (uso de informação do genoma para cuidados médicos personalizados). Inventar métodos é com ele - esteve por exemplo na equipe que criou a primeira técnica para seqüenciar (soletrar) um genoma, feito que valeu a Walter Gilbert o Prêmio Nobel de Química de 1980. Church, porém, está de olho no Prêmio X Archon (leia no post mais abaixo).

Leia abaixo a primeira parte da entrevista realizada em 29 de maio com Church, mencionada na reportagem da Folha de domingo sobre genômica pessoal:

CIÊNCIA EM DIA - Genômica pessoal e biologia sintética – qual é mais importante?
GEORGE CHURCH - (Risos) Acho que elas estão integradas. Usamos nossa capacidade sintética no seqüenciamento, sintetizando centenas de milhares de sondas que nos permitem capturar seqüências que são importantes. Também usamos seqüenciamento na biologia sintética para ter certeza de que, quando construímos alguma coisa, o fazemos com precisão. Em sentido global, uma das maiores recompensas em biologia sintética, ao menos para mim, está nos biocombustíveis. Certamente precisamos conter nosso consumo de energia, em particular a queima de  hidrocarbonetos – tem de ser um jogo de soma zero. Temos de seqüestrar o dióxido de carbono da atmosfera, e a biologia sintética é uma das melhores maneiras que temos de fazer isso.

CIÊNCIA EM DIA - Isso toma muito de seu tempo e de sua concentração?
CHURCH - Sim. É uma grande parcela do que eu faço. Tenho um financiamento do Departamento de Energia [dos EUA], desde 1987. Há algumas recompensas de curto prazo na biologia sintética, como fazer medicamentos e biocombustíveis de modo mais barato e seguro.

CIÊNCIA EM DIA - Biologia sintética normalmente é mais associada com essas aplicações industriais e ambientais. Que papel poderia ter, mais exatamente, na biomedicina?
CHURCH - Certamente permitirá fazer versões menos caras de medicamentos. Outra possibilidade é que, à medida que nos aproximamos mais e mais de terapias com células-tronco, nós poderemos torná-las mais espertas por meio da biologia sintética. No momento, a maior parte das células-tronco autólogas, quer dizer, aquelas que vêm de você mesmo, em geral da medula óssea ou da pele, creio que vamos ver mais no futuro.

CIÊNCIA EM DIA - Como as células-tronco induzidas por Rudolph Jaenisch?
CHURCH - Sim, células pluripotentes, é uma avenida que estamos percorrendo no Programa Genoma Pessoal assim como meios de introduzir a biologia sintética em medicina. O Projeto Genoma Pessoal está usando [células pluripotentes] para diagnóstico, mas a biologia sintética poderá talvez ser capaz de usá-las em terapias.

CIÊNCIA EM DIA - O que é exatamente o Projeto Genoma Pessoal?
CHURCH - É um projeto para tentar conectar genes, ambiente e algumas características numa grande coorte de indivíduos, com ajuda da rápida diminuição dos custos de seqüenciamento. É parte dos esforços em genômica personalizada, que, assim como as associações na escala do genoma [genome-wide associations] e SNP-chips [chips para análise de polimorfismos de nucleotídeo único], estão baseados em seqüenciamento.

CIÊNCIA EM DIA - O Programa Genoma Pessoal está institucionalizado ou é apenas uma linha de pesquisa?
CHURCH - É um programa institucionalizado. Temos financiamento privado, temos licença do IRB [“institutional review board”, como é chamado nos EUA um comitê de ética em pesquisa de uma instituição], para três anos de estudos, e temos grupos espalhados pelo mundo com os quais colaboramos que estão usando abordagens e mecanismos de consentimento similares.

CIÊNCIA EM DIA - E isso será feito com um conjunto definido de pessoas?
CHURCH - Cem mil. Temos licença para fazer com cem mil. A idéia é que seja um grupo diverso de pessoas, de todas as partes do mundo, que se apresentem como voluntários para ajudar a fazer essa conexão entre genes, ambientes e características.

CIÊNCIA EM DIA - Existe um debate hoje no Brasil sobre medicina personalizada, mas ele tende a se concentrar em torno das células-tronco e questões éticas associadas, não tanto com a genômica. Parece que as expectativas do público migraram da genômica para a pesquisa com células-tronco, como algo que pode dar resultados mais rápido. O sr. acha que é essa a expectativa aqui nos EUA, também?
CHURCH - Não, acho que nos EUA há certamente mais entusiasmo com genômica do que com células-tronco. Não é bem uma questão de ser esta ou aquela. A genômica tende a ser mais diagnóstica, e as células-tronco, mais terapêuticas. A razão para o entusiasmo com o diagnóstico em genômica é que acontecerá mais rápido, já temos companhias na área de genômica personalizada, e ainda vai demorar muito para que tenhamos companhias oferecendo [terapias com] células-tronco, que possam ir além do uso já comprovado em transplantes de medula óssea. À parte isso, células-tronco são em grande medida ainda um problema de pesquisa, enquanto a genômica já faz uma transição para o plano do consumidor.

CIÊNCIA EM DIA - Mas a genômica é mais limitada, no sentido de que só se aplica a diagnóstico.
CHURCH - Quando penso em limitação, penso na quantidade de pessoas cujas vidas podem ser afetadas. Diagnósticos afetam a vida da maioria das pessoas. Tratamentos são um pouco mais estreitos – no caso de um remédio contra o câncer, você não tomará contato com ele a não ser que tenha câncer. Se for ao hospital, porém, há uma boa chance de que peçam um exame diagnóstico – não necessariamente uma diagnóstico genético, mas isso está mudando.

CIÊNCIA EM DIA - Num artigo para Edge.org, o sr. traçou um limite para a genômica acessível em 10 mil a 20 mil dólares, mas é mais comum ouvir falar em mil dólares. Por outro lado, a empresa Knome está cobrando US$ 350 mil para os primeiros clientes. Quanto falta para chegar lá?
CHURCH - Quando falei num limite de 10 mil dólares, eu pensei literalmente em limiar – você não conseguiria grande quantidade de clientes com ele. Mas acontece que um bom número de pessoas está se interessando até mesmo por US$ 350 mil, portanto não há um limiar tão definido assim, há um gradiente. Mesmo mil dólares também seria caro para algumas pessoas. Mas não é um investimento tão alto, as pessoas compram laptops por esse valor, compram carros por muito mais que isso. Compram boa quantidade de refeições em bons restaurantes, o que eventualmente chega a mil dólares. Acho que, em certo sentido, já temos uma genoma por mil dólares.

CIÊNCIA EM DIA - Em que sentido?
CHURCH - Coisas como 23andMe, uma companhia na Califórnia que por mil dólares oferece análise de SNPs [pronuncia-se ‘snips”] para todo o genoma, com chips de SNP. Eles tentam deixar claras as limitações desse tipo de estudo, não é a mesma coisa que fazer o seqüenciamento completo do genoma. Existe um gradiente do que se pode obter e um gradiente do que as pessoas estão dispostas a pagar, dos mil dólares da 23andMe e dos 350 mil da Knome. O que eu gostaria de ver é o preço baixar ainda mais, chegar a menos de 500 dólares, dependendo das condições e do país.

CIÊNCIA EM DIA - Em que horizonte de tempo?
CHURCH - Como eu disse, já temos o genoma de mil dólares. Só que, a cada ano, vai aumentar aquilo que se pode obter com mil dólares. É a mesma coisa que seu computador. Ele não baixa de preço, mas o que você obtém com esse preço é cada vez melhor. Acho que isso vai acontecer com o genoma, e a velocidade com que você consegue mais valor por dólar está aumentando mais rápido que na indústria de computadores. Nesta, a cada 18 meses você consegue dobrar a potência pelo mesmo custo; em genética, eu diria que isso ocorre a cada seis meses.

CIÊNCIA EM DIA - Tão rápido assim? É uma nova Lei de Moore... O sr. a chamaria de Lei de Church?
CHURCH - Não (risos)... Vamos chamar de retornos crescentes em seqüenciamento. É muito bom. E tem gente que não quer esperar, que diz: “Por que esperar? Vamos fazer já”.

CIÊNCIA EM DIA - Quantas pessoas já se inscreveram para o projeto da Knome?
CHURCH - Não sei o número exato do momento, mas certamente é maior que dois, e acho que há razão para acreditar que serão mais pessoas do que originalmente pensado. Eles se prepararam para 20 no primeiro ano, mas acho que vão dar um jeito de fazer mais que isso.

Escrito por Marcelo Leite às 10h34

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Genômica pessoal 2 - Entrevista com George Church

Genômica pessoal 2 - Entrevista com George Church

Leia abaixo a segunda parte da entrevista realizada em 29 de maio com George Church, da Universidade Harvard e do MIT, mencionada na reportagem da Folha de domingo sobre genômica pessoal:

CIÊNCIA EM DIA - Qual seria a utilidade de uma seqüência do próprio genoma para uma pessoa? Que medidas a pessoa poderia tomar a partir dela, em termos de conduta para a saúde?
CHURCH - A genômica pessoal tem pelo menos três aspectos associados.
Um é a ancestralidade, uma das coisas em que os consumidores estão mais interessados, e fica cada vez melhor quanto mais DNA você tem [para analisar]. Há muitas maneiras de fazer isso, começando com um pedaço de papel [árvore genealógica], depois o cromossomo Y, o próximo nível, e pode fazer com todo o seu DNA, o que é muito mais interessante. Não só vai dizer o quanto você é relacionado com aquela sua tia, mas que traços vocês têm em comum, cor dos olhos, cor dos cabelos, doenças.
A segunda coisa são características médicas. E eu acho que a coisa mais importante é educação: se você for um adepto precoce da nova tecnologia, você terá uma janela privilegiada para vislumbrar aonde essa tecnologia pode chegar. Pode ser que ela não chegue a lugar nenhum, mas pode ser que você consiga uma vantagem para extrair algo dessa tecnologia e começar seu próprio negócio.
Se você é um investidor, alguém que está comprando as opções mais caras, com todo um tipo de software para ajudar, sua própria seqüência pode ajudá-lo a entender melhor onde a coisa vai chegar, melhor do que se fosse a seqüência de uma outra pessoa, como Jim Watson, ou algo assim. Hoje você pode baixar uma seqüência da internet, mas acho que você entenderia melhor a sua e ficaria mais motivado. Faz sentido? Será que eu acho que tenho mesmo colesterol alto, baseado no meu DNA? Tenho mesmo cabelo loiro? Você pode fazer um teste de realidade mais facilmente. É um investimento caro, mas não tão caro quanto parece.

CIÊNCIA EM DIA - Mas e a parte médica?
CHURCH - Também é educacional. Você pode fazer com que [a informação] o ajude a tomar decisões boas, que deveria tomar de qualquer jeito, por exemplo fazer exercício, coisa que você não conseguia fazer sem ela. As pessoas acreditam mais se virem isso como algo especial, só para elas. Outras coisas estão estabelecidas há muito tempo. Há uma longa lista, talvez uns mil genes, que não são nada ambíguos: se você tiver um alelo [variante] grave desse gene, você sabe que tem um problema médico potencial, seja você ou em seus filhos. Coisas como a doença de Tay-Sachs, hemocromatose, distrofia, anemia falciforme, e assim por diante. Cada teste desses custa um monte de dinheiro para fazer individualmente, mas, se você conseguir colapsar tudo isso em um único teste e ele custar menos do que cada teste individualmente, então isso é benéfico.

CIÊNCIA EM DIA - Mas este não é o caso ainda, certo?
CHURCH - Knome pode fazer isso, porque faz o seqüenciamento de todo o genoma.

CIÊNCIA EM DIA - Mas custa 350 mil dólares... (risos).
CHURCH - O que estou dizendo é... Sim. Todas essas companhias usando chips de SNP, que interessantemente não funcionam para fibrose cística ou câncer de mama (genes BRCA1 e BRCA2), muitas coisas naquela lista requerem seqüenciamento... Isso de certo modo ilustra o ponto em que nos encontramos.

CIÊNCIA EM DIA - Os chips não são muito úteis, mas o que é útil custa muito, muito caro.
CHURCH - Exatamente. Mas tudo isso está mudando muito rapidamente. As companhias estão usando os chips para adquirir um monte de experiência com um monte de clientes, e a Knome está usando a experiência com seqüenciamento, mas com um pequeno número de clientes. Ninguém sabe qual é o melhor modelo de negócio para chegar ao meio do caminho, onde os preços vão cair.

CIÊNCIA EM DIA - Toda semana há dúzias de artigos publicados sobre correlações entre genes ou seqüências de DNA e SNPs e doenças. Se eu seqüenciar meu genoma hoje, como vou poder acompanhar tudo que está acontecendo na ciência que pode ser relevante?
CHURCH - É muito interessante. Um dos problemas de ler jornal – e jornais são uma coisa maravilhosa, obviamente – é que a ênfase das notícias recai sobre aquilo que entusiasma as pessoas, não necessariamente na qualidade da pesquisa. Há estudos que são feitos com número muito pequeno de pacientes, digamos 20 pessoas. Outro tem 20 mil pessoas. O segundo é muito mais aceito [pelos cientistas], tem muito mais probabilidade de ser verdadeiro. Se você faz algo sobre comportamento ou inteligência, isso vai direto para a primeira página. Mas se você faz outro com 20 mil pessoas, muito cuidadoso, mas é sobre algo como “osteogenesis imperfecta” ou algum outro nome complicado, você vai parar lá no fundo da página de ciência – se tiver sorte.
Uma das coisas legais da página da 23andMe é que eles na realidade classificam todos os testes por qualidade, que você pode consultar mesmo sem ter assinado o serviço. Eles têm tudo que aparece nas notícias, algumas coisas recém-publicadas na literatura científica, e cada uma recebe de uma a quatro estrelas. Uma estrela quer dizer que era publicável, mas não tão bom assim. E quatro estrelas quer dizer que é o melhor que você pode conseguir.
Eu pessoalmente preferiria que tivessem cinco estrelas, que fosse também altamente preditivo, além de tão bom quanto dá para ser. O teste para fibrose cística, atualmente, é bastante preditivo, assim como pesquisa de qualidade. Anemia falciforme é muito bom e preditivo. E deveria haver um outro conjunto de estrelas para aquilo que se pudesse fazer algo a respeito, porque há pesquisa muito boa que não lhe permite fazer nada a respeito. Mas eles estão no caminho certo, resumindo para as pessoas a qualidade dos testes. E eles dão todos os resultados do teste; cabe à pessoa imaginar o que fazer com os de baixa qualidade.

CIÊNCIA EM DIA - Não seria o caso de prover também aconselhamento? As pessoas não vão entender os detalhes técnicos.
CHURCH - Sim... Eu acho que... [pausa] O aconselhamento não têm muito relevo nas novas empresas que estão fazendo levantamentos genômicos completos, mas com certeza é oferecido por companhias mais antigas, como DNA Direct. Creio que a idéia das novas companhias é que, se você precisa de aconselhamento, você deve procurar o seu médico.

CIÊNCIA EM DIA - No Brasil, um médico provavelmente não será capaz de manejar essa informação.
CHURCH - Nem nos Estados Unidos. Só temos cerca de cem médicos com treinamento para lidar com genética de adultos. Só cem, para o país inteiro. Há muitos mais que trabalham com genética pediátrica. É um problema no mundo inteiro. Logo os médicos vão perceber claramente que eles precisam aprender mais genética, porque é uma revolução.

CIÊNCIA EM DIA – [No Brasil] as pessoas tendem a ver as relações entre genes e doenças de uma maneira muito determinista...
R - ... o mesmo que nos Estados Unidos. Um determinismo nada realista. Creio que a maioria dos profissionais de saúde e dos pesquisadores tenta reduzir essas expectativas, esse nível de otimismo e de determinismo, mas é muito difícil convencer as pessoas. Espero que você, como um jornalista responsável, consiga isso. E certamente pode me citar para dizer que precisamos de menos ênfase no determinismo. Mas também há condições que são inteiramente determinadas.

CIÊNCIA EM DIA - Mas são muito raras.
CHURCH - Sim, individualmente raras, mas coletivamente são muito comuns. Você não pode ignorá-las.

CIÊNCIA EM DIA - Mas os pesquisadores da área estão cumprindo bem a tarefa de conter esse entusiasmo?
CHURCH - Acho que eles estão fazendo um esforço, mas isso não quer dizer que estejam indo bem.

CIÊNCIA EM DIA - Porque eles não faziam isso 15 ou 20 anos atrás. Havia muito exagero da parte dos biólogos moleculares sobre o potencial médico da genômica.
CHURCH - Acho que há menos exagero hoje. Mas o problema é o que sobrou nas pessoas. Sempre há aquele atraso de cinco anos entre mudar a maneira de apresentar uma mensagem e esta mensagem alcançar as pessoas. Creio que a maioria de nós mudou a maneira de apresentar a mensagem, mas vai demorar um pouco para as pessoas entenderem. As pessoas precisam de experiência direta. Até agora não importava muito, de certa maneira, porque não tiveram a chance de lidar com isso.
É como no início dos anos 1970: não importava se as pessoas tinham todas aquelas concepções [despropositadas] sobre computadores, porque ninguém usava computadores – mas isso mudou. Tivemos de adquirir percepções mais acuradas sobre o que os computadores podem fazer. Algumas pessoas achavam que computadores eram robôs, artificialmente inteligentes. Agora, não mais, [sabemos que] eles só realizam tarefas.

CIÊNCIA EM DIA - Agora todo mundo sabe que eles são bem estúpidos.
CHURCH - Mas eles estão cada vez mais espertos [risos].

CIÊNCIA EM DIA - Alguns colegas seus criticaram o marketing da genômica personalizada, como algo prematuro. David Altshuler, do MIT, deu declarações bem fortes para uma reportagem no diário “Boston Globe”. Como o sr. vê essas críticas?
CHURCH - É importante ter esse tipo de crítica. Em primeiro lugar isso faz com que as pessoas fiquem atraídas pelo tema. Um pouco de controvérsia faz as pessoas se interessarem.
Também precisamos policiar isso. O que poderá se tornar desafiador é manter essas críticas. No momento temos o nível correto, mas as pessoas ficarão entediadas com elas, e aí sim vamos ter problemas. Não podemos deixar que essas empresas se sintam como se ninguém estivesse vigiando, porque elas começarão a ficar negligentes e preguiçosas. Precisamos manter o diálogo crítico em andamento.
Acho que aquele artigo estava um pouco fora do contexto. David [Altshuler] estava focalizando seus comentários em doenças comuns e nos resultados mais recentes. Ele não teve tempo, numa citação curta, para abordar as muitas doenças que são individualmente raras, mas para as quais temos testes muito bons. Dá para pensar na genética (e eu sei que aquele artigo não ia nessa direção) como um seguro. Você faz seguro e espera nunca ter de usar. Ninguém quer que sua casa pegue fogo, nem um acidente de carro. Se você adquire informação genômica pessoal, a esperança é que diga que nada há de errado com você, que você pode continuar comendo alimentos gordurosos. [risos]

CIÊNCIA EM DIA - O sr. já seqüenciou seu próprio genoma, ou tem planos de fazê-lo?
CHURCH - No Projeto Genoma Pessoal estamos seqüenciando um monte de gente e, por exigência do IRB, fui requisitado a fazer essa experiência precoce, de modo que, se houvesse algo errado, eu veria. Creio que tem sido valioso para me ajudar a entender algumas das questões que vão além da tecnologia. Não estou obcecado com meu genoma, sou apenas parte da equipe.

CIÊNCIA EM DIA - O sr. topou com alguma informação muito entusiasmante, ou que preferiria não conhecer?
CHURCH - A maioria das coisas que eu gostaria de não conhecer eu já sabia antes de olhar o meu genoma. Eu gostaria de não saber que eu posso ter doença cardíaca, câncer de pele (por causa da minha pele clara), que tenho narcolepsia e posso cair no sono quando estou conversando com as pessoas – felizmente isso não aconteceu durante a nossa conversa.

CIÊNCIA EM DIA - Já estou chegando ao fim [risos].
CHURCH - Eu já sabia disso tudo. Mas algumas coisas são surpresas. Eu não deveria ser capaz de sentir o gosto amargo, mas consigo. Preciso descobrir o que querem dizer com isso. Mas não há quase nada que eu não gostaria de saber. Esse é o meu tipo de pessoa, mas há outros que prefeririam não saber. Mesmo quando não há tratamento, você pode querer agir em benefício de sua família, ou de outras pessoas no mundo que tenham a mesma doença intratável – levantar fundos, conscientizar, fazer pesquisa...

CIÊNCIA EM DIA - Coisas como Huntington...
CHURCH - Huntington, Parkinson, diabetes... Todas essas coisas que contam com organizações de militantes, como a de Nancy Drexler. Há uma oportunidade para se tornar um ativista de saúde pública, ou ativista de genômica pessoal. É nisso que estou interessado.

Escrito por Marcelo Leite às 10h33

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Isto é Blairo Maggi

Isto é Blairo Maggi

 

O governador Blairo Maggi (Foto: Marcos Bergamasco)

Veja o que a gente é obrigado a ouvir de Blairo Maggi, governador de Mato Grosso, em entrevista a André Luís Nery no G1:


G1 - Mas o ministro disse que os dados que vão ser divulgados na segunda-feira (26) mostram um aumento do desmatamento, principalmente em Mato Grosso.
Maggi - O estado de Mato Grosso, diferente dos outros estados, você tem que ter uma compreensão... Primeiro, é um estado agrícola, e as pessoas que vivem no estado ou vieram para o estado de Mato Grosso não vieram para... Como falam o italiano e o alemão, vieram para fazer a vida. Vieram aqui plantar e esperar 20 ou 30 anos para poder ter uma estabilidade financeira. O povo aqui do estado não tem a cultura extrativista que tem nos outros estados da região amazônica. Isso, inclusive, é uma reivindicação, dentro do PAS (Plano Amazônia Sustentável), que eu fiz ontem [terça, 20] ao ministro Mangabeira [Roberto Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos, coordenador do plano] e que nós vamos discutir. Para Mato Grosso, nós precisamos ter uma política diferenciada, porque a população aqui é de uma outra origem e que tem outros anseios e outros desejos.


Traduzindo do ítalo-alemão: deixa nóis desmatar porque nóis não semo índio.

Escrito por Marcelo Leite às 19h37

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Marina e o urso na Nature

Marina e o urso na Nature

O primeiro editorial do periódico científico Nature, que circula amanhã, trata de dois emblemas da luta contra a destruição do ambiente: o urso polar (Ursus maritimus) e Marina Silva. Título do editorial: "Dois símbolos, uma solução".

O urso, ícone do aquecimento global, teve sua situação de espécie ameaçada reconhecida por ninguém menos que o governo dos Estados Unidos. Até há pouco tempo, a moçada de Bush era capaz de mover mundos e fundos para negar que exista uma mudança climática causada pela espécie humana ou impedir que uma espécie de coruja ameaçada atrapalhasse a economia.

Marina Silva serve de pretexto, no editorial, para atacar as idéias arrogantes e imperialistas de outro órgão de imprensa britânico, o diário The Independent. Diz a Nature:


Embora a renúncia de Silva decerto suscite questionamentos sobre a viabilidade do [P]lano [Amazônia Sustentável, PAS] do governo, os líderes do Brasil estão corretos em dizer que a Amazônia precisa de um plano abrangente. É condescendente e contraproducente dizer, como o jornal The Independent do Reino Unido fez recentemente, que a Amazônia é importante demais para ser deixada nas mãos dos brasileiros. Afinal, essa região é o lar de cerca de 25 milhões de brasileiros que precisam ganhar a vida, e ela provê a hidreletricidade que impulsiona boa parte da crescente economia brasileira. O Brasil não tem escolha, a não ser administrá-la.


Há muitos sinais no ar de que essa gestão vai se complicar, no curto e médio prazo, ainda mais do que já se complicou no último ano, culminando na saída de Marina Silva. Duas décadas atrás, a intervenção de índios e movimentos sociais foi capaz de impedir o prosseguimento do plano de construir um colar de usinas no rio Xingu, quando o Banco Mundial brecou seu financiamento depois que a índia Tuíra encostou seu terçado (facão) várias vezes no rosto de um diretor da Eletronorte. Imagine agora que um engenheiro da Eletrobrás teve o braço ferido por facão - de novo, de caiapós - logo na primeira reunião para discutir a usina de Belo Monte. E isso num momento em que o planejamento energético do país precisa desses 11.100 MW para não ficar às escuras...

Uma das razões menos faladas da saída de Marina Silva foi o veto de Lula e Dilma Rousseff à criação de uma nova unidade de conservação justamente na região do Xingu. Fora do governo, o veto foi tomado como uma indicação de que não está descartada a construção de mais usinas no rio, como constava do plano antigo e hoje a Eletrobrás diz que não está mais no planejamento. Em seguida, a Justiça levantou as liminares que impediam o prosseguimento dos estudos para Belo Monte. Dá para entender por que os índios andam bravos, embora isso obviamente não justifique a agressão.

Além disso, se a relação de governadores como Blairo Maggi (MT), Ivo Cassol (RO) e José de Anchieta Jr. (RR) com Marina Silva já era ruim, com Carlos Minc ela começou pior. Minc disse que Maggi plantaria soja nos Andes, se deixasse; Maggi reagiu dizendo que negará PMs para a Guarda Florestal Nacional do "Minc-leão-dourado", como já está sendo apelidado o novo ministro; este, na tréplica, antecipou-se ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e anunciou que na segunda-feira saem novos dados de desmatamento na Amazônia, comparando os cinco primeiros meses de 2008 com o mesmo período de 2007 (o que é um pouco estranho, pois maio ainda está em curso), e que Mato Grosso mais uma vez aparece à frente, com aumento de 60%.

De quebra, Minc disse que não adianta Maggi ficar brigando com ele, ministro, pois a política de contenção do desmatamento é de governo. Ou seja, se Maggi quiser briga, tem de brigar com Lula. Mas Lula, todos sabemos, não quer brigar com ninguém, muito menos em ano eleitoral.

O resumo da ópera é que o nó da Amazônia continuará atado. E os tratores e moto-serras, desatados.

Escrito por Marcelo Leite às 15h37

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Agressão no Xingu

Agressão no Xingu


Não tenho maiores detalhes para sobre episódio em que saiu ferido Paulo Fernando Rezende, coordenador dos estudos da Eletrobrás para a polêmica hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu - próximo grande projeto do governo Lula na Amazônia. Só posso repudiar o ato do agressor, índio ou branco. Uma coisa é pôr o facão na cara de um engenheiro, como fez a índia Tuíra duas décadas atrás; outra é usá-lo para golpear e ferir um funcionário. Só espero que o episódio não assanhe ainda mais as preconceitos antiindígenas

Reproduzo abaixo as duas comunicações oficiais que chegaram ao meu conhecimento:


No site da Eletrobrás:

Engenheiro da Eletrobrás é ferido em Altamira

O Engenheiro Paulo Fernando Rezende, coordenador dos estudos de Belo Monte, foi ferido, hoje à tarde, durante evento em Altamira, no Pará, organizado pela Arquidiocese de Altamira, Instituto Sócio Ambiental (ISA) e por várias outras organizações não governamentais.

Paulo Fernando já teve atendimento médico e, agora, estão sendo feitos registros policiais necessários.

O Engenheiro da Eletrobrás foi à Altamira, convidado pelos organizadores do evento, para apresentar os estudos que estão sendo feitos sobre aproveitamento hidrelétrico de Belo Monte.

A Diretoria Executiva da Eletrobrás manifesta sua indignação diante do ocorrido e afirma que tomará todas as providências necessárias para que os responsáveis pela agressão sejam punidos.


Dos organizadores do Encontro Xingu Vivo:

NOTA OFICIAL À IMPRENSA

A comissão organizadora do /Encontro Xingu Vivo para Sempre/ vem lamentar o episódio ocorrido nesta terça-feira, dia 20 de maio, no Ginásio Poliesportivo de Altamira, quando o representante da Eletrobrás e coordenador dos estudos de inventário da Usina Hidrelétrica de Belo Monte sofreu uma agressão que lhe ocasionou ferimentos. O evento reúne representantes de comunidades indígenas, ribeirinhas, agricultores e movimentos sociais para discutir os projetos hidrelétricos planejados para a Bacia do Rio Xingu. O triste episódio não representa o espírito democrático de diálogo desse encontro, que busca dar voz a todos os atores e segmentos sociais envolvidos e afetados por esses projetos.
Comissão Organizadora do Encontro Xingu Vivo para Sempre

Escrito por Marcelo Leite às 20h01

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Marina, crédito e descrédito

Marina, crédito e descrédito

Coluna Ciência em Dia
Folha de S.Paulo
18 de maior de 2008

Tempestade na região de Santarém (Foto: David McGrath)

Muito já se escreveu sobre a saída de Marina Silva do governo, quase sempre com ênfase nas suas derrotas. Assentada a poeira, começa a ficar claro que a ministra do Meio Ambiente caiu pelo que fez, não pelo que não quis ou não pôde fazer.

Qualquer pessoa que tenha lido um bom livro sobre a Amazônia aprendeu que na raiz dos problemas está a desordem fundiária. Aquela metade do país que os brasileiros só sabem onde fica porque está pintada de verde no mapa é o paraíso da grilagem, da ocupação ilegal de terras públicas.

Quase ninguém tem título de propriedade regularizado. Em três recadastramentos rurais feitos no país (1999, 2001 e 2004), documentos de 200.000 km2 de terras foram validados. Mas o cadastro de outros 200.000 km2 de imóveis foi cancelado, a maior parte na Amazônia.

É instrutivo ler o que diz a organização não-governamental Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) no estudo "Quem é Dono da Amazônia". Isto, claro, se o leitor tolerar que uma ONG de Belém receba dólares da Fundação Gordon & Betty Moore.

"No fim de 2006 ainda estavam em trâmite ou sem informação processos referentes a 56 milhões de hectares [cada milhão de hectares equivale a 10 mil km2, meio Sergipe] e havia 20,6 milhões de hectares de casos arquivados sem a verificação da documentação estadual apresentada pelos detentores dos imóveis", diz o documento.

"Mais de 40 milhões de hectares de posses permaneciam irregulares", prossegue o Imazon. "O governo federal conseguiu apenas iniciar um projeto-piloto para implantação do CNIR [Cadastro Nacional de Imóveis Rurais], incluindo somente o Maranhão dos nove Estados da Amazônia Legal."

Muitas terras retomadas terminam inseridas em novas unidades de conservação (UCs) federais, como parques e florestas nacionais, nas áreas prioritárias para a biodiversidade mais ameaçadas pela frente agrícola.

As UCs criadas na era Lula abrangeram mais de 230 mil km2, quase um Estado de São Paulo. Somando as terras indígenas, um terço da Amazônia já está interditado para grileiros. Aí vem Marina Silva, em dezembro, e divulga uma lista de 36 municípios da Amazônia que mais desmatam.

Em janeiro, o governo federal bloqueia autorizações para desmatamento em todos eles (cada proprietário pode derrubar, legalmente, até 20% de sua área). Concentra aí o recadastramento fundiário e embarga a comercialização de produtos das propriedades rurais irregulares.

Em fevereiro, vem o golpe mais duro. Uma resolução do Conselho Monetário Nacional proíbe crédito de bancos públicos e privados nos 550 municípios da Amazônia, a partir de julho, a proprietários rurais que não documentem licença ambiental do imóvel rural, respeito à reserva legal e CCIR (Certificado de Cadastro do Imóvel Rural).

Era essa a conversa dos agrogovernadores com Lula, na reunião em que o presidente humilhou a agora ex-ministra. Eles só pensam em desacreditar os dados do desmatamento, parar com essa história de "dar" terra para índio e bicho, tirar seus municípios da lista da devastação e reverter as medidas asfixiadoras.

Querem crer que, com Carlos Minc associado a Dilma Rousseff, Reinhold Stephanes e Roberto Mangabeira Unger, tudo será mais fácil. Não falta quem esteja disposto a lhes dar crédito. A dívida será paga com o bom e velho capital natural do Brasil, ou seja, desmatamento.


Pós-escrito


Embora já tivesse escrito "a quente", na Folha, sobre a saída de Marina Silva, a releitura daquele comentário - um tanto convencional, na linha de relacionar as derrotas etc. - deixou-me um tanto insatisfeito. Era muito baixa sua contribuição explicativa para o fato novo, a saída da ministra do Meio Ambiente neste exato momento, e não outro. Em grande medida, o texto, escrito às pressas, repetia o que já havia dito em dezembro, noutro comentário sobre a (quase) demissão de Marina Silva na passagem do primeiro para o segundo mandato (leia aqui).

Depois de publicada a análise, na quarta-feira, conversei por cerca de meia hora com Marina Silva. Foi uma conversa em "off", ou seja, nada do que ela disse poderia ser usado. Mas serviu para abrir-me os olhos para certas circunstâncias que, embora conhecidas, terminaram ocultadas pela espuma na superfície da demissão, inflada pela conversa mole da indicação de Mangabeira Unger para coordenar o Plano Amazônia Sustentável (PAS) e da suposta "irritação" de LUla com a maneira como a ministra se demitiu, blá-blá-blá.

Bastou um pouco de conversa e pesquisa para ficar evidente que a demissão tinha mesmo a ver com a questão dos freios eficientes para a atividade de exploração predatória da Amazônia: concessão seletiva de crédito e criação de novas unidades de conservação (UCs). Foi ao prever que viriam - ou já estavam vindo - recuos nessas áreas que Marina Silva apeou-se do governo federal.

Ao mesmo tempo, criou uma armadilha inteligente para Lula e o novo ministro, Carlos Minc: se recuarem no torniquete ambiental do crédito e prosseguir a resistência a criar novas UCs para barrar a fronteira agrícola, ficará ainda mais evidente que a troca de ministros teve como motivação, sim, o afrouxamento das exigências em prol da floresta. Em outras palavras: crédito e UCs passaram a ser os indicadores, o teste da seriedade das intenções do governo Lula diante da tempestade que se forma sobre a Amazônia, agora que não pode mais contar com seu pára-raios.

Escrevi a coluna na quinta-feira à tarde, por causa do fechamento antecipado do caderno no qual sai a coluna. Na entrevista a Marta Salomon publicada hoje na Folha, Marina Silva já fala em "on" sobre essas questões.

Escrito por Marcelo Leite às 18h22

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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