Parkinson: novo argumento contra pesquisa com embriões
Reprodução/PNAS
Imagem do artigo mostra células induzidas integradas no cérebro de camundongo
O ministro Carlos Alberto Menezes Direito, do Supremo Tribunal Federal (STF), vai adorar o novo estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) sobre células-tronco. Ao pedir vista, na sessão de 5 de março, Direito emperrou a decisão do STF que, tudo indica, manteria a legalidade da pesquisa com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs). Seu prazo de 30 dias encerrou-se sexta-feira, mas Direito, como os outros ministros do STF, estão acima desses constrangimentos a que estão submetidos os comuns dos mortais.
Melhor para ele e para tantos quantos sustentam a ação direta de inconstitucionalidade (Adin nº 3.510) iniciada pelo então procurador-geral da República, Claudio Fonteles, contra a Lei de Biossegurança, por ela permitir a pesquisa com embriões inviáveis, ou então congelados em clínicas de reprodução há mais de três anos. "Tantos quantos", no caso, são aqueles católicos dedicados - como Direito e Fonteles - que não admitem a destruição do embrião para obter as CTEHs, que equiparam a "assassinato" (sua tática, já se vê, é atirar na pesquisa com embriões para fulminar o aborto).
Melhor porque o estudo que sai hoje no periódico da academia de ciências dos EUA (PNAS) lhes traz mais um argumento. Problemático, mas mais um. A equipe de Rudolph Jaenisch no MIT mostrou, em camundongos, que se pode fazer com células adultas coisa muito parecida com o que se pretende fazer com CTEHs contra o mal de Parkinson.
As células que Jaenisch e cia. usaram são as chamadas de iPS, abreviação anglo-saxã para "células-tronco pluripotentes induzidas" (em português se usaria talvez a sigla CTPi). É uma técnica que permite ativar quatro genes que tornam células adultas muito parecidas com células embrionárias, ou seja, entidades capazes de se transformar em células de vários tecidos do corpo. No caso, neurônios produtores de dopamina numa área do cérebro chamada de substantia nigra. É a falta do neurotransmissor dopamina nessa região que provoca os tremores e, no limite, a paralisia característica de Parkinson.
A idéia é que, sendo tão similares, as iPS possam ser usadas para repovoar o cérebro do paciente de Parkinson com neurônios dopaminérgicos zero-quilômetro, sem necessidade de produzir embriões clonados de células adultas do paciente para depois extrair deles as CTEHs para tratamento (a chamada clonagem terapêutica). Bastaria, em princípio, retirar células da pele do parkinsoniano, induzi-las à pluripotência e depois diferenciá-las (fazer com que se transformem) em neurônios novos em folha.
Obviamente, Jaenisch e equipe estão muito longe disso. Primeiro, porque só obtiveram uma prova de princípio: as iPS podem ser transformadas em neurônios e se integram no cérebro, diminuindo os sintomas de Parkinson. Mas apenas em camundongos, por ora. E eles mesmos alertam que o mecanismo de indução é arriscado, porque a reprogramação genética é feita com auxílio de vírus, contumazes causadores de encrencas. O grupo alerta no artigo que seria preciso criar um meio de conseguir a indução sem recorrer a transformação genética para obter uma terapia segura, aplicável em seres humanos - isso, claro, se o modelo usado com roedores puder ser reproduzido em nossa espécie, o que nem sempre ocorre.
Não há dúvida de que Direito, Fonteles e seu séquito católico lançarão mão desse argumento a mais, mas não é um argumento tão bom assim. As iPS podem eventualmente substituir CTEHs, certo, mas só depois de superarem "n" problemas técnicos, tanto ou mais que as CTEHs. Não deriva daí razão alguma para abandonar nenhuma das vertentes de pesquisa, se a questão for encarada do ponto de vista do benefício potencial - e remoto, é sempre bom repetir - para os pacientes. Mas os opositores da pesquisa com embriões estão preocupados mesmo com a doutrina católica, perdão, com a santidade, perdão, com a dignidade da vida dos embriões congelados.
Na realidade, o trabalho no PNAS é só um tijolo na muralha da China que a biomedicina procura erguer contra doenças degenerativas como Parkinson. Este projeto também é abalado, de tempos em tempos, por terremotos - como um outro estudo, de Jeffrey Kordower (Universidade Rush, de Chicago, EUA) e equipe de várias instituições, publicado eletronicamente ontem do periódico Nature Medicine.
Kordower conta no estudo que uma paciente tratada com células fetais (e não embrionárias; trata-se de ums alternativa menos avançada e mais limitada), os sintomas de Parkinson voltaram 14 anos depois do transplante. Isso reforça uma corrente de especialistas na doença para os quais ela deriva de algum outro fator no corpo, capaz de degenerar também as células transplantadas, com o passar do tempo.
Ou seja, mesmo que a terapia celular (fetal ou embrionária, induzida ou obtida por clonagem) um dia deixe de ser experimental e se torne de uso corrente, ela estará apenas ganhando tempo para o parkinsoniano. É melhor que nada. Mas não é o milagre que muitos enxergam nas CTEHs, instigados pela propaganda não menos irresponsável que a de católicos dogmáticos, ainda que com sinal trocado.