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Marina, Quartiero, Lula, Geisel e a Raposa

Marina, Quartiero, Lula, Geisel e a Raposa

Parece incrível, mas existe algo em comum entre este blog e o rizicultor Paulo César Quartiero (DEM), prefeito de Pacaraima, em Roraima, na conturbada região da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol. Solto pela Polícia Federal por ordem judicial, o arrozeiro que comanda o levante contra a PF e o governo federal naquele Estado, deu entrevista a Lucas Ferraz, da Folha de S.Paulo, em que afirma sobre a ex-ministra Marina Silva o mesmo que já se disse aqui e de novo aqui: "Já vai tarde".

A diferença é que, com a mesma expressão, dissemos coisas bem diferentes (o que é bom para mostrar que o uso de palavras, como tudo neste mundo, nada tem de inocente).

Agora, só não vê quem não quer que a questão amazônica está em franco retrocesso no Brasil. A saída de Marina Silva faz temer recuo pelo flanco do desmatamento (embora seja injusto supor que Carlos Minc, antes mesmo de assumir, esteja condenado a engolir os sapos e os bagres que Marina devolveu para o colo de Lula).

Os sinais profusos emanados pelo relator e pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), impensáveis no contexto institucional de outras cortes supremas pelo mundo, fazem temer pelo flanco da questão indígena. Pior, são secundados pelas piores oligarquias amazônicas e por oficiais generais incontinentes.

Primeiro foi o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante militar da Amazônia, que atacou a política indigenista do governo a que serve. Parece que foi repreendido por seu superior, o ministro da Defesa - Nelson Jobim, aquele que, como ministro da Justiça de FHC (por falar em múltiplas lealdades), já tentara bombardear a homologação da TI Raposa/Serra do Sol. Se o fez, foi com discrição incaracterística em sua longa sobrevivência política.

Depois foi o general Eliezer Monteiro, comandante do 7º Batalhão de Infantaria de Selva, que cedeu instalações de seu quartel para manifestação de arrozeiros, políticos e comerciantes de Roraima contrários à demarcação de Raposa/Serra do Sol (quem quiser ter uma noção de como outros militares reagem a esse tipo de insubordinação, leia aqui). Desconheço se foi repreendido e chamado á disciplina.

Agora é ninguém menos que o chefe do Estado Maior de Defesa, almirante-de-esquadra Marcos Martins Torres, que acha oportuno externar sua opinião sobre a terra indígena em litígio. Pronunciou-se de modo monossilábico, segundo reportagem de Iuri Dantas na Folha: "Indagado especificamente se Heleno era uma 'voz isolada', Torres respondeu 'não', enfaticamente, mas evitou fazer comentários sobre as observações do general - ele causou polêmica ao classificar a demarcação contínua da reserva como ameaça à soberania nacional". Vamos ver se Nelson Jobim se manifestará sobre mais esta manifestação.

Na verdade, é de Lula que se espera uma manifestação. Dizem as más línguas que ele gosta de se comparar com o general Ernesto Geisel (além de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e... FHC). Pois há um episódio, talvez o mais apreciável da biografia do "Alemão" (como era conhecido na caserna), no qual Lula poderia extrair lição mais útil que o desenvolvimentismo a qualquer preço: três dias após a morte do operário Manuel Fiel Filho numa das celas do DOI-CODI (SP), em janeiro de 1976, Geisel retirou do posto o general Ednardo d’Ávila Mello, comandante do 2º Exército (SP).

O problema é que, se Lula se dispuser a cortar pela raiz o zum-zum-zum militar e restaurar a plenitude de sua autoridade como comandante-em-chefe das Forças Armadas, não poderá dizer que foi pela primeira vez na história deste país.

Escrito por Marcelo Leite às 10h57

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Por que Marina Silva já foi tarde

Por que Marina Silva já foi tarde

Especialmente para quem não entendeu (ou não quis entender) o título "Marina Silva já vai tarde", na nota abaixo, reproduzo meu comentário de hoje na Folha de S.Paulo:


Marina sofreu bombardeio desde o 1º mandato de Lula

Ministra fez várias concessões e teve de aceitar derrotas seguidas em 5 anos e 5 meses de governo, mas sai no instante em que desmatamento volta a aumentar

AO FINAL do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, já estava claro para quem quisesse ver que seu governo não merecia Marina Silva. A voz ao mesmo tempo frágil e firme da ex-doméstica que chegou a senadora permanecia solitária na Esplanada. Era a única a defender que o desenvolvimento econômico não pode ser obtido a qualquer preço, porque não seria de fato desenvolvimento.

Lula repetiu a estratégia Fernando Collor com José Lutzenberger. Pôs Marina Silva na vitrine do MMA (Ministério do Meio Ambiente) para neutralizar pressões internacionais contra o país pela destruição da Amazônia. Funcionou por algum tempo. Tempo demais.

Era fácil deixar a ministra falando sozinha sobre "transversalidade". Soava como (e era de fato) uma abstração insistir na necessidade de injetar a questão ambiental em todas as esferas de decisão e planejamento do governo. O desenvolvimentismo lulista seguiu em frente.

Foram muitas as batalhas perdidas. Primeiro, perante o Ministério da Ciência e Tecnologia, a dos transgênicos. Depois de anos de omissão do governo FHC quanto ao plantio de soja geneticamente modificada contrabandeada da Argentina, Lula capitulou diante do agronegócio e do lobby dos biotecnólogos, permitindo a comercialização do grão ilegal.

Em seguida vieram várias concessões, fracassos e derrotas do MMA: explosão do desmatamento (que chegou a 27 mil km2 em 2004, segunda maior marca de todos os tempos); licenciamento ambiental da transposição do São Francisco e das grandes hidrelétricas na Amazônia; a decisão de construir Angra 3 e outras quatro usinas nucleares...

Apesar disso, Marina Silva continuava como um conveniente bode expiatório. A certa altura, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) parecia ser o maior entrave ao desenvolvimento nacional. Pior que a taxa de juros mais alta do planeta, a julgar pelo bombardeio dos jornalistas de negócios e dos ministérios interessados em camuflar a própria inoperância.

Mãe do PAC, mãe do PAS

O MME (Ministério de Minas e Energia), onde começou a ser gestada a mãe do PAC e também o embrião de um apagão, capitaneava o canhoneio. Entre um mandato e outro, a artilharia quase derrubou Marina Silva. Havia até candidato preferido do MME, segundo se especulava na época: Jerson Kelman, diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). A proverbial raposa no galinheiro.

Marina Silva resistiu e ficou para um segundo mandato. Disse na época que o fez a pedido do próprio Lula. Afinal, o desmatamento na Amazônia vinha caindo, tendência que se confirmou ao longo do primeiro ano do segundo mandato. As cifras traumatizantes despencaram quase 60% em três anos. A ministra continuava bem na fita, pelo roteiro de Lula.

Aí começaram a surgir os primeiros sinais de que o desmatamento na Amazônia voltava a crescer. Era inevitável, diante da alta retomada no preço de commodities agrícolas, como soja, carne bovina e algodão. Enquanto isso, o frenesi dos biocombustíveis tomava conta do Palácio do Planalto.

Só os incautos acreditam que a expansão da produção será obtida apenas com aumento da produtividade e ocupação de áreas degradadas de pastagem. O empreendedor rural se dirige para onde encontrar a melhor combinação de terra e mão-de-obra baratas, solos férteis, topografia favorável e infra-estrutura logística. Soja e cana não desmatam a Amazônia, mas a pecuária, sim -e como.

Diante do trator pilotado pelo Ministério da Agricultura e teleguiado da Casa Civil, o espaço de manobra de Marina Silva se restringiu ainda mais. Nem ela fala mais em transversalidade, embora não deixe de apontar os riscos do excessos de entusiasmo com a expansão do agronegócio.

Os sensores de satélites, capazes de discernir florestas de verdade das áreas em processo de degradação, não se enganam a respeito. O desmatamento está em alta. É indiferente para eles que Lula, Dilma Rousseff e Marina Silva tenham lançado há poucos dias o enésimo programa desenvolvimentista, mais uma compilação de ações anteriormente providenciadas, e o batizem como PAS (Plano Amazônia Sustentável).

Lula tentou fazer blague na cerimônia, afagando a "mãe do PAS". Ao mesmo tempo, designou o ministro Roberto Mangabeira Unger (aquele do aqueduto ligando a Amazônia ao Nordeste) para coordená-lo.

O presidente ainda jactou-se de estar "criando uma nova China aqui". A infeliz frase presidencial -mais uma, apenas- não deve ter sido a causa do pedido de demissão da ministra. Mas nunca esteve nos planos de Marina Silva ajudar a armar a segunda maior bomba-relógio ambiental do planeta.

Escrito por Marcelo Leite às 07h58

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Marina Silva já vai tarde

Marina Silva já vai tarde

Até que demorou para Marina Silva deixar o governo Lula. A decisão de sair só agora fala mais da disciplina e do caráter da ministra do que de qualquer outra coisa. Mais não vou falar agora porque escrevi para a edição da Folha de amanhã e não quero furar a mim mesmo.

Nada impede, porém, que deixe aqui um testemunho pessoal sobre Marina Silva. Estive no máximo meia dúzia de vezes com ela. Em todas as ocasiões comportou-se como pessoa absolutamente íntegra e gentil. Trata com deferência e atenção até aqueles que a criticam com freqüência.

Projeta em público uma imagem de retidão e inflexibilidade que não corresponde, a julgar por sua gestão no ministério, à capacidade de negociar e fazer compromissos de modo discreto, mas fixando limites claros, além dos quais não se dispõe a prosseguir.

Alguém capaz de dizer, enfim, que estava disposta a perder a cabeça, mas não o juízo. Rola agora a cabeça da ministra, mas sua volta ao Senado vai aumentar consideravelmente o teor de juízo na Casa.

P.S.: Leia a carta de demissão de Marina Silva.

Escrito por Marcelo Leite às 22h08

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Antropólogos defendem Raposa/Serra do Sol

Antropólogos defendem Raposa/Serra do Sol

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), por intermédio de seu presidente, Luís Roberto Cardoso de Oliveira, divulgou na internet artigo que defende o processo de demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Leia a íntegra aqui ou este trecho selecionado:

Jorge Sebastião Costa, 48, foi atingido por bomba caseira e, depois de desmaiar, segundo o CIR, foi espancado por funcionários de fazenda de arroz
Foto: Aldenir Kadete/Reprodução de vídeo


A legislação indigenista brasileira é extremamente detalhada, fixando rigorosamente os critérios e procedimentos que devem ser seguidos em cada caso. Em meados da década de 90, quando o jurista Nelson Jobim era Ministro da Justiça, foi editado um decreto instaurando a figura do contraditório no processo administrativo de demarcação. Ou seja, não há qualquer possibilidade de uma terra indígena vir a ser reconhecida oficialmente sem que sejam anexados ao processo, ouvidos e examinados os argumentos de todos que eventualmente possam sentir-se lesados pela ação do executivo.

Toda proposta de criação de uma terra indígena é publicada pela Funai no Diário Oficial da União, a partir daí, abrindo-se um prazo para que todos se manifestem. Proprietários de terra, grileiros, associações de naturezas diversas, sindicatos de trabalhadores (ou patronais), prefeituras, órgãos públicos estaduais e federais fazem uso extenso do contraditório. Através de procuradores, advogados, políticos e personalidades juntam ao processo todas as provas e documentos que considerarem relevantes. A decisão final não é tomada por alguém suscetível de pressão direta pelos indígenas (como alegadamente seria o caso do presidente da Funai), mas por um ministro de estado (o Ministro da Justiça).

A demarcação física de uma área em geral leva muitos anos devido às restrições orçamentárias e às prioridades de cada gestão. Nessa fase são indenizadas as benfeitorias de boa fé lá existentes e são re-assentados pelo Incra os posseiros e pequenos proprietários que ali residiam anteriormente. Só depois de tudo isso é que a área poderá ser homologada pelo Presidente da República, passando obviamente pelo crivo da Casa Civil e pelo Gabinete Militar (e antigamente pelo Conselho de Segurança Nacional). Em algum momento, mesmo tardio, o Estado tem que chegar a uma decisão final, concedendo às vítimas os direitos que antes lhes foram negados.

Escrito por Marcelo Leite às 14h12

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Promessas amazônicas de Lula

Promessas amazônicas de Lula

Anote aí, para cobrar de preferência antes de 2010, o que Lula prometeu hoje sobre a Amazônia em seu programa de rádio Café com o Presidente:

Campo de soja com floresta ao fundo, perto de Santarém (PA)


Nós criamos um programa chamado Operação Arco Verde, que faz parte do Plano e tem quatro grandes ações: As emergenciais, que prevêem, entre outras ações, agilizar o seguro-desemprego, a contratação e capacitação de cerca de 2500 agentes de defesa ambiental – eles vão trabalhar na prevenção e combate a incêndios florestais. As ações de fomento às atividades sustentáveis, que contêm o Programa de Pró-Recuperação Florestal. Tem 1 bilhão que será usado para recuperar áreas degradadas, reflorestamento e regularização ambiental. Também vai dar apoio a comercialização de produtos do extrativismo, incluindo-os na política de garantia de preços mínimos. Nós vamos, ainda, treinar 4 mil profissionais de assistência técnica para atender, numa fase inicial, 100 mil produtores rurais. As ações de ordenamento fundiário e territorial prevêem o levantamento da ocupação dos 36 municípios, Luciano, onde foi detectada a maior taxa de desmatamento, para que seja feito o mapeamento das propriedades e postos rurais. Vamos também estabelecer a criação de um Cadastro Ambiental Rural. Isso é importante, o produtor só terá acesso ao crédito, fomento e assistência técnica se ele fizer parte desse cadastro. Portanto, nós estamos chamando todos à responsabilidade porque não é um problema apenas do governo federal, é um problema de todos nós. E, por último, as ações de governança ambiental. Entre elas, nós estamos prevendo a liberação, pelo BNDES, de 500 milhões para investimentos em melhorias no processo de licenciamento, gestão territorial, elaboração e implementação do zoneamento.

Escrito por Marcelo Leite às 11h08

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Biologia à cubana

Biologia à cubana

Segue abaixo uma versão um pouco mais longa de minha resenha do livro Biology under the Influence. Dialectical Essays on Ecology, Agriculture, and Health, de Richard Lewontin e Richard Levins (Monthly Review Press, 400 págs., US$ 22,95). Na versão publicada da resenha, um corte malfeito deu a entender que Stephen Jay Gould também é autor dos ensaios, quando na versão original só se dizia que ele, como Lewontin e Levins, fez parte do grupo radical Science for the People.

Se você quiser ter uma idéia de quem é Richard Levins, leia aqui (em inglês) o último capítulo do livro.

Quem quiser encontrará muitas razões para não ler este livro sui-generis dos biólogos marxistas americanos Richard Lewontin e Richard Levins. Uns tropeçarão no conceito de “biólogo marxista”, que tomarão por uma contradição em termos. Outros, escaldados na dialética da natureza de Friedrich Engels, implicarão com o apego quase patético a essa gazua teórica para caracterizar uma visão sistêmica da vida e da ecologia.

Os que se arriscarem a ler, enfim, poderão ser vencidos pela irritante redundância da obra. Os autores a reconhecem, mas, impenitentes e paternalistas, ainda se julgam no direito de impingi-la. “Redundância é algo usualmente indesejável em livros, mas aqui ela é justificada”, argumentam: “A remoção da repetição poderia destruir a coerência de alguns capítulos, e, como a abordagem não é nada familiar, sua repetição em contextos diversos pode não ser fora de propósito”.

Após a leitura dos 31 capítulos, escritos ao longo de duas décadas, há que dar alguma razão ao segundo argumento. A abordagem é mesmo muito pouco convencional. Não só a abordagem – texto, estilo, exemplos, vocabulário, tudo. Ninguém decerto esperaria, num livro de biologia, dar com a seguinte dedicatória:

“Cinco cubanos estão agora cumprindo longas sentenças em prisões dos EUA porque estavam monitorando as atividades de grupos terroristas emigrados em Miami. De suas celas eles tanto têm atuado para tornar a vida na prisão mais tolerável aos outros detentos na sua comunidade imediata quanto continuam participantes integrais na vida da revolução cubana. Nós admiramos sua fortaleza e criatividade na resistência e dedicamos este livro a Antonio Guerrero, Fernando González, René González, Gerardo Hernández e Ramón Labañino, e a todas as pessoas no mundo inteiro que lutam por sua libertação”.

Se o leitor chegou até aqui, é porque tem estômago para continuar. Não se arrependerá. Lewontin não é para espíritos fracos, nunca foi. Sua longa trajetória de crítico contumaz do reducionismo e do determinismo imperantes na moderna biologia molecular já renderam clássicos de difícil digestão, no gênero de “Not in Our Genes” (Não em Nossos Genes, 1985), e coletâneas de ensaios mais palatáveis, porque menos militantemente marxistas, como “It Ain’t Necessarily So” (Não É Necessariamente Assim, 2000).

Esta nova reunião partilha com o livro de 2000 um ensaio de Lewontin, “O Sonho do Genoma Humano” (1992), crítica precoce das promessas até hoje não cumpridas de grandes panacéias que brotariam do bilionário programa de pesquisa. É um dos quatro de sua lavra no volume. Outros 15 têm Levins _ao lado de Lewontin e Stephen Jay Gould, um ex-ativista do grupo Ciência para o Povo_ como co-autor (que também assina outros oito capítulos).

A primeira parte do volume é a melhor e mais refrescante. Corresponde aos 15 capítulos em co-autoria, colunas publicadas sob o título “Eppur Si Muove” (a frase famosa de Galileu) no periódico ecossocialista “Capitalism Nature Socialism” (www.cnsjournal.org). Em textos acessíveis e repletos de exemplos, Lewontin e Levins (L&L) expõem sua visão intermediária da biologia: nem o reducionismo molecular, que consideram com muita razão “o produto específico e crescentemente mercantilizado da indústria capitalista do conhecimento”, nem o holismo mistificador, incapaz de reconhecer o valor de desvendar os detalhes de que as coisas são feitas.

No programa para a biologia que apresentam no 15º capítulo, L&L deixam claro, porém, que não se satisfazem com o plano das simples “coisas”, foco privilegiado da pesquisa subserviente aos ditames do capital. Para alcançar explicações mais cabais da natureza, a ciência precisa abranger “processos”, advogam. Pedem um renascimento da “história natural”.

No caso da biologia, isso implica a incorporação da dimensão histórica do objeto, não só por meio da evolução da espécie e do desenvolvimento do organismo, mas também da sua interpenetração dinâmica com o próprio ambiente (a noção de “construção de nicho”) e até com o universo social. Isso se mostra particularmente sensível em seus exemplos da biomedicina e da saúde pública.

Um dos que se repetem ao longo do livro é o da peste bubônica. Para a biologia tradicional, ela se resume a uma infecção pela bactéria Yersinia pestis que, reunindo condições favoráveis como roedores (reservatórios) e pulgas (vetores), pode se tornar epidêmica. É o quanto basta para um biólogo moderno iniciar seu projeto de pesquisa, pois causas simples e discretas rendem mais artigos científicos, patentes e renome.

L&L argumentam que esse escopo reduzido jamais permitiria entender por que a peste se tornou uma epidemia na Europa no século 6º e, depois, só no século 14. Roedores, pulgas e bactérias não deixaram de existir naqueles 800 anos. As razões, sustentam, devem ser buscadas nas agruras de um Império Romano em declínio, sob Justiniano, e na crise do feudalismo. Sem essa visada histórico-econômica, o conhecimento persiste incompleto, não merece o nome de ciência verdadeira.

O raciocínio vale também para fenômenos atuais. Doenças infecciosas emergentes, como a hantavirose, só podem ser inteiramente compreendidas se no radar do pesquisador estiverem também fenômenos como o desmatamento para a agricultura intensiva de grãos, que favorece a proliferação de roedores.

A pressão arterial não é uma medida abstrata, indicador fiel do estado de qualquer paciente independentemente de classe ou grupo racial. Naqueles submetidos a estresse permanente, por razões socioeconômicas, a pressão alta pode ser sintoma de doença crônica, e não de uma crise controlável por medicamentos.

A privação precoce e continuada _numa palavra, pobreza_ modula a norma das reações do organismo aos estímulos do ambiente, tornando-a muito diversa daquela de quem teve uma vida melhor, mesmo que ambos partilhem os mesmo genes. Quando se fala em medicina personalizada, porém, só os genes entram em cena.

“De maneira a enfrentar as complexidades de nossas ciências e de nosso mundo, temos de internalizar em nossa intuição a filosofia da totalidade, da conexão entre e através de todos os níveis, da dinâmica, da contradição e da auto-reflexão _que é a dialética”, pregam L&L.

O livro oferece um manancial de reflexões teóricas, exemplos e argumentos que obrigam a pensar. Se traz de permeio um tanto de jargão marxista antiquado e até de propaganda cubana, tanto melhor como antídoto: de propaganda corporativa e jargão determinista, afinal, a literatura biológica já está até as tampas.

Escrito por Marcelo Leite às 11h26

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Poluição "do bem"

Poluição "do bem"

Coluna Ciência em Dia
Folha de S.Paulo
11 de  maio de 2008

Imagem de satélite mostra nuvem de poluição sobre a China

No Brasil, não falta quem defenda o direito de desmatar e expulsar índios de suas terras em nome da soberania e do desenvolvimento. No governo federal, muitos fazem coro envergonhado com essa gente, dizendo não aceitar palpite de quem já devastou as próprias florestas. Deveriam se juntar num movimento revanchista para exigir que europeus e americanos parem de combater a poluição, porque isso pode destruir a "nossa" Amazônia.

Seria uma conclusão ética e ecologicamente débil (mais uma), mas não de todo ilógica, de estudo publicado quinta-feira no periódico "Nature". Foi notícia por toda parte: a seca de 2005 na Amazônia ocidental teve como causa mais provável um aumento da diferença de temperatura em setores do oceano Atlântico acima e abaixo da linha do Equador. Esse padrão anormal teria desviado chuvas da floresta, anomalia que pode se tornar ainda mais freqüente ao longo deste século.

É o que dizem simulações de computador do Centro Hadley de estudos meteorológicos. O artigo veio assinado por sete estudiosos do Reino Unido e dois do Brasil (José Marengo e Carlos Nobre).

O paradoxo do estudo está na origem do aquecimento anormal do Atlântico do lado de lá do Equador: diminuição da poluição no hemisfério Norte. Como assim? Todo mundo sabe que a poluição atmosférica -gases emitidos na queima de combustíveis fósseis como petróleo e carvão- causa aquecimento, não resfriamento, e que ela está aumentando, não caindo.

Como tudo em matéria de mudanças climáticas, é sempre mais complicado do que parece. Para começo de conversa, há poluição e poluição. Queimar combustíveis fósseis produz, entre várias coisas, partículas de enxofre que refletem luz solar. Chamadas de aerossóis, fazem "sombra" sobre a superfície do globo, diminuindo a energia disponível para esquentá-la.

Em tempo de efeito estufa, essa poluição "do bem" representa um desconto de cerca de 30% no aquecimento global (em lugar de 2,3 watts por metro quadrado, energia bastante para acender uma lanterna, sobra para aquecer a atmosfera 1,6 watt por metro quadrado). É o que os especialistas chamam de "feedback negativo", pois contrabalança a tendência geral. Ocorre que o enxofre é também um poluente sério, fonte da chuva ácida.

Países industrializados lutam para diminuir sua emissão e com isso evitar a destruição das poucas florestas remanescentes no hemisfério Norte. Só os Estados Unidos, em duas décadas, reduziram em 40% o enxofre. Com cada vez menos "sombra", o Atlântico Norte fica mais exposto ao aquecimento global. As águas esquentam e alteram os padrões de circulação na vizinhança do Equador. Chove menos na Amazônia, os rios secam. O que era para ser uma poluição "do bem" pode resultar numa catástrofe.

Esse estudo na "Nature" deve servir de chamado à razão para quem defende megaprojetos de geoengenharia, como lançar enormes quantidades de enxofre na atmosfera para combater o aquecimento global. Apesar de contar com defensores respeitáveis, como o Nobel Paul Crutzen, seria uma temeridade extrapolar em escala planetária a húbris tecnocientífica e sua obsessão com o controle da natureza.

A maior fonte mundial de gases do efeito estufa e de aerossóis, hoje, é a China, que inaugura a cada semana uma termelétrica a carvão com altos teores de enxofre. Se conseguir diminuir a emissão de aerossóis, contribuirá de modo ainda mais explosivo para o aquecimento global.

Se correr, o dragão pega...


Pós-escrito

No espaço limitado de uma coluna como esta - cerca de 3.600 caracteres, espaços incluídos - não dá para detalhar muita coisa e passar uma idéia mais adequada da complexidade envolvida no sistema climático, mesmo que em escala por assim dizer regional (como a relação entre o oceano Atlântico e a floresta amazônica). Este exemplo do trabalho de Marengo, Nobre e seus colegas britânicos, porém, me pareceu particularmente propício para apresentar o conceito de "feedback negativo", ou seja, de alterações em curso na atmosfera que na verdade contribuem para contrabalançar, e não realimentar, a mudança climática.

A abundância e a interpenetração de mecanismos realimentadores é uma das coisas que complicam muito a vida dos fabricadores de modelos computadorizados para reproduzir - e quem sabe um dia prever com precisão - o comportamento do clima. Considere, por exemplo, a possibilidade de que o aquecimento global, ao descongelar o solo (permafrost) em altas latitudes do hemisfério Norte, leve à liberação de grandes quantidades de metano trancadas ali por séculos, ou milênios. O metano é um poderoso gás do efeito estufa. Seria um poderoso feedback positivo.

Coisas assim não são apenas difíceis de medir e estimar, mas sobretudo complicadas de equacionar - em sentido literal, de criar equações que reproduzam, num modelo, seu comportamento e sua contribuição para piorar ou reduzir o aquecimento global. Legiões de pesquisadores trabalham nisso todos os dias, com progressos apenas incrementais. Duas décadas depois de criado o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), contudo, estão conseguindo montar esse quebra-cabeças, uma pecinha por dia - como o artigo publicado na Nature.

Escrito por Marcelo Leite às 11h07

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Marcelo Leite Marcelo Leite é jornalista, colunista da Folha de S.Paulo e autor do livro "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp).

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