Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Obama tanque-cheio vs. Hillary meia-bomba

Obama tanque-cheio vs. Hillary meia-bomba

Permita o leitor que este blog fuja um pouco da raia da biologia e dê preferência para a da política (ainda que, na ecologia e na biotecnologia, esses continentes estejam em atrito direto).

Os últimos dias nos Estados Unidos foram marcados por dois debates na campanha eleitoral: o reverendo Wright e o imposto da gasolina. Não tenho lido direito os jornais brasileiros, mas fica a impressão de que deram mais destaque ao primeiro. De fato, estarrecedor. Vi o homem (Wright) falando na TV, é de deixar os cabelos em pé. Vi também na TV o homem que importa, Barack Obama, e o esforço de se desvincular de seu pastor foi visivel, mas, para alguém cuja retórica é tão elogiada, pareceu hesitante em alguns momentos. Agora, o frenesi com que a imprensa americana se lançou ao episódio faz os oportunistas brasileiros do caso Isabella parecerem monges. Hoje, por exemplo, o jornal The New York Times publicou um artigo furibundo do colunista Bob Herbert sobre a baixa qualidade do debate.

Muito mais estarrecedor, no entanto, é o debate enlouquecido sobre o imposto da gasolina. John McCain e Hillary Clinton, no pior estilo populista (depois falam de Hugo Chávez...), estão defendendo que o atual governo suspenda o imposto durante o verão (julho a agosto), para baratear a gasolina numa época em que os americanos viajam muito de carro. Guardadas as devidas proporções, seria mais ou menos como se Dilma Rousseff e Aécio Neves defendessem, no começo de 2009, que o presidente Lula baixasse os juros durante o verão, porque, afinal, janeiro, fevereiro e março são meses em geral fracos para a economia e o emprego...

Na realidade, é mais louco ainda. Há boas razões para baixar os juros no Brasil. Não há boas razões para baixar o preço da gasolina nos Estados Unidos nem em qualquer parte. O petróleo está na casa dos US$ 120 por barril não por ganância das empresas petroleiras, como chegou perto de dizer a pragmática Hillary, mas porque o consumo sobe mais rápido que a produção. Sabe aquela história de demanda e oferta? Pois então.

Com a alta do preço do petróleo, por outro lado, seu consumo tende a cair e torna-se relativamente menos caro investir em energias alternativas, de biocombustíveis a moinhos de vento. Um refresco para a atmosfera, que talvez assim se aqueça menos e atrase um pouco as possíveis catástrofes do efeito estufa, agravado principalmente pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural)."É a economia, estúpidos", alguém poderia comentar.

Barack Obama resistiu à sereia populista e manteve, na semana horrível que vinha enfrentando, uma opinião firme: não faz sentido suspender o imposto da gasolina. Primeiro, porque não vai fazer muita diferença - sua equipe calcula que a economia permitida pela medida populista a cada americano motorizado será de menos de 28 dólares, ou 9 dólares por mês. Depois, o preço mais baixo estimulará o consumo, o que por sua vez - pela inexorável lei da oferta e da procura - levará a novos aumentos de preço, talvez até anulando o diminuto alívio no bolso do consumidor.

Por fim, da perspectiva do aquecimento global que todos se propõem a combater (inclusive McCain e Hillary), é burrice baixar o preço e estimular o consumo bem no momento em que os americanos começavam a desconfiar que pode haver algo de insustentável no seu modo energético de viver. Mesmo com a alta de preços na bomba, a gasolina aqui ainda custa menos de um dólar por litro - mais ou menos o preço do litro de álcool no Brasil, onde quem tem alguma coisa na cabeça acha que a gasolina tem de subir, não baixar.

Com a ajuda do reverendo Wright e a promessa de um verão na estrada, Hillary parece ter saído das cordas, segundo a interpretação de vários comentaristas. Não que isso seja boa notícia para os democratas, pois sua manutenção no páreo só ajuda McCain. E, mesmo que ela termine indicada candidata do partido, terá de pagar o preço pelo que vem defendendo e dizendo na campanha.

A questão da gasolina talvez até lhe traga votos, mas a exploração do tema racial (ainda que não tão diretamente a do reverendo Wright) pode roubar-lhe pontos preciosos no eleitorado negro, majoritariamente democrata. É o que sugere a análise do colunista Charles Blow (que nome fantástico para um crítico) na mesma página do NY Times. Blow mostra que Hillary vem continuamente perdendo pontos entre negros (veja gráfico no NY Times), enquanto Obama fica mais ou menos empatado entre perdas (brancos) e ganhos (negros). Mesmo que Hillary o vença, poderá chegar à eleição de tanque meio vazio, pois muitos negros - que sempre votaram maciçamente em Bill Clinton - se sentem traídos e podem acabar votando em McCain.

Escrito por Marcelo Leite às 18h58

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O cochilo do urso

O cochilo do urso

Os inimigos vão dizer que este blog se rendeu ao recurso ordinário de apelar para animaizinhos bonitinhos para obter audiência. Que ladrem. Não dá é para resistir ao cochilo do urso que vi na CNN.

Escrito por Marcelo Leite às 18h55

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O QI de um baiano e o de baianos em geral

O QI de um baiano e o de baianos em geral

Será que a péssima avaliação do curso de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sobre a qual li reportagem na Folha, tem alguma coisa a ver com o fato de ser dirigido por Antônio Dantas? O doutor, afinal, tem uma explicação do século 19 para o baixo desempenho de seus alunos:


"O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria", afirmou, ressalvando que há exceções a sua regra.
Questionado se já foi alvo de críticas, Dantas disse que é "franco" e que "reconhece a limitação dos que o cercam".


Pelo visto, Dantas só exclui a si mesmo.

Quando a gente pensa que já ouviu de tudo da onda oportunista-conservadora de crítica ao PC (politicamente correto), sempre aparece uma besteira ainda mais inacreditável. Só faltou Dantas dizer que é porque há muitos negros (perdão, pretos e pardos) na Bahia.

Escrito por Marcelo Leite às 10h30

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Genoma e milagres

Genoma e milagres

Depois de um vôo turbulento, cheguei aonde queria. No caminho, li longos trechos de um livro perturbador, Biology under the Influence, sobre o qual nada mais direi. Fica para outro dia.

Li também uma entrevista que combina um tanto com o livro, feita por Claudia Dreifus com Arno Motulsky, 84, que em 1957 - o ano em que eu nasci - identificou a primeira interação negativa de um medicamento com certas variantes de proteínas e genes humanos. É considerado o ponto de partida da farmacogenômica, ou do que se chama de medicina personalizada.

Modulsky solta o verbo. Selecionei dois trechos mais que interessantes:


Penso que a promessa da farmacogenética às vezes é muito exagerada. Há pessoas pensando que nós seremos capazes de resolver quase tudo com uma prescrição individualizada [baseada na análise dos genes da pessoa]. Precisamos de mais pesquisa, que custará caro.

No lado esperançoso,  as pessoas dizem que logo será possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por US$ 1.000. Assim que descobrirem métodos de baixo custo para seqüenciar o genoma, o preço da medicina personalizada cairá.
Mesmo assim, é preciso não se deixar enganar. O que sabemos sobre o genoma hoje não é suficiente para todos os milagres que muitos esperam desse campo. Há muita coisa sobre o que regula os genes e sobre como interagem que ainda precisamos entender. Não teremos as respostas amanhã.


Na mesma edição do caderno "Science Times" há uma boa reportagem de William Broad sobre as novas centrífugas em construção pelo Irã, com base na surpreendente divulgação de um lote de 48 fotos de uma visita do presidente iraniano à central de Natanz, como esta:

Mahmoud Ahmadinejad (dir.) inspeciona partes de um centrífuga:

à dir., o cilindro prateado é a capa; à esquerda, o rotor interno, feito de carbono

Escrito por Marcelo Leite às 16h39

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Doenças infantis da humanidade

Doenças infantis da humanidade

Coluna Ciência em Dia
Folha de S.Paulo
27 de abril de 2008

Todo geneticista, hoje em dia, defende a idéia de que genes e outras seqüências de DNA atuam em conjunto com o meio para manter a saúde ou desencadear doenças. Juram, de pés juntos, que nunca foram deterministas. Quer dizer, jamais acreditaram que o DNA explicava todas as características e temperamento das pessoas.

Não há maior problema, desde que os pesquisadores comecem a dar conseqüência às suas (novas) convicções. Foi o que fizeram Greg Gibson e seu estudante de doutorado Youssef Idaghdour, autores de um revelador estudo publicado no periódico de acesso livre "PLoS Genetics" (www.plosgenetics.org).

O comunicado da Universidade Estadual da Carolina do Norte (EUA, onde ambos atuavam) sobre a pesquisa exagera um pouco ao dizer que o ambiente ("nurture") marcou 1 x 0 sobre a natureza ("nature"). Por outro lado, não resta dúvida de que a dupla conseguiu um exemplo eloqüente do enorme peso que as condições de vida podem ter sobre o funcionamento do corpo de uma pessoa, após comparar grupos geneticamente homogêneos que vivem em lugares diferentes de Marrocos.

Todos os 46 indivíduos estudados são berberes, etnia que teve relativamente pouca miscigenação com outros povos da África. Testes realizados por Gibson e Idaghdour confirmaram a homogeneidade necessária para poder atribuir as diferenças encontradas a hábitos variados, como dieta, ocupação e estresse.

Os autores coletaram amostras de sangue de 16 beduínos (nômades), 18 moradores de Anza, uma favela perto da cidade costeira de Agadir, e 12 habitantes da vila rural de Sebt-Nabor, escondida nas montanhas. Separaram para análise genética apenas glóbulos brancos (ou leucócitos, soldados do sistema de defesa do organismo). A análise consistiu em levantar o perfil de expressão gênica das células.

É um método que consegue, por assim dizer, registrar um instantâneo de todos os genes ativos no material. Também quantifica o grau de utilização de cada gene; se este contiver a receita para fabricar uma proteína, a técnica permite estimar o ritmo de produção dessa proteína na hora da coleta.

Gibson diz que esperava encontrar não mais que 5% a 10% de divergência nos perfis das três populações, que pudessem ser interpretados como "assinaturas geográficas [influência do ambiente local] ou culturais [dieta, modo de vida]". Topou com cerca de 30%. "Foi bem chocante."

Gibson e Idaghdour verificaram que cerca de um terço dos mais de 10 mil genes ativos nas células (dos 23 mil por eles investigados) têm seu uso pelo sistema de defesa do organismo modulado por fatores externos, ambientais. Por exemplo: os berberes da área urbana têm um perfil aumentado de expressão de genes ligados ao sistema respiratório e à ocorrência de asma. Os pesquisadores atribuem isso à influência da poluição urbana provocada por uma fábrica de cimento próxima a Anza.

Gibson acredita que aí está a chave para entender a raiz de muitas doenças da humanidade. Uma espécie jovem (100 mil a 200 mil anos), que ainda não teve tempo para desenvolver defesas contra doenças desencadeadas pelos muitos ambientes em que se meteu.

É a tese que defende no livro "It Takes a Genome: How a clash between genes and modern life is making us sick" (algo como "Só com um Genoma: Como o Choque entre Genes e a Vida Moderna Está nos Deixando Doentes"), que sai no fim do ano.


Pós-escrito

Depois de fechar o texto da coluna, consegui contato também com Youssef Idaghdour, primeiro autor do artigo na PLoS Genetics. Vale a pena ler o que ele disse sobre o estudo e sobre o "spin" do comunicado de imprensa da universidade sobre seu próprio trabalho:


A motivação por trás do projeto era simplesmente olhar para o tipo de alterações que ocorrem no nível da expressão gênica entre os modos de vida tradicional e urbanizado, dado que a incidência de doenças complexas tais como asma e depressão coincide com as transições no modo de vida. Concordo que não seja uma linha de pesquisa comum hoje em dia, mas em grande medida [isso vale] só para humanos. É um tanto desafiador, na realidade, amostrar a variação natural no nível transcriptômico [da expressão gênica, ou seja, quais genes estão sendo de fato lidos e utilizados pela célula] numa população humana.

Nós ainda acreditamos que o determinismo genético é importante. O que nossos resultados mostram é a possibilidade de que a expressão gênica seja dependente do contexto. A última afirmação não é um achado particularmente novo, mas mostramos isso numa população humana (e não em linhagens celulares) aparentemente sadia que tem uma conformação genética similar, embora com modos de vida distintos em domínios geográficos diferentes.

O que eu acrescentaria a este ponto é o fato de que, apesar do dilúvio de dados genéticos na década passada, a identificação de variantes genéticas é prejudicada pela complexidade da etiologia das doenças humanas. Muitas das associações genéticas descobertas até o momento dão conta de uma pequena fração da variação e, com freqüência, levam a fracassos quando se tenta reproduzi-las com populações diferentes. Creio que só devemos nos alegrar com o fato de que fatores ambientais tenham dado forma à biologia das espécies (incluindo a humana) por meio tanto de um efeito direto quanto de interações gene-ambiente.

A imprensa usualmente usa os termos "nature" [natureza] e "nurture" [criação] como uma frase de efeito conveniente para os papéis da genética e do ambiente, mas acredito que "interações gene-ambiente" são um modo mais apropriado de enquadrar nossa linha de pesquisa.


Agradeço a Idaghdour pelas observações. Anoto apenas que, como é comum entre cientistas naturais, ele parece fazer uma pequena confusão entre "determinismo" (que eu definiria apressadamente como a noção de que efeitos observados são produto direto de uma ou poucas causas discretas e suficientes) e "reducionismo" (método de pesquisa que busca discriminar o peso ou o papel de tantos fatores causais quantos estiverem envolvidos na produção de um efeito). No meu modo de ver, o próprio conceito de interações gene-ambiente defendido por Idaghdour é contraditório com o de determinismo genético - mas este é só o meu modo de ver.

Escrito por Marcelo Leite às 12h17

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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