Lula sai em defesa dos índios

Lula e o índio Jecinaldo Saterê, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, no lançamento do Plano Amazônia Sustentável (PAS) - Foto: Ricardo Stuckert/PR
Os anticulticulturalistas, inimigos jurados de toda e qualquer ação afirmativa, vão ranger os dentes. Na cerimônia de lançamento do enésimo plano para salvar a Amazônia dos brasileiros, Lula fez troça do herói dessa gente, o governador de Roraima, José Anchieta Jr. (PSDB), único representante da região ausente.
"Não está presente o companheiro governador do Estado de Roraima, por problemas que vocês estão acompanhando pela imprensa. Deve ser por isso", disse o presidente, referindo-se provavelmente ao esforço do tucano para libertar da prisão Paulo César Quartiero, um dos seis "brasileiros" que defende em sua disputa contra 18 mil índios da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol. Como se sabe por informação militar segura, são todos uns "terroristas", usurpadores de terra alheia e quintas-colunas da conspiração internacional para tomar a Amazônia de nós.
Antes de reproduzir os trechos do discurso em que Lula saiu em defesa dos índios, desautorizando portanto vozes como a de seu líder no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), cito a frase impagável e paradoxal do presidente ao batizar Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, como a "mãe do PAS": "De mãe em mãe, vocês percebem que estou criando uma nova China aqui".
Lula, para variar, enrolou-se nos conceitos. Afinal, a China não é e não será tão cedo exemplo de desenvolvimento sustentável para ninguém.
Quem, um dia, ousou dizer que os nossos índios faziam o País correr o risco de perder a sua soberania, porque eles estão em lugares, muitos deles, fronteiriços com o Brasil? É só ir a São Gabriel da Cachoeira, que a gente vai perceber que grande parte dos militares do Exército brasileiro que estão lá, vestidos com a roupa verde e amarela das nossas Forças Armadas, são índios. Quando não tinha Exército, quantas vezes foram os índios que defenderam as nossas fronteiras?
Por que há esse antagonismo desnecessário? Por que tentar despolitizar a sociedade em debates que não dizem absolutamente nada, em comparação com a realidade que nós vivemos a cada dia? Obviamente que um índio, no meio da Amazônia, sendo brasileiro, cidadão brasileiro, eleitor brasileiro, e não recebendo as funções que o Estado tem que ter para com ele e para com o seu povo, vai ser tão rebelde contra o Estado quanto um companheiro que mora numa favela do Rio de Janeiro, a cem metros de Copacabana, e não tem água, não tem escola, não tem nada para fazer.
Todos os 180 milhões de brasileiros serão muito mais brasileiros e brasileiras se perceberem que o Estado está cumprindo com a sua função para com eles, independentemente de ser homem ou mulher, índio, negro ou branco.
A gente agora pode andar o mundo e quando a gente for debater a Amazônia, nós não precisamos esperar a pergunta, nós é que iremos dizer para eles o que nós estamos fazendo na Amazônia. Não precisa mais ficar dizendo bravata: “a Amazônia é nossa”, até porque muitas vezes, quem fala isso nem fala com muita convicção. Eu sempre acho que quem quer as coisas de verdade, não precisa ficar fazendo bravata.
Se ela foi nossa desde que aqui Cabral pôs os pés, por que nós agora temos que ter preocupação com a Amazônia? Tem livros do século XVI que mostram que... uma vez um americano veio de barco e achou que o rio Amazonas era extensão do Mississipi, como tem gente que acha que a Amazônia tem que ser da humanidade, e nós achamos que é. Nós achamos que ela precisa produzir benefícios para todos os seres humanos, mas nós temos que dizer, em alto e bom som, que quem cuida da Amazônia é o Brasil, quem decide o que fazer na Amazônia é o Brasil.



