Eduardo Giannaetti - 2

Esta é a segunda parte da transcrição da entrevista com o economista próximo de Marina Silva:

Folha – Em setores próximos de Marina Silva, a sua aparição na pré-campanha foi rotulada como neoliberal e não muito bem vista. Isso pode criar dificuldades para essa colaboração?

Giannetti – Eu não sei o que essa rotulagem contribui para o debate. Como pessoa que passou boa parte da vida estudando escolas de pensamento, eu sei da dificuldade de carimbar posições. Exemplo: uma idéia tão cara ao PT quanto a renda cidadã é uma idéia de um economista tachado de liberal, Milton Friedman. Outro economista tachado de neoliberal como Hayek tem uma idéia ainda mais avançada, que é uma renda mínima para cada cidadão, independentemente de ele trabalhar ou não. As pessoas usam esses rótulos achando que estão dizendo alguma coisa, quando nem sabem o que estão dizendo.

Folha – Elas estão querendo dizer “tucano”.

Giannetti – Tucano seria social-democrata. Estou disposto a discutir qualquer tema nos termos do tema. Se quiser discutir bandeiras ideológicas, vamos lá, mas as pessoas estão usando esses rótulos sem saber o que estão falando. Tem neoliberalismo austríaco, tem neoliberalismo de Chicago, de Virgínia, tem o liberalismo clássico... Eu me identifico muito mais com os liberais clássicos, Adam Smith, John Stuart Mill, Marshall _que aliás foi quem trouxe o capital humano para a reflexão em economia. O Marshall dizia que o mais valioso entre os capitais era aquele investido em seres humanos. Isso no final do século 19. Outro exemplo: Eugenio Gudin. O reacionário, retrógrado, modelo agrário exportador... Alguém leu Gudin? Falava na centralidade da educação numa época em que a chamada esquerda no Brasil nem tocava nesse assunto. O Celso Furtado conseguiu escrever um livro inteiro sobre a formação econômica do Brasil sem falar em capital humano. É uma coisa espantosa, o Hamlet sem o príncipe dinamarquês. O Brasil precisa parar de apedrejar de linchar. O linchamento ideológico é uma prática retrógrada do debate brasileiro.

Folha – Como você enxerga coisas do governo Lula como PAC e pré-sal? O que precisaria mudar da perspectiva de uma candidatura com propostas ambientais?

Giannetti – Eu gostaria de ver o mesmo empenho que o governo Lula deu ao PAC dado ao capital humano. Embora o Brasil tenha problemas sérios de capital físico e infraestrutura, sem a menor dúvida, o grande desafio secular do Brasil,sempre foi a sua incapacidade e de formar capital humano. Há um desbalanceamento. No século 21 o capital humano é mais importante que capital físico, O Brasil nunca vai se tornar um país civilizado ou desenvolvido simplesmente porque descobriu petróleo ou fez uma nova usina hidrelétrica. Esse fetiche do capital físico é uma herança e um viés do processo de desenvolvimento brasileiro grave. Tanto o Juscelino quanto o regime militar compartilharam dessa percepção de que um país se torna moderno construindo seu capital físico, industrializando, urbanizando e eletrificando. Eu discordo disso, acho que um país se torna civilizado quando ele constrói a sua base de capital humano.

Folha – Mas é uma idéia ainda muito poderosa, que ainda domina o debate na área do PT e do PSDB.

Giannetti – Daí a promessa de que a Marina seja uma voz alternativa a isso. O hiato de atraso educacional brasileiro aumentou na última década, e não são só os alunos de ensino público, não. Se você comparar os alunos das escolas de elite do Brasil com seus pares, nós também ficamos atrás. O Pisa mostra. Gary Becker e Robert Fogel, economistas da Universidade de Chicago, fizeram estimativas da proporção de capital físico e capital humano na economia americana, hoje: do estoque total de capital, dois terços é humano.

Folha – Essa é uma conta complicada de fazer.

Giannetti – As contas que nós usamos em economia estão completamente anacrônicas. Se uma empresa constrói um galpão, isso conta como construção de capital fixo e entra nas contas nacionais como investimento. Se essa empresa gasta o mesmo recurso para treinar seus funcionários, isso é contabilizado como consumo, gasto corrente. Elas são também completamente anacrônicas em relação ao meio ambiente, é algo fundamental. Você compara o custo do quilowatt-hora de uma termelétrica a carvão com o custo de geração solar. É lógico que na tecnologia atual e na maneira que nós contabilizamos, a termelétrica é muito mais econômica e eficiente que a energia solar, mas e o custo do dióxido de carbono emitido? O sistema de preços é cego para isso. Se atribuir um preço, provavelmente vai mudar a relação. A maneira como nós registramos os fatos da economia está muito defasada em relação ao século 21, na questão do capital humano e do meio ambiente. Nós ficamos usando esses indicadores como se eles fossem tudo que importa. Tudo que aumenta o PIB é bom, tudo que aumenta a formação de capital fixo é bom, o PAC... No fundo o PAC é uma jogada parecida com o Bolsa Família, juntar muitos programas que já estavam andando numa única bandeira e criar um ícone. Eu digo que o PAC é um Plano de Abuso da Credulidade.

Folha – Mas a taxa de investimento não precisa aumentar?

Giannetti – O Brasil sem dúvida investe pouco. Num ano bom, a formação bruta de capital fixa é 18-19% do PIB. Na China é 40%. Nos Estados Unidos, no final do século 19, quando eles eram um país emergente, era 30%. O problema é que esse número é muito parcial, porque só pega o capital fixo. Se fosse um número completo, incluindo capital humano, o problema brasileiro ficaria ainda mais grave do que já é.

Folha – E o pré-sal?

Giannetti – Tenho muitas dúvidas técnicas sobre o pré-sal, nunca me aprofundei no assunto. Falo como observador. Dúvidas sobre custo de produção, sobre preço do barril quando o pré-sal se materializar. É uma economia suja. De uma coisa eu tenho certeza: nenhum país do mundo se resolveu como desenvolvimento por um achado lotérico de recursos naturais. Pelo contrário, isso pode se tornar uma maldição _veja a Venezuela. Pode levar ao descaso em relação ao que realmente conta, capital humano. O Japão não tem carvão, não tem petróleo, mas com indicadores de saúde, educação e civilização extremamente avançados. A Venezuela é um país com extraordinária dotação de recursos naturais, energia e água, e está racionando energia elétrica e está racionando água. E é politicamente retrógrada.

Folha – Em termos concretos, o que o Sr. propõe?

Giannetti – Não tenho uma proposta fechada. Mas o Brasil está querendo dar um passo maior que a pernas. Quer aumentar o investimento, o gasto das famílias e o gasto corrente do governo _tudo ao mesmo tempo. Essa conta não fecha. Se insistir, dois tipos de desequilíbrio começam a aparecer: pressão inflacionária e desequilíbrio nas contas externas. Se não quiser permitir que aflorem, vai ter de aumentar o juro, como tantas vezes foi feito no passado, inclusive no governo Lula: tirar o barril de chope quando a festa começa a ficar animada.

Folha – Qual seria alternativa para não chegar a esse ponto?

Giannetti – Nós vamos de enxugar o gasto do governo. E provavelmente pensar mais em crédito para formação de capital do que em crédito para o consumo das famílias. Vamos ter de aceitar algum sacrifício agora para melhorar o futuro.

Folha _ Essa seriam as duas prioridades de um eventual governo Marina Silva.

Giannetti – A interface entre o Estado e uma economia se dá em três dimensões. Tem a política macroeconômica, e aí sim amadureceu no Brasil um consenso razoavelmente robusto de que metas de inflação, com autonomia do BC, câmbio flutuante, com intervenções apenas para evitar excessos de volatilidade, e superávit primário para manter a dívida pública estável ou declinante _esse tripé da política econômica é uma conquista da sociedade brasileira. Espero muito que o governo não a altere. Uma das coisas que mais surpreendeu no governo Lula foi o respeito a esse tripé. Uma outra dimensão da relação Estado-economia, é o papel microeconômico: o Estado empresário, regulamentador, as legislações pertinentes aos diferentes mercados _aí me parece que a tendência ao longo do governo Lula foi no sentido do dirigismo e da estatização. A equipe do Palocci era muito mais respeitosa da economia de mercado e dos incentivos, do arcabouço regulador necessário para uma boa economia de mercado. Eu tendo a crer que uma eventual vitória da Dilma vai aprofundar o intervencionismo e o dirigismo estatal.
Se eu fosse eleger uma área na qual o Brasil precisa agir, nessa dimensão microeconômica, eu elegeria o mercado de trabalho. Eu não me conformo em viver num país em que dezenas de milhões de trabalhadores não têm uma situação regular de emprego. Isso envenena a vida brasileira. Reduz a produtividade, compromete as contas da Previdência, precariza a existência de famílias, que não têm nenhuma proteção de direitos trabalhistas. Tem alguma coisa de muito errado num país em que metade da população economicamente ativa não consegue ter uma situação normal de emprego. Nós somos campeões mundiais de ações trabalhistas. Nós temos encargos sobre a folha salarial que encarecem enormemente a contratação e reduzem o emprego formal. E nós temos uma das legislações trabalhistas mais anacrônicas e barrocas do planeta, se não a mais. O mercado de trabalho no Brasil ainda precisa chegar o século 21, no seu lado institucional.

Folha – Não são temas que apareçam no radar ou na agenda de Marina Silva, que tende a ser mais ambiental. Seria essa a sua contribuição, trazê-los à tona?

Giannetti – Se ela tem um projeto de governo na campanha eleitoral, tem de ter um quadro geral do país e propostas que contemple as questões pertinentes da vida brasileira, não pode ficar no gueto das questões ambientais.

Folha – Mas isso precisa ser também politicamente viável, para o público que ela já tem e para o público que precisa ganhar. Algumas dessas coisas tendem a ser rotuladas como neoliberais e a inviabilizar o discurso político.

Giannetti - Eu só peço que antes de rotular, vamos discutir o mérito da questão.

Folha – Existe uma boa probabilidade de que o debate eleitoral volte a ser prismado pela oposição entre estatismo e privatização. Haverá espaço para discutir as questões socioambientais?

Giannetti – Esse debate tem de ser feito de maneira mais inteligente. São três dimensões diferentes da relação Estado-economia: política macroeconômica, economia mista (papel microeconômico do Estado) e as política sociais (o papel distributivo). Cada uma dessa dimensões tem uma discussão diferente, não dá para ter uma visão genérica – mais Estado ou menos Estado. O Brasil precisa de um Estado forte, mas enxuto. O que nós temos hoje, para usar uma expressão do Sérgio Abranches, é um Leviatã anêmico. O Estado brasileiro faz muitas coisas que não deveria e deixa de fazer coisas que deveria. Vamos concentrar nas áreas em que o estado é importante.

Folha – Dê exemplos do que não deveria estar fazendo.

Giannetti – Criando empresas estatais em setores em que a experiência e a teoria econômica mostram que o Estado não é bom. O papel que o BNDES está assumindo é muito preocupante. O governo Lula descobriu em seu segundo mandato uma mágica perigosíssima: transferir recursos de dívida pública para concessão de empréstimos sem que isso entre no cálculo de superávit primário. E escolhendo por critérios nem sempre transparentes os parceiros do setor privado que vão receber as benesses desse crédito subsidiado.

Folha – E a carga tributária?

Giannetti – Nós temos um carga tributária bruta no Brasil de 36%, completamente fora da curva considerando nosso nível de renda. Países similares têm 20 a 25%. Temos um déficit nominal de 3%. Quarenta por cento da renda nacional transita pelo Estado brasileiro, é intermediada por ele. E a capacidade de investimento é pífia. Tudo somado, inclusive o PAC, chega a 2% do PIB. Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras. Os outros 16% são do setor privado, mas boa parte do setor privado é financiado pelo BNDES.

Folha – Essa questão da contribuição da natureza para a economia e da descarbonização que veio para ficar no pensamento econômico, ou é uma coisa passageira/

Giannetti – Se ela não for voluntariamente incorporada, ela vai se impor dolorosamente. A grande mudança é que um terço da população mundial, na China e na Índia, estão legitimamente pleiteando um padrões de consumo que o Ocidente sempre vendeu como o segredo da felicidade. Não é o segredo da felicidade e pode nos levar à autodestruição. Eu que admiro e aprecio muito o sistema de preços como mecanismo de alocação de recursos, reconheço que ele tem uma deficiência extraordinária: não reflete os custos reais de nossas ações de produção e consumo. Quando pego um avião para ir ao Rio de Janeiro eu provavelmente estou emitindo mais dióxido de carbono que um indiano do meio rural durante um mês.

Folha – Ou um ano.

Giannetti – E não estou pagando por isso. Todo mundo vai ter de pagar. Vamos ter de buscar uma maneira sensata de fazer isso. O sistema de preços vai ter de refletir não só o custo monetário, mas também o ambiental. Algumas coisas vão ficar relativamente mais baratas, e outras, mais caras.
O principal item da agenda mundial no século 21 é a mudança climática. Se isso não mudar o modo de se pensar o metabolismo entre natureza e sociedade, nenhuma outra força do universo o fará. A humanidade é um fumante inveterado, que fuma desde a Revolução Industrial, e que de repente recebe o diagnóstico de enfisema pulmonar. Ele tem duas opções: ou reduz drasticamente, e eventualmente elimina o vício, ou deixa o quadro se agravar até que chegue uma situação crítica em que uma solução dramática se impõe, a um custo muito maior _e o que é pior, sacrificando algo muito valioso que é a liberdade.